Vida nos vulcões “marcianos” da Terra

Alguns dos locais mais inóspitos do nosso planeta podem ter características que se assemelhem àquelas de Marte. A descoberta de vida nestes locais permite fazer algumas especulações sobre putativas formas de vida que poderiam viver nesse mítico planeta. Esse é um dos campos de estudo da Astrobiologia, já tantas vezes mencionada neste blog, ou não fosse o seu criador um professor dessa disciplina.

As novidades que nos chegam dos EUA esta semana é que foram encontrados mais um conjunto de organismos extremófilos que vivem nas encostas de vulcões, com condições de tal forma inóspitas que são comparáveis às do planeta Marte. Os extremófilos, como o nome indica, são seres vivos que vivem em condições onde a maior parte dos outros organismos morreriam.

Uma das vertente vulcânicas de Atacama (Crédito: Steve Schmidt)

Desta feita, um grupo de cientistas da Universidade de Colorado – Boulder estudou os solos de vários vulcões na região de Atacama (América do Sul) e, para sua surpresa, descobriu indícios de vida nesse terreno extremamente seco e inóspito, a mais de 6000 metros acima do nível do mar. O trabalho foi publicado na revista científica Journal of Geophysical Research.

Os microorganismos encontrados são fungos, bactérias e arquea. As arquea eram anteriormente chamadas de arqueobactérias, porque se pensava que fossem um tipo de bactérias já que, como estas, também são diminutos seres unicelulares sem núcleo ou organelos. Mas, com o advento dos estudos de genética molecular, descobriu-se que eram seres completamente diferentes e que, ainda que remotamente, estavam mais aparentados com os seres humanos do que com as bactérias. As arquea são também famosas por serem frequentemente encontradas em ambientes extremos, como o fundo dos oceanos ou efluentes extremamente ácidos de minas.

Estas novas espécies agora descobertas vivem num ambiente com variações diárias de temperatura que podem superar os 70°C, radiação UV muito intensa (o dobro da medida num deserto “típico”) e um solo paupérrimo em nutrientes (por exemplo, os níveis de azoto são tão baixos que não é detectável pelos instrumentos de medição usados). Não foram encontrados seres fotossintéticos, que consigam usar a energia do Sol, e portanto especula-se sobre qual será a fonte de energia que alimenta este débil ecossistema microbiano. É possível que usem uma fonte química de energia, com base no monóxido de carbono e gases de enxofre, mas esta é ainda uma hipótese por comprovar.

Para além de esta poder ser uma importante descoberta para a Astrobiologia, tem também o potencial de poder levar à descoberta de novas formas de obtenção de energia.

5 comentários

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    • Sydney Júnior on 13/10/2012 at 22:30
    • Responder

    A minha dúvida quanto a extremófilos é quanto a sua filogenia. Se voltarmos até o ancestral comum de uma dessas bactérias extremófilas com outras “normais”, Seria este ancestral um extremófilo?

    1. Bem, nesse início, tudo era extremófilo, porque viveram em condições totalmente extremas (pela visão humana) – muito mais extremas do que as actuais onde eles vivem. Naquela altura, todo o planeta seria considerado extremo pelos padrões humanos. Os Humanos não sobreviveriam nessa altura… porque nem sequer havia oxigénio na atmosfera 😉

      abraços

  1. Claro que o rover que nos poderá surpreender é o Curiosity e não o Opportunity. Lapso meu :p

  2. A Astrobiologia é mesmo um daqueles ramos do conhecimento que fascina qualquer um. Por agora, ainda está a dar os primeiros passos mas num futuro mais ou menos distante poderá ser a chave para a nossa sobrevivência… se nos mantivermos por cá.

    Acho interessante a circunstância de existirem espécies de seres vivos que, aqui na Terra, nascem, crescem, se alimentam e se reproduzem em ambientes extremos e pouco hospitaleiros para nós. Mas se se estudarem esses seres vivos, ver-se-á certamente que essas espécies evoluíram a partir de outros seres vivos que, num passado longínquo, se desenvolveram em ambientes mais propícios ao surgimento da vida.

    O que pretendo dizer é que a vida necessita de certas condições mais favoráveis para, digamos, irromper a partir de matéria inorgânica. Estando essas condições reunidas e a vida surgindo, inicialmente num meio aquático, é natural que ao longo de um processo evolutivo ela acabe por ocupar todos os habitats possíveis.

    Algo totalmente diferente é que, constatando que existem seres vivos aqui na Terra que se adaptaram a ambientes com temperaturas e níveis de humidade (ou falta dela…) extremos, extrapolar-se que em Marte, onde existem locais com algumas características semelhantes, se tenham também desenvolvido seres vivos.

    Claro que podemos (e penso que seja mais consensual?) argumentar que, talvez, num passado distante, Marte tivesse tido condições mais favoráveis ao surgimento da vida e esta se tenha efetivamente desenvolvido. Nesta eventualidade, milhões de anos depois, na atualidade, em que Marte terá perdido grande parte da sua atmosfera e as condições são mais desfavoráveis para a manutenção da vida (tal como a conhecemos, naturalmente), é possível que algumas espécies mais resistentes de micro-organismos tenham conseguido subsistir no solo ou subsolo marcianos.
    Esta é uma ideia realmente encorajadora e espero que o rover Opportunity nos venha a surpreender 🙂

    1. Obrigado pelo comentário Rui!
      Tem razão.
      Às vezes especula-se um pouco com estas descobertas.
      Mas, pelo que tenho lido, pensa-se que Marte terá tido outras condições ambientais no passado.

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