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Dez 02

NASA descobre vida baseada no arsénico!

bacterias

A NASA comunicou que iria fazer uma conferência de imprensa, como podem ler neste post.
Os maus jornalistas começaram logo com especulações sem sentido, e resolveram disseminar mentiras sobre esta conferência, como podem ler no meu comentário 6. Foram erros jornalísticos semelhantes a estes.

Toda a vida que conhecemos necessita de 6 elementos, um deles sendo fósforo: carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto, enxofre, e fósforo.
Ou seja, desde SEMPRE foi dito que TODA A VIDA necessita de FÓSFORO.

Mas foi agora descoberto no lago Mono, na Califórnia, um mundo cheio de extremófilos (vida em condições extremas).
E nesse lago, foi descoberta uma bactéria que, em vez de fósforo, pode utilizar arsénico, que é extremamente tóxico!
Esta bactéria utiliza o arsénico no ADN, como todo o resto da vida na Terra utiliza o fósforo!
(notem que a bactéria também tem fósforo, mas em quantidades tão reduzidas que não é importante para ela. O arsénico sim é que é utilizado!)

O arsénico, não por coincidência, pertence ao mesmo grupo do fósforo na tabela periódica dos elementos. Ou seja, têm “propriedades semelhantes“.

Não só esta bactéria é diferente de todo o resto da vida descoberta até hoje, mas utiliza um elemento que pensávamos ser impossível para a vida!

Ou seja, ao contrário das mentiras de vários jornalistas, NÃO foi descoberta qualquer vida extraterrestre.
Foi sim descoberta “vida completamente diferente” aqui na Terra, como já tínhamos dito no post anterior a anunciar esta conferência.

Aliás, já tínhamos basicamente dito qual seria a descoberta, sem obviamente a confirmar. Até tínhamos divulgado este artigo. E ainda este e este.

lago mono

Deixem-me ser claro: a bactéria descoberta não utiliza o arsénico no lago na Califórnia. No lago, ela utiliza o Fósforo.
Mas o que esta equipa provou, em laboratório, é que a bactéria pode viver do arsénico.
A equipa substituiu o fósforo pelo arsénico, e a bactéria não só sobreviveu, mas reproduziu-se.
Ou seja, para a bactéria, foi como se nada acontecesse, provando ser possível existirem bactérias que podem usar o arsénico em vez do fósforo para sobreviverem.

E isto é que é o mais importante! Porque é a 1ª vez que descobrimos algo do género.
Tal como diz o Davies: “Este organismo tem uma capacidade dupla. Ele pode crescer tanto com fósforo quanto com arsénico. Isto o torna peculiar, mas ainda longe de ser alguma forma verdadeiramente ‘alienígena’ de vida, pertencente a uma outra árvore da vida, com uma origem distinta.”

São obviamente precisas mais provas.
O próximo passo será encontrar vida que possa utilizar só o arsénico, sem qualquer fósforo (esta bactéria ainda tinha vestígios de fósforo).

E sobretudo é necessário a seguir encontrar uma bactéria que não só tenha a capacidade para usar o arsénico, mas que realmente o use nas suas condições ambientais.
(não é certo que esta bactéria o conseguisse fazer no lago, já que na presença do líquido, o arsénico poderia se “partir”)

Mas mesmo assim esta descoberta já é fantástica.

Esta é uma descoberta extremamente importante na biologia, na química, e na astrobiologia!
Não só “deita ao lixo” o que sabíamos sobre a vida na Terra (precisavam sempre de fósforo), mas aumenta enormemente as possibilidades de existir “vida diferente” no Universo!
Por exemplo, em Titã, existe o ambiente “ideal” para bactérias como estas… e não para o tipo de vida que andávamos lá à procura!

felisa lake

Claro que algumas pessoas vão ficar desapontadas, porque não foram descobertos ETs verdes com armadas de naves a vir na nossa direcção.
Mas esse desapontamento, deve-se somente às mentiras divulgadas pelos maus jornalistas.
Para a ciência, esta é uma descoberta excepcional!!!

Em termos de origens da vida, por exemplo, esta descoberta é magnífica, porque isso pode querer dizer que a vida pode ter origens diferentes. (não no caso desta bactéria, porque a sua origem foi como as outras, modificando-se depois no laboratório, e provando que subsiste com arsénico, sem precisar do fósforo)
A vida, sendo baseada no ADN, agora ficou-se a saber que esse ADN pode ter constituintes diferentes. O que é surpreendente!

E isto, claro, aumenta imenso as possibilidades da vida ter origem noutros lados, sob outras condições, e mediante uma química diferente…

Descobrimos finalmente vida completamente diferente (“alien”) de tudo o que já tínhamos descoberto até agora!
E, por incrível que pareça, essa vida foi descoberta… na Terra!!

As mentes dos astrobiólogos expandiram-se, como eu disse no meu outro post.
Agora, as possibilidades são enormes para outros tipos de vida!

Como diz a Felisa Wolfe-Simon, a investigadora principal: “A nossa descoberta lembra-nos que a vida tal como a conhecemos pode ser muito mais flexível do que geralmente assumimos ou mesmo que podemos imaginar. Se um microorganismo pode fazer uma coisa tão inesperada aqui na Terra, o que poderá fazer a vida que nós ainda não conhecemos?

felisa

Para lerem mais:

O jornal Público já escreveu um bom artigo sobre esta descoberta, aqui. A única coisa que critico é que se deviam retratar de terem enganado os leitores no último artigo que escreveram sobre este assunto (ao dizerem que a NASA se recusou a divulgar mais detalhes, e ao dizerem que havia a possibilidade de ser vida numa lua de Saturno).
O mesmo se passou com o Expresso, que depois de uma notícia com graves deficiências, divulgou agora a notícia da Lusa, que está mais consentânea com a realidade, aqui.
O site Viver a Ciência, na pessoa do André Levy, também já comentou este assunto, aqui.
Leiam no Diário de Notícias, aqui.
Leiam também no Ciência Hoje, aqui.
O site da TSF também escreveu sobre isso, aqui.
Podem também ler as nossas “discussões” na lista, sobre este assunto, aqui e aqui.

Leiam este artigo do Inovação Tecnológica, que está muito bom.
Leiam este artigo do Estadão, que está bom.
Artigo na Folha.
Artigo no UOL.
Artigos na Terra: lago, forma de vida, metabolismo diferente, substituição por arsénio, outros elementos, vida ET irreconhecível.

O artigo da NASA está, aqui e aqui.

O artigo na Nature, está aqui.

O artigo da Science, está aqui.

Leiam estas quotes.
Leiam o Space Daily, aqui, aqui, aqui, e aqui.
Podem ler também, na CNN, BBC, FOXNews, NASA Watch, Washington Post, Telegraph, New York Times, On Orbit, Mediaite, Cosmos, Daily Galaxy (comentários), Scientific American, Universe Today, Centauri Dreams, Astrobiology Magazine.

Visit msnbc.com for breaking news, world news, and news about the economy

Toda a conferência da NASA (os últimos 6 minutos são excelentes, porque são “no terreno”):


Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico.
Licenciatura em Gestão de Empresas.
Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica.
Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas.
Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas.
É actualmente Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA.
Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

75 comentários

2 pings

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  1. Arthur Golgo Lucas

    Obrigado pela paciência, Carlos.

    Ri muito com a frase “Obviamente que eu não me iria pôr a imaginar que o médico fez isso, devido à Wikileaks ou à Raínha de Inglaterra.” 🙂

    Mas olha só: já está claro para ambos qual a opinião do outro sobre o papel da NASA no episódio. Eu gostaria de saber tua opinião acerca do comportamento da grande mídia. Não achas que houve um “excesso de falta” de senso crítico? E que certas especulações que foram feitas chegaram a níveis estratosféricos exosféricos de ridículo?

  2. Carlos Oliveira

    Arthur,

    Não tem que agradecer nada.
    Eu gosto de discutir os argumentos
    🙂

    Concordo totalmente que houve uma tremenda falta de sentido crítico dos Media.
    Já tenho criticado muito os Media devido a isto.
    Alguns exemplos:

    http://www.astropt.org/2010/12/02/nasa-descobre/
    (“Os maus jornalistas começaram logo com especulações sem sentido, e resolveram disseminar mentiras sobre esta conferência”)

    http://www.astropt.org/2010/11/30/incrivel-descoberta-na-astrobiologia/comment-page-1/#comment-10064

    http://www.astropt.org/2010/07/30/exoplanetas-os-erros-jornalisticos/

    http://www.astropt.org/2010/07/09/depois-da-vida/

    http://www.astropt.org/2010/07/26/consultorio-extraterrestre/

    http://www.astropt.org/2010/07/24/ovnis-pintores/

    http://www.astropt.org/2008/07/03/apo/

    Mas há muitos outros exemplos aqui no blog, sobre a falta de sentido crítico que vou vendo pelos Media.

  3. Cristiano

    Uau! Os comentários já são mais interessantes que a própria notícia! Isso é que é discussão!

  4. Carlos Oliveira

    Cristiano 🙂

    Devia ser sempre assim – discussões constantes 😉

  5. Carlos Oliveira

    Arthur,

    Já agora, achei curiosa a sua menção a polvos.
    De milhões de animais que poderia ter escolhido, exemplificou logo com polvos.

    Achei curioso. Porquê?
    Porque se há “vida inteligente” lá por fora, para mim é mais provável que ela seja parecida com “polvos voadores” do que com humanóides
    😉

    http://www.astropt.org/2010/07/15/polvos-inteligentes/
    http://www.astropt.org/2007/11/20/alien-planet/

  6. Carlos Oliveira

    Escrevi mais uma explicação sobre o porquê da conferência da NASA, aqui:
    http://www.astropt.org/2010/12/06/bacterias-wikileaks/

  7. Carlos Oliveira

    uc.pt…

    O Pedro Ré e o Milton Costa, deram esta entrevista para a SIC:
    http://www.uc.pt/fctuc/universofctuc_ficheiros/UniversoFCTUC_Videos/SIC_-_Milton_Costa.wmv

  8. Arthur Golgo Lucas

    Carlos, postei uma atualização lá no meu artigo. Acho que vais gostar.

    Sobre os polvos, foi o primeiro organismo que me veio à cabeça. Creio que a forma do polvo, com simetria radial, diversos apêndices sensório-motores e ausência de esqueleto ósseo, é bem mais provável de ocorrer do que uma forma com simetria bilateral, apenas quatro apêndices sensório-motores e uma improvável estrutura óssea, especialmente com postura bípede. Pelo menos eu acho que esse seria o modelo de ET mais provável, e como estávamos falando disso o exemplo surgiu com naturalidade. 🙂

  9. Carlos Oliveira

    Fiz uma compilação das críticas de 30 pessoas da ciência, aqui:
    http://www.astropt.org/2010/12/08/criticas-aumentam-a-bacteria-de-arsenico/

  10. Carlos Oliveira

    cosmosmagazine.comcosmosmagazine.com…

    http://www.cosmosmagazine.com/news/3902/nasa-finds-new-branch-tree-life

    Um artigo interessante sobre as possíveis “biosfera-sombra”:
    http://www.cosmosmagazine.com/features/print/3683/a-shadow-biosphere

  11. Carlos Oliveira

    spacedaily.com…

    Vai haver uma reavaliação da investigação:
    http://www.spacedaily.com/reports/NASAs_arsenic-eating_life_form_gets_a_second_look_999.html

  12. Carlos Oliveira

    universetoday.com…

    Podcast sobre vida exótica:

    http://www.universetoday.com/81805/podcast-exotic-life/

  13. Carlos Oliveira

    Um artigo muito bom sobre a importância do fósforo, em vez do arsénio:
    http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/breves-sobre-o-fosforo-e-o-arsenio-na.html

  14. Ana Guerreiro Pereira

    Arsénio, arsénio!!! 😀 😉

    mais uma achega: o vanádio, na sua forma de ião ortovanadato, é análoga ao ortofosfato tão utlilizado no nosso metabolismo… conhecem-se diversos organismos que são acumuladores naturais de vanádio, enzimas que contém este metal pesado, para além de se delinear uma essencialidade deste metal em animais superiores. A essencialidade em humanos não está provada, mas a sua química extremamente complexa em solução aquosa faz dele um metal tão multifacetado que em baixas concentrações tem inúmeras aplicações terapêuticas (exemplo: anti-diabético e anti-cancerígeno).

    especula-se, na área dos vanadistas (como gostam de se auto-intitular ehehehe), que nas condições redutoras da atmosfera primitiva, este metal pode ter sido um elemento essencial nas primeiras formas de vida… 🙂

  15. Carlos Oliveira

    “este metal pode ter sido um elemento essencial nas primeiras formas de vida…”

    <--- estás a dizer que não foram os ETs que nos puseram aqui? 🙂

  16. Ana Guerreiro Pereira

    Eu cá só avanço hipóteses! hipóteses, há muitas! certezas, não tantas assim. 🙂 Mas as suficientes para saber que a vida na Terra é possível sem a intervenção de ETs… e que mesmo que acabemos por dar cabo das condições que nos albergam no planeta, a vida arranjará sempre forma de voltar a florescer. Connosco ou sem. Sim, sou das que dizem Salvem a humanidade, e não, salvem o planeta 😀 O planeta safa-se sozinho, sempre se safou…

    Quanto a nós, humanos, não sei não. Não se diz q há um Stargate algures em Portugal? 😀

  17. Carlos Oliveira

    “mesmo que acabemos por dar cabo das condições que nos albergam no planeta, a vida arranjará sempre forma de voltar a florescer. Connosco ou sem. Sim, sou das que dizem Salvem a humanidade, e não, salvem o planeta. O planeta safa-se sozinho, sempre se safou…”

    WOW!!!! Exactamente o que eu penso 😛

  18. Ana Guerreiro Pereira

    LOOL, nem todos podemos ir atrás do Al Gore. E é esta a mensagem que passo nas aulas. Se o Al Gore me apanha… 😀

    Mas tb não vou atrás do pessoal que diz que o aquecimento global é uma conspiração 😀 se bem que um desses tenha sido meu professor de quimica inorganica… bonito, bonito… 😀

  19. Lisandro Hubris

    Os primeiros estágios da vida terrestre teriam sido a Fermentação, a Fotossíntese e a Associação. Numa atmosfera de gases simples como o hidrogênio, o amoníaco, o metano ou o vapor de água.

    Pois no início, os seres primordiais teriam sido microorganismos unicelulares e anaeróbios que viveriam sem o oxigênio.
    Veja http://www.lisandrohubris.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1956362

    1. Carlos Oliveira

      Sim, durante quase 2 mil milhões de anos não existiu oxigénio na atmosfera da Terra.

      Só não percebi o que isso tem a ver com o post 😉

  1. Críticas aumentam à bactéria de arsénico » AstroPT - Informação e Educação Científica

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