Meteorito de Marte ataca novamente!

Mars Meteorite

A história do ALH 84001 é já antiga e bastante conhecida.
Muitos meteoritos são encontrados na Antárctica.
Em 1984, um meteorito foi pela primeira vez encontrado na zona da Antárctica conhecida por Allan Hills (daí o nome ALH 84001). Era uma “pedra” do tamanho de uma batata, e que pesava cerca de 2 kgs.
Investigou-se o meteorito e chegou-se a várias conclusões: este meteorito formou-se em Marte há 4,5 mil milhões de anos (biliões, na escrita americana e brasileira), ou seja, formou-se durante a formação do planeta Marte, antes da vida poder ter aparecido por lá. Soube-se que ele vagueou pelo espaço durante 17 milhões de anos. E espetou-se na Antárctica, ficando por lá quieto desde então, há 13 mil anos atrás. Foi encontrado em 1984.

Depois de muitos estudos, em 1996, a equipa da NASA (com David McKay à cabeça) juntamente com o presidente Bill Clinton fizeram uma conferência de imprensa onde divulgaram que a NASA tinha encontrado fósseis de nano-bactérias (cerca de 50 nanómetros) nesse meteorito, o que provaria assim que Marte teve vida no seu passado distante.
Seria a prova tão procurada da existência de vida extraterrestre!!!
alh 84001 nano-tubes
Na altura este anúncio foi excelente, porque permitiu uma forte injecção de dinheiro na NASA, muito mais investimento foi feito na exploração Marciana, e permite-nos ter agora 2 excelentes rovers em Marte que tanto sucesso têm feito, e várias sondas de sucesso em órbita de Marte.

Depois de muitos outros contra-estudos, a maior parte da comunidade científica inclinou-se para a não existência de vida marciana nesse meteorito. A ideia mais consensual era que esses nano-tubos foram produzidos por efeitos físicos e naturais devido à contaminação terrestre.

No entanto, há poucos dias atrás, o mesmo David McKay juntamente com outros cientistas da NASA, e após vários outros estudos, re-afirmaram que aqueles nano-tubos se tratam na realidade de nano-bactérias marcianas fossilizadas.
Este é o artigo científico, onde se pode ler o abstract:
“The Martian meteorite ALH84001 preserves evidence of interaction with aqueous fluids while on Mars in the form of microscopic carbonate disks. These carbonate disks are believed to have precipitated 3.9 Ga ago at beginning of the Noachian epoch on Mars during which both the oldest extant Martian surfaces were formed, and perhaps the earliest global oceans. Intimately associated within and throughout these carbonate disks are nanocrystal magnetites (Fe3O4) with unusual chemical and physical properties, whose origins have become the source of considerable debate. One group of hypotheses argues that these magnetites are the product of partial thermal decomposition of the host carbonate. Alternatively, the origins of magnetite and carbonate may be unrelated; that is, from the perspective of the carbonate the magnetite is allochthonous. For example, the magnetites might have already been present in the aqueous fluids from which the carbonates were believed to have been deposited. We have sought to resolve between these hypotheses through the detailed characterization of the compositional and structural relationships of the carbonate disks and associated magnetites with the orthopyroxene matrix in which they are embedded. Extensive use of focused ion beam milling techniques has been utilized for sample preparation. We then compared our observations with those from experimental thermal decomposition studies of sideritic carbonates under a range of plausible geological heating scenarios. We conclude that the vast majority of the nanocrystal magnetites present in the carbonate disks could not have formed by any of the currently proposed thermal decomposition scenarios. Instead, we find there is considerable evidence in support of an alternative allochthonous origin for the magnetite unrelated to any shock or thermal processing of the carbonates.”

Basicamente, utilizando técnicas e sobretudo instrumentos que não existiam há 2 décadas atrás (por exemplo, High Resolution Electron Microscopy), os cientistas estudaram discos de carbono e nano-cristais de magnetite, concluindo que o meteorito interagiu fortemente com água em Marte há cerca de 4 mil milhões de anos atrás.

Na verdade, o que este estudo pode provar e terá provado é que alguns argumentos contra o meteorito não ter indícios biológicos são “deitados por terra”. Ou seja, algumas coisas (após estudos científicos) que se diziam para provar que o meteorito não tinha vida, deixaram de ser verdadeiras.
Pensando-se que só existem 2 hipóteses, a biológica e a não-biológica, então este estudo conclui que essa hipótese não-biológica não é possível.
Mas o estudo não prova a existência de vida no meteorito.

Não concordo com o TimesOnline, que escreve:
“Nasa scientists have produced the most compelling evidence yet that bacterial life exists on Mars.
It showed that microscopic worm-like structures found in a Martian meteorite that hit the Earth 13,000 years ago are almost certainly fossilised bacteria. The so-called bio-morphs are embedded beneath the surface layers of the rock, suggesting that they were already present when the meteorite arrived, rather than being the result of subsequent contamination by Earthly bacteria.”

Como eu disse atrás, este estudo não prova nada, só desprova alguns contra-argumentos.
Penso que as “evidências extraordinárias” ainda faltam, para se poder concluir pela veracidade das “afirmações extraordinárias”, como diria Carl Sagan.

Sendo assim, continua tudo em debate.


O artigo do Ciência Hoje diz isto:
“A controvérsia deu-se porque na análise microscópica da rocha algumas das formações revelaram-se cristais de magnetite, um óxido de ferro presente em certas bactérias terrestres que, ao fossilizarem, apresentam o mesmo aspecto do material do meteorito.
As vozes críticas defenderam que o processo térmico da rocha desde a sua formação em Marte até à sua expulsão para o espaço podia ter originado essas formações sem ter havido intervenção de organismos vivos.
O novo estudo inclui análises de alta resolução e simulações dos possíveis processos térmicos. Kathie Thomas-Keprta, líder da equipa de investigação corrigem esta teoria, defendendo que haverá de facto uma origem biológica nas formações presentes na rocha.”


Já o nosso colaborador João Pedro Seixas, teve estes comentários:

“A mim parece-me que eles vêem o que querem ver… e se assim fôr é um péssimo serviço à ciência.
Até agora não existe nenhuma evidência de vida em Marte, muito pelo contrário. Talvez haja para lá algumas bactérias terrestres agarradas às nossas sondas… de resto tanto quanto sabemos, nada.

Afinal de contas o que é que eles têm? Têm umas estruturas de magnetite e grãos de sulfito muito inferiores em tamanho ao de uma suposta bactéria.
Estas estruturas seriam supostos fósseis de nanobactérias.
A existência de Nanobactérias é algo controverso que muito provavelmente não tem nada de vivo, como se pode ler aqui.

Ou seja, no fundo têm restos de moléculas supostamente provenientes de algo controverso que muito provavelmente não tem nada a ver com a vida.
Ou seja, uma mão cheia de muito pouco, para não dizer mesmo uma mão cheia de nada.”

“A tendência para as pessoas verem o que não existe ou tirarem conclusões precipitadas não é de agora.
Foi assim com os canais de Marte e foi assim com Vénus.

Sagan resumiu o que aconteceu quando alguns cientistas tentaram interpretar Vénus de um modo hilariante. Algo do género:
-Não conseguimos ver nada porque Vénus está coberta de nuvens
-Do que é que as nuvens são feitas? Água!.. Logo..
-Se há tantas nuvens deve ser muito húmido, deve haver muita água.. logo deve haver pântanos..
-Se há pântanos deve haver plantas… claro!
-E se há plantas… deve haver até dinossauros!
Resumindo:
-Não conseguimos ver nada em Vénus…
-Conclusão: Há dinossauros!
Vejam o vídeo de Sagan:

Às vezes os cientistas andam à procura de fantasmas, coisas que não existem. Foi assim com o Éter. Talvez o mesmo se passe com a matéria escura.. etc.”

E o nosso colaborador e astrogeólogo Marciano, José Saraiva, disse-nos:

“A rocha que acabou por dar origem ao ALH84001 formou-se há muito tempo atrás… e depois muita coisa se passou, incluindo choques meteoríticos próximos e um que acabou por enviar este fragmento rochoso para o espaço.

Este artigo não fala dos supostos microfósseis nanobacterianos… esse assunto está morto e enterrado, quanto mais não seja porque existem estruturas semelhantes em meteoritos lunares que foram sujeitos ao mesmo tratamento para obtenção das imagens.

Portanto, a questão é sobre os discos de carbonatos com magnetite… que são conhecidos desde a mesma altura da conferência de imprensa com o Clinton, e que são a verdadeira questão.
A escala espacial é ridícula, claro, mas isso não significa que não exista ali informação sobre a história desta rocha peculiar.
O artigo é extenso e muito técnico, claro.
Os autores são cautelosos, e apenas dizem que a maior parte da magnetite tem uma origem “externa” aos discos carbonatados… e que não pode ser excluída uma origem por processos biogénicos.
É bastante provável (sabendo das opiniões do McKay) que a versão original tivesse palavras mais fortes, e que esta versão “aguada” seja consequência do processo de revisão…

Já agora, quanto aos canais: a questão é que o nosso sistema sensorial (neste caso, visão/cérebro) nos prega partidas. E algumas pessoas aceitam à primeira aquilo que vêem ou julgam ver, e interpretam-no de acordo com opiniões prévias. O Schiaparelli, por exemplo, em relação aos seus “canali” disse palavras semelhantes às destes autores de hoje: não sei o que são, mas não posso excluir uma origem artificial. Já o Lowell “sabia” que havia uma civilização marciana, e portanto – ao ver linhas na superfície de Marte (e viu-as, como as viu em Vénus) – não teve dúvidas em afirmar a sua natureza artificial.
A ideia era defensável, e foi-o, tal como foi atacada e derrotada por outros bons astrónomos, com argumentos sólidos. Mas ainda bem que alguém a avançou. A história da ciência está cheia de casos semelhantes. E para não voltar a uma velha discussão, ficamos na mesma: não sei se há ou houve alguma vez vida em Marte. Mas acho que vale a pena tentar descobrir.”

3 comentários

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    • MARCELO RENATO CAVAGLIERI on 15/08/2017 at 02:52
    • Responder

    Muito bem colocado pelo autor, o fato de que hipóteses são diferentes de provas! Hipótese simplesmente por especulação deve ser evitada quando se fala em ciência, lembrando q há outros veios, como a arte e a filosofia, q devem ser respeitados e tomam essa última forma como linha de expansão de horizontes. Entretanto o texto menospresa q hipóteses embasadas em evidências são o que faz a ciência evoluir…. percebi uma diacussao unilateral aqui, tendendo classificar hipóteses como conclusões, não vejo q isso aconteceu em todos os casoso cirados!

  1. Mais um artigo interessante sobre este meteorito:
    http://bitaites.org/no-mundo-da-lua/cientista-da-nasa-diz-que-descobriu-extraterrestres

  2. universetoday.com…
    Será que isto quer dizer que os constituintes básicos da vida se podem formar em qualquer planeta rochoso?
    http://www.universetoday.com/12209/building-blocks-of-life-can-form-on-cold-rocky-planets-anywhere/

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