Vénus, planeta de dinossauros e outras maravilhas

«To Other Planets», de Pavel Klushantsev, ori­gi­nal­mente pu­bli­cado na Rússia em 1959. Na re­e­di­ção de 1962, este li­vro in­fan­til de di­vul­ga­ção ci­en­tí­fica ainda nos mos­tra Vénus como um pla­neta ju­rás­sico re­pleto de di­nos­sau­ros e flo­res­tas tro­pi­cais luxuriantes.

O Planetário Hayden – cujo atual di­re­tor é o as­tró­nomo Neil de­Grasse Tyson – pe­diu ao pú­blico em ge­ral que es­cre­vesse car­tas re­ser­vando lu­gar para uma pri­meira vi­a­gem ao Espaço.

Estava-se em 1950. O pe­dido fa­zia parte de uma cam­pa­nha para pro­mo­ver uma ex­po­si­ção cha­mada «Conquista do Espaço», or­ga­ni­zada pelo pla­ne­tá­rio, e ori­gi­nou mi­lha­res de respostas.

Uma das car­tas es­tava as­si­nada por um ho­mem cha­mado Arthur:

“Meus se­nho­res, gos­ta­ria de apre­sen­tar o meu nome para um pe­dido de uma vi­a­gem es­pa­cial a Vénus. Sempre fui um in­te­res­sado neste pla­neta, e que­ria des­co­brir por mim pró­prio se exis­tem lá di­nos­sau­ros. Animais an­ti­gos sem­pre fo­ram uma fonte de cons­tante in­te­resse para mim e, se a te­o­ria es­ti­ver cor­reta, fi­ca­ria en­can­tado por ver um ti­ra­nos­sauro ou um bron­tos­sauro ‘ao vivo’.”

Sendo um in­te­res­sado no pla­neta, Arthur de­via já ter to­mado co­nhe­ci­mento de mui­tas te­o­rias so­bre o mis­te­ri­oso Vénus. A vi­são de um pla­neta tro­pi­cal não pro­vi­nha ape­nas da ima­gi­na­ção de mui­tos ilus­tra­do­res e es­cri­to­res de fic­ção ci­en­tí­fica, mas de ex­tra­po­la­ções de­sen­fre­a­das de al­guns cientistas.

E as­sim, du­rante mui­tos anos – an­tes das mis­sões so­vié­ti­cas Venera, no fi­nal da dé­cada de 60 – imaginámo-lo como um pla­neta quente e hos­pi­ta­leiro, fer­vi­lhante de vida, uma es­tân­cia de fé­rias do Sistema Solar à es­pera de ser ex­plo­rado por em­pre­en­de­do­res terrestres.

«Mr. Smith Goes to Venus», de Chesley Bonestell, pu­bli­cado na edi­ção de Março de 1950 da re­vista de fic­ção ci­en­tí­fica «Coronet Magazine», conta-nos a his­tó­ria de uma vi­a­gem tu­rís­tica ao pla­neta feita por uma fa­mí­lia em 2500. O Zoo Venopolis, com os seus di­nos­sau­ros e ou­tras «bes­tas pré-históricas», era «uma das mais fa­bu­lo­sas atra­ções de Vénus».

Esta ilus­tra­ção do len­dá­rio Frank R. Paul, pu­bli­cada em 1939 na re­vista de fic­ção ci­en­tí­fica Fantastic Adventures, mostra-nos como du­rante mui­tos anos ima­gi­ná­mos o nosso vi­zi­nho Vénus como o pla­neta do Sistema Solar onde a exis­tên­cia de vida ex­tra­ter­res­tre era mais provável.

Não pa­re­cia ha­ver nada que pu­desse con­tra­riar a vi­são de Vénus como um ir­mão tro­pi­cal da Terra: desde que Galileu apon­tou o seu te­les­có­pio para o pla­neta, em 1609, até à re­ve­la­dora des­cida da sonda Venera 7, mais de 300 anos de­pois, a luz vi­sí­vel mostrava-nos ape­nas um disco bri­lhante sem ne­nhuma ca­rac­te­rís­tica ou de­ta­lhe em es­pe­cial. Um pla­neta co­berto de nu­vens, in­tri­gante e pro­me­te­dor, mas tão des­co­nhe­cido que nem se­quer sa­bía­mos di­zer qual a com­po­si­ção des­sas nuvens.

Como nunca con­se­gui­mos ver nada em Vénus, de­sa­tá­mos a es­pe­cu­lar. Em «Other Worlds Than Ours», um li­vro do as­tró­nomo in­glês Richard A. Proctor, pu­bli­cado em 1894, era de­fen­dida a ideia de Vénus como uma mo­ra­dia de cri­a­tu­ras muito avan­ça­das na es­cala da criação:

“Dada a maior pro­xi­mi­dade do Sol, uma grande parte da sua su­per­fí­cie po­derá ser ina­bi­tá­vel por se­res como os que exis­tem no nosso pla­neta. Nas re­giões equa­to­ri­ais, o ca­lor de­verá ser quase in­su­por­tá­vel. Nas re­giões tem­pe­ra­das e su­bár­ti­cas, con­tudo, o clima deve ser ade­quado às nos­sas ne­ces­si­da­des. Não con­sigo des­cor­ti­nar uma ra­zão para ne­gar que em tais re­giões Vénus é a mo­rada de cri­a­tu­ras tão avan­ça­das na es­cala da cri­a­ção como qual­quer ou­tra na Terra.”

Pensava-se que Vénus poderia ter este aspecto

Pântanos, sem dúvida

No li­vro «The Destinies of Stars», pu­bli­cado em 1918, o quí­mico su­eco e pré­mio Nobel Svante Arrhenius, co­nhe­cido pe­las suas in­ves­ti­ga­ções com ele­tró­li­tos e por ser o pri­meiro a ex­pli­car, com de­ta­lhe ci­en­tí­fico, a te­o­ria da pans­per­mia cós­mica, não du­vi­dava de que «tudo em Vénus está en­char­cado»:

“Uma grande parte da sua su­per­fí­cie está, sem dú­vida, co­berta de pân­ta­nos se­me­lhan­tes aos que na Terra de­ram ori­gem aos de­pó­si­tos de car­vão. Condições cli­má­ti­cas cons­tan­te­mente uni­for­mes exis­ten­tes em toda a parte re­sul­tam na au­sên­cia to­tal de adap­ta­ção a mu­dan­ças nas con­di­ções ex­te­ri­o­res, pelo que ape­nas for­mas de vida mais bá­si­cas de­vem es­tar re­pre­sen­ta­das – a mai­o­ria per­ten­cente ao reino ve­ge­tal. E os or­ga­nis­mos são quase do mesmo tipo em todo o planeta.”

A vi­são de Vénus como um mundo pan­ta­noso, car­bo­ní­fero, pro­vém so­bre­tudo das ideias de Svante Arrhenius e per­ma­ne­ceu na ima­gi­na­ção po­pu­lar du­rante mui­tos anos, mesmo de­pois de ou­tras in­ves­ti­ga­ções in­di­ca­rem que a re­a­li­dade po­dia ser ra­di­cal­mente diferente.

No prin­cí­pio da dé­cada de 1920, dois anos após a pu­bli­ca­ção do li­vro de Arrhenius, uma aná­lise es­pec­tros­có­pica à com­po­si­ção quí­mica da at­mos­fera de Vénus não de­te­tou va­por de água nas nu­vens, como se es­pe­rava, mas enor­mes quan­ti­da­des de dió­xido de car­bono. Esta aná­lise dei­tava por terra a te­o­ria de um pla­neta pan­ta­noso e lu­xu­ri­ante, su­ge­rindo um ce­ná­rio me­nos tu­rís­tico: um pla­neta seco e desértico.

Ilustração da Venus Express, a pri­meira ex­plo­ra­ção do «pla­neta gé­meo» feita pela Agência Espacial Europeia. Desde abril de 2006 que ob­serva e mo­ni­to­riza a at­mos­fera de Vénus.

Fotografia da su­per­fí­cie de Vénus cap­tada pela câ­mara da sonda so­vié­tica Venera 9 — o pla­neta idí­lico de ou­tros tem­pos era agora subs­ti­tuído pela vi­são do Inferno: mais de 460 graus de tem­pe­ra­tura, ro­chas vul­câ­ni­cas em todo o lado, uma at­mos­fera com 90 por cento de dió­xido de car­bono, densa e es­ma­ga­dora, tão pe­sada como 1000 me­tros de oce­ano so­bre as nos­sas cos­tas, e nu­vens de ácido sul­fú­rico nos céus.

A pre­sença de tan­tas nu­vens, con­ti­nu­ava a especular-se, de­mons­trava que não só pos­suía at­mos­fera como de­via es­tar en­char­cado em água. E fi­cava só um bo­ca­di­nho mais perto do Sol que a Terra (42 mi­lhões de qui­ló­me­tros), pelo que de­via ser mais quente — uns 30 graus num dia mais ameno, talvez?

Queríamos mesmo que Vénus fosse o nosso pla­neta de Verão.

35 anos de­pois das pri­mei­ras aná­li­ses es­pec­tros­có­picas, con­ti­nuá­va­mos sem con­se­guir ver um mi­lí­me­tro da su­per­fí­cie do pla­neta, ape­nas aque­las nu­vens, eter­nas para uma vida hu­mana como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter ou as cra­te­ras lu­na­res. Dois as­tró­no­mos ame­ri­ca­nos, Fred Whipple e Donald Menzel, su­ge­ri­ram que a at­mos­fera ve­nu­si­ana era com­posta por água con­ge­lada – cris­tais de gelo, so­bre­tudo – não de­te­tá­vel pela espectroscopia.

Whipple e Menzel ima­gi­na­ram um pla­neta co­berto por um oce­ano de água ga­sei­fi­cada; ou­tros es­pe­cu­la­ram ainda mais, vi­su­a­li­zando Vénus como um mundo oceâ­nico ha­bi­tado por cri­a­tu­ras ma­ri­nhas se­me­lhan­tes às que ti­nham exis­tido há 500 mi­lhões de anos na Terra, du­rante o Período Câmbrico.

Um cós­mico pu­xão de orelhas

As es­pe­cu­la­ções so­bre a na­tu­reza de Vénus e as con­di­ções à su­per­fí­cie fo­ram re­cor­da­das no epi­só­dio 4 da fa­mosa sé­rie «Cosmos» e for­ne­ce­ram a Carl Sagan um ex­ce­lente pre­texto para dar uma re­pri­menda a al­guns co­le­gas e uma li­ção so­bre mé­todo ci­en­tí­fico aos se­gui­do­res de te­o­rias como a dos Antigos Astronautas, sus­ten­ta­das na mesma fa­lá­cia ló­gica de con­cluir o que lhes in­te­ressa a par­tir do que não sabem.

«Absolute Pure Science Badassery», es­cre­veu um uti­li­za­dor no YouTube so­bre o monólogo:

“A au­sên­cia de qual­quer coisa que pu­dés­se­mos ver em Vénus le­vou al­guns ci­en­tis­tas (e ou­tros) a con­cluir que a su­per­fície era um pân­tano.
O ar­gu­mento — se é que po­de­mos dignificá-lo como tal — era qual­quer coisa como isto:
‘Não con­sigo ver nada na su­per­fí­cie de Vénus’.
‘Porquê?’
‘Porque está co­berto por uma densa ca­mada de nu­vens’.
‘De que são fei­tas as nu­vens?’
‘De água, claro; logo, Vénus deve ter muita água e a su­per­fí­cie deve es­tar en­char­cada’.
‘Se a su­per­fí­cie está en­char­cada, en­tão deve ter um pân­tano’.
‘Se tem um pân­tano, deve ter fe­tos.’
‘Se tem fe­tos, tal­vez até te­nha dinossauros’.

Observação: não con­se­gui­mos ver nada. Conclusão: dinossauros.”

Bernard le Bovier de Fontenelle

O pri­meiro re­trato dos Venusianos

Verdade seja dita, es­pe­cu­lar so­bre vida em ou­tros pla­ne­tas, in­cluindo Vénus, é um exer­cí­cio muito an­tigo. O es­ti­má­vel Bernard le Bovier de Fontenelle (1657 – 1757), es­cri­tor e en­saísta fran­cês cujo ape­lido ha­ve­ria de ser usado para ba­ti­zar uma cra­tera na Lua, con­tem­po­râ­neo de Voltaire e tão es­ti­mado como aquele, não só es­tava certo de que Vénus al­ber­gava se­res vi­vos como sa­bia muito bem descrevê-los:

“Posso di­zer da­qui como são os ha­bi­tan­tes de Vénus: são pa­re­ci­dos com os mou­ros de Granada, ne­gros de baixa es­ta­tura, a pele quei­mada pelo Sol; cheios de fogo e in­te­li­gên­cia, sem­pre ena­mo­ra­dos, a es­cre­ver ver­sos; fãs de mú­sica; or­ga­ni­zam fes­ti­vais, dan­ças e tor­neios to­dos os dias.”

Os ve­nu­si­a­nos eram por­tanto es­pi­ri­tu­al­mente pa­re­ci­dos com o pró­prio Fontenelle, um ho­mem culto e in­te­li­gente que vi­veu uma vida boa, fes­tiva e muito, muito longa. Aos 92 anos, ao ser apre­sen­tado a Anne-Catherine de Ligniville, uma bel­dade dona de um sa­lão li­te­rá­rio em Paris, afir­mou: «Ah ma­dame, se eu ao me­nos ainda ti­vesse oi­tenta anos!»

4 comentários

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    • Dinis Ribeiro on 01/12/2014 at 16:32
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    Sempre gostei da capa do Livro “Operação Vénus” o nº73 da Colecção Argonauta publicado em 1963…
    http://coleccaoargonauta.blogspot.pt/2011/09/n-73-operacao-venus.html

    Penso que o Mestre Lima de Freitas, o autor desse desenho, poderá ter sido influenciado pelos desenhos do Tintim na Lua, de 1954 pois o “venus rover” desta capa lembra vagamente o veículo usado neste album: http://pt.wikipedia.org/wiki/On_a_march%C3%A9_sur_la_Lune

  1. Excelente artigo Marco. 😀

    Não à toa que a imaginação do Fontenelle fez com que “Diálogos sobre a Pluralidade dos Mundos” tornasse uma das obras mais lidas do Pré-Iluminismo.

    Abraços.

    • Carlos Renato S. on 30/11/2012 at 11:49
    • Responder

    Ótimo post! 🙂

  2. Excelente texto 😉

    Mas, lá está, imaginamos sempre que os extraterrestres têm que ser como nós… e vivem em sítios parecidos com os nossos 😉

  1. […] encolheu, Rato Mickey, sorriso, meteorito, gelo, mapa, vídeo). Vénus (informações, mistérios, história, viver, pizza). Júpiter (sistema, núcleo a derreter, mancha a diminuir, explosão, 65 + 2 luas, […]

  2. […] irmão” (com uma composição, gravidade e tamanho similares à Terra), que durante séculos despertou a imaginação de muitos, não era o paraíso tropical que a ficção científica pretendia, com vegetação luxuriante, […]

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