Prós e Contras sobre o Bosão de Higgs

A RTP teve no passado dia 9 de Julho uma brilhante ideia para serviço público: uma discussão sobre a descoberta do Bosão de Higgs no programa Prós e Contras, da RTP1.

Como diz o texto introdutório do programa:
“É a grande resposta que o mundo esperava!
A descoberta da primeira partícula muda a ideia que temos do universo. Nada será como dantes.
Mas qual é a verdadeira importância do Bosão de Higgs?
Como interfere na nossa vida… na nossa consciência…. e mais que tudo… NA EXISTÊNCIA DE DEUS.
Cientistas, homens de Deus e filósofos, todos juntos no maior debate da televisão portuguesa.
Quem somos nós?”

É muito positivo fazerem um programa sobre esta descoberta.
Foi excelente terem essa ideia e esta iniciativa!

É extremamente importante e digno de aplausos que a RTP tenha dado relevância ao que realmente é importante, em vez de se celebrar coisas fúteis como telenovelas, a próxima pessoa a entrar na Casa dos Degredos, ou a nova camisola do CR7.

Por isso, desde já, os meus parabéns à RTP e à equipa do Prós e Contras por decidirem por este tema!

No entanto, nem tudo foi positivo.
O texto introdutório começa logo com um erro: não só mencionaram Deus, como até realçaram isso colocando letras maiúsculas. O problema é que a descoberta NADA teve a ver com Deus! Nada! 0!
Como explica este site: Entenda o que Deus tem a ver com o Bosão de Higgs:

O nome popular da partícula foi uma infeliz estratégia de marketing. Nada tinha a ver com religião ou com Deus. Descobrem-se novas partículas regularmente. Agora descobriu-se mais uma. Esta foi só uma etapa na compreensão do Universo. Não foi a resposta final sobre o início, nem sequer teve nada a ver com o começo do Universo. Nada tem a ver com Deus ou religiões.

A RTP errou na equipa de convidados.
O painel incluiu cientistas, filósofos, e teólogos.
Esta é uma descoberta da ciência; não é da religião nem da filosofia. Teólogos servem só para confundir as pessoas sobre a descoberta, porque dão opiniões que nada tem a ver com a descoberta científica. Ciência e matemática não dependem das opiniões de cada um. O que se descobriu foi devido a muito conhecimento científico e matemático – não devido a opiniões.
Se o tema é direito internacional, é óbvio que se deve convidar juristas, advogados, peritos em relações internacionais, etc. Mas nunca convidar uma pessoa que é electricista para falar sobre Direito Internacional. O próprio electricista deveria dizer que nada percebe de direito internacional.
Neste caso, deveriam ter convidado cientistas, físicos de partículas, e comunicadores de ciência. Só!

Isto é o que me apraz dizer antes de ver o programa.
O programa tem sido excelente em diferentes semanas. Espero que o seja também desta vez, apesar das limitações que referi em cima.

Hoje vi finalmente o programa.
Também podem ver o programa, aqui: 1ª parte e 2ª parte.

O programa teve períodos muito bons e períodos maus.
Foi muito bom no início e no final. No entanto, pelo meio, não se falou quase nada do Bosão de Higgs ou da sua descoberta: só de religião.

Tal como o programa no seu todo, os convidados tiveram momentos de brilhantismo com outros momentos totalmente irrelevantes, só de perda de tempo.

O doutor em História e Filosofia da Ciência, professor de filosofia, e padre jesuíta Alfredo Dinis nada falou sobre a descoberta.
Esteve muito bem no início da 2ª parte ao dizer que a religião se torna melhor com melhor ciência.
Esteve bem ao dizer que Deus não é empiricamente verificável. O problema é que nada disto tem a ver com a descoberta.
Entrou por debates sobre o vazio, e disse bem que a definição de vazio, cientificamente, é diferente da ideia popular de vazio. O problema é que isto nada tem a ver com o tema do programa!
Não consigo perceber porque razão levou o livro do Krauss, A Universe from Nothing e muito menos percebo porque razão passou o tempo a falar dele. O programa não era sobre o Krauss!
Resumindo, apesar de ter sido bastante correcto em várias das suas apreciações, o certo é que nada disse de relevante sobre o que era o Bosão de Higgs e sobre as implicações da sua descoberta. Passou o tempo maioritariamente a falar de Deus e do livro de Krauss. Desperdiçou tempo (que poderia ter sido aproveitado para falar da descoberta científica) e confundiu a audiência com assuntos irrelevantes para a descoberta.

O doutor em física de partículas e filósofo Bruno Nobre teve o mesmo tipo de discurso do padre Alfredo Dinis.
Errou quando disse que a ciência não consegue captar o que um pintor consegue captar, menosprezando a ciência. Sugiro que leia este texto e recomendo citações de Richard Feynman sobre isso, em que por exemplo diz: “the science knowledge only adds to the excitement, the mystery and the awe of a flower. It only adds.”
Deixou no ar a ideia que o mapa da ciência ser incompleto é uma desvantagem da ciência. Isto é totalmente errado, é uma concepção errada sobre a ciência! De facto, a constante procura de respostas é uma das características mais importantes da ciência, que a diferencia da religião, e que a faz ser tão bem sucedida. Em suma, ele atacou a ciência, acusando-a de uma desvantagem fruto de não saber que essa é a propriedade central da ciência que lhe dá computadores, televisões, viaturas, a internet, etc. Se não fosse assim, ainda viveríamos em cavernas. Esta é uma vantagem da ciência!
Resumindo, falou de religião quando este assunto era irrelevante para a descoberta científica, e quando falou de ciência, atacou a ciência com concepções erradas.

A doutora em História e Filosofia da Educação Olga Pombo surpreendeu-me pela positiva.
Pessoalmente penso que esta descoberta nada tem a ver com filosofia, no entanto ela teve intervenções realmente interessantes.
Esteve muito bem em dizer que primeiramente é preciso saber se este é o Bosão de Higgs, e não se isto tem a ver com Deus!
Esteve muito bem em dizer que é preciso fazer a distinção entre modelo e teoria.
Esteve muito bem ao dizer à Fátima Campos Ferreira que a pergunta “se estamos na presença de uma mudança de mentalidades”, não tem qualquer nexo.
E esteve particularmente bem quando interrompeu o doutor Bruno Nobre, afirmando que o desconhecido é um desafio para a ciência (nunca uma desvantagem!).
No entanto, o programa era sobre a descoberta do Bosão de Higgs. E sobre isso, ela nada disse. Parece-me assim que se perdeu em questões de filosofia de ciência em geral, que podem ter confundido a audiência.

O físico de partículas Gaspar Barreira esteve bem.
Esteve muito bem no início ao falar das implicações desta descoberta.
Deu o que me pareceu uma excelente explicação com a comparação com a descoberta da América.
Esteve bem em dizer que se estava a cair numa esparrela de discutir coisas que já estão definidas há muito tempo. O debate ciência vs. religião era um debate completamente “ao lado”. O problema foi que não conseguiu mudar a conversa de volta para a descoberta do Bosão de Higgs.
Esteve particularmente bem quando comunicou tudo o que Portugal contribuiu para esta investigação científica. Foi excelente.

O professor e físico de partículas João Varela tentou no início explicar o Bosão de Higgs, mas não me parece que tenha sido eficaz, e sobretudo pareceu-me que não foi claro nas respostas à Fátima Campos Ferreira.
Esteve bem quando falou das revoluções tecnológicas.
Esteve muito bem na resposta à doutora Olga Pombo sobre as certezas que temos nesta descoberta da partícula de Higgs.
Esteve muito bem quando disse que não está explicado como o Bosão de Higgs tem massa.

O professor, doutor, físico, e comunicador de ciência Carlos Fiolhais foi claro, divertido, inspirador, e sobretudo comunicou eficazmente a ciência.
Deveria ter-lhe sido dado mais tempo para falar sobre a descoberta.
O único problema que vi nas suas intervenções não foi culpa dele: enquanto os outros convidados foram tratados pelos dois nomes e pelo título, o professor Carlos Fiolhais não recebeu o mesmo respeito, já que por uma vez quer a doutora Olga Pombo quer a jornalista Fátima Campos Ferreira o trataram somente por “Fiolhais”.

A professora, jornalista e apresentadora do programa Fátima Campos Ferreira poderia ter estado melhor. Por vezes esteve bastante bem nas perguntas, levando o rumo da conversa para a área mais científica, mas outras vezes deixou-se levar pelo entretenimento popular da discussão sobre religião.
Ainda assim, fez perguntas relevantes aos físicos, e na grande maioria das vezes não viu as suas perguntas respondidas claramente.
Não percebi a pergunta sobre “se Deus pode estar antes do Big Bang”: nada tinha a ver com a descoberta do Bosão de Higgs. E qual Deus? Thor? Mithra? O Monstro de Esparguete Voador?
Esteve mal quando disse que se esta descoberta não é importante, então não se pode acreditar mais na ciência. A ciência não se faz de acreditar nela. A Fátima Campos Ferreira não utiliza diariamente telemóveis, televisões, carros, etc, porque acredita nisso. A gravidade não funciona de maneira diferente, caso a pessoa não acredite. O conhecimento científico existe, e não depende de crenças pessoais.
Acabou o programa a dizer: “neste programa sobre ciência”. Infelizmente, falou-se mais de religião.

Em sumário: parece-me que a descoberta do Bosão de Higgs não foi explicada devidamente, porque se perdeu demasiado tempo num debate irrelevante (para este caso) da ciência vs. religião.
Foi inadmissível o início da 2ª parte, em que o único objectivo foi fazer um hino à religião. Nada teve a ver com ciência ou com esta descoberta científica em particular.
Não se ficou a perceber o que era o Bosão de Higgs, não se explicou o que é uma partícula transportadora de massa, não se explicou a matemática do sigma 5, não se explicou devidamente a importância da descoberta, falou-se pouco (só no início) das implicações futuras desta descoberta, etc.
Parece-me que a maior fatia de culpa neste aspecto está nos cientistas convidados que não conseguiram mudar o rumo da conversa para a ciência, deixando que se caísse em discussões absurdas sobre Deus, quando nada disto tinha a ver com Deus.
Do feedback que me foi chegando de amigos leigos no assunto, a ideia geral foi que os cientistas tiveram por várias vezes respostas complexas e confusas, não conseguiram ser claros/objectivos nas explicações da descoberta científica, e em geral não souberam transmitir a mensagem. Faltou uma comunicação de ciência, clara, concisa, e eficaz. Não foi esta a ideia com que eu fiquei (eu gostei das intervenções dos cientistas convidados), mas a verdade é que o público-alvo não eram pessoas como eu, mas sim a população geral, leiga no assunto. E se é certo que a minha amostra de amigos não é significativa, a verdade é que a opinião leiga deles foi que pouco ou nada perceberam da descoberta, ficando a saber praticamente o mesmo do que sabiam antes do programa.

Concluindo, a RTP demonstrou ter uma ideia excelente para serviço público e colocou-a em prática. O programa tinha potencialidade para ser excepcional, de modo a explicar a descoberta científica à população. Infelizmente, parece-me que ficou aquém daquilo que poderia ter sido. Mas mesmo assim, já foi bom!

7 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

  1. Eu não vi o programa, nem acho que vá ver…

    Pessoalmente não gosto muito deste programa precisamente pela forma como é dirigido pela apresentadora, que nitidamente revela tendências para um dos lados e que não deixa as pessoas expressarem-se devidamente.

    Por tudo isto, e pela descrição feita deste programa em particular pela própria produção, acho que, à partida, o programa não seria sobre ciência nem sério no respeito à mesma.

    A Ciência procura sempre uma causa natural para os fenómenos que estuda. O princípio do Universo e as partículas que nele encontramos não é excepção. Mas neste caso o tiro é mesmo “ao lado”.

    E porque raios haveria de haver “lados” nesta questão?
    A não ser que esses “lados” fossem aqueles que defendem o Modelo Padrão (aquele que reúne mais evidências, tanto quanto sei) e os que defendem outros modelos…mas claro, isso não geraria audiências :p

    1. Aí está, há lados nessa questão sim, não em relação à uma discussão do nivel de “eu acredito x eu não acredito”, “eu sou favorável x eu não sou favorável”, a discussão não entra nesse caminho, mas na repercussão do respingo do tsunami da descoberta entre todas as áreas interessadas.

      Claro que crentes e religiosos estão interessados no assunto, a coisa respinga neles, os padrecos vão ter de dar explicações para alguns nos seus sermões de que estória é essa que descobriram como a matéris foi feita e ela contradiz o que estão pregando? (mais uma vez).

      O programa não foi feito para pedirem o aval da Igreja ou da Filosofia, mas sim dizer..tá, e agora, como isso bate na visão crente que muitos têm do mundo? Esse é um dos lados,

      E quanto ao lado ciência, o publico poderia estar interessado em mais detalhes de como a coisa funciona e que repercussão poderia ter nas nossas vidas daqui por diante, se a descoberta poderia trazer benefícios ou inovações, por exemplo;

      Nesse ponto de vista as coisas tem a ver, sim, não na forma de contraponto, mas como um mesmo assunto é tratado e repercute nas diferentes áreas.

  2. Mesmo sendo um assunto de ciência e o nome da partícula tenha sido vinculado erradamente a um deus como ação de marketing para a venda de um livro, ainda assim o tema é … a explicação científica comprovada (perdão, ainda em processo) para a formação da matéria, então, cientistas e esclarecidos, querendo ou não, é evidente que o assunto “respinga” como um tsunami nas questões religiosas, pois está aí a ciência (conhecimento) explicando algo que prescinde (mais uma vez de) um ser sobrenatural chamado Deus (ou qualquer outro nome).

    Um evento desses é uma oportunidade fantástica de colocar “um Dawkins” no meio para colocar as coisas no seu devido lugar. Quem sabe da próxima vez te convidam, Carlos, e você vai com sua “metralhadora giratória”? kkk.;

    Seu relatório deu a impressão que no geral o programa foi bem trabalhado pela maioria dos entrevistados, não aconteceu o pior, um debate do tipo acirrado que não leva a nada, por exemplo, se tivessem participando uma turma de crentes radicais de um lado e ateus emperdenidos sem conhecimento de base científica, de outro. Aí seria lixo.

    O comportamento da apresentadora penso ser reflexo de todo programa de nível popular. Ela quis trazer ao “pé no chão” questões óbvias que passam na cabeça da maioria da massa, ignorante e muitas vezes crente, perguntas que pessoas da audiência queriam fazer, pelo nível de consciência delas; Se alguém não conseguiu responder á altura mostrando os equívocos ou os conceitos corretos, não é problema dela.

    1. Concordo Jonas. A jornalista fez serviço público, se entendermos esse serviço público como perguntas que o próprio público faria – faria essas perguntas, mas faria mal, porque isto nada tem a ver com Deus, no entanto reconheço que a própria jornalista fez perguntas pertinentes de ciência.

      Concordo Jonas. Se eu estivesse lá, tinha partido para a discussão com o “outro lado”, porque aquilo nada tinha a ver com Deus, por isso falar-se tanto de religião foi uma total perda de tempo.

      abraços!

  3. Olá,
    Concordo contigo Carlos, acho que não se conseguiu passar a mensagem, e em parte devido aos cientistas tb não saberem transmitir esse conhecimento, mas tb me pareceu que o programa já estava “formatado” para isso e passaram o programa todo no debate da ciencia versus religião e não elucidaram o publico.

    1. Pois… essa foi a minha primeira crítica, à formatação do programa… 🙁

  4. Vejam o programa, e dêem feedback 😉
    O que acharam?
    Concordam comigo ou nem por isso? 😉

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.