Filhos da Tragédia

Planeta Anão Haumea visto da superfície de sua lua mais próxima (J.S.)

As superfícies mais antigas do Sistema Solar, cheias de crateras e fraturas, evidenciam um passado de intensas colisões sofridas pelos astros. Mas houve consequências mais violentas no advento de colisões entre astros de tamanhos próximos – o que causa efeitos bem maiores que crateras gigantes na superfície, e arrancam pedaços ou mesmo despedaçam um mundo originando uma família colisional, um grupo de objetos que são pensados para ter uma origem comum em um impacto (colisão). Eles têm composições semelhantes, e mais características orbitais em comum. Conhecidos ou possíveis famílias colisionais incluem numerosas famílias de asteróides, a maioria das luas irregulares dos planetas exteriores, a Terra e a Lua, os planetas anões Plutão, Eris, e Haumea e suas luas.

Na teoria mais aceite da origem da Lua, na qual no passado um planeta errante chocara com a Terra num evento específico lançando ao espaço matéria e destroços que juntaram-se formando o nosso satélite, acabamos dessa forma fazendo parte de uma família colisional. Outro exemplo que temos em nosso contato direto são os meteoritos HED, que caíram na Terra e são 200 amostras potenciais da geologia do Protoplaneta Vesta, que sofreu um impacto violento originando uma família colisional. A origem dessa família se deve a um impacto enorme que deformou o pólo sul de Vesta na forma da cratera Rheasilvia, com mais de 500 km de diâmetro – Vesta tem um diâmetro de 530 km.

Podem haver muitas famílias de astros assim no Cinturão de Kuíper, Plutão e suas luas, e outros planetas anões com satélites podem ser exemplos de formações assim, e a visita da sonda News Horizons pode testar essas possibilidades. A única família colisional conhecida mais certamente até então nessa região é a do Planeta Anão Haumea, que é o objeto original, suas duas luas conhecidas e um conjunto de objetos clássicos do cinturão de kuíper (Kubewanos), cujas características orbitais e físicas os referencia a pertencer a tal família.

Haumea tem uma forma em equilíbrio hidrostático mais elipsoide, intensamente achatado nos pólos, e o diâmetro polar é pouco mais de metade do diâmetro equatorial maior. A densidade e o albedo são elevados, e a rotação a mais rápida já observada em objetos em equilíbrio hidrostático, com um dia durando menos de 4 horas. A superfície é peculiar: o albedo elevado se deve a forte presença de gelo de água cristalino, semelhante à superfície do satélite plutoniano Caronte. Todas essas características juntas são fortes indícios do evento de um forte impacto no passado que arrancou pelo menos 20% da massa original e formou suas luas de gelo e os objetos da família colisional.

No entanto, a origem é controversa, e os objetos haumeanos podem ter se originado em outra região,  já que no cinturão é atualmente pequena e muito distribuída a população de objetos e com isso a chance de impactos a cerca da idade do Sistema Solar é menor que 0,1%.  Por outro lado, uma família tão coesa não teria formado-se em partes mais densas do cinturão, no passado, pois assim os objetos sofreriam influência gravitacional de outros objetos, talvez da migração do gigante gasoso Netuno, e a família colisional se dispersaria. Por fim, a melhor alternativa ficou sendo o Disco disperso: Uma região distante esparsamente povoada por objetos gelados em órbitas excessivamente elípitcas e inclinadas, originadas das perturbações gravitacionais dos gigantes gasosos e suas migrações, como a de Urano e Netuno, num passado distante na história do Sistema Solar. Nesse local, as chances de colisões são bem maiores, e Haumea e seus “parentes” podem ter se originado aí.

As famílias colisionais são formações importantes no estudo da formação do Sistema Solar. Elas indicam processos como migrações planetárias, perturbações gravitacionais, distribuições em regiões como os cinturões de asteróides, formação de luas e anéis planetários, etc. Parece que nos próximos tempos da Astronomia planetária, os filhos da tragédia e suas origens caóticas nos contarão muitas histórias. 🙂

*ODD = Objeto do Disco Disperso; ONO: Objeto do Disco Disperso Prolongado ou da Nuvem de Oort

10 comentários

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  1. Olá, excelente post.

    Eu gostaria de saber mais sobre a migração de Netuno. Poderia me explicar a respeito dela ou colocar algum link?

    Abraço

    1. Perdão, demorei a voltar aos posts dessa matéria.
      Mas essa migração é uma teoria bem forte que envolve vários elementos: Formação e distribuição de matéria no Sistema Solar primitivo, a interação gravitacional de Júpiter e Saturno e em alguns ambientes de simulação chega a haver indícios até de um quinto gigante gasoso perdido do Sistema Solar.
      Simplificando ao máximo, a culpa é de Júpiter, e Urano e Netuno teriam se formado na zona de Júpiter e Saturno mas foram escorraçados dali por fenômenos gravitacionais no início da formação. Talvez um fenômeno parecido também teria feito com que Terra e Vênus tivessem afastado Marte do Sol condenando-o ao esfriamento em que perdeu seu oceano.
      Assim que puder, estarei postando uma matéria sobre esses possíveis cenários do passado, depois de estudar mais sobre esses fenômenos. Foi bem interessante a sua pergunta.

      Um abraço.

  2. Artigo interessante que nos lembra algo que passa despercebido à maioria das pessoas. É-nos ensinado na escola, e a nossa curta duração de vida mostra-nos, que o Sistema Solar é um sistema com planetas e outros corpos, descrevendo órbitas bem definidas em que as posições passadas e futuras são facilmente computáveis e previsíveis.
    Mas vendo as cicatrizes que a Lua e muitos outros corpos do Sistema Solar nos mostram, fica bem patente que esta harmonia é apenas aparente.

    As ilustrações também são interessantes, mas tenho uma crítica relativamente à segunda:
    A Terra e a Lua são ali representados nas respectivas proporções; sob o Haumea, aparece uma escala gráfica que apenas se aplica ao próprio Haumea; os restantes corpos estão representados por figuras semelhantes dentro de cada grupo, sendo as dimensões apenas indicadas por baixo do nome. Eu preferia que o tamanho de cada figura fosse proporcional ao tamanho de cada um dos corpos, ainda que a imagem fosse dividida em três, tendo cada parte uma escala distinta.
    É só uma sugestão, claro 

    1. “harmonia é apenas aparente.”

      pois… é uma ilusão temporária 🙂

    2. Claro, uma sugestão válida. Me preocupei mais em listar as imagens do que com as escalas, mais pelo pouco espaço disponível e o fato de umas figuras como Vesta que quase despareceria se seguisse a mesma proporção em que está a Terra, e as luas de Saturno menores desapareceriam mesmo, só Tethys ficaria visível. 🙂
      Dava pra ter feito nos Planetas Anões Candidatos, mas em fim, sua dica é ótima. Vai ser legal pra quando estivermos fazendo um pôster sobre os Planetas Anões, ficaria show, bem grande. 😉

  3. Olá Jonatas. 😉

    Apenas um acrescento: com relação à formação da Lua, está surgindo novos estudos com relação à este com o intuito de reformular a teoria atual (choque de Theia com o planeta Terra).

    http://www.apolo11.com/spacenews.php?titulo=Novos_estudos_desafiam_teoria_atual_de_formacao_da_Lua&posic=dat_20120326-114431.inc

    Abraços e parabéns pelo artigo.

    1. Ótimo. :), obrigado mesmo, também pelo link. Gostaria de saber: gostastes das ilustrações?
      Fui eu que as fiz. 🙂

        • Cavalcanti on 15/08/2012 at 16:48

        Sim, porém só tinha suposto que tinha criado a primeira ilustração pela abreviação contida na primeira imagem: “J.S”. O que faltou apenas na segunda ilustração. 😉

        Porém, ficaram igualmente excelentes, garoto. 😉

        Abraços.

      1. Ilustrações óptimas 😉

        Texto também muito bom 😉

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