5 Mitos sobre o programa espacial chinês

Quando se fala da China e do seu programa espacial, muito se especula e sugere. Por isso, deixo aqui o texto que escrevi no Astropolitica sobre alguns mitos (quase que urbanos) do programa espacial chinês.

Mito1: A China está a fazer uma corrida espacial contra os EUA

Talvez o mito mais comum é de que a China está a desafiar directamente os EUA no Espaço. De facto, o Partido Popular da China tem mostrado interesse em desenvolver uma capacidade espacial quase desde a sua fundação em 1949. A China colocou em órbita o seu primeiro satélite em 1970, e o principal foco do programa espacial chinês tem sido a construção de sistemas que facilitem o desenvolvimento económico nacional, apesar da segurança nacional ser uma preocupação proeminente nos últimos anos.

Mito 2: A China está quase ao mesmo nível que os EUA no Espaço

A China é actualmente a única nação cujo programa espacial prevê colocar em órbita seres humanos. Com o fim do Shuttle, e com o falhanço da Rússia do lançamento do Progress M-12M (ISS-44P), levantou-se a questão se a Rússia terá capacidade para assegurar o tranporte para a Estação Espacial Internacional. A indústria espacial chinesa tem mão-de-obra mais jovem que a americana e consideravelmente mais nova e saudável que a russa. Os líderes chineses parecem comprometidos em manter os seus esforços espaciais sustentáveis para as próximas décadas.
Ainda assim os EUA ainda têm a liderança sobre a China de diversas formas, quer seja no campo dos satélites, como na capacidade de certos tipos de transportadores e acima de tudo nas operações espaciais.

Mito 3: A China quer cooperar com os EUA no Espaço

Os chineses não estão a competir com os americanos mas também não procuram desesperadamentente a sua cooperação. A China está a tentar obter as suas próprias capacidades e não precisa da tecnologia americana ou a sua permissão. A China não permite que outros determinem o rumo do seu desenvolvimento espacial. Isto não significa que a China recusasse cooperar se lhe pedissem. Contudo, os chineses apenas irão cooperar quando virem a oportunidade como forma de obter algum ganho e após analisarem de que forma isso serviria os interesses chineses.

Mito 4: O programa espacial chinês é sobretudo civil

A razão da preocupação com o programa espacial chinês, é que a China não separou o programa espacial civil do militar. O Excército Libertação Popular (ELP) está intimimamente envolvido nos esforços espaciais chineses. Cooperação espacial com a China irá inevitavelmente significar cooperação militar, já que o ELP está presente em todos os programas espaciais que a China está a desenvolver, em postos elevados da hierarquia.
Desta forma, qualquer tecnologia transferida para a China, de forma aberta ou em resultado de espionagem, irá provavelmente beneficiar o ELP. Isto é exacerbado pela falta de transparência do programa espacial chinês. Por exemplo, não é de conhecimento público quanto a China gasta no desenvolvimento do seu programa espacial.

Mito 5: A China está determinada em enviar um astronauta para a Lua (ou Marte)

Esta opacidade do programa espacial faz com que seja dificil prever quais os objectivos espaciais da China. Uma das questões mais colocadas é se a China pretende colocar um homem na Lua. Nesta altura, ainda não houve uma comunicação oficial sobre se a China tem interesse neste tipo de objectivo. Por este motivo, outros têm ponderado se a China não tem ambições mais elevadas, como uma missão tripulada até Marte.
Com isto em mente, o facto da China estar a aumentar as suas capacidades espaciais militares levanta questões sobre quais são realmente os objectivos chineses. A teoria de que a China estaria a concentrar-se no desenvolvimento espacial com fins económicos parece que aqui cai por terra com os programas espaciais mais orientados para nível militar. Como isto se conjuga com o programa lunar e de voos espaciais tripulados, até ao momento, só o futuro dirá.

1 comentário

    • Dinis Ribeiro on 02/12/2011 at 09:05
    • Responder

    Até concordaria (em parte) que existirá algum “exagero” ocidental em relação ao programa espacial Chinês.

    Uma parte dessas “críticas ocidentais” são um bocado do tipo de “Falácia do Espantalho” (Straw man argument) http://pt.wikipedia.org/wiki/Fal%C3%A1cia_do_espantalho

    Generally, the straw man is a highly exaggerated or over-simplified version of the opponent’s original statement, which has been distorted to the point of absurdity.

    This exaggerated or distorted statement is thus easily argued against, but is a misrepresentation of the opponent’s actual statement.

    Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Straw_man

    Em qualquer dos casos, tenho aguns comentários sobre a lista de “mitos”.

    Mito 1 – De facto, a expressão “corrida espacial” é muito discutível pois já não se trata do mesmo fenómeno específico que ocorreu nos anos 60 entre a URSS e os EUA. Também a ideia de que é uma corrida “contra” os EUA não me parece correcta. Penso que os esforços actuais têm mais a ver com a promoção da imagem internacional da China, e que em parte são até algo semelhantes aos avultados investimentos nos Jogos Olímpicos http://en.wikipedia.org/wiki/Beijing_Olympics (15 Bilion dollars)

    Mito 2 – Não penso que a China seja a´”única” a prever colocar humanos no Espaço. Os EUA nunca irão abrir mão dos voos espaciais tripulados. Apenas irão adoptar soluções mais competitivas e económicamente viáveis, o que não era o caso do Space Shuttle. A Russia também tem uma aposta “incontornável” nos voos tripulados. Em qualquer dos casos, concordo plenamente que a posição da China no Espaço ainda não está “quase ao mesmo nível” que a dos EUA, sobertudo ao nível das variadíssimas actividades do sector privado norte-americano.

    Mito 3 – Concordo com a análise.

    Mito 4 – Concordo com a análise. Contudo essa dinâmica afecta também um pouco todos os outros esforços espaciais em todo o mundo. Por exemplo, a própria ESA, supostamente 100% civil, tem vindo paulatinamente a aumentar as interfaces com os assuntos ligados á defesa. Por exemplo, todas as questões ligadas á Situational Awareness têm outras “ramificações adicionais”. http://www.esa.int/esaMI/SSA/

    Mito 5 – Concordo parcialmente com a análise. A Lua e Marte são talvez objectivos demasiado “convencionais”. A relação custo / benefício pode ser muito discutível (sobretudo para um primeiro passo), por causa dos elevados custos em combustível devido aos fortes campos gravíticos.

    Quem sabe? A China até poderá estar agora cada vez mais mais interessada nos Asteroides…

    A missão Russa (com participação Chinesa) que ia para Phobos, se não reentrar na atmosfera poderá vir a ser desviada para um Asteroide

    Phobos-Grunt mission scientist Alexander Zakharov said that if the spacecraft is fully operational, the best scientific mission for it would be to study a near-earth asteroid.
    http://www.newscientist.com/blogs/shortsharpscience/2011/11/phobos-mission-phones-home-as.html

    Chinese scientists have discovered a near Earth asteroid that, with a slight push, could enter Earth orbit http://www.technologyreview.com/blog/arxiv/27112/

    In an interesting twist regarding the study of asteroids and what happens when they come close to our planet, Hexi Baoyin and his two colleagues, Yang Chen and Junfeng Li at Tsinghua University in Beijing, China have been looking into the possibility of nudging one or more Near Earth Objects (NEOs) into an orbit around the Earth, initially for study, but later on, for the financial windfall that might be had if such an asteroid could be mined for its precious metals.

    The team, and everyone else presumably, has plenty of time to consider the practicalities and dangers of such a mission, however, as 2008EA9 won’t come around again until 2049.

    1) http://neo.jpl.nasa.gov/risk/2008ea9.html
    2) http://www.lpi.usra.edu/sbag/meetings/sbag2/presentations/PlymouthRockasteroidmission.pdf
    3) Paper: http://arxiv.org/abs/1108.4767
    4) http://www.physorg.com/news/2011-09-chinese-possibility-capturing-asteroids-earth.html

    Mas não concordo com a ideia de uma forte “dicotomia” entre os programas militares e os objectivos económicos. Penso que estão profundamente interligados.

    A NASA e a ESA apenas apostam nas actividades civis para obter um maior apoio político (e financeiro) nas sociedades democráticas ocidentais.

    Por exemplo, neste documento ( http://abundantplanet.org/files/to33-Space-policy-professionals-2009-08-07.pdf ) o Lt Col. Peter Garretson http://www.idsa.in/profile/pgarretson expressa uma opinião que penso que é prtilhada pelos militares (e também por muitos civis) de todos os países.

    “A 21st Century space policy … and accompanying vision, must redress the
    unbalanced emphasis in our civil space program from a narrow focus
    on science and exploration toward an appreciation and enablement
    of development, exploitation, and expansion of humanity’s
    sphere of economic activity.”
    —Lt. Col. Peter Garretson (2009)

    “Asteroids are a combination of long-term resource, potential threat,
    and great scientific interest. [This] sells a heck of a lot better
    to the general public than going back to the moon.”
    —Rusty Schweickart, Apollo Astronaut (2009)

    Por último, e para quiser aprofundar estes temas, penso que vale a pena estudar o modo como a China está a desenvolver o “seu GPS” pois ilustra bem toda esta problemática:

    Ver: http://en.wikipedia.org/wiki/Beidou_navigation_system

    Para a Lusofonia, há que equacionar a importância deste projecto:

    CBERS é a sigla para China-Brazil Earth-Resources Satellite; em português, Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Sat%C3%A9lite_Sino-Brasileiro_de_Recursos_Terrestres

    http://en.wikipedia.org/wiki/China%E2%80%93Brazil_Earth_Resources_Satellite_program

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