O homem que escolheu a partícula ao invés da sua mulher

O fardo que Higgs teve que suportar para explicar o peso do Universo.

Numa ocasião, Peter Higgs guiava pela costa leste dos estados Unidos com a sua mulher, Jody, e, seguro no banco de trás, o seu filho Christopher, na altura um bebé com seis meses de idade. Mas, de repente, o seu coração começou a palpitar e a sua respiração ficou completamente descontrolada.

Assustado, pois poderia causar um desastre e matar a sua mulher e o seu filho, encostou o carro na berma da estrada. A sua mulher teve então o condão de o acalmar, conversando serenamente com ele, e Peter lá recuperou o fôlego, exalando grandes lufadas de ar para cima do volante.

O que poderia ter causado tal ataque de pânico? Para a maioria dos homens de 37 anos, a chave da felicidade estava mesmo ali à sua mão: viviam-se os anos 1960, a família viajava pelas estradas dos Estados Unidos em plena Primavera, tinha um bebé querido de se morder as bochechas, uma mulher amorosa, a que mais poderia ele aspirar?

Mas Peter Higgs já era… Peter Higgs. Não era, de todo, como a maioria dos homens – e um dia haveria de tornar-se no cientista cujo nome designaria a “Partícula de Deus”, a partícula que se crê ter sido encontrada na Suíça. Esta descoberta veio afinal dar razão e confirmar as teorias dum homem que procurou entender o funcionamento do Universo.

E o seu medo, no episódio do automóvel em Março de 1966, era que o seu trabalho, a dedicação de toda a sua vida, mais não fosse do que uma montanha… de lixo.

Salto no espaço-tempo, meio século mais tarde, Higgs, já idoso, 83 anos, expectante e extasiado na primeira fila da conferência de imprensa no colisionador do CERN, um Higgs frágil, com dois auriculares para poder ouvir. Estávamos perante um homem a quem o reconhecimento muito lhe custara a conquistar, um homem que fizera uma escolha. Como ele próprio referiu, “coloquei a minha carreira na Ciência à frente da minha família,” e, no pôr-do-sol da sua vida, essa memória ainda o deixa lavado em lágrimas.

No essencial, Higgs foi um homem que escolheu a sua partícula em detrimento da sua mulher. A ideia simples que serve de base ao seu trabalho é que as partículas adquirem massa à medida que se deslocam num campo, sendo retidas e desacelerando. Como metáfora aplica-se, de certo modo, à vida de todos nós, dado o peso dos relacionamentos e o peso da história. Mas essa metáfora não define bem Higgs – no seu caso ele tornou-se mais leve e mais solitário à medida que foi envelhecendo.

Antes de regressarmos ao passado dessa viagem crucial, é importante salientar que a história dos feitos científicos não se desenrola sob condições laboratoriais. A história da vida de Higgs está repleta de coincidências e de sorte – muito particularmente, e em primeiro lugar, no facto de ter sido o seu nome que acabou por designar a partícula, o dele, em vez de qualquer um dos outros 5 colegas cientistas que chegaram à mesma conclusão sensivelmente ao mesmo tempo.

Quando Higgs acabou o ensino secundário já era conhecido como um rapaz perspicaz e, quando ingressou na Universidade no King’s College London, chamou a atenção não só pelo seu extremo à-vontade em Física – fez o primeiro exame universitário na cadeira de “opção teórica” – mas também pela sua vontade em questionar o status quo.

Já como presidente da Maxwell Society, uma organização dedicada às ciências, fez um discurso em Maio de 1950 sobre o tema “como podem os cientistas ter a certeza de que as observações que fazem correspondem à realidade?”, que veio a revelar-se presciente por duas razões.

A primeira, é claro, é que poucos homens com 21 anos vão mais tarde ver construído um colisionador de 2,6 mil milhões de libras esterlinas para se poder investigar as suas observações. A segunda é que, tal como descobriu o autor Ian Sample no seu livro “Massive,” que versava sobre a busca pela partícula em falta, as anotações daquela reunião revelam que Higgs “levantou uma considerável controvérsia.”

Este seria o tema da primeira parte da sua vida adulta: a perseguição do fora de moda. Mesmo nos seus vinte anos já ele estava a ser rotulado como um fuddy-duddy por escolher um ramo da Física que os seus contemporâneos haviam abandonado por pensarem que seria um beco sem saída, mas ele não fez caso disso.

Habituara-se a viver a vida do solitário. Em criança padecia de asma aguda e passara a maior parte da sua infância a ter aulas em casa dadas pela sua mãe; o seu pai vivia longe deles devido ao seu emprego de engenheiro da BBC-Radio na cidade de Bedford, e o jovem Peter não se dava muito com as miúdas da sua idade. Um dos seus amigos de longa data, Michael Fisher, que conhecera no King’s College e que é agora professor na University of Maryland, lembrou que tinha sempre que lhe arranjar uma namorada quando iam de férias pela Europa fora.

“Nunca teve o mesmo sucesso nos namoros como os outros do nosso grupo,” contou Fisher.

Quando o seu amigo Fisher arranjou o emprego que procurava na universidade King’s, Higgs partiu para a University of Edinburgh, que descobrira quando estava de férias nas terras altas da Escócia.

Ali, assentou numa vida tranquila, surpreendendo tudo e todos quando conseguiu despertar o interesse de Jody Williamson, uma Leitora universitária, idealista, e de nacionalidade norte-americana. Conheceram-se numa reunião do clube dos docentes da universidade. Em retrospectiva, este foi o seu primeiro golpe de sorte. Foi Jody quem lhe abriu os olhos para a América.

Os cientistas tinham estado a trabalhar durante anos na compreensão dos blocos constituintes do universo – Higgs discordava de todos, mas sentia que estava bloqueado. Certo dia, a 16 de Julho de 1964, leu os papers científicos acabados de publicar.

Olhou para um, alcançou o seu significado, e depois deu um salto e gritou bem alto, “Ai merda!” como relatou numa entrevista em 2008.

Este momento não terá a elegância dum “Eureka!” mas mostra a centelha de criatividade própria deste avanço mental. Febril de excitação, Higgs passou o fim-de-semana a deambular, solitário na sua nuvem de criatividade, pelas colinas que cercam Edimburgo, tal um poeta Wordsworth dos nossos dias.

“Quando regressei na segunda-feira seguinte ao trabalho, sentei-me e escrevi um paper científico tão rápido quanto me foi possível,” relembrou numa entrevista.

O primeiro paper chegou a ser impresso mas foi ignorado; o segundo foi rejeitado. Mas Higgs demonstrou enorme tenacidade, dizendo aos outros e a si próprio que era óbvio que não estavam a entender o que ela queria dizer. Noutros locais da Europa, entretanto, outros 5 Físicos chegavam à mesma conclusão. Trabalhavam em equipas; Higgs era o único que trabalhava e que publicava sozinho.

Mas as suas ideias não eram acolhidas. Foi por pura sorte que Higgs foi catapultado para testa-de-ferro deste grupo discordante.

Em Agosto de 1965, Higgs encetou um ano sabático. Jody estava no final da sua gravidez e ele arranjara trabalho na University of North Carolina at Chapel Hill.

Jody regressara à casa da sua família, em Urbana, no estado do Illinois, a fim de dar à luz o bebé com o apoio dos seus pais. Como lembra Sample no seu livro, Higgs estava na biblioteca da universidade quando foi chamado ao telefone: a sua mulher tivera o primeiro filho do casal, e o bebé nascera a centenas de quilómetros de distância. Nesses dias, Higgs trabalhava num paper científico cujo tema era, por coincidência, acerca dum momento critico no nascimento do universo.

Esse paper foi outro marco científico, mas Higgs tivera que ter uma certa força mental para o completar. O seu pequeno grupo de cientistas inconformistas que acreditavam na sua partícula elusiva estavam a ser intelectualmente trucidados, e isso, como se não bastasse, a partir dum patamar elevadíssimo. Dois membros do grupo, Gerald Guralnik e Carl Hugen, tinham aceitado um convite naquele Verão para participarem numa conferência científica organizada por Werner Heisenberg, famoso pela formulação do Princípio da Incerteza, e que iria decorrer nas margens dum lago alemão. Heisenberg era um deus da ciência, e esta era uma excelente ocasião para eles impressionarem favoravelmente os seus heróis da Física de Partículas.

Mas Guralnik and Hagen regressaram destroçados. Os gigantes da Física olharam-nos com total desdém, e Heisenberg foi o mais mordaz. Disse pessoalmente ao par de cientistas que o conceito que eles e Higgs tinham cozinhado era uma ideia estúpida e um “lixo” completo.

Fora este o motivo pelo qual Higgs estava tão nervoso naquele dia no automóvel. Entretanto a sua mulher e filho juntaram-se-lhe na Carolina do Norte, e por sorte Higgs chamara a atenção de Freeman Dyson, um conterrâneo britânico que estava a trabalhar no Princeton Institute for Advanced Study. Dyson perguntou a Higgs se ele quereria apresentar-se, e apresentar a sua teoria, perante os Físicos de Princeton.

Parecia um convite amistoso, mas na verdade Dyson estava a pedir a Higgs que atravessasse o Rubicão com as suas ideias impulsivas. Princeton era famosa como local de residência de Albert Einstein, que morrera apenas uma década antes, e ainda estava apinhada dos mais intimidantes cientistas. O instituto orgulhava-se de submeter os palestrantes a um escrutínio de fogo cruzado, devorando os que mostrassem a mínima hesitação.

Encafuado no carro com Jody e Christopher, Higgs sabia muito bem que poderia sofrer o mesmo destino de Guralnik e de Hagen. Daí o ataque de pânico.

De facto, quando Higgs finalmente chegou ao teatro de palestras, já consumido pelo medo, misturou-se com os outros convidados. Um deles, como relata Sample no seu livro, disse que – sem o conhecimento de Higgs – a sua teoria fora desaprovada num paper científico prestes a ser publicado. “Não resta qualquer dúvida,” disse o cientista a Higgs, mesmo antes deste assomar ao podium, “tem qualquer coisa que está errada.” Não poderia ter sido pior, o silencioso britânico tinha todos os elementos para estar desmotivado.

Mas Higgs sobreviveu. Mais, ganhou um convite subsequente – para Harvard. Ali, os Físicos na assistência tinham sido avisados para o “trucidarem,” Mas não conseguiram. E, quando Higgs regressou a Edimburgo em 1966, a sua reputação internacional estava consolidada. Será esta a razão pela qual o nome de Higgs está associado à partícula, e não o de qualquer outro Físico, apesar dele ter muitas vezes argumentado que deveria apelidar-se de “mecanismo ABEGHH’tH”, pelas iniciais dos 8 pesquisadores que ele acreditava terem contribuído para a descoberta.

No entanto, ele já era famoso, e a fama submeteu a sua vida familiar a um novo stress.

Certa ocasião, interrompi as férias familiares para me meter num avião e ir assistir a uma conferência”, disse Higgs numa entrevista em 2008. “A Jody perdeu o contacto com o que eu andava a fazer.

Uns anos após o nascimento do seu segundo filho, Jody já tinha a sua conta. Mas ao invés de o fazer trabalhar com mais afinco, o divórcio custou-lhe a estabilidade que consubstanciava as suas descobertas. Perdeu momentum. “Após o desabar do meu casamento, penso que não consegui manter o contacto com as coisas que precisava de aprender apenas para conseguir prosseguir o meu próprio trabalho. Não consegui manter o ritmo” declarou Higgs.

Mais tarde, Higgs desistiu de perseguir a glória e devotou-se mais ao ensino. Jody ficou em Edimburgo e o par continuou amigo e dois excelentes avós. Mas o seu apartamento na New Town de Edimburgo é, como dizem alguns na brincadeira, “uma bolha na escala do espaço-tempo”, um local onde a decoração e as mobílias paralisaram sensivelmente no momento em que a sua mulher o deixara no início da década de 1970.

Ele não tem televisão, não usa computador, tem alguém que lhe vai verificar o correio electrónico, raras vezes atende o telefone. Gosta dos seus livros, dos seus discos de vinil, e os seus jornais de Física, e está, na sua maneira discreta de ser, satisfeito com isso. Quando o artista Ken Currie o veio pintar no seu trabalho, imaginou vir encontrar um laboratório do “tamanho duma Catedral”, um pouco, de facto, como o colisionador do CERN. Higgs disse-lhe que não – que não precisava de mais nada para além de si próprio e dum lápis afiado.

No final é apropriado que a partícula seja designada com o nome de Higgs. É elusiva, é humilde e, no entanto, provou ter o poder para mudar o mundo.

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Este texto é uma tradução do artigo inicialmente publicado no The Times, London, por Helen Rumbelow, no dia 5 de Julho de 2012, e tem sido divulgado em outros meios de comunicação social, como no The Telegraph, da Índia.
O título original é: “He who chose his particle over his wife – The burden Higgs had to bear to explain the weight of the universe”.

6 comentários

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    • Marco Aurélio de Carvalho on 09/10/2013 at 23:04
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    Excelente e comovente artigo. Sobre o fato de o mesmo resultado ter sido alcançado simultaneamente por outras equipes, há uma explicação de cunho espiritualista, que infelizmente, por enquanto, não cabe neste espaço…Por enquanto

    1. Não há nada de espiritual nisso. Chama-se ciência. Acontece *sempre* assim. Outras equipas têm que comprovar os resultados.

    2. Os ignorantes insistem na existência da alma (espirito). Se o que realmente se conhece é o dualismo mente/corpo.

      Sua imaginação vem da mente não da alma.

    3. Marco Aurélio, eu gostaria de saber a explicação espiritualista. 🙂

  1. Homens que, de fato, dedicaram suas vidas à ciência. Força-de-vontade e dedicação para poucos… característicos daqueles que fazem “história”.

    Artigo excelente!

  2. excelente artigo! Se actualmente as descobertas no mundo da física ocorrem em equipas de 30 ou mais elementos, Higgs deve ser provavelmente um dos últimos testemunhos dos lobos solitários…ao ler esta pequena biografia, lembrei-me também do John Nash!

  1. […] rápidos que a luz, efeitos, não, repetição, não). Partícula. Bosão de Higgs: explicação, escolha. Hawking perde […]

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