Divulgar ciência vai ajudar a sua carreira, não atrapalhar

Sim, divulgar pode te ajudar, caro cientista!

Cientistas precisam publicar artigos, dar aulas, preparar apresentações, escrever projetos e mais um tanto de coisas… isso tudo toma muito tempo. Não é a toa que muitos não se dedicam a atividades vistas como menos importantes para a sua carreira, como a divulgação científica. Com o objetivo de desmascarar alguns mitos sobre esse tema, pretendo mostrar neste texto que divulgar ciência pode tomar pouco do seu tempo e oferecer diversas vantagens com repercussões diretas e positivas para a sua carreira.

“Tenho que publicar artigos, não tenho tempo para isso.”

Primeiramente, não é necessário ter muito tempo sobrando para manter uma divulgação regular da sua área. Na verdade, esta atividade deveria tomar pouco do seu tempo se você souber como fazê-la. O que você realmente precisa é de criatividade, prática e motivação. A prática de elaboração deste tipo de texto resulta na consolidação de conhecimentos práticos que vão cada vez mais te tornando “eficiente” e demandando menos tempo de dedicação. E, é claro, para não morrer na praia, como acontece com muitos blogs, é necessário manter uma motivação orientada a metas de longo prazo, algo que pode ser conquistado compreendendo como esta atividade pode lhe render bons frutos (continue lendo o texto para chegar nisso!).

“Isso não vai contar nada para a minha carreira.”

Na verdade, vai sim! Para se atualizar sobre isso, leia aqui e aqui. Resumindo a história, o CNPq vai acrescentar em breve um espaço no currículo Lattes para contemplar as atividades de educação e divulgação científica, e estas atividades passarão a ser consideradas pelos comitês de avaliação de projetos do CNPq para concessão de financiamentos. Pois é, a coisa está ficando séria… mas as vantagens da divulgação para a sua carreira vão bem além disso…

“O que eu ganho com isso?”

A divulgação pode permitir uma grande visibilidade do pesquisador em relação à comunidade científica e a população de maneira geral. Se você divulga o seu trabalho de maneira descomplicada em um blog, é muito mais provável que as pessoas conheçam o seu trabalho do que se você apenas publica o trabalho nas revistas especializadas. Existem dados indicando que artigos que são divulgados em blogs tem um número consideravelmente maior de acessos do que artigos que não são divulgados. Além disso, existem também evidências de que pesquisadores que blogam regularmente são mais admirados e reconhecidos pelos seus colegas de área.

Ganhando visibilidade, os professores poderão atrair não só os alunos da sua própria universidade como alunos de outras universidades que estejam pensando em fazer uma pós-graduação e até mesmo os alunos de ensino médio que ainda estão decidindo que curso irão fazer. Como muitos deles vivem fuçando coisas na internet, este é um meio especialmente interessante para alcançá-los com a divulgação. Aqui o ganho na carreira é direto, pois os professores dependem de alunos para efetuar coletas de dados e ajudar a manter a produtividade regular. Isso envolve, necessariamente, ter alunos de graduação e pós graduação interessados disponíveis, mas estes alunos dificilmente vão ter interesse na linha de pesquisa do professor se não a conhecerem (com exceção dos alunos da própria universidade que em algum momento poderão fazer disciplinas com o professor), e por isso divulgar se torna uma ferramenta estratégica para manter o laboratório com novos alunos motivados a cada ano (principalmente se a sua linha de pesquisa é menos conhecida). Se isso pode ser feito de forma gratuita e simples pela internet, a pergunta crucial é: “Por que não fazer?”

Mais do que isso, a prática de divulgar sua área para um público leigo terá repercussões para a sua própria capacidade de escrever e se comunicar enquanto cientista, coisas que definitivamente terão implicações para o sucesso da sua carreira acadêmica. Exercitando a escrita clara, objetiva e sucinta em textos de divulgação, você certamente estará melhor preparado na hora de escrever aqueles sonhados papers! Não se iluda achando que blogar é apenas um passa tempo e que você já treina a sua escrita o suficiente quando escreve seus artigos, sempre podemos (e devemos) melhorar nossa capacidade de se comunicar, e o blog oferece uma forma de manter esse ritmo durante os intervalos que dividem o período de elaboração de manuscritos (ou seja, durante as coletas, as análises de dados).

“Mas ninguém me incentiva…”

Além da recente iniciativa comentada anteriormente, o CNPq já oferece todos os anos diversos editais e prêmios incentivando a atividade de divulgação. Um exemplo é este edital aqui (da uma olhadinha no dinheirinho disponibilizado). O Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica é outro exemplo do incentivo que o CNPq tem oferecido à divulgação. Diversas universidades federais também oferecem editais de financiamento para este tipo de atividade, basta dar uma procurada. E até a revista Nature andou incentivando os cientistas a invadirem a blogosfera.

“Ok, estou convencido, mas por onde eu começo?”

Hoje em dia, abrir um blog na internet é fácil e gratuito. Entre as várias plataformas disponíveis, as mais usadas são o WordPress e o Blogspot. Se você clicar aqui, vai cair direto em uma página do WordPress na qual você pode iniciar imediatamente o seu blog de maneira gratuita (basta clicar no “Get started here”). Aqui você pode iniciar um blog no Blogspot. Os ambientes de edição destas plataformas são bem intuitivos e simples, além do que existem diversos tutoriais e fóruns na internet que podem te ajudar a mexer no blog.

Divulgação não se resume a manter blogs ou páginas na internet. Exemplos de outras iniciativas importantes não faltam. Rubens Pazza, professor de biologia na Universidade Federal de Viçosa (UFV), é um ótimo exemplo da nova geração de professores antenados nisso – além de estar imerso em diversos projetos de pesquisa, ele mantém projetos de divulgação como a excelente Folha Biológica (em parceria com a Karine Frehner Kavalco), um periódico impresso de divulgação da biologia que é distribuído a mais de 200 escolas, e o Rock com Ciência, um podcast descontraído que mistura divulgação científica com um bom rock. Vale a pena ver essa reportagem que saiu no programa Hoje em Dia da Record sobre a Folha Biológica.

Outro exemplo é o programa de rádio semanal Fronteiras da Ciência, organizado por um grupo de professores do departamento de física e biofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No programa, os professores sempre chamam um convidado para discutir sobre alguma questão ou área da ciência. Não precisa nem dizer que o programa é o maior sucesso entre os estudantes né…

Outro professor que está ajudando a quebrar os mitos envolta dos custos envolvidos na divulgação científica é o Adilson J. A. de Oliveira, professor de física na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que além de manter pesquisas sobre magnetismo e supercondutividade coordena o Laboratório Aberto de Interatividade para a Disseminação do Conhecimento Científico e Tecnológico (LAbi). Além disso, mantém um blog de divulgação, uma coluna no Ciência Hoje, é editor da revista de divulgação Click Ciência e coordena um projeto de educação científica para jovens.

Estes são exemplos práticos de que é possível manter uma carreira acadêmica produtiva e, ao mesmo tempo, uma atuação efetiva na divulgação científica.

Dicas para blogar sustentavelmente

Esse texto traz algumas dicas importantes para cientistas ocupados conseguirem blogar. Baseado nele e em ideias minhas (que algumas vezes divergem das do texto), seguem algumas dicas que podem tornar essa atividade prazerosa e sustentável:

1. Escreva textos pequenos, de preferência em uma linguagem que até a sua vovózinha querida conseguiria entender, o que não exclui a possibilidade de escrever alguns textos mais profundos e técnicos voltados para os colegas da sua área. O que importa é o seguinte: não perca muito tempo ou letras no texto, aborde temas pontuais.

2. Selecione esta atividade como “parte da sua agenda“, e não como algo totalmente opcional. Se ela não fizer parte da agenda, sempre vão existir outras atividades que você priorizará e esta atividade pode demorar para virar um costume (que é quando a coisa fica boa).

3. Tente manter alguma periodicidade, como textos semanais ou quinzenais, pelo menos no começo. Blogs com pouca ou nenhuma periodicidade acabam ficando às moscas e sendo progressivamente esquecidos e abandonados pelos próprios donos.

4. Escreva sobre o que você anda lendo e pesquisando, aproveite anotações feitas das suas leituras e transforme-as em um texto para um público maior. Assim fica fácil ter sempre algo para escrever no blog, já que um bom cientista sempre está com uma pilha de artigos e livros para ler.

5. Use esse espaço para manifestar opiniões e mobilizar a sua comunidade. O exemplo recente do boicote organizado contra a Elsevier mostra o poder político que os blogs vêm alcançando na nova era da ciência aberta, que está chegando para ficar. Que outros tipos de impacto uma mobilização entre profissionais de uma área poderia ter aqui no Brasil? Que tal conseguir arrecadar fundos para projetos científicos pelo blog, como fez o Otto Heringer do blog SynbioBrasil? Revisão por pares após publicação, organização de projetos de pesquisa em larga escala, debate aberto entre cientistas sobre mudanças necessárias nas suas práticas… tudo isso e um pouco mais está atingindo progressivamente a comunidade científica por meio de blogs e páginas na internet, você não vai querer ficar de fora, vai?

E como disse Carl Sagan em um dos seus mais famosos livros:

“Divulgar a ciência – tentar tomar os seus métodos e descobertas acessíveis aos que não são cientistas – é o passo que se segue natural e imediatamente. Não explicar a ciência me parece perverso. Quando alguém está apaixonado, quer contar a todo o mundo (p. 42, Sagan, 2006).”

Referências:

Sagan, C.(2006). O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.

1 comentário

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  1. Interessantes pontos de vista!
    É bom ver que a divulgação está a ser incentivada no Brasil
    Essa parece ser a tendência internacional, realmente.
    Vamos lá ver se chega a Portugal…aqui, a sensação que tenho é que está muito reduzida ao trabalho dos “communication offices” de cada instituição e é pouco acolhida pelos cientistas que estão “no terreno”. Há excepções, claro.
    Mas seria bom que deixassem de o ser 😉

  1. […] e Efemérides. Facebook (favorito, alcance). YouTube. Google+. Mobile. Valor da Divulgação. Divulgar ciência. Futuro. Blog do Ano em Ciência (2012, 2013). TOP 100. TOP 100 dos posts, […]

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