O berlinde e o abafador

De 120 em 120 anos, mais ou menos (*), o planeta Vénus fica entre nós e o Sol – o trânsito de Vénus, como é vulgarmente chamado pelos astrónomos.

O fenómeno só voltará a repetir-se quando todas as pessoas que conhecemos, velhas ou recém-nascidas, já tiverem desaparecido. A nossa existência é efémera e os mecanismos do Universo continuarão a funcionar segundo as leis da Física, indiferentes às nossas ideologias, crenças, necessidades ou pancadas.

São as pancadas que me irritam. Até chegarmos ao final de 2012, os sítios na Internet e os canais de televisão irão massacrar-nos – sem escrúpulos ou respeito pelo conhecimento – com fantasias senis envolvendo profecias de civilizações antigas, planetas fantasmas, buracos negros histéricos, cometas vagabundos, juízos finais e outras catástrofes de fim de Mundo.

Chegará o tempo em que poderemos brindar à clarividência dos idiotas quando assinalarmos o início de 2013, mas, para já, considerem as magníficas fotos que foram tiradas.

Crédito: Carlos Gotay

Crédito: NASA/Solar Dynamics Observatory

Crédito: Jane Kratochvil

Crédito: NASA/Solar Dynamics Observatory

Crédito: Kevin Frayer/AP

Crédito: JAXA/NASA/Lockheed Martin

Crédito: Macey Zavala

Crédito: Chris Hetlage

Crédito: Manan Vatsyayana/AFP/Getty Images

Crédito: Gene Blevins/Reuters

Crédito: Prakash Mathhema/AFP/Getty Images

Crédito: Charlie Riedel/AP

Crédito: AFP/Getty Images

Como raio soubemos com tanta precisão que o planeta Vénus iria passar diante do Sol a 5 de junho? Teremos adquirido esse conhecimento com a astróloga Maya? Terão os velhinhos calendários da civilização Maia dado uma ajuda?

A resposta poderá ser dececionante para os adeptos de profecias ou demais tretatologias cósmicas que abundam na Web, mas aqui vai: pudemos «prever» a passagem de Vénus porque, em primeiro lugar, a Humanidade aprendeu a dominar uma linguagem que muitos – conspiracionistas e inquisidores anti-Ciência incluídos – desprezaram na escola.

(*) Jeremiah Horrocks propôs que os trânsitos venusianos ocorrem aos pares, de 8 em 8 anos, no primeiro par e ainda em cada 105.5 anos ou 121.5 anos, alternadamente, no segundo par. Leiam, aqui.

4 comentários

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  1. WOW!
    A foto da Jane Kratochvil é linda!!!

    E o texto muito bom, como sempre 😉

    • Manel Rosa Martins on 12/06/2012 at 00:46
    • Responder

    Jeremiah Horrocks calculou com exactidão os trânsitos de Vénus, isto em 1639, utilizando as Leis de Kepler e os seus próprios cálculos matemáticos.

    Um par intervalado por 8 anos, 2004 e 201, e o próximo será daqui a 105 anos e meio, em Dezembro de 2117.

    Convém só acrescentar o óbvio: que se tratam dos trânsitos de Vénus vistos a partir da Terra, pois outros podem ser observados doutros pontos do espaço.

    Hoje o avanço da matemática e das tecnologias permite calcular com relativa facilidade (com um sinal de radar) as distâncias exactas dos astros do Sistema Solar.

    Desta forma, por exemplo, sabemos que as constelações não passam de referências que são uma ilusão de óptica provocada simplesmente por estarmos na Terra.

    Assim, percebemos que toda a astrologia é uma vigarice sem nexo, pois no dia em que nascemos as estrelas apresentam-se como estavam há mil anos, ou mais.

    Afinal um trânsito é um simples eclipse. e em vez dos disparates apatetados que os pseudos vêem nos eclipses, a matemática denúncia a astrologia como uma mera actividade totalmente falsa.

    No entanto, os cientistas, que têm a mentalidade muito mais curiosa em relação ao desconhecido, estudam a mitologia a a astrologia antigas para verem como atrasada estava a humanidade e para compararem referências de descrições de fenómenos, já que na Idade das Trevas em que a Humanidade se arrastava numa miséria total ambas as actividades estavam ainda mal separadas.

    É esse o mundo das trevas: o dos pseudos.

    E o de Jeremiah Horrocks e o da Ciência é o mundo da luz, da curiosidade e do conhecimento.

    parabéns pelo post e obrigado pelo link 🙂

  2. “Nunca é tarde para reaprendermos” 😉

    Excelente artigo (novamente), Marco.

    😉

    Abraços.

  3. “pudemos «prever» a passagem de Vénus porque, em primeiro lugar, a Humanidade aprendeu a dominar uma linguagem que muitos – conspiracionistas e inquisidores anti-Ciência incluídos – desprezaram na escola.”

    Pois… a famosa matemática, que separa os vigaristas daqueles que têm o conhecimento do Universo 🙂

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