Buracos Negros são Tubarões que vivem calmos

Os astrónomos tiveram o raro privilégio de assistir em “tempo real” à sucção duma estrela por um buraco negro supermassivo quando esta se aproximou muito perto dele. Os cientistas acreditam que tal fenómeno ocorre em média uma vez a cada 10 mil anos numa dada galáxia.

“Os buracos negros são como tubarões, erroneamente partimos do princípio de que eles são perpétuas máquinas de matar. Na realidade, eles mantém-se calmos durante a maior parte de suas vidas. Mas, ocasionalmente, uma estrela aventurou-se muito perto, e este é o lugar onde o frenesim sanguinário se desenrola”, disse Ryan Chornock, Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, co-autor do estudo publicado na passada quarta-feira (2 de Maio de 2012) na revista científica Nature.

Os buracos negros supermassivos, que são entre um milhão e mil milhões de vezes mais massivos do que o nosso sol, espreitam a partir do centro da maioria das galáxias no universo. Pode-se detectar alguns graças à intensa radiação que eles emitem quando aspiram os gases localizados na sua vizinhança. Mas, se o meio ambiente dos buracos negros for pobre em gás, esta radiação é baixa. Por isso, é particularmente difícil estudar buracos negros “dormentes”, excepto quando estes são surpreendidos em acção, o que foi conseguido por Ryan e Suvi Gezari Chornock, da Johns Hopkins University.

A “Digestão” do coração de uma gigante vermelha

31 de maio de 2010, com o objectiva do telescópio Pan-Starrs no Havai, eles encontraram um brilho inesperado proveniente do coração duma galáxia situada a 2,7 mil milhões de anos-luz. O brilho tornou-se cada vez mais intenso, atingindo o seu clímax em 12 de Julho, antes de desaparecer gradualmente. “Nós vimos o fim de uma estrela e a sua digestão pelo buraco negro em tempo real”, disse Edo Berger, que participou no estudo.

Este brilho provinha de um buraco negro supermassivo que estava anteriormente no estado “adormecido”, com uma massa de cerca de três milhões de vezes a do Sol, equivalente à do buraco negro no centro da nossa galáxia, a Via Láctea. A estrela engolida pelo buraco negro aproximou-se tanto dele que as “forças de maré” geradas pelo campo gravitacional do buraco negro literalmente desmembraram-na. Os seus gases constituintes foram sugados para dentro do buraco negro, passando por uma ascensão nos registos da temperatura que produziu o brilho observado pelos astrónomos.

A análise do fenómeno revelou que, neste caso, o buraco negro tinha empanturrado grandes quantidades de hélio. Isto significa que a estrela foi absorvida pelo coração de uma “gigante vermelha”.

O envelope de hidrogénio, que foi a sua atmosfera, provavelmente já foi digerido por uma passagem anterior perto do buraco negro. “A estrela sobreviveu ao seu primeiro encontro com o buraco negro, e à segunda rodada foi fatal”, explica Ryan Chornock.


Vejam o assassinato estelar, nesta simulação feita pelos cientistas:



Por seu turno, o objecto “Sgr A *” (Sagitário A Star), o buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia, está prestes a engolir uma grande nuvem de gás que dele se aproxima. A velocidade dessa nuvem quase duplicou nos últimos sete anos e já atingiu 8 milhões de km/h. Durante o Verão de 2013, a nuvem irá aproximar-se a 40 mil milhões de quilómetros de distância do “horizonte de eventos” do buraco negro, limite a partir do qual o que acontece permanece inacessível, e onde nem a luz nem a matéria podem escapar e revelar o que ali se desenrola.

Agradecemos à leitora do astroPT, Maria de Fátima Carmo, por ter proporcionado a notícia deste trabalho de Astrofísica no nosso mural no Facebook.

Foi um excelente testemunho da participação dos nossos leitores. a quem coloco a seguinte questão:

Acham que os tubarões são calmos ou são terríveis máquinas devoradoras?

Tubarão-baleia em Moçambique

Grande Tubarão-Branco

11 comentários

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  1. Obrigada pelo privilégios amigos !! Boa Noite para vocês também !! = D

  2. Aline Carvalho, boa-noite e seja muito bem vinda ao Astro Pt :))

  3. Cá está: AstroPT no seu melhor. Obrigado, Manel.

      • Manel Rosa Martins on 08/05/2012 at 16:25
      • Responder

      Marco, Diana, ainda esta tarde falei deste tema, os buracos-negros vistos pelos hábitos dos tubarões, a um miúdo que se aprestava para ir fazer os trabalhos da escola. Clarro que lhe disse que alguns tubarões e os buracos negros supermassivos são enoooooormes. :))

      E então ele começou a fazer muitas perguntas e ficou muito interessado no tema. A Mãe, que estava atenta à “manobra,” disse: quando acabares os trabalhos de casa vamos ver esse post no astropt.

      Então, se isso é assim, não vejo melhor maneira de verificarmos que esta é uma forma correcta e firme de aprendizagem de Astrofísica.

      Repara que se está a ligar um fenómeno fascinante mas abstracto e longínquo com animais que reconhecemos pela educação e pela indústria do cinema. E que já vimos alguma vez nalgum local: no mar, nas docas de pesca, nos Aquários ou nos Oceanários.

      Podemos assim identificar melhor um comportamento que nos é abstracto doutro que nos começa a ser familiar.

      E nós, os cientistas, ficamos com a curiosidade aumentada para estudarmos, nas diversas competências, estes fenómenos.

      Temos muito a descobrir sobre os buracos-negros, e muito também por descobrir sobre os tubarões.

  4. Manel, um post muito claro e interessante! 😉

    Quem diria que é possível ensinar astrofísica com o recurso à biologia dos tubarões?
    Os visitantes do Faial, fãs do Norberto, saberão que os tubarões podem ser observados tranquilamente a vaguear pelas águas límpidas daquelas paragens…
    Quando precisam, alimentam-se. Naturalmente.
    🙂

    • Alfredo Linhares on 08/05/2012 at 02:41
    • Responder

    ao contrario dessa nuvem de gas, estamos a salvo caso o buraco negro no centro de nossa galaxia comece a devorar?

    1. Sim, totalmente.

      Os buracos negros, como qualquer objecto no espaço, só “devoram” devido à gravidade que têm. Neste caso, o alcance é limitado 😉

      Estamos mais longe do buraco negro, do que comparativamente Plutão está do Sol. Plutão não será engolido pelo Sol, assim como nós nunca seremos engolidos pelo buraco negro 😉

      abraços

        • Alfredo Linhares on 08/05/2012 at 18:28

        bom, eu sei que não tem perigo, afinal estamos aqui ainda hoje e não fomos sugados, mas é sempre bom ter a confirmação de um especialista 🙂

  5. Ora aí está um devorador com apetite astronómico.
    Já pensaram a força gravitacional que tem um buraco negro para “sugar” uma gigante vermelha?
    Claro que a massa da gigante vermelha é inferior do buraco negro. Mas, imaginem por momentos as linhas de campo gravitacional contorcerem-se todas… espectáculo sideral!

      • Manel Rosa Martins on 07/05/2012 at 23:56
      • Responder

      Difícil de imaginar tamanha dinâmica, José :))

      Mas este vídeo com música dos Chemical Brothers sempre ajuda.

      http://www.youtube.com/watch?v=VvhimW97Kj4

  6. *****
    Agradecemos à leitora do astroPT, Maria de Fátima Carmo, por ter proporcionado a notícia deste trabalho de Astrofísica no nosso mural no Facebook.

    Foi um excelente testemunho da participação dos nossos leitores. a quem coloco a seguinte questão:

    Acham que os tubarões são calmos ou são terríveis máquinas devoradoras?

    http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01515/shark_1515908c.jpg

  1. […] Estes buracos negros estão hiper activos, devorando gases, poeira, estrelas inteiras ou as suas atm… […]

  2. […] Via Láctea. Enorme Halo. Nuvem de Smith vai colidir com Via Láctea. Jantar de Buraco Negro. Buracos Negros são Tubarões. Nuvem molecular em forma de trança. Andrómeda (comprimentos de onda, visível). Milkomeda (aqui […]

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