Falácias

O debate e a discussão aberta são imprescindíveis onde quer que se pretenda criar soluções e conhecimento. É a única maneira de poder usar os esforços individuais de uma forma consistente e tirar o maior partido da colectividade.

Não é fácil. Mas há coisas que se podem aprender. Muitos erros são feitos por acaso, por falha humana. Se forem propositados são sofismas. Mas quando são ocasionais chamamos-lhes falácias.  Não são menos graves por isso. E são muito mais frequentes. As falácias não são no entanto coisas em que nós não acreditamos ou não gostamos.

Falácias são erros de lógica que por serem repetidos com tanta frequência estão descritos e classificados de modo a que se possa usar o conhecimento dessas falácias para analisar mais rápida e eficazmente uma argumentação.

Podem ser falácias lógicas formais ou informais. As formais são aquelas que apenas por corresponderem a uma forma ilógica de argumentação são falsas, sem excepções. Quando a conclusão não pode nunca seguir das premissas. Por exemplo tirar uma conclusão afirmativa quando uma das premissas é negativa. Ex: “Os indeterministas acreditam que nenhum acto com causa é livre. Alguns actos humanos não têm causa logo alguns actos humanos são livres” (1) Porquê? Porque não segue das premissas que os actos sem causa são livres – mesmo que isso seja verdade (o que não parece ser, já que o que acontece por acaso não dá espaço para escolha. É o que é.).

Em oposição, as informais  significa que dependem de contexto e por conseguinte existem situações, para cada falácia, em que a lógica segue sem quebras. Mas são excepções. Essas excepções estão também descritas, e identificar erradamente uma falácia é obviamente um erro.

Vou dar como exemplos  algumas falácias informais,  já  que me parece ser  as mais frequentes. Sem nenhuma ordem especial. No fim deixo uma ligação para um site que tem muito mais para aprender – a lista de falácias é enorme…

Apelo à ignorância.

A forma básica é: “Se não está provado que A é verdade então A é falso” e/ou “ Se não está provado que B é falso então B é verdade”.

Ou como Carl Sagan colocou a questão: “ausência de prova não é prova de ausência”.

De uma maneira ou de outra, a falácia está em aferir um valor lógico (V ou F)  sem ter dados que o permitam. Ou seja, pretende-se provar qualquer coisa usando como argumento o que não se conhece. Só que o que não se sabe, não se sabe – não é aquilo que nós queremos que seja.

Exemplo: “Não está provado que José é inocente logo José deve ser culpado” – por causa disso e porque é mais grave punir um inocente que deixar escapar um culpado, temos de presumir a inocência até prova em contrário.

Esta é uma falácia informal. Tem excepções.  Ou seja, a ausência de prova é prova de ausência quando há uma procura exaustiva sem encontrar prova onde ela devia estar. Ou quando há uma suposição implausível para a qual não se encontra prova – como era de esperar. Por exemplo o famoso Bule de Russel.

Ataque ao Homem

Esta é provavelmente a falácia mais vista em debates públicos. E também das mais vezes erradamente identificadas em debates privados.

O ataque à crença de uma pessoa não é um ataque ao homem. O ataque às características biográficas ou de personalidade de uma pessoa é um ataque ao homem.

Numa discussão devem-se criticar as ideias e não a pessoa. Atacar a pessoa pode dar a percepção de vantagem a quem o faz, mas é errado. Quer o ataque à pessoa seja verdadeiro ou não é uma questão paralela à questão em causa.

Claro que a excepção é quando se esta a discutir o próprio carácter de um individuo e a sua adequação a um cargo ou uma pena.

Falácia do Espantalho ou Homem de Palha

O espantalho é a reconstrução da posição de um adversário, num debate, para que depois seja mais fácil de refutar. Construi-se uma versão parecida mas obviamente errada para conseguir derrubar, exactamente como a um espantalho. Mas assim refuta-se o espantalho e não o argumento.  Obviamente que se o espantalho for equivalente à ideia em causa, não é espantalho.

Falácia do Naturalista ou Apelo ao Natural

Na forma básica é assim: “A é natural logo A é bom/ está certo”. Esta é um êxito em spots publicitários desde há longas décadas. De facto, a doença, a morte, a predação, etc, são naturais. Só por uma coisa ser natural não quer dizer que seja boa. E só por uma coisa ser de determinada maneira na natureza, não quer dizer que deva ser assim. Foi precisamente por isso que criamos a moral. Foi para tentar esclarecer como é que queremos que as coisas sejam, já que a lei da selva não serve. E foi para isso que criamos a medicina – foi porque o que é natural é morrer de doenças. Claro que há excepções, basta notar que o que é natural, muitas vezes é bom.

Apelo à Autoridade

Quando se usa uma autoridade não reconhecida ou reconhecida noutra área para justificar uma afirmação. Por exemplo, usar actores de cinema famosos para vender automóveis, especialistas em economia para dar palpites sobre o clima, etc.

 

Saber mais:

http://www.fallacyfiles.org/taxonomy.html

 

(1) exame de filosofia, faculdade de Miami, 1975

 

 

3 comentários

    • Ana Guerreiro Pereira on 03/05/2011 at 12:37
    • Responder

    João, LOOL, geralmente é isso que faço, pergunto se se está interessado numa troca de ideias ou simplesmente numa relação de poder em que um tem mesmo de “ganhar a discussão” 😀

    Lol, dado que o tema são as falácias, muito em voga nas trocas de argumentos, juntei-lhes alguns porquês de elas próprias existirem 😀 Ou seja, no fundo, de porque é que as pessoas argumentam até à exaustão em defesa de uma ideia claramente falível. Simplesmente isso, lol.

  1. Olá Ana.

    “muitos preferem a argumentação e retórica pura, ouvirem-se falar e ganhar as discussões, sem raciocinar…”

    Deves nesse caso, se a argumentação não leva a uma conclusão clara, pedir que se exclareça qual é o ponto que a que se pretende chegar.

    Também podes notar que a extensão ornamental de um argumento ou a sua repetição não lhe aumentam a validade.

    Mas já agora. O que é que querias dizer com isso? 🙂

    • Ana Guerreiro Pereira on 29/04/2011 at 14:20
    • Responder

    LOL, e tinha eu comentado uns postes atrás “muito gostam vocês da palavra falácias” 😀

    Pessoalmente, adoro trocas de ideias e conhecimentos construtivas e proveitosas; infelizmente, muitos preferem a argumentação e retórica pura, ouvirem-se falar e ganhar as discussões, sem raciocinar…

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