Adeus Lovejoy !

Conforme foi noticiado aqui pelo Sérgio Paulino, o cometa Lovejoy (designado oficialmente de C/2011 W3) foi descoberto fotograficamente pelo astrónomo amador australiano Terry Lovejoy no dia 27 de Novembro de 2011. Na altura o cometa tinha apenas magnitude 13 e não era de antecipar o espectáculo que viria a proporcionar um mês depois.


(O astrónomo amador australiano Terry Lovejoy. Crédito: Amy e Sarah Lovejoy)

Observações subsequentes, ao longo dos dias seguintes, permitiram calcular a sua órbita com precisão cada vez maior e foi com grande surpresa que os astrónomos verificaram que se tratava de um cometa da chamada Família de Kreutz, o primeiro a ser descoberto a partir da Terra em 40 anos. A Família de Kreutz é constituída por um conjunto de cometas com órbitas muito semelhantes e caracterizadas por terem distâncias ao Sol no periélio extremamente pequenas. Kreutz, um astrónomo alemão, notou pela primeira vez a semelhança entre as órbitas de vários cometas e propôs que a dita poderia ser explicada se todos esses cometas fossem fragmentos de um cometa muito maior cujo núcleo se teria desintegrado numa passagem pelo periélio, na antiguidade.

Desde o aparecimento do cometa Ikeya-Seki, em 1965, o mais brilhante do século XX e talvez o membro mais famoso desta família, foram descobertos vários cometas da família mas a maioria nem sequer sobreviveu à passagem pelo periélio. Havia portanto alguma espectativa relativamente ao desempenho do Lovejoy. Foi assim com natural excitação que a comunidade astronómica verificou que o cometa sobreviveu à passagem pelo periélio, que teve lugar exactamente no dia 16 de Dezembro de 2011 às 00:17 UTC. Na altura o Lovejoy passou apenas 140 mil quilómetros acima da fotosfera solar. O cometa foi observado nesta parte da sua órbita por uma frota sem precedentes de satélites de observação solar: o SDO (Solar Dynamics Observatory), o STEREO (Solar TErrestrial RElations Observatory) e o SOHO (Solar and Heliospheric Observatory).

Após a passagem pelo perihélio o cometa passou a ser visível no céu de madrugada, por volta do dia 20 de Dezembro, primeiro a sua cauda projectada do horizonte e poucos dias depois também o falso núcleo e a cabeleira. Como é habitual com estes cometas, o espectáculo foi efémero e no final do ano o Lovejoy era já uma sombra do que tinha mostrado apenas uma semana antes, resultado do seu rápido afastamento do Sol (e da Terra) a caminho do Sistema Solar exterior. Deixo-vos aqui com algumas imagens deste cometa que para os nosso amigos do hemisfério sul constituiu uma inesperada prenda de Natal.


(20 de Dezembro de 2011, Vello Tabur, Austrália)


(21 de Dezembro de 2011, Colin Legg, Austrália)


(22 de Dezembro de 2011, astronauta Dan Burbank, Estação Espacial Internacional)


(23 de Dezembro de 2011, Stéphane Guisard, Chile)


(23 de Dezembro de 2011, Stéphane Guisard, Chile)


(23 de Dezembro de 2011, Guillaume Blanchard, Chile)


(23 de Dezembro de 2011, Barry Armstead, Austrália)


(23 de Dezembro de 2011, Barry Armstead, Austrália)


(23 de Dezembro de 2011, Colin Legg, Austrália)


(23 de Dezembro de 2011, Gordon Garrad, Austrália)


(23 de Dezembro de 2011, Lester Barnes, Austrália)


(24 de Dezembro de 2011, Luc Perrot, Ilha da Reunião)


(24 de Dezembro de 2011, Luc Perrot, Ilha da Reunião)


(24 de Dezembro de 2011, James Tse, Nova Zelândia)


(24 de Dezembro de 2011, Gordon Garrad, Austrália)


(25 de Dezembro de 2011, Dave Liu, Austrália. Na imagem, à direita e de cima para baixo são bem visíveis Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu a Alfa da constelação da Quilha, a Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães. As duas estrelas brilhantes à direita e junto à extremidade da cauda do cometa são, em baixo, Alfa do Centauro, em cima, Beta do Centauro. Continuando pela Via Láctea podem ver-se a nebulosa escura do Saco de Carvão e as estrelas do Cruzeiro do Sul logo a seguir. A zona mais brilhante da Via Láctea contém a nebulosa da estrela Eta da Quilha – “Eta Carinae”, visível como uma mancha de forma irregular e saturada na imagem.)


(26 de Dezembro de 2011, Shevill Mathers, Tasmânia)


(26 de Dezembro de 2011, John Drummond, Nova Zelândia)


(28 de Dezembro de 2011, Rudi Vavra, Austrália)


(30 de Dezembro de 2011, Rudi Vavra, Austrália)


(31 de Dezembro de 2011, Kos Coronaios, África do Sul)

5 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

  1. Excelente apanhado, Luís! 😉

  2. É um espetáculo perigosamente belíssimo. Sempre 😉

    Seria deveras interessante se todas as pessoas tivessem um interesse verdadeiro pela Astronomia…

    P.S.: O Luís Lopes na foto está bem parecido com o Dr. House:

    http://2.bp.blogspot.com/-OuZo4VMYjSg/TVu9i5SRFPI/AAAAAAAADww/lG1CPBJUDrs/s1600/drhouseeeeeeeeee.jpg

    1. 😉

  3. Só uma correção ao nível do português não muito importante: onde diz “(…) desintegrado numa passagem pelo perihélio, na antiguidade.” e “Após a passagem pelo perihélio o cometa (…)” deveria ler-se periélio.
    Abraço!

    1. Bem visto, pensava que tinha apanhado os erros todos… 😉
      Obrigado !

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.