Custos do Curiosity?

Já escrevi sobre este assunto, aqui e aqui. E o Marco Filipe escreveu este post.

Mas após esta pergunta do leitor Flávio:
“Eu ultimamente tenho recebido criticas sobre esta missão a Marte e sobre os seus custos, o que podemos dizer às pessoas sobre isto?”

A resposta do nosso leitor Jonas foi excelente:


Flávio, essa é uma boa pergunta e pensei numa resposta que expandiria a visão dos questionadores a respeito das consequencias dos investimentos, mesmo em pesquisas muito específicas, de resultados com benefícios questionáveis, como essa.

Diga a eles que missões como essa empregam muitas pessoas, pessoas muito especializadas, que têm boa renda e pagam muitos impostos. Nos próximos dois anos dessa missão, que pode durar dez anos, 750 pessoas da NASA vão se revezar, em grupos, para controlar, gerenciar, estudar a gerar conhecimento a partir dos dados de todos os sistemas da sonda. Que para projetá-la e montá-la, os mais de dois bilhões de dólares não foram “incinerados”, pagaram projetos de empresas, equipamentos, desenvolvimento de novas tecnologias, ou seja, todo investimento foi usado aqui mesmo na Terra. Mais, a tecnologia produzida para criar a sonda quase certamente formará mais empresas e produtos, isso é praxe de acontecer, que por sua vez vão gerar mais empregos, rendas, impostos.

Há o uso do dinheiro que foi previsível (citado), mas há um bom lado imprevisível, também. Nesse caso, cite a eles o caso mais clássico, a internet e o CERN. Jogar muito dinheiro no CERN durante décadas para estudar como a matéria funciona é um exemplo semelhante, muitos questionam, “para que colocar bilhões de dólares no CERN, no LHC para algo sabe-se lá que aplicação real terá?”. Mas foi no CERN, de uma necessidade própria do CERN, que saiu algo imprevisto e que o mundo inteiro usa agora, a tecnologia e conhecimento que criou a internet. Internet que, muito básica quando foi criada no CERN em 1989, para atender a necessidade só do CERN, de distribuir os dados coletados pelos experimentos entre os pesquisadores, virou uma aplicação mundial e, meros 20 anos depois, agora são milhões de empregos em muitas áreas, desde design, produção de software, de sistemas computacionais, de hardwares, e fez aparecer centenas de milhares de pequenas empresas que dão suporte e educação na área, inclusive de serviços que hoje barateiam os custos operacionais das empresas. Há ainda os benefícios indiretos, a internet democratizou a informação e conhecimento, escancara problemas ideológicos e de mal uso de poder de governantes, através dela se pode cobrar melhorias sociais e transparência pelo poder de expressão não só de organizações civis, mas por um único individuo, que na ação dele em blogs pessoais ou em rede sociais podem provocar mudanças que repercutem positivamente na vida de todos. Qual o valor disso? Intangível.

Tudo isso adveio de uma grana alta investida no CERN, e que não custou em si quase nada, mas investimentos no CERN muita gente questionou, a agora se vê que se pagou só com o advento da internet, alguém duvida disso? Se formos medir o impacto em renda, empregos, impostos, negócios, aumento de consciência das pessoas, a internet exponenciou e expandiu o investimento feito no CERN. Muita gente hoje, de todos os lugares do mundo, vive de renda como fruto de uma invenção que foi paga por dinheiro público de muitos países, indiretamente, num projeto que é muito específico e teve como “sobra” a internet. No caso da sonda pode-se esperar algo não exatamente nessa dimensão, mas com certeza algum benefício indireto haverá, sempre tem. Agora, o uso dos recursos aqui mesmo, para construí-la, em salários, tecnologia e no conhecimento que advirá, já foi um bom uso, não foi “incinerado”.

Se é preciso relativizar os investimentos com outras situações para saber onde melhor investir, o Paulino deu uma dica, só os EUA gastam o valor de duas sondas POR MÊS no Afeganistão, quer mal uso maior?

http://astropt.org/blog/2012/08/16/perspectivas-de-custo/

Já outros políticos gastam em estádios de futebol bilionários ao invés de hospitais, outros em corrupção, outros escondem os olhos para a ineficiência energética, por exemplo. Qual o custo pelo impacto ambiental do uso de chuveiros elétricos no Brasil? Alto em relação a outras soluções já existentes. Qual o custo das Olimpíadas (uma competição de elite) ou da Formula 1? Geram empregos, patrocinadores, movimentam economias, mas peguemos o caso das Olimpíadas, não seria melhor investir o dinheiro em situações de melhoria da condição saudável das pessoas de TODO um país ao invés de investir em pessoas que têm um DNA de elite para ganhar algumas dúzia de de medalhas? O que vale mais para uma sociedade de um país, a falta de investimentos em uma política pública de saúde, gerando 60% obesos e 40 medalhas de ouro pelo investimento em atletas de elite, ou um país de 90% de pessoas que praticam uma atividade física básica se mantendo saudáveis e sem nenhuma medalha? (Esse não é o nosso, infelizmente, não temos as medalhas e já temos alto nível de obesidade).

Enfim, a discussão é boa porque os recursos são sempre escassos, mas é difícil que não haja bom retorno sempre que se investe na expansão do conhecimento, a sonda vai aumentar nosso conhecimento e exigiu a criação de mais conhecimento para levá-la até lá. Já os investimentos “incinerados” sempre advém do mau uso deles pela ignorância (falta de conhecimento), incompetência ou pela má intenção.

12 comentários

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    • Flávio Silva. on 25/08/2012 at 15:41
    • Responder

    Ana GP…..na minha experiência do dia-a-dia quando se fala nestas coisas de explorações espaciais, aceleradores de partículas e demais temas relacionados,,,
    Todos pensam logo que só se fala de estrelas e que estamos desfasados da realidade ou vivemos noutro mundo,,,

    Temos os arqueologos, ambientalistas, cientistas a estudar o A.D.N humano e formulas para curas de doenças.., informáticos e todas a outras áreas também muito importantes para a busca de conhecimento,,,,
    O que vejo é que todos a \maioria\ seguem a \moda\ e quem não está dentro dessa categoria é logo rotulado,,,talvez para satisfazer o status social na comunidade em que vivem porque acredito que muitos desses até são inteligentes e não querem ou não se interessam por assuntos diversificados,,,,no entanto não podemos obriga-los a pensar como nós…

    As pessoas tem que ver que a maioria pensa de forma igual ou semelhante,,,e que existe uma pequena margem da humanidade de pensa de modo diferente….eu acho que não somos obrigados a pensar e ser iguais aos outros as vezes que até penso que ter alguma cultura geral é um crime contra a humanidade….

    Felizmente conheço pessoas que se interessam por estes e outros temas estamos sempre aprender coisas novas todos os dias ……o mais importante é saberem equilibrar o que querem para terem uma vida confortável e terem conhecimento.

  1. Sim, tb tenho reparado que anda a circular um postezito pelo FB e mails condenando os milhões gastos na exploração espacial e em especial nas missões da NASA. Fico triste com esse tipo de críticas porque só revelam uma ignorância atroz. É o mesmo q condenar todo o investimento que é feito no conhecimento. É o mesmo que não ter noção que toda a tecnologia e comodidades de que usufruímos presentemente vieram de buscas pelo conhecimento. E que toda a tecnologia que é desenvolvida nas buscas por esse conhecimento tem sempre aplicações práticas., É pena que quem escreveu esse post/mail não saiba de onde vem o teflon. E é pena que esse tipo de opiniões sem fundamento e conhecimento estejam espalhadas no seio de pessoas que não as deviam ter, uma vez que estão ao serviço da transmissão de conhecimento.

    Excelente comentário, Jonas. Excelente mesmo. Ainda bem que o Flávio levantou a questão, nunca é demais repetir a resposta.

  2. Sergio na boa já vi o teu post correcto.

    • Flavio Silva. on 18/08/2012 at 13:17
    • Responder

    Sergio,,, acho que no outro dia ja tinhas metido esse pdf com um resumo dos custos militares dos EUA,,,, foi muito informativo… E a resposta do Jonas está excelente.

  3. Eu também tinha respondido ao Flávio mas baralhei-me completamente nas contas. 🙂

    Aqui está o meu comentário devidamente corrigido: “Esta missão teve um custo total de 2,5 mil milhões de dólares. É sem dúvida a mais cara missão da NASA. Ainda assim corresponde a cerca de 1/40 do que os americanos gastaram na Guerra do Golfo entre 1991 e 1992, e a menos de 1/450 do total gasto em operações militares desde o atentado de 11 de Setembro até 2010 (fonte: http://www.fas.org/sgp/crs/natsec/RS22926.pdf).”

    1. Mas concordo com o Kevin Paul. O comentário do Jonas está excelente e merece inteiramente este post. 🙂

        • Cavalcanti on 18/08/2012 at 04:56

        O comentário do Jonas foi excelente. Seria bom se os pseudos e àqueles desamantes da Ciência aprendessem algo com ele. Extremamente perspicaz e racional.

        Mais-do-que-merecido. 🙂

    2. Ia agora fazer referência ao teu comentário também, porque essas proporções são muito interessantes 🙂

  4. A internet não surgiu no CERN. O que surgiu foi a World Wide Web, criação do Tim Berners-Lee.

    1. Sim, no link é explicado isso 😉
      Mas actualmente as pessoas entendem a World Wide Web como internet 🙂

    2. Gabriel

      Realmente fui resumista a respeito do assunto internet, mas pensei que ficaria muito longo contar toda a História para “encaixar” a contribuição do CERN.

      Apesar de o Carlos ter sido muito feliz, indo direto ao ponto, corrigindo as lacunas que deixei, achei que valeria a pena escrever umas poucas linhas a mais.

      A internet (na real) não é só WWW, é uma soma de recursos advindos de esforços feitos por vários especialistas que, no decorrer do tempo (começando com o projeto norte-americano ARPANET) contribuiram teorica e tecnologicamente para operar um pacotão de protocolos para trocas de dados à distância, de várias formas: Email (SMTP, POP), Gopher, FTP, HTTP, HTTPS etc… (O Gopher praticamente ninguém mais usa).

      No CERN,Tim Berners Lee, convocado para ajudar a criar algo que pudesse ser usado pelos cientistas para eles acessarem dados multimídia à distância, de forma fácil e eficiente, agregou mais um serviço numa pilha de colaborações de várias pessoas já existentes, “inventando” ele então o que se conhece como “WWW”, usando como base o protocolo de comunicação HTTP.

      Quando o CERN colocou o WWW em operação, não disseram “inventamos a internet”, mas as coisas começaram a acontecer de forma rápida a partir daí, as universidades de todo mundo começaram a se “conversar” e logo em seguida o uso público, democrático, virou generalizado, por quê? Essa tecnologia facilitou muito a visualização de dados e informações via um browser, aplicativo que teve a colaboração no projeto de Marc Andreessen, que trabalhava no CERN com o Tim. inicialmente o browser recebeu o nome de “Mosaic” e depois “Netscape”.

      E aí temos a internet que, como bem o Carlos disse, é um termo que hoje se traduz, pelo seu uso, com o recurso que o Tim, Andreeseen e outros, no CERN, criaram e levaram a fama, o WWW e seu navegador, para resolver um problema do CERN, apesar de a internet funcionar agregando outros serviços (email, ftp, etc).

      Sem o CERN, o Tim, o Andreessen e outros, teríamos hoje a internet nesse nível operacional? Não se sabe, talvez uma outra necessidade de uma outra instituição tivesse gerado o mesmo resultado, mas graças ao CERN e a eles, estamos acessando, aprendendo e trocando ideias no AstroPT.

  5. Ótima iniciativa, Carlos! 😉

    Parabéns ao Jonas pelo comentário convertido em post, e se mais alguém me disser que “jogaram dinheiro fora” com a Curiosity, tenho uma seleção de posts do Astropt para esclarecer as coisas 😀

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