À Procura de Nós

Temos escrito vários posts sobre mentalidades. Leiam esta categoria.
Detesto ver a cultura de desculpas, desresponsabilização, e justificações para não se fazer algo, como disse aqui. É uma cultura que noto em Portugal, e provavelmente o Brasil sofre do mesmo, e que está espalhada a outras nações mais a Sul da Europa. É um tipo de mentalidade que não leva a nada – levando somente a que a pessoa passe a vida a queixar-se, passando pela vida sem fazer nada de importante. E é uma mentalidade que se vê também na astronomia (e na ciência em geral): para não se divulgar, promover encontros, etc. Esta ligação à astronomia, já a referi aqui.

Basicamente a ideia que tenho tentado passar é que as pessoas deveriam ser mais otimistas, acreditar nelas próprias, arriscarem, e fazerem algo positivo. É preciso haver iniciativa.
Em vez de estarem à espera do Pai Natal, de Deus, ou do Governo para as ajudarem…

Fazerem algo em que se veja resultados e se possa avaliar os mesmos, mesmo que até pareça ter poucos resultados práticos, como a recente Hora do Planeta.

Essa é para mim uma das grandes mensagens do período de Descobrimentos Portugueses, que já falei aqui.

Como também disse nesse post, é preciso haver uma avaliação objetiva, e não perceber-se que a avaliação está fora do nosso controlo.
É preciso dar valor e acreditar na competência.
É fundamentalmente necessária uma avaliação baseada na Meritocracia.

Parece-me que esta ideia de fazermos algo com prejuízo de tempo para nós próprios, em regime de voluntariado, em colaboração com outros, e tendo como único objetivo uma melhor educação da comunidade de língua portuguesa, é o que fazemos no astroPT.
Obviamente que não substitui a educação formal nas escolas, nem pretende isso, mas parece-me ser um bom complemento sobretudo em matérias de astronomia e de pensamento crítico (sobretudo quando o assunto é sobre pseudos).
Conclui-se que pode-se ter iniciativa, pode-se olhar para o bem da comunidade, e pode-se ter um relativo sucesso nesta área específica da astronomia, e da educação científica em geral.

Daí que o astroPT irá continuar a promover esse conhecimento pela comunidade, e irá tentar evoluir, sendo que nos próximos dias/semanas haverão novidades.
Enquanto isso, o astroPT está obviamente aberto a colaborações de quem queira ter a iniciativa de divulgar o conhecimento. Os colaboradores têm aumentado, muitas vezes porque são eles próprios que tomam a iniciativa de nos contactarem com ideias que nos parecem ser excelentes. Estamos obviamente abertos a mais colaborações da comunidade de língua portuguesa, de quem queira ter a iniciativa de participar neste projeto.

Tudo isto (incluindo o título deste post) vem a propósito de um texto que me foi enviado pelo professor Paulo Ferreira, de quem já falei, aqui, e aqui.
Ele deu-me autorização para transcrever as palavras dele.
Parece-me que a ideia dele é similar à minha. Nesta altura em que o Governo “caiu”, e que irá haver eleições, o mais importante parece ser que haja uma mudança de mentalidades, em que passe a haver mais iniciativas próprias e não estar à espera que o Governo resolva tudo.
É um texto que como o Paulo é português, é aplicável aos portugueses, mas muito provavelmente pode também ser usado a brasileiros, e outras nacionalidades que falem português e que se revêm nesta mentalidade.
Aqui fica o texto dele:

À Procura de Nós

Em Portugal, a importância dos padrões culturais no desenvolvimento económico é quase sempre ignorada. A ideia mais corrente é que desde que existam recursos naturais, pessoal qualificado e capacidade técnica, as organizações brotam, o capital floresce, a economia acelera. Contudo, nas democracias modernas, o desenvolvimento da economia depende da capacidade de organização das instituições, a qual depende da forma como os cidadãos se associam em comunidade. Quando a noção de comunidade é frágil, o grau de organização das instituições é precário, a economia vacila, o progresso é contido.

Neste contexto, o acanhado desempenho económico de Portugal pode ser explicado em grande parte pela incapacidade de nós portugueses agirmos para o bem-comum, ou para qualquer fim que transcenda o imediato interesse individual ou da família.

É comum argumentar que as causas da posição económica de Portugal no Mundo (em 2010 ocupava o lugar nº 40 no ranking mundial e o último lugar entre os países da Europa Ocidental, relativamente ao PIB/capita) tem origens na ditadura de 48 anos. Em geral, esta teoria têm o seu elemento de verdade, mas não é suficiente para explicar as razões do contido desenvolvimento de Portugal. Senão vejamos:

Salazar promoveu o analfabetismo e a ignorância, para além de ter deixado na população um sentimento de desconfiança relativo à autoridade. No entanto, o analfabetismo não consegue explicar porque o aumento significativo do nível de instrução dos portugueses nas últimas décadas não trouxe um desenvolvimento económico correspondente. Note-se que em 1960 o índice de analfabetismo em Portugal situava-se na casa dos 40%, ao passo que em 2000 o valor era apenas de 7.6%. Paralelamente, o crescimento anual do PIB em Portugal cifrava-se em cerca de 6.4% na década de 60, em contraste com os 2-3% na década de 90 e cerca de 0.7% na última década. Por outro lado, o fenómeno da desconfiança na autoridade provocado pela ditadura não consegue igualmente explicar a resposta a um recente inquérito realizado pela UE, no qual 70% dos portugueses declara que espera que o governo resolva os seus problemas (por sinal a percentagem mais elevada dos países da comunidade).

Voltemos portanto à razão primária que explica o modesto desenvolvimento económico de Portugal.
Muito simplesmente, traduz-se no seguinte conceito, existente na cultura portuguesa: “A não ser que se retire, a curto prazo, proveito individual ou para a família, não faz sentido contribuir para o bem da comunidade. Assuma-se que todos fazem o mesmo”. Este comportamento “clã” atravessa o espectro da população e rege o quotidiano de muitos cidadãos.
Convém então perguntar: Onde se reflectem na vida portuguesa as consequências desta postura?

Em primeiro lugar, muitos dos cidadãos não querem assumir responsabilidade pelas matérias de ordem pública. Fazem-se diagnósticos atrás de diagnósticos. Discute-se muito mas ninguém actua. Os problemas são passados de mão em mão. Por isso vemos as fachadas de prédios degradarem-se. Por isso se estaciona onde é proíbido.
Verificamos também que a população civil não avalia nem quer avaliar os detentores de cargos públicos. De facto, considera que é um trabalho para quem está na administração pública. Situações como o mau desempenho das funções ou conhecidas irregularidades por parte de um membro da administração pública são consideradas pela população civil fora do domínio da sua intervenção.
Em terceiro lugar, a capacidade de organização das instituições é difícil de atingir e manter. Não se identificando com os objectivos das instituições, os seus colaboradores não se esforçam mais do que o necessário para manterem os seus lugares ou para serem promovidos. Estabelece-se um sentimento de “falta de missão”. É o caso das instituições públicas portuguesas onde a progressão na carreira é condicionada pela abertura de vagas e onde o sistema de salários está tabelado.
Adicionalmente, é comum constatar a indiferença dos cidadãos perante as leis existentes se não exister um sistema eficaz de penalização. É a valorização da lei falada relativamente à lei escrita. A evasão fiscal, a condução perigosa, são assim assumidos como procedimentos normais. A ideia de “se não for um cidadão a aproveitar-se do sistema, outro o fará” é predominante.
Finalmente, os cidadãos valorizam os ganhos acumulados pela comunidade, apenas quando participam desse ganho. De facto, estas mesmas pessoas assumirão uma posição antagónica desde que não partilhem o proveito. Por isso é difícil convencer os inquilinos do rés-do-chão a contribuirem para os custos de manutenção do elevador que não utilizam. Por isso os partidos da oposição raramente reconhecem o partido do governo pela implementação de políticas bem sucedidas.

Esta série de comportamentos tem, portanto, um profundo impacte no desenvolvimento económico de Portugal, e não vai ser alterado apenas pelo crescimento dos índices de instrução.
Porque não? Vejamos:

A um primeiro nível, a atitude “clã” tem a ver com o medo subsconsciente do futuro e com a preocupação das possíveis calamidades da vida. Isto porque a população portuguesa não acredita, pois conhece poucos exemplos, que o trabalho ou o esforço originam sucesso. Está sedimentada a ideia que as condições importantes para atingir o sucesso estão fora de controlo. Neste contexto, o sucesso passa a ser fruto de contactos pessoais, do acaso, do divino. Como consequência, para viver com regalias, a postura “clã” faz tudo que pode para se proteger e proteger a familia. Considera qualquer pessoa fora do seu círculo como um competidor.
A um nível mais profundo, a atitude “clã” está relacionada com a forma como nós portugueses somos educados. Na generalidade, a educação das crianças apoia-se num regime de castigos que penalizam os comportamentos negativos, e não premiando e fomentando os comportamentos positivos. Isto significa que em Portugal se sobrevalorizam os erros aos sucessos. Por isso as críticas, mesmo construtivas, não são bem aceites pela população. Esta forma de educar retira confiança pessoal. Por isso há uma aversão ao risco na sociedade portuguesa. Por isso o risco é penalizado severamente (veja-se o caso das situações de bancarrota).

Indubitavelmente, a alteração da postura “clã” não vai ser iniciada deliberadamente pela população portuguesa. É precisamente a dificuldade em actuar concertadamente em prol do bem-comum que é o problema. Então, como fomentar a mudança?

Em primeiro lugar, é importante desenvolver programas educacionais de forma a incutir na população portuguesa, em especial as camadas jovens, confiança pessoal. Premeie-se o sucesso em detrimento do castigo. Adicionalmente, é essencial a introdução de disciplinas de civismo e ética a todos os níveis de ensino para que ajudem a promover o sentido de comunidade. Como escreveu Alex de Tocqueville: “É necessário saber quando sacrificar alguns interesses pessoais em favor do bem-geral, para elevar toda a nação para novos níveis de prosperidade e contentamento”.
Em segundo lugar, é necessário aumentar a responsabilização dos cidadãos, levando-os a participar na vida nacional e não remetendo para o governo toda a responsabilidade. Desta forma, o cidadão ao sentir-se autor do progresso produzido no país sente-se criticado se o país é criticado. O cidadão passa a olhar a lei como obra sua e não como obra do governo.

Que Portugal e os portugueses têm inegável potencial e valor, não restam dúvidas.
Portugal é um país independente há mais de 800 anos, enquanto países como a Finlândia, a Itália, a Noruega, só o são há muito pouco tempo.
A língua portuguesa é a sétima língua mais falada no mundo (230 milhões de pessoas falam o português), à frente do francês, do italiano e do alemão.
Portugal desenvolveu instrumentos sofisticados de navegação, conquistou os mares, descobriu novas civilizações.
A passagem da ditadura à democracia ocorreu sem violência, um caso raro na história das ditaduras.
Portugal possui indústrias de calçado, texteis, cortiça, vinho e moldes capazes de produzir artigos de excelente qualidade.
Estes atributos demonstram que Portugal tem coragem, força de espírito, tolerância e capacidade para inovar.

Então, porque não fomentar a mudança em Portugal de forma a que os portugueses sintam as suas aspirações realizadas?
Queremos de facto continuar a sustentar esta postura “clã” ou queremos seguir em frente e ser o que potencialmente podemos ser?
O futuro o dirá.

Mas uma coisa é certa: se não formos nós, portugueses, a fazê-lo, ninguém o fará.

5 comentários

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  1. Lembrei-me de uma “anedota” engraçada, sobre o facto de termos sido uma nação de aventureiros (não esquecer contudo a quota parte de violência que os Descobrimentos representaram): nós, em Portugal, somos descendentes dos que ficaram, não dos que se aventuraram… 😀

  2. claro 🙂

  3. Pois… e quando denunciamos alguma situação ou agimos para a tentar corrigir, dizem-nos que temos… mau feitio. 😛

    Execelente texto. Irei divulgar, posso?

  4. Oh pah, eu apaguei as luzinhas todas, todinhas. 🙂 E percebo-te muito bem; noto contudo que aquilo que a nós podem soar desculpas, na realidade podem não ser. 😛 ahahah.

    Vou fixar a frase “esta ideia de fazermos algo com prejuízo de tempo para nós próprios, em regime de voluntariado, em colaboração com outros, e tendo como único objetivo uma melhor educação da comunidade de língua portuguesa” da próxima vez que me acusarem de me preocupar demais com as minhas turmas e investir tempo demais nelas, em detrimento de outros trabalhos e financiamentos… 😛 posso fixá-la? 😀

  5. È bem verdade mas ninguém gosta de assumir. Abraço

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