A Arte de Não (Querer) Saber

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Não fico triste quando alguém não sabe de um assunto e não consegue argumentar por isso. Mas fico desolado quando alguém não percebe do assunto e os argumentos são falaciosos. Argumentos a fingir sabedoria brotam de mentes criativas.

Alguém comentou um post num blog metafísico onde também comentei. Não é da competência da ciência falar de um deus (e ainda bem), assim como não é da competência da religião meter o bedelho em questões científicas (só dá mau resultado como se tem visto). Dei ainda uma breve explicação de mutações, recombinações genéticas e aleatoriedade, em que a informação genética também pode ser aumentada.

A resposta foi pior do que imaginaria. A pessoa, que dificilmente percebe o mínimo de ciência, respondeu que o criacionismo é ciência e é um modelo lógico para explicar as orígens. A complexidade da ciência não deixa algumas pessoas pensar, o que é normal pois faltam bases científicas. Não posso compreender genética molecular sem compreender biologia celular. Como a pessoa em questão (e não é a única, há como que uma doença que se espalha) não compreende como um ser unicelular evolui para multicelular, então é mentira. E ainda exige que a Natureza e os cientistas demontrem-no num copinho em 10 minutos esse fenómeno a ocorrer. O mais engraçado é que, se tal acontecesse não acreditariam. Enfim…

Estes senhores religiosos com aversão à ciência referem-se a textos já alterados e facciosos de sites da mesma laia que, por sua vez tiraram do contexto algum artigo científico. Em vez de irem ao PubMed ou usar o OneNote e ler artigos recentes, completos e não apenas um!

Tenho lido sobre as estórias de deuses de povos antigos e reparo que há muito em comum na fabricação destes deuses. Um bom exemplo é este post que ensina a fazer um deus em casa.

Uma pessoa que não vê evidências científicas mas vê um deus em nuvens, em estrelas e em torradas é uma pessoa que não quer mesmo saber.

É, de facto, mais fácil fazer um deus quando o mundo nos parece complicado de mais para pensarmos como funciona. É mais fácil desistir de pensar e deitar a ciência moderna no lixo, excepto os podres que por vezes aparecem. Posso comparar estas pessoas àqueles sem abrigo que andam no lixo à procura de comida. As pessoas têm a ciência que explica um determinado fenómeno mas não querem saber, preferem que seja algo sobrenatural com uma explicação… sobrenatural do tipo “porque sim”. Depois fundamentam-se am artigos de outros pseudo-cientistas ou em excertos de artigos sérios tirados do contexto.

Como já não dou moedinhas aos sem abrigo que andam a pedir mas que têm boa saúde para trabalhar. Também não dou desculpas a esta gente metafísica que não aprende e não quer saber porque é mais fácil remeter todas as respostas para falácias do “porque sim” e, ao mesmo tempo usar a ciência para navegar na net e dizer mal da própria ciência. Chamo a isto hipocrisia.

Necessitei de fazer este desabafo.

35 comentários

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  1. Concordo completamente que são coisas diferentes. Só digo que são racionais, porque (ambas) fazem sentido em existir (respondem a necessidades humanas). Da mesma forma, aquilo em que cada pessoa têm fé, também não me parece ser arbitrário.

    • Ana Guerreiro Pereira on 01/03/2011 at 17:16
    • Responder

    Sérgio, religião é uma coisa. Fé é outra. A religião é uma doutrina e implica uma instituição organizada e racional. A fé é o alimento dessa instituição, e de racional nada tem… 😛

  2. hmm por acaso a religião até é bastante racional

  3. Agostinho,

    Há sem abrigo por auto-criação. E ainda há os que fazem disso um emprego em que não pagam impostos. Sim, há carrinhas que levam pessoas para se fazerem passar de doentes e as vão buscar ao final de uma dia.

    Como é que um coxo nas caldas da rainha num dia é um cego na nazaré no dia seguinte? Foi um milagre que o pôs a andar até à nazaré e depois um pecado tornou-o cego?

    Obvio que não torno a minha frase num estereótipo, mas é uma mão cheia de exemplos.

    Agora Pedro,

    De facto, a ciência não tem que explicar algo que não é da sua competência. E também não prova que não existe algo que não dá para provar que existe. Ou seja, não posso dizer que no outro lado da lua há um cão azul só porue aina ninguém lá foi espreitar e me disse o contrário. Só aceito que há um cão azul se houver provas disso.

    E Thiago,

    O criacionistas atacam os cientistas pelo que eles escreveram há 150 anos atrás. Esquecem-se que a ciência evoluíu (também) e que as evidências são cada vez mais fortes. Não é só dizer que um organismo evoulíu, é explicar porquê e com cada vez mais detalhes, com argumentos cada vez mais refinados e com cada vez mais evidências. Não esquecer que para se passar pelo crivo científico é cada vez mais difícil, há uma maior incidência de contra-provas, de pressão internacional, de empresas, de grupos de investigação. Há os artigos de revisão e há todas as questões para que, se a hipótese passar, fique mais forte ou então, se houver algum bstáculo, fique em banho-maria ou seja descartada.

    • Ana Guerreiro Pereira on 28/02/2011 at 21:32
    • Responder

    wildlifeofyourbody.org…

    só mais uma “achega”… já que afirmo que nos faz falta olhar para o próprio umbigo mais vezes: http://www.wildlifeofyourbody.org/plates.html

    (BAZINGA :D)

    • Ana Guerreiro Pereira on 28/02/2011 at 21:02
    • Responder

    youtube.com…

    No entanto, um video engraçado sobre a visão antropocentrica que tendemos a ter em outras questões (que o Marco já postou no seu Fossa Céptica):

    http://www.youtube.com/watch?v=CIE299rHonI

    No entanto, concordo que é um exagero chamar Antropocénico a uma era que se quer geológica. 🙂 No entanto, não podemos lavar as mãos da responsabilidade que temos para com as gerações futuras de Vida, vida essa da qual tb fazemos parte.

  4. Para um sem abrigo arranjar emprego é muito mais difícil do que um com abrigo. E com 11% de “pessoas que não querem trabalhar”(como é comum se ouvir um idiota a dizer) é uma tarefa praticamente impossível.

  5. Caro Agostinho,

    Eu sou o Carlos. E eu não falei dos sem-abrigo. Aliás, o post nem é meu.

    Daí que acusar-me de ser “pseudo” por algo que não fiz… acho, no mínimo, surpreendente!

    • Agostinho Magalhães on 28/02/2011 at 20:18
    • Responder

    Caro Carlos,
    Geralmente gosto do que escreves, daquilo que sabes e conheces bem; gosto.
    De sem abrigo não conheces nada! Aí és um pseudo, como tu próprio dizes. Falares da saúde dos sem abrigo que não querem trabalhar é quase um insulto! Só falta dizeres (como afirmam alguns imbecis) que à “porta de sua casa” estão carros de luxo estacionados! Logo, são deles!
    Desculpa o desabafo e vou continuar a ler os teus escritos científicos de que muito gosto.
    Um abraço

    • Ana Guerreiro Pereira on 28/02/2011 at 18:59
    • Responder

    Dás o exemplo de NY e eu irei contrapor com um exemplo hoje bastante conhecido por ter perdurado tantos anos… 😀

    Machu Pichu! 😛 construída no séc XV (já passaram 6 séculos, portanto!), a mais de 2000 m de altitude, numa zona sísmica e de chuvas torrenciais (com consequentes aluimentos e deslocamentos de terra)! Depois de abandonada, foi invadida pela biodiversidade local. E no entanto, é olhar para a cidade, seis séculos depois: um monumento que testemunha a passagem da civilização inca pelo planeta. 😛 😀

    Nota que as escalas temporais a que me refiro são da perspectiva humana, não propriamente geológica e muito menos astronómica.

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