Marcianos do pior…

No dia 30 de Outubro de 1938, Orson Welles atingiu um mediatismo sem precedentes, e a dança dos feixes hertzianos deixou muita gente com os nervos num feixe sem remédio. Numa emissão de rádio efectuada a partir de um estúdio de Nova Iorque, leu com ardor e arrebatamento um romance apocalíptico, “A Guerra dos Mundos”, de um escritor com um apelido quase igual ao seu: H. G. Wells.

Nesta obra, um dos primeiros livros contemporâneos de ficção científica, o nosso planeta é invadido por marcianos cruéis que aniquilam e despacham os nossos concidadãos a um ritmo impressionante. Welles efectuou a leitura intercalando-a com intervalos noticiosos inventados sobre o assunto, que aumentaram bastante o dramatismo do relato. Muitos ouvintes que começaram a escutar a emissão a meio do programa julgaram efectivamente que a Terra estava a ser alvo de tais suplícios, e gerou-se uma onda de pânico que percorreu grande parte da costa leste dos Estados Unidos.

A rádio, na altura, era a rainha do ar. Era um fenómeno novo e excitante, e o directo, impossível em todos os outros meios de comunicação da altura (jornais, essencialmente), tinha um encanto irresistível. Tal como hoje em dia sucede com a televisão, as famílias juntavam-se em redor dos aparelhos para poderem escutar novelas, notícias e toda a espécie de programas. Capaz de um impacto social tão profundo, uma narrativa na rádio podia ter implicações enormes. Em 1936, um repórter tinha efectuado, pela primeira vez, uma emissão em directo de uma zona em conflito, a partir de Espanha e da sua cruel Guerra Civil, um acontecimento sem qualquer espécie de precedente.

O poder da emissão radiofónica era enorme, como será de imaginar. E não nos esqueçamos que na altura não existiam outros meios para comprovar rapidamente a informação que nos chegava. A sociedade da informação ainda estava a umas boas décadas de distância. Nos nossos dias, se constatarmos que a informação é coincidente em todos os canais a que recorrermos na procura das notícias, tomamo-la como verídica, habitualmente. E se estivéssemos confinados a um que acabava recentemente de demonstrar o seu poder e a sua utilidade? E se esse canal nos estivesse a transmitir uma notícia catastrófica? Talvez entrássemos num pânico absoluto, como aconteceu com os americanos da década de 1930…

O romance de H. G. Wells tinha sido publicado em 1897. A ideia da invasão marciana e da sua grande supremacia sobre os povos da Terra tinha por base a colonização das potências europeias nos territórios africanos. A maior parte delas tinha estabelecido as suas colónias demonstrando pouco respeito pelos povos autóctones da região. E se os europeus o tinham feito, por que carga de água não haveriam os marcianos de fazer o mesmo?

A Guerra dos Mundos foi a primeira narrativa de uma guerra entre planetas envolvendo a Terra. O livro foi um enorme sucesso de vendas e a sua leitura radiofónica por Orson Welles tornou-se lendária. Quem a escutou em directo nunca a deverá ter esquecido…

Hoje em dia, sabemos que Marte não tem marcianos beras. É um mundo extraordinário, seguramente, e muito diferente da Terra, mas, ao mesmo tempo, apresenta semelhanças verdadeiramente notáveis. Qualquer estrela ou planeta é único na sua génese, morfologia, história e origem. Já percebemos a grande distância a que os objectos se encontram uns dos outros no universo. Os mundos são preciosos, raros e apaixonantes, uma notável excepção ao vazio grandemente dominante. Mas existe um número incontável de estrelas e planetas no universo. Pode ser que uma visita à Terra, a ocorrer, seja muito diferente da imaginada por Wells. De Marte não virá, com toda a certeza.

E talvez a motivação não seja tão sinistra…

Um Mundo Deste Tamanho

 

2 comentários

    • isa marreiros on 04/11/2012 at 10:53
    • Responder

    Soube da existência do seu livro “Um Mundo deste tamanho” aqui no Blog e fui a correr compra-lo, adorei li-o interruptamente numa viagem de Lisboa para Faro de autocarro e adorei. Para uma leiga em matéria de astronomia achei-o muito acessivel e interessante, tenho uma paixão sobre este tema e tenho aprendido muito desde que descobri este Blog.
    Gostaria de saber se já existe um próximo livro 🙂

    1. Olá Isa,

      Ainda ontem na Conferência, o Pedro me falava que talvez esteja na calha a ideia para outros livros… 😉
      Esperemos que sim 😀

      abraços!

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