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Jan 01

Grafia Maia

Como entusiasta da civilização Maya e epigrafista amador com conhecimentos razoáveis do seu sistema de escrita (publiquei alguns artigos e decifrei alguns hieroglifos), fico espantado com a quantidade de disparates que se dizem relativamente à suposta profecia do fim do mundo em 2012. É absolutamente fantástico o que é possível extrapolar de uma passagem fragmentada de um monumento do sítio arqueológico de Tortuguero (em Tabasco, México). Aqui está um desenho de parte do painel esculpido:
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O monumento refere-se, num contexto pouco compreendido devido a parte do texto se encontrar fragmentado, a um evento do calendário Maya associado a um governante de Tortuguero. O fim do décimo terceiro “Baktun” e o início de um novo ciclo do calendário que teria lugar no ano 2012 do nosso calendário. Mas então o que tem de especial este evento ?

O calendário Maya tinha duas componentes principais: um calendário religioso e um calendário secular, o último designado vulgarmente por “long count”. O calendário secular é organizado, com excepções, segundo uma base vigesimal. Os dias (designados por “k’in”), agrupam-se em meses (designados de “winal”). Um “winal” são 20 dias. Cada ano, designado por “Tun”, tem 18 meses (a razão ? 20 x 18 = 360 que é quase um ano). Os anos formam grupos de 20 (designados de “Katuns”). O grupo seguinte é formado por 20 “Katuns” e designa-se por “Baktun”. Corresponde aproximadamente a 400 anos. O sistema prossegue, no nível seguinte com 13 “Baktuns” (e não 20), ou seja aproximadamente 5200 anos. E por aí em diante. O maior destes ciclos conhecido tem um número de anos que excede em muito a idade do Universo.

As datas são escritas da direita para a esquerda começando nos dias. Por exemplo, 9.3.2.4.1 corresponde a 9 “Baktuns”, 3 “Katuns”, 2 “Tuns”, 4 “Winal” e 1 “K’in”. Este calendário permitia assim aos Mayas escrever datas em escalas de tempo enormes mas subsistia o problema de ancorar essas datas no tempo escolhendo um ponto de partida (semelhante ao nascimento de Cristo para o nosso calendário). Os Mayas, não se sabe porquê, estipularam que a origem do período actual correspondia ao ano 3114 A.C., numa altura em que nem sequer existia a cultura Maya (só apareceu cerca de 250 A.C.). Essa data escreve-se 0.0.0.0.0 (0 “Baktuns”, 0 “Katuns”, 0 “Tuns”, 0 “Winal” e 0 “K’in”). Note-se que cada um dos elementos é cíclico. Por exemplo, 0.0.0.1.19 com mais um dia fica 0.0.0.2.0. E com mais um dia fica 0.0.0.2.1. Da mesma forma 0.0.0.17.19 mais um dia é 0.0.1.0.0 (completo 18 meses, ou seja 1 “Tun”). Na realidade, a data inicial 0.0.0.0.0 é o início do ciclo da unidade seguinte X e poderia ser escrita da forma X.0.0.0.0.0. Já agora, existem muitos exemplos de inscrições que relatam eventos em datas anteriores à data inicial 0.0.0.0.0. Essa data marca apenas o início de um ciclo, não um início absoluto do tempo.

Com esta data base é possível calcular que, por exemplo, a data 12.19.4.1.6 corresponde a 12 de Abril de 1997. Acontece que, no dia 21 de Dezembro de 2012 (o dia exacto depende de detalhes técnicos sobre o calendário, poderia ser dia 23), completam-se os 13 “Baktuns” do ciclo actual e a contagem volta ao início, exactamente como nos restantes ciclos. Por outras palavras, dia 20 de Dezembro será o dia 12.19.19.17.19. Adicionando um “K’in”, fazemos vinte, o que adiciona um “Winal”. Adicionando um “Winal” fazemos 18 o que adiciona um “Tun”. Adicionando um “Tun” fazemos 20 o que perfaz um “Katun”. Adicionando um “Katun” fazemos 20 o que perfaz um “Baktun”. Finalmente, adicionando um “Baktun” fazemos 13 e fechamos o ciclo. Temos de voltar a recontar os “Baktuns” a partir da posição 0.0.0.0.0. Trata-se assim de apenas mais um ciclo dos muitos que encerra o calendário Maya. Uma criação engenhosa da mente humana, mas só isso.

No entanto, não quero que os leitores confiem apenas na minha palavra de mero amador nestas andanças. Leiam este texto, estilo pergunta-resposta, escrito pelo Prof. David Stuart, da Universidade do Texas em Austin, inquestionavelmente a maior autoridade mundial em epigrafia Maya.

Antes de terminar deixo-vos com um exemplo maravilhoso do sistema de escrita Maya, pintado na superfície externa de um vaso.
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Podem ver a imagem numa escala maior aqui.
Trata-se de uma lista dinástica que refere vários reis de Calakmul (uma das superpotências da civilização Maya clássica). Cada hieroglifo com os contornos acastanhados corresponde a uma data de ascenção ao trono e é seguido pelo verbo correspondente a essa acção (aquela mão esticada com um objecto fumegante), pelo nome do rei e pelo símbolo do reino de Calakmul (uma cabeça de serpente com o sobre-olho escuro). Trata-se de um contexto mitológico. As datas apresentadas, combinações de dia e mês são impossíveis no calendário Maya religioso. Os Mayas recorriam frequentemente à associação de reis de carne e osso a dinastias imaginárias, e mesmo a rituais na presença de deuses em eras mitológicas, como forma de legitimar o poder dos governantes. O texto tão tristemente famoso de Tortuguero é apenas um exemplo entre muitos deste tipo de artifício político.

Acerca do autor(a)

Luís Lopes

Luís Lopes é professor no departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Astrónomo amador há mais de 25 anos, interessa-se pela ciência em geral e pela sua divulgação. Acompanha com especial atenção os desenvolvimentos nas áreas de exoplanetas e da evolução estelar. Gosta de estar com a família, de ler um bom livro, de plantar e ver crescer árvores e de passar noites a observar o céu. Também escreve para o AstroPT de vez em quando ;-)

1 comentário

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  1. rafael zonari

    parabens, muito interessante e bem escrito!

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