Acelerador de Gente – Entrevista com a socióloga Karin Knorr-Cetina da Universidade de Konstanz

Este é o original e a versão integral de minha entrevista com a socióloga karin Knorr-Cetina, publicada pela Folha de SP, 2/5/2010 – reproduzido no Jornal da Ciência (JC e-mail 4001)

Socióloga que estudou os pesquisadores do LHC diz que experimento elimina noções tradicionais de autoria e prestígio

Ao visitar o LHC (Grande Colisor de Hádrons) em abril de 2008, o físico escocês Peter Higgs pôde contrastar sua dimensão humana com a escala gigantesca da maior máquina já construída pela humanidade.

Se a hipótese de Higgs estiver correta, os dados que começaram a jorrar nas últimas semanas do LHC fornecerão a última peça no quebra-cabeças do modelo padrão, a teoria da física que explica a matéria. Mas a saga do LHC é resultado do trabalho de gerações de pesquisadores, cujos nomes finalmente se diluirão na “simbiose homem-máquina” de um novo paradigma, pela primeira vez realmente global, de cooperação cientifica.

Para Karin Knorr Cetina, professora de sociologia do conhecimento da Universidade de Konstanz, Alemanha, o experimento é, antes de tudo, um “laboratório humano” numa escala sem precedentes na história da ciência moderna.

Cetina passou 30 anos observando os pesquisadores do CERN (Centro Europeu de Física Nuclear), laboratório na Suíça que abriga o LHC, numa espécie de estudo “etnológico” da tribo dos físicos, seus usos e costumes. Segundo ela, noções tradicionais na ciência, como carreira, prestigio e autoria, deixam de ter qualquer significado no modelo de produção de conhecimento do CERN.

Da Universidade de Chicago, EUA, onde é pesquisadora visitante, Cetina falou à Folha:

1. Há alguns anos atrás, Ulrich Beck afirmou que a sociologia, na Alemanha, afastara-se tanto da sociedade, que seu declínio irresistível a conduzia à irrelevância. Essa perda de significado tem a ver, por um lado, com o declínio dos grandes relatos, esquemas e sínteses. Por outro, seu trabalho no Cern, em Genebra, nos oferece uma contraprova de que a sociologia pode, sim, ainda confrontar-se com o novo paradigma da ciência emergente, de fato, uma guinada copernicana. O que é fundamentalmente novo no Cern? De que maneira são coordenados projetos nessa escala e por que, de fato, ninguém mais quase ouve falar das assim denominadas “humanidades”?

Karin Knorr Cetina – Basicamente nova é a dimensão, a duração e o caráter global do experimento. Mesmo que existam precedentes históricos (a física de altas energias já havia sido conduzida em experimentos coletivos nos anos 30), esta forma de produção do conhecimento, a estrutura dos experimentos é um experimento em si mesmo com um caráter antecipatório de um tempo global e de uma sociedade do conhecimento. Poderíamos, talvez, num nível mais amplo, fazer uma comparação com aquele espírito arrojado e inovador no desenvolvimento do supersônico concorde na parceria anglo-francesa nos sessenta, embora o projeto não se mostrasse praticável, mas, de qualquer maneira, sinalizou uma ruptura de época. Mas não se pode responder com uma simples frase ao “como” este experimento é coordenado. Há muitos mecanismos particulares que sustentam o projeto em sua totalidade e o transformam numa espécie de “superorganismo”, uma simbiose Homem-Acelerador-Detector, na íntima colaboração de mais de 2000 físicos com o gigantesco Hádron, que eles mesmo projetaram e no qual, finalmente, trabalham juntos. Um mecanismo muito importante são as publicações coletivas em ordem alfabética. Aqui, é o alfabeto que é privilegiado, isto é, uma espécie de “princípio da incerteza” em ação e não o “gênio”, o autor, ou pesquisadores destacados em suas áreas. Um outro mecanismo é que o experimento mesmo, e não os autores, é “convidado” para as conferencias internacionais, as falas, intervenções, é claro, são realizadas pelos atores individuais, mas eles são apenas os representantes daquilo que produziram em conjunto, eles não apresentam seus trabalhos individuais. Um outro mecanismo é que os participantes se encontram, por exemplo, durante toda uma semana no CERN e esses “meetings” são organizados de tal maneira que todos possam e devam ser informados sobre tudo que ocorre. Estabelece-se, assim, uma espécie de consciência coletiva do “conhecimento compartilhado” que a continuidade do experimento exige. Como poderíamos comparar isso com as ciências humanas? Alguns diagnósticos de época importantes, de historiadores, filósofos, por exemplo, ainda encontram ressonância na opinião pública, mas, infelizmente, a estrutura e a segmentação da pesquisa nesse campo do conhecimento não tem mais nada de interessante a oferecer. Como sempre, pesquisas isoladas aqui ou acolá, mas sociologia tradicional desse tipo de produção não sinaliza mais para frente, em muitos aspectos, tornou-se inadequada.

2. O que a Sra. entende exatamente como o “laboratório dentro do laboratório” desde a ascensão da ciência moderna no XVII, e o que essa tese tem a ver com o desenvolvimento atual da novas tecnologias de imagens, que extraem os objetos de seus contextos naturais e os recolocam, reconfiguram, como miniatura, naquilo que a Sra. denomina um novo “contexto de ação” (“Handlugnskontext”). O que é, enfim, este espaço social do laboratório?

Karin Knorr Cetina – No grande laboratório do CERN, os experimentos representam uma espécie de laboratório separado e preparatório de outros experimentos espalhados numa ampla rede de comunidades de pesquisa com prédios, máquinas (detectores), projetos etc. Na biologia molecular, podemos encarar os “sistemas de modelo”, por exemplo, como culturas de moscas de fruta, nas quais gerações de outros pesquisadores moleculares trabalham e experimentam, como uma espécie de “laboratório dentro do laboratório”. Num laboratório de biologia molecular, vários “sistemas de modelo” podem ser trabalhados simultaneamente, isto é, tanto no interior de um mesmo espaço, com instrumentos próprios, novas estratégias de pesquisas e assim por diante. Simulações de experimentos, como na física de altas energias, também obedecem a esse princípio: o objeto da pesquisa desdobra-se num objeto construído que pode ser experimentado, simulado e reapresentado também em outros espaços simbólicos. As novas tecnologias de imagens desempenham neste contexto um papel fundamental, porque, em muitos setores da ciência, que não se ocupam com partes pequenas da natureza, como na astronomia (por exemplo, o ciclo das estrelas e seus colapsos em supernovas que ocorrem raramente), os experimentos são realizados nesse segundo laboratório através de simulações visuais, originárias da análise de seus espectros, massa, curvas declinantes de luminosidade etc e assim retraduzidos numa escala e no espaço cultural humano de inteligibilidade. Quando consideramos,por exemplo, as ordens de grandeza da astronomia, o “laboratório no laboratório” dessas simulações reconstrói o objeto original fóton fóssil, por exemplo, uma supernova de bilhões de anos, no espaço humano como um modelo de uma espécie de supernova. Tanto na astronomia, como na biologia molecular isto significa a miniaturização da natureza. Mas, por sua vez, também as tecnologias visuais acabam se transformado, neste mesmo processo, num espaço experimental e num laboratório em si mesmo.

3. Depois de muitos anos de pesquisa de campo em laboratórios como uma etnógrafa da ciência, tanto na biologia molecular como na física de altas energias, como se diferenciam ambas as culturas científicas diante do papel do pesquisador individual? Quais são as perspectivas novas que a Sra. experimentou nas ciências naturais e seus atores? E o que é diferencial no “superorganismo” do CERN?

Karin Knorr Cetina – A biologia molecular, que acompanhei por muitos anos procura sistematicamente esclarecer as funções, mecanismos e interrelacoes moleculares; é uma “ciência de bancada” (“benchwork science”) na qual, por regra, poucos pesquisadores trabalham juntos, na qual também se produz e publica em coletivo, mas não em ordem alfabética. O papel do pesquisador individual ainda permanece importante e marca a publicação, por exemplo, os chefes de laboratório ficam em último lugar, os doutorandos ou pós-doutorandos, que fazem a maior parte do trabalho, em primeiro lugar e, neste intervalo, os dois ou três assistentes que tiveram uma contribuição menor menor. Ou seja, dá-se ainda valor à atribuição dos resultados ao sujeito individual. Isso leva, como sabemos, a conflitos bastante característicos em torno de autoria e quem está em que posição na publicação. A física de altas energias procura, em contrapartida, liberar a cooperação, na qual é o conjunto que está no ponto central e possa ser optimizado. Isto é, de qualquer maneira, o fio condutor não é mais a carreira individual, mas o resultado cientifico, a saber, o detector é o elemento dominante, pois ele somente pode ser construído e avaliado por muitos. Minha perspectiva consiste, antes de tudo, em ir às ciências naturais, observá-las de dentro, considerar seu contexto de pesquisa. Enfim, como a pesquisa é compreendida nas suas disciplinas e especializaçãocrescente? O que significa conduzir um experimento? Como elas encaram o mundo dos objetos? A máquina, para elas, é apenas um simples instrumento, ou é vista como um organismo vivo? Se se trabalha com o conhecimento negativo, ampliamos a margem de erro ou aumentamos as fronteiras do conhecimento? Como se configura o aspecto humano da pesquisa? Todas essas perguntas nos conduzem à idéia de que a ciência é uma pluralidade de culturas do conhecimento e de epistemes distintas, culturas de produção diferenciadas em cada comunidade e, sobretudo, da legitimação social do conhecimento e, neste aspecto, as convenções sociais desempenham um papel condutor.

4. Quando o laboratório transformou-se em caserna na emergência do complexo militar-industrial, como no projeto Manhattan, da ciência corporativa, gênios isolados e irascíveis como Edward Teller já eram anacronismos diante das barreiras administrativas e técnicas da pesquisa. A ascensão de Oppenheimer nos mostra, por outro lado, como, muitas vezes, apenas uma personalidade excêntrica está investida daquele talento organizatório que cataliza contribuições, como um “tradutor” entre toda essa pluralidade de culturas a que a Sra. aludiu na busca do objetivo comum. No CERN, trata-se da prova da última peça do “modelo padrão”, do bóson e do campo potencial Higgs, 40 anos de pesquisa básica, bilhões, avalanche de dados, carreiras, tudo converge agora nessa luta. Seria a natureza mesma do projeto incompatível com um novo “insight” individual que poderia mudar tudo de maneira imprevisível?

Karin Knorr Cetina – Diria que a natureza não é apenas no CERN incompatível de que, individualmente, se possa atingir muito ou revolucionar. Imaginemos o mundo social: as relações são complexas, complicadas, muitas variáveis devem ser levadas em conta simultaneamente, a história desta sociedade, fatores contextuais e assim por diante. Mas é bem mais provável, no caso do CERN, que a pesquisa em time deva produzir excelentes resultados empíricos. Muitos pesquisadores em sociologia e nas humanidades, de maneira geral, produzem resultados parciais, fragmentários, que não se agregam dentro de um sistema numa perspectiva cumulativa e não é porque a natureza do social seja fragmentada, mas porque nossa maneira, desse outro lado do conhecimento, de conduzir pesquisas, nossas convenções de pesquisa, não se agregam. Isso não se aplica a todos os casos, eventualmente não na matemática, mas em muitas ciências empíricas, devemos investigar no processo cooperativo – já que na natureza todas as partes de uma sistema se interrelacionam,- ou todo o sistema, ou saber qual é, realmente, a parte central desse sistema que deve ser isolada e destacada, para poder prepará-lo para outros experimentos menores. Esse reducionismo experimental, como na biologia molecular, não pode ser levado a cabo na ciência social por motivos éticos, por se tratar de pessoas em sua integridade, que não podemos reduzir a células de cultura. Para tanto, seria necessário muito mais cooperação e pequisa.

5. A Sra. defende a tese da emergência de uma sociedade “pós-social”, isto é, um desenvolvimento marcado pelo esvaziamento do social, como o conhecemos até agora, por um lado, e, por outro, uma expansão crescente de ambientes-objetos autocentrados e uma relevância crescente de coisas não sociais e objetos de cultura. Como lhe parece o futuro da sociologia?

Karin Knorr Cetina – Pós-sociabilidade significa, por um lado, nossa dependência crescente em relação aos objetos, o detector, na física é, por exemplo, um coletivo e torna-se um objeto vivo, é entendido como um objeto fisiológico e os próprios físicos afirmam que é o detector e não eles que produzem os resultados, o objeto é para os físicos muito importante, o detector é uma espécie de amigo, um objeto de identificação com o qual se mantém um relacionamento especial. Mas também fora da ciência a inteligencia e a complexidade dos objetos ganham cada vez mais relevância e também suas exigências diante de nós, como, por exemplo, o computador pessoal, pois, senão não o entendemos, teremos certamente muitas dificuldades com ele. A pós-socialidade significa também, por outro lado, que as relações com outras pessoas, sobretudo as relações íntimas de família é complementada e substituída na relação com objetos. Os riscos das relações interpessoais aumentou nossa sensibilidade, simultaneamente investimos nelas cada vez menos, talvez pouco demais. A sociologia da ciência tem por tarefa principal conceptualizar melhor a relação com os objetos do que a própria sociologia, isto é, desenvolver conceitos, perspectivas de análise, com os quais, a relação híbrida com os objetos possa ser melhor compreendida. Uma sociedade do conhecimento somente pode ser uma sociedade na medida em que os objetos tenham uma presença marcante ou dominante, não na forma de objetos conhecidos e naturais, mas sobretudo na forma de objetos técnicos e artificiais. A isso se acrescentam os objetos de consumo da sociedade, eles são, naturalmente, em parte objetos técnicos, mas através de sua mercantilização e acessibilidade monetária, fortalece-se ainda mais a dominância do mundo dos objetos no campo social e também fora da ciência. A sociabilidade assume, dessa forma, um outro papel, formas pós-sociais. Ela esta lá, diante de nossos olhos, para quem quiser ver, é claro, mas de forma ainda difusa, como uma pergunta diante de nós, mais como um problema do que um domdomicílio no qual nos sentimos seguros e amparados.

Visitem também meu blog Urãnia, a musa da Astronomia, Astrofísica e Radioastronomia: http://urania-josegalisifilho.blogspot.com/

4 comentários

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  1. Olá José,

    a entrevista está muito interessante. Não sei se concordo totalmente com a Sra. Karin, acho que apesar de tudo há lideres e a natureza humana manifesta-se rapidamente quando se trata de reclamar a fama e prémios (e.g. Nobel). A história está cheia destes exemplos, nomeadamente na física de partículas. Veja-se por exemplo o Nobel do Carlo Rubbia (e Van der Meer) pela descoberta dos bosões W e Z. A escala do LHC é no entanto inédita, nisso tenho de concordar. Se encontrarem o Higgs quero ver quanto tempo dura este espírito igualitário 😉

    Abraço e parabéns pelo artigo.

    1. Prezado Luis Lopes,
      E com grande orgulho e prazer que recebo seu agradecimento, bem como o do Carlos e minha amiga Ana Margarida. Venho procurando me inspirar no didatismo de seu trabalho
      um abraco
      Jose Galisi Filho

  2. Muito interessante!

    • Ana Guerreiro Pereira on 02/09/2011 at 14:48
    • Responder

    ena ena ena !!!! Muito bom!! adorei o artigo! e o conceito!!! :))))))

    (Ana Margarida 😉

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