Obviamente, demasiado Sol

Uma cidadã não-identificada da localidade de Wolfhalden, no leste da Suíça, viu um documentário sobre um guru indiano que «vivia há 70 anos sem comer nem beber», alimentando-se apenas de ar e raios do Sol.

Impressionada, a senhora decidiu iniciar a sua própria dieta solarenga. Semanas depois, morreu à fome.

Teorias de cortar a respiração

Terá a senhora ascendido à «Terra Primordial» ou «Nova Terra»? Tudo é possível no Reino da Suprema Estupidez.

Segundo Wiley Brooks, líder do Instituto Respiratoriano da América, a Nova Terra fica lá para os lados da «quinta dimensão – um mundo sem as vibrações do medo ou da dor.» Este é um mundo onde «se sente amor, paz e alegrias incríveis», amor e alegria com os quais «apenas podemos sonhar neste mundo tridimensional onde vivemos».

Andaram os desgraçados dos físicos a partir a cabeça com a teoria de Kaluza-Klein sem sequer suspeitar que a «dimensão escondida» no espaço-tempo de Einstein estava ao alcance de um comprimido de Xanax.

Wiley Brooks, 74 anos, «professor especialista em ascenções» (nada a ver com elevadores) explica na página de perfil que a sua missão é povoar a «Terra Primordial» de tantos humanos quanto lhe for possível antes de 20 de março de 2013.

Wiley Brooks é um respiratoriano há 30 anos – isto significa que, «sob determinadas circunstâncias», consegue viver sem ingerir «comida física».

As pessoas que costumam afirmar «desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me surpreende» talvez ainda não conheçam o Respiratorianismo.

Sim, é um nome difícil, mas garanto-vos que é ainda mais complicado de aceitar do que soletrar. Seja como for, ambos os fenómenos – o ser humano a alimentar-se de ar e luz do Sol, e o porco a andar de bicicleta – podem ser explicados da mesma forma.

Segundo esta página, o Respiratorianismo «é um estado do ser humano, caracterizado (entre outras coisas) pela abstinência de comida, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual a pessoa vive».

Respiratorianismo versus Ciclosuinismo

A caracterização de um respiratoriano é maravilhosamente flexível e pode ser usada para explicar o fenómeno do porco ciclista.

Vamos experimentar? O Ciclosuinismo é «um estado do porco, caracterizado (entre outras coisas) pela capacidade em andar de bicicleta, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual vive».

Como sempre acontece, as expressões-chave usadas por mentes iluminadas como a de Wiley Brooks são precisamente aquelas que nada significam – não significando nada em concreto, podem ser interpretadas segundo as conveniências de cada um.

Com jeitinho, poderíamos usar a expressão «expansão da esfera consciencial» para explicar fenómenos que não conseguimos compreender como, por exemplo, a fotossíntese – não por serem transcendentes mas por serem científicos e não percebermos um boi do que é a Ciência e de como esta transforma hipóteses em teorias verificáveis sem o auxílio de esferas conscienciais.

«Em geral», prossegue o texto, «um respiratoriano ideal (totalmente realizado) não necessita comer e nem beber água para manter o corpo funcionando perfeitamente. Um respiratoriano não consome comida e nem líquidos (incluindo água), ele precisa somente de ar para nutrir o seu corpo.»

O ser humano necessita apenas de ar para comer e o porco só precisa de uma bicicleta para que consiga pedalar. Tudo é possível de acontecer quando a esfera consciencial se expande.

Não és um Homem, és uma planta

Wiley Brooks e todos os outros profetas da sub-nutrição querem fazer-nos acreditar que o ser humano, tal como as algas, as plantas e algumas bactérias, é capaz de produzir o seu próprio alimento a partir do dióxido de carbono. Possuímos a capacidade de nos tornarmos seres autotróficos e usarmos a fotossíntese se conseguirmos expandir a esfera consciencial.

O único momento da vida onde pareço estar a expandir a minha esfera consciencial é nas caretas que faço quando estou na casa de banho com prisão de ventre – mas quem sou eu, pobre terrestre de terceira dimensão, para entender coisas tão espiritualmente elevadas? Eu faço parte do grupo de gente bizarra que precisa de comida para fornecer energia ao organismo.

Não obstante o meu ceticismo, as seguintes questões mantém-se válidas: o que é e como se consegue expandir a esfera consciencial?

A resposta é simples: recorrendo aos ensinamentos pagos de pessoas como Wiley Brooks, o ascensorista das almas. E de que forma passamos a saber da existência de pessoas como Wiley Brooks? Através de documentários onde alegações insanas nos são apresentadas sem o espírito crítico que recuperaria a verdade dos factos e a sanidade mental do espectador, mas prejudicaria o espetáculo circense – documentários como o que a senhora na Suíça terá visto.

Claro que a livre circulação de informação também pode prejudicar os vigaristas, ao invés de os beneficiar. Que o diga o nosso respiratoriano Brooks, que em 1983 foi apanhado a sair de uma loja 7-Eleven (uma marca de lojas de conveniência) com um refrigerante gelado, um cachorro-quente e um bolinho twinkie, hum, que delícia cremosa, muito melhor do que apanhar um escaldão. Terá sido uma semana muito chuvosa?

Em 2003, com o negócio da sub-nutrição a falhar, Brooks foi obrigado a dar umas quantas explicações: a culpa era da poluição do ar – o que faz sentido, pois ninguém gosta de ingerir comida estragada. Antecipando futuras transgressões à dieta de Sol e ar, ressalvou que consumir o ocasional cheeseburguer e uma coca-cola lhe permitia «adicionar equilíbrio» num mundo repleto de restaurantes fast-food e junk-food – uma explicação tão satisfatória como a esfera consciencial em expansão. E afirmou também que Diet Coke é «luz líquida».

Conclusão: se te faltar a luz em casa não uses lanternas, bebe Diet Coke! Nem os criativos do Marketing da Coca-Cola seriam capazes de nos impingir esta.

Ciência, só depois de amanhã

Quem diz que se alimenta de ar só pode influenciar cabeças cheias de ar. Não se trata de ter uma «mente aberta», como tantas vezes se ouve dizer como resposta às vozes céticas, mas de a ter quase completamente oca, a ponto de desprezar as evidências e muitos séculos de aprendizagem médica. Mente aberta, neste caso, é sinónimo de mentir abertamente.

O guru indiano tem uma teoria fundamentada e verificada por fontes independentes? Não. Os trinta médicos que o observaram partilharam os seus resultados com a comunidade científica? Não, preferiram contar a história aos jornalistas. As condições em que o guru da anorexia solar foi observado foram rigorosas? Não, pois nem sequer se procedeu a uma vigilância 24 horas por dia.

O que temos são «histórias» – e «histórias» nem são provas nem teorias. E esta tem como protagonista um vígaro sobre o qual o AstroPT já escreveu o suficiente.

A ideia de suprimir a voz destes loucos e vigaristas é atraente, mas contra-producente: não só cultivamos um fruto proibido como perdemos uma excelente oportunidade de aproveitar o interesse das pessoas nestes pseudo-fenómenos circenses para contrapor uma boa dose de análise crítica.

E foi essa oportunidade que o sítio Ciência Hoje perdeu, quando divulgou a história do guru indiano acima mencionado sem se preocupar com as suas responsabilidades pedagógicas. O artigo acabou por desaparecer nas sombras de um eclipse solar e só a cache lunar do Google prova que alguma vez existiu. O sítio soube reconhecer o erro e, como tantas vezes tem feito, abraçou a Luz – a luz do Conhecimento, claro.

Post-it para colar nos ecrãs do Ciência Hoje: a ausência de espírito crítico num sítio de Ciência que escolhe divulgar estes fenómenos só contribui para que vígaros como Wiley Brooks continuem a povoar a «quinta dimensão». Antes de apagar, expliquem porquê. Um post não é propriamente um Triângulo das Bermudas.

3 comentários

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  1. Mas afinal temos um órgão escondido para transformar C02 em matéria orgânica ou isso é feito na zona do cérebro que as pessoas deveriam usar para pensar? As pessoas não vêem que isto é tudo vigarice???

  2. Agradeço, Marco, por citar o artigo que escrevi sobre o Triângulo das Bermudas. 😉

    Mais uma vez, parabéns pelo post muito bem escrito, sabiamente estruturado. Tanto ímpar, quanto de utilidade pública. Espero que as pessoas conscientizem-se dessas vigarices e que este artigo chegue ao máximo de pessoas possíveis.

    Abraços cordiais.

  3. Olá Marco,

    Os que crêem nestas parvoíces… não se ficam pelo Sol.
    Vê por exemplo, este livro que nos diz que a Terra é plana, e por isso podem “comer melhor” do Sol:
    http://www.vibrakeys.com/wordpress/wp-content/uploads/2010/05/TheEarthwasFlat.jpg
    Para eles, TUDO é possível:
    http://www.goodreads.com/book/show/191237.The_Earth_Was_Flat

    E quanto custa para saber deste disparate?
    http://www.amazon.com/The-Earth-Was-Flat-Sungazing/dp/1413492363/
    100 euros…

    Está bom de ver qual é o objectivo…

    Enfim…

  1. […] Pulseiras Quânticas (fraude, falência). Indiano de 179 anos. Prahlad Jani (morte, Respiratorianismo). Boriska. Braco. Reiki (patetice). Terapias Alternativas. Leitora de sina. Parvalhão. Intuitos. […]

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