Saudemos os cidadãos-cientistas

Saudemos os cidadãos-cientistas

William H. Press

Discurso na Cerimónia de Graduação, antes dos alunos começarem a vida fora da Universidade, proferido na faculdade de Ciências Naturais da The University of Texas at Austin.

Sábado, 23 de Maio de 2009

Boa tarde. Apresento-me. Sou o sujeito a quem calhou, em tão importante ocasião, espetar-vos um discurso com 10 minutos de conselhos tão memoráveis, do qual, posso garantir-vos com absoluta certeza, vocês não se irão lembrar, depois, duma única palavra! Este tipo de amnésia colectiva é a variável independente da qual dependem todos os oradores desta Cerimónia de Encerramento.

Conto com os vossos novos conhecimentos para que, em função, resulte que vocês não me deixem menos esquecido.

Mas muito mais importante do que saber-se quem sou eu, é saber-se quem são vocês; desde hoje, são licenciados da University of Texas! A vossa Universidade, os vossos pais e os vossos amigos sentem convosco o maior orgulho.

Esta noite, a Torre da Universidade vai estar iluminada em vossa honra. E, Pais, vou contar-vos um segredo, um segredo que não dizemos aos pré-licenciados; a Torre estará iluminada também em vossa honra.

Mas todas as pessoas aqui presentes são mais do que licenciadas, há algo que vos distingue muito mais. Todos são cientistas.

É provável que alguns dentre vós não se sintam propriamente à vontade com o rótulo de cientista. “Sim, é claro, até já tenho uma licenciatura, só que isso não faz de mim um cientista.”

Deixem-me explicar-vos o que quer dizer a palavra “cientista”, que desde logo não é, como alguns de vós possam estar a matutar, originária da antiguidade grega ou latina, mas foi sim usada pela primeira vez em 1836, o que será, convenhamos, recente. Na reunião anual da Associação Britânica para o Avanço da Ciência (uma palavra que já existia), houve um debate sobre “o nome pelo qual poderíamos designar os estudantes do conhecimento do mundo material”. A palavra “Filósofo” foi tida como muito abrangente. A palavra “Sábios” foi vista como muito enfatuada. [1] Foi então que o grande generalista William Whewell propôs a palavra Cientista.

A palavra foi imediatamente rejeitada porque se parecia demais com duas palavras já existentes que ninguém ali queria ver confundidas: “ateísta” e “economista”! [2] (As coisas mudaram tão pouco). Também foram propostas duas traduções aproximadas do Alemão, que resultaram em “voyeur da natureza” e em “furador da natureza.” Contudo, no final, foi a palavra “cientista” que pegou.

Não é preciso um doutoramento para se ser cientista. O que é preciso é, como sugere a citação, ser-se um estudante do conhecimento do mundo material. Vocês, todos vocês, são isso mesmo, senão não estariam aqui. Todos possuem a capacidade de aferir os factos e de resolver problemas relacionados com o mundo natural pelo pensamento lógico e quantitativo. Isso, no mundo de hoje, é algo de muito especial e muito válido. Dou-vos as boas vindas a esta selecta agremiação de mulheres e de homens educados!

Quando, no ano passado, a Reitora Rankin estava prestes a aprovar a demolição do velho laboratório de biologia, precisou de ter a certeza absoluta que toda a gente tinha sido evacuada das instalações. Então, com toda a naturalidade, escolheu três académicos para fazerem a contagem final: um de Física, um de Biologia e um de Matemática. Os três verificaram pessoalmente todas as salas em todo o edifício. E, para sua consternação, encontraram dois estudantes ainda lá dentro. Ficaram então à espera, do outro lado da rua, que esses estudantes saíssem. Passados uns tantos minutos, saíram três pessoas. O Físico, que sabia umas coisas sobre análise de dados, disse, “é um erro experimental, devemos ter cometido um erro na contagem.” O Biólogo, que sabia umas coisas sobre estudantes pré-licenciados, disse, “não, eles devem é ter-se reproduzido.” O Matemático, que sabia umas coisas sobre números negativos, disse, “Caso um dos elementos regresse ao edifício, este já fica vazio.”

Ok, se se riem desta história – ou até se se põem aos gritos ululantes com ela – então é porque vocês são as pessoas a quem me dirijo. Os restantes relaxem e desfrutem do ambiente desta maravilhosa ocasião festiva.

Tive recentemente a honra de ser nomeado pelo Presidente Obama para o seu Conselho de Peritos para a Ciência e Tecnologia, e tive a oportunidade de ouvir, pessoalmente, o Presidente enunciar a lista das áreas em que ele pensa que a Ciência e a Tecnologia vão ter um impacte importante nas decisões políticas: em primeiro lugar, a economia, onde as novas indústrias de alta tecnologia terão que ser parte da solução de longo prazo. Depois, a energia, o clima, o ambiente, a saúde, a educação científica, a não-proliferação nuclear e a segurança internacional.

O que nesta lista me salta à vista é que todos os pontos vão requerer, na nossa democracia, um consenso nacional alargado. E que, em simultâneo, todos os temas contêm aspectos altamente técnicos que afectam profundamente os resultados.

É nisto que o vosso país e o vosso planeta precisam de vocês: quer pensem prosseguir – ou não – agora, ou no futuro, os vossos estudos nas áreas da Ciência, desde já são todos cidadãos cientistas. Vocês serão os líderes de opinião em questões de ciência junto dos não-cientistas da vossa família, dos vossos colegas e dos vossos amigos. As pessoas ir-vos-ão perguntar, em casa, no local de trabalho e na vossa vida privada, acerca de vários temas “olha lá, devo acreditar nisto?” ou “o que pensas tu sobre aquilo?” Nestes momentos, vocês têm, duma forma muito real, o poder de mudar o mundo. Espero que desfrutem desses momentos – já que trabalharam tão arduamente para deles poderem usufruir. Mas, e porque o conhecimento é poder, o vosso estatuto especial implica algumas responsabilidades significativas.

A vossa responsabilidade primeira é a de tomarem conhecimento dos factos por detrás dos temas, e de procurarem as evidências por detrás dos factos. Vocês entendem muito melhor do que a maioria dos vossos pares que a verdade emerge não dos factos estabelecidos, mas do constante teste e questionamento dos factos estabelecidos.

Darwin, cujo ducentésimo aniversário celebramos este ano, tinha uma forma aprazível de colocar estas questões: “Factos falsos, são altamente perniciosos para o progresso da ciência, dado que muitas vezes perduram por longo tempo. Mas falsos pontos de vista, se sustentados por provas, já pouco mal infligem, dado que toda a gente assume um prazer saudável em provar a sua falsidade.”

Isso também faz parte das vossas responsabilidades como cidadãos-cientistas: captem só um pouco desse “prazer saudável” em corrigirem as pessoas que enumeram mal os seus factos. (É claro que deverão fazer isso da forma mais simpática que vos for possível).

A vossa responsabilidade subsequente, após entenderem os factos, é a de tomarem vós próprios posição sobre os temas, uma posição que seja baseada em princípios e nas evidências. Depois, têm a responsabilidade de comunicarem a vossa posição a todos os que vos quiserem escutar. Oliver Wendell Holmes, Jr., caracterizou a democracia como um mercado das ideias. Deixem-me dizer-vos algo que é hoje relevante para este mercado: se nele investirem, obtêm sempre um bom retorno. Precisamos de vós, cidadãos-cientistas, no mercado das ideias.

Por último, quero que cada um de vós assuma uma responsabilidade adicional. Não é a que vocês possam pensar. Não é “sejam bons para os vossos pais” nem é a de “ajudarem os menos afortunados”, apesar destes serem dois objectivos valorosos. É esta: vocês têm a responsabilidade de falhar.

O quê, ele disse aquilo, não se enganou? Sim, disse bem! Se vocês não falharem, algumas vezes, nalgumas coisas que tentem, então não estão a apontar suficientemente alto. Como cientistas cidadãos, vocês entendem melhor do que a maioria das pessoas como deverão fazer a triagem entre o sucesso e o falhanço. Apontem para o sucesso, é claro. Mas tentem também aquele tudo mais para que consigam obter uma correcta aferição. Se o não fizerem, nunca ficarão a saber quanto do vosso talento está a ser desperdiçado por apontarem baixo demais.

E, neste preciso momento, o mundo não se pode dar ao luxo de desperdiçar qualquer parte do vosso talento, nem uma única pequena parcela do vosso espantoso talento – um talento que aqui ostenta uns chapéus engraçados – e que está aqui reunido nesta sala.

Meus caros colegas “voyeurs da natureza” e “furadores da natureza!” Vocês vão moldar o futuro. Saudamos-vos!

Referências

[1] Danielson, D., “Scientist’s Birthright,” Nature, vol. 410, p. 1031 (April 26, 2001).

[2] Ross, S., “Scientist: The Story of a Word,” Annals of Science, vol. 18, no. 2, pp. 65 – 85 (June, 1962).

Agradecemos a amável autorização do Professor William H. Press para a tradução, que é da nossa responsabilidade, e para a publicação deste seu texto, que consideramos uma referência.
A biografia do Professor pode  ser acedida pelos links abaixo:
http://en.wikipedia.org/wiki/William_H._Press
http://www.nr.com/whp/
O discurso original está aqui:
http://www.nr.com/whp/CommencementSpeech2009.pdf

6 comentários

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  1. Grande discurso! 🙂
    Gostei particularmente de duas partes:
    1) “A vossa responsabilidade primeira é a de tomarem conhecimento dos factos por detrás dos temas, e de procurarem as evidências por detrás dos factos.” Para muitos pseudos aqui é onde falham;
    2) “Por último, quero que cada um de vós assuma uma responsabilidade adicional. […] É esta: vocês têm a responsabilidade de falhar.
    […] Se vocês não falharem, algumas vezes, nalgumas coisas que tentem, então não estão a apontar suficientemente alto. Como cientistas cidadãos, vocês entendem melhor do que a maioria das pessoas como deverão fazer a triagem entre o sucesso e o falhanço.
    ” Recordou-me quando estava a realizar a minha tese de mestrado e o meu modelo teórico não se ajustava aos meus dados experimentais, andando às voltas para encontrar o erro. Mas resolvi, aí é que está, e o prazer de ter conseguido foi a dobrar.
    Se tivesse apontado para algo trivial e simples (como uma tese educacional, que não lhe tiro o valor) teria sido mais fácil para mim. Contudo, o facto de tentar algo desconhecido, com poucas fontes bibliográficas, deu-me o alento para apontar mais alto e complexo.
    Ser cientista é pura “adrenalina” e “prazer”, garantido. 😉

      • Ana Guerreiro Pereira on 26/08/2011 at 16:08
      • Responder

      Concordo 😀 mas depende das áreas cientificas, dos grupos, das condições de trabalho, etc, etc… conheço muitos, muitos, muitos investigadores totalmente desmotivados e a abandonar a actividade. Eu abandonei-a tb. Um pouco por não ter feitio para rato de laboratório (sou mais de biblioteca :D), um pouco por não haver financiamento (uma pessoa tem contas para pagar…), outro por não haver condições… é complicado.

      Mas fico sempre contente qd encontro investigadores apaixonados pelo que fazem 🙂 🙂 🙂 Ainda bem José!! :):)

  2. Muito bom: pedagógico e inspirador.

    Não conhecia esta variante da piada das três profissões/nacionalidades 😉

    • Pedro Gameiro on 26/08/2011 at 04:45
    • Responder

    Fantástico….

  3. Excelente discurso 🙂

    Gostei do “voyeurs da natureza”… LOLLLLL

    Quando ele fala na responsabilidade social e diz:
    “As pessoas ir-vos-ão perguntar, em casa, no local de trabalho e na vossa vida privada, acerca de vários temas “olha lá, devo acreditar nisto?” ou “o que pensas tu sobre aquilo?””
    Exacto. É para isso que existe o astroPT 🙂

    “Quanto a Darwin, que disse: “Factos falsos, são altamente perniciosos para o progresso da ciência, dado que muitas vezes perduram por longo tempo. Mas falsos pontos de vista, se sustentados por provas, já pouco mal infligem, dado que toda a gente assume um prazer saudável em provar a sua falsidade.””
    Exacto.
    Daí que a Ciência não erra, enquanto a pseudociência farta-se de errar.
    http://www.astropt.org/2011/08/23/ciencia-nao-erra/
    A pseudociência baseia-se em factos falsos, em erros factuais, que atrasam o progresso da ciência.
    Já a ciência lida com diferentes pontos de vista, levando a um resultado final consensual, correcto, mesmo que leve muitos anos, e assumindo que do debate de ideias, algumas delas serão incorrectas e algumas não estarão totalmente correctas, obviamente. A ciência é um acumular gradual de conhecimento.

    Quanto à visão dele de cidadãos-cientistas, eu tenho uma visão mais alargada:
    http://www.astropt.org/2011/05/21/profecias-da-ciencia/
    Acho que todos somos, logo que saibamos fazer as perguntas, e soubermos procurar a informação mais credível 😉

      • Ana Guerreiro Pereira on 26/08/2011 at 16:10
      • Responder

      Qd li a parte de q é nossa responsabilidade responder ás perguntas, não consegui deixar de pensar q, muitas vezes, as pessoas não querem ouvir as respostas…

      Ai o catano, só me estão a dar material pró post 😉 vou acabar por juntar isto tudo 😉 logo que consiga e q tenha a certeza q não vou fazer asneira. Tendo em conta que eu andava a chamar plantão e pelotão a um plantel… deixa-me lá curar isto para a as asneiras parem de sair… 🙁

  1. […] 39 – Cursos de Astronomia. Testes. Educação. 7 Problemas-Prémio da Matemática. Professor. Literacia. Bananas. Burro e Feliz. Correlação e Causalidade. Navalha de Ockham. Falácias com Dragões. 24 Falácias Lógicas. Teoria. Só teoria. Somente teoria. Lei vs. Teoria. Energias Desconhecidas. Química venenosa. Leitura a Frio. Quero Saber. Possível vs. Provável. Crença. Ciência Não Erra. Argumento da Ignorância. Profecias da Ciência. 7 Equações. Palmeira Andante. Cidadãos-Cientistas. […]

  2. […] nós utilizamos o pensamento científico milhares de vezes por dia. Todos nós somos cidadãos-cientistas. Mas somos muito mais curiosos e “cientistas” enquanto crianças. Todas as crianças […]

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