A ciência requer frustrações

Uma comparação entre o planeta Terra (Earth) e o Sol


A ciência sempre foi um empreendimento audacioso. Ao olhar para as estrelas que costumam ser visíveis em uma noite escura, não sentimos que estamos rodopiando ao redor de uma enorme “bola” de plasma quente (o sol) a aproximadamente 150 milhões de quilômetros de distância de nós, orbitando esta bola de plasma a uma velocidade de aproximadamente 107.000 quilômetros por hora e também não parece que as outras estrelas que observamos no céu são maiores do que o nosso planeta. Da perspectiva terráquea, estas estrelas parecem apenas pequenos pontinhos brilhantes no céu – não há porque pensar que alguns destes pontinhos são estrelas monumentais. Simplesmente não parece.

Descobrir que elas poderiam ser tão grandes quanto de fato são foi um feito audacioso de astrônomos e físicos que, ao longo de muitos anos, reuniram conhecimentos que nos permitiram entender melhor o universo no qual vivemos. Entretanto, quase nenhuma das grandes conquistas científicas, como as alcançadas pelos astrônomos no último século, foram obtidas de maneira trivial. Muito deste conhecimento custou caro.

Thomas Edison, o criador da primeira lâmpada elétrica incandescente e de muitas outras invenções

A história do desenvolvimento científico tem uma lição muito clara para nos dar: o conhecimento científico só pode ser construído se estivermos dispostos a enfrentar repetidas frustrações. Uma citação famosa de Thomas Edison ilustra esta ideia: “Se eu encontrar 10.000 maneiras de algo não funcionar, eu não falhei. Eu não estou desencorajado, porque cada tentativa errada descartada é outro passo a frente.” As frustrações são os tijolos sobre os quais se assentam as ciências modernas.

Ao conduzir uma pesquisa, as expectativas não correspondidas de um cientista podem ser frustrantes, principalmente porque, muitas vezes, eles investem seus afetos nas pesquisas que conduzem – afinal de contas, muitos cientistas são apaixonados pelo que fazem. Muito tempo e cuidado são dedicados no desenvolvimento das ideias que serão testadas. Como resultado, o processo científico pode ser doloroso, mas o que haviamos de esperar se o que estamos buscando é compreender fenômenos assustadoramente complexos como as partículas fundamentais da matéria ou a mente humana? Se é isto o que estávamos buscando, não podemos imaginar que trilharíamos um caminho suave ou curto. Nossos objetivos eram audaciosos, e a audácia pode ter um preço alto. Precisamos da paixão, mas precisamos da razão também: isto significa que muitas vezes a frustração é inevitável quando estamos tentando alcançar uma meta que desejamos – até mesmo tentar completar um quebra-cabeça pode nos deixar assim -, mas a persistência poderá nos render frutos valiosos.

É comum observar alguns destes tijolos ‘acertando as cabeças’ daqueles que estão conhecendo pela primeira vez a prática científica, os quais muitas vezes guardavam fantasias sobre o que é a ciência na prática. As eventuais frustrações podem desanimar o iniciante que esperava ver rapidamente tudo funcionando como planejado. Isto provavelmente está envolvido no desinteresse que muitos desenvolvem pela ciência. O problema é que, no tocante à produção de conhecimento inovador e original, a ciência é muitas vezes mais parecida com um barco em uma maré turbulenta, na qual vamos nos guiando e vendo aonde nossas decisões anteriores vão nos levando. É necessária muita persistência, rigor, senso crítico e paciência para produzir um conhecimento relevante e original na ciência, nada vem fácil.

ResearchBlogging.orgSaber lidar de forma adaptativa com estes obstáculos, inerentes à tentativa de entender um fenômeno complexo, é um fator primordial para o engajamento, o sucesso e a saúde de um cientista que viverá hoje em uma atmosfera acadêmica altamente competitiva (Murray, 2011). Construir paredes protetoras envolta de nossas ideias (infelizmente, uma postura largamente adotada) não parece uma estratégia promissora se queremos contribuir significativamente com a construção coletiva do conhecimento. Nos deixar levar pelas emoções negativas resultantes de uma expectativa não correspondida pode destruir nossa confiança (Murray, 2011).

Diferentes pessoas podem encontrar diferentes maneiras saudáveis de lidar com suas frustrações: ler um livro, praticar um esporte, sair com os amigos ou ouvir um bom cd da sua banda favorita. O importante é encontrar uma estratégia de enfrentamento que nos faça seguir adiante, em busca da próxima direção em que devemos procurar as respostas às nossas perguntas, algo que apenas as frustrações poderão nos dar.

Referências

Murray, L. (2011). The human touch. Nature, 478 (7367), 145-145 DOI: 10.1038/nj7367-145a

2 comentários

  1. Obrigado, Carlos!
    Eu achei muito curioso quando li no livro do Leonard Mlodinow (the drunkard’s walk) sobre a insistência da J. K. Rowling em publicar o Harry Potter, impressionante mesmo.

    Eu ainda não havia visto o vídeo do TED no link que você disponibilizou, estou baixando aqui para ver! O cartoon é sensacional, eu ri e me reconheci muitas vezes enquanto explorava o cartoon!

    abraço!

  2. Excelente texto, André 🙂

    Fez-me lembrar o discurso da J.K. Rowling (Harry Potter) sobre a importância do fracasso:
    http://www.astropt.org/2010/04/20/harry-potter-falhado/

    E fez-me lembrar um cartoon que acabei de colocar aqui no blog, sobre o processo conturbado de fazer ciência 🙂
    http://www.astropt.org/2011/11/17/metodo-cientifico-visto-pelos-olhos-do-publico-vs-realidade/

    😀

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