Entre Geleiras, Vulcões e Oceanos

Satélites Galileanos - JS

Satélites Galileanos – JS

As coisas estão um tanto paradas e repetitivas? Visite então o Sistema do Planeta Júpiter e você terá garantia de paisagens diferentes. Um Planeta extremamente nebuloso, gigante e ativo tem em sua volta dezenas de luas alienígenas inexploradas, quatro delas de dimensões planetárias, e de fato mundos àparte, com naturezas tão variadas e exóticas que aqui, na corte do deus dos deuses, sempre haverá paisagens para todos os gostos. Se alguma vez perguntar a um cientista qual é o mundo mais interessante do sistema solar, as possíveis respostas seriam variadas, mas se perguntar a um astrônomo, a resposta mais provável seria a seguinte: “a pergunta melhor seria, ‘qual não é?'”.

Se você for um meteorologista, ou então alguém que gosta de nuvens, tempestades e fenômenos atmosféricos no geral, Júpiter seria o lugar. As nuvens do gigante gasoso são um espetáculo gratuito desde os tempos de Galileu. Turbulento por dentro, e por fora, o mosaico colorido da atmosfera do gigante gasoso forma, devido à rápida rotação, três estruturas visuais principais: os cinturões, as zonas e as manchas. Os cinturões são camadas de nuvens escuras, baixas e relativamente quentes, sendo as zonas camadas de nuvens claras, mais altas, chegando ao limiar do frio espaço exterior. Entre elas, a turbulência forma as manchas, que são gigantescos sistemas de tempestades. Aqui algo muito interessante acontece, e tira o fôlego de qualquer visitante, é a Grande Mancha Vermelha. Nada anormal: uma tempestade gigante para um planeta gigante, mas uma tempestade durar séculos, isso sim, é fantástico. A Grande Mancha é um sistema de tempestade anticiclônica que se ergue oito quilômetros acima da camada principal de nuvens, tem três vezes o tamanho do Planeta Terra e tem ventos de centenas de quilômetros horários – um verdadeiro titã entre todas as tempestades atmosféricas já observadas desde nossa existência.

Apreciadores de um bom som não devem deixar de ouvir a rádio Júpiter. Sim, o maior campo magnético do sistema solar, emite um som grave e que pode ser detectado por aparelhos. É também a maior estrutura ao redor do Sol, e como uma imensa cauda de cometa empurrada pelo vento solar chega até a órbita do Planeta Saturno. Se essa magnetosfera fosse visível a olho nu, a veríamos da Terra como uma bolha ondulante aproximadamente com o tamanho da Lua.

Mas sempre haverá alguém que prefira sentir o chão sob seus pés, e gente que vai mais além, buscando entendê-lo mais profundamente. Vulcanólogos, Geólogos, e outros profissionais não ficariam felizes em um planeta enorme feito de gases, sem ter nem onde pisar. Mas esse pacote de viagens é completo, e a alguns dias de viagem chega-se a Io, o satélite planetário mais próximo. É o mundo para quem gosta de emoções fortes, atividade vulcânica e explosões, um cenário intenso. Bilhões de anos sofrendo a maré gravitacional de Júpiter tornaram Io o mundo mais vulcânico já observado, mais um recorde para a família jupiteriana. Nesse mundo, pode haver um vulcão ativo por perto para cada imediação visitada. Sem falar em tremores de terra e chuvas ácidas provenientes da atmosfera pulverizada de detritos vulcânicos, ainda haveria o esplendor de observar Júpiter gigantesco no céu alienígena desse mundo explosivo.

As demais localidades são mundos de gelo, à primeira vista sem grandes atrativos; se você não for, é claro, um estudioso ou um entusiasta dessas áreas glaciais. Mas o mais interessante seria perfurar  a crosta gelada do satélite Europa, que numa escala bem menos dramática que Io sofre as mesmas marés gravitacionais, tendo seu interior ainda quente e provavelmente ativo, formando aquele que parece ser o maior oceano jamais visitado, bem abaixo de quilômetros de uma crosta gelada e fraturada, com estruturas que parecem placas tectônicas de gelo sobre este vasto mundo fluído. De repente, um mundo a bilhões de quilômetros do Sol, inóspito e gelado, terá se tornado um dos melhores lugares a se procurar por formas de água e vida da forma mais bizarra. Uma realidade dos nossos próximos tempos, cada vez mais perto, será conhecer esse mundo, e um pouco mais de seus segredos profundos.

Após um planeta colossal e dois satélites planetários incríveis, um dinâmico e outro altamente instigante, o visitante pode estar satisfeito; mas isso não é tudo, ainda tem mais pra ver. Outros dois recordes dos jupiterianos são levantados por Ganímedes, a maior lua do sistema solar, e o único satélite conhecido a ter um campo magnético próprio. Assim como Europa, Ganimedes parece ter uma crosta de gelo flutuando sobre um manto lamacento que pode conter camadas de água líquida, isso no entanto a uma profundidade maior. A origem do campo magnético é um grande mistério local, pode estar relacionado ao núcleo metálico girando no interior de uma camada mais líquida, tal qual a Terra, ou então estaria relativo ao oceano subterrâneo, sendo gerado pela água com uma alta concentração de sais.

O tamanho planetário, a estrutura superficial, a composição interior, fenômenos gravitacionais e magnéticos são umas das razões do aparente otimismo ao estimar que existe oceanos subterrâneos em três luas ao redor de um mesmo planeta. A próxima seria Calisto, o segundo maior satélite nesse sistema. A superfície aqui leva o título de mais craterada do sistema solar, e por ser antiga e não ter sofrido qualquer atividade geológica recente, é saturada de crateras e dificilmente se formaria uma nova cratera em Calisto sem tocar em outra. Existem pequenos pedaços de gelo de água pura com um albedo de mais de 80% na superfície, cercados por muito material escuro.

O Sistema Jupiteriano é uma “terra de gigantes”. Num gráfico da distribuição da massa que gira ao redor do Sol, 70% está apenas no Planeta Júpiter – todos os planetas, asteroides e luas caberiam dentro dele. Os satélites também são os maiores; além de Júpiter, apenas Saturno, Netuno e a Terra, possuem à sua volta alguma lua com dimensões de planeta, enquanto Júpiter tem quatro. Embora pareça que todo o planeta que olhasse para Júpiter se sentiria diminuído, isso não condiz diretamente com a realidade. Há muito a ser conhecido em termos fenomenológicos nos demais cantos desse Sistema Solar. O fato é que, mesmo que conheçamos mais e mais sobre exoplanetas lá fora, aqui em nosso quintal ainda se ocultam os maiores mistérios imagináveis, capazes de valer muito a pena os cenários exóticos da ficção científica. Como bem sabemos, vem aí o Relatório de Europa. 😉

9 comentários

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    • Marcos Mussel on 12/01/2013 at 18:10
    • Responder

    Ótima escrita. Parabéns pelo artigo fascinante.

  1. Um ótimo artigo! Parabéns, li ao som de Júpiter aqui, é de arrepiar. Muito bom.

  2. Ótimo artigo!

  3. Muito bom! Gostei.Só tenho uma dica: sempre ler antes de publicar, pois há muitos erros de digitação. Fora isso, está ótimo o texto!

    abraços

    • Ricardo Andre on 12/01/2013 at 00:48
    • Responder

    Artigo muito interessante, mas no entanto peca pelos erros ortográficos. Merecia uma correcção. Mas vou partilhar 😉

    1. Não faço questão que partilhe, mas prefiria saber que erros seriam tão graves, visto que o corretor não os encontrou na altura da publicação. Talvez concordância ou palavras novas ou pouco usadas, não sei. As uso porque já as vi em algum artigo. Lembrando que sou brasileiro, a escrita pode parecer um pouco diferente.

    2. O autor é brasileiro e escreve em PT do Brasil 😉 não são erros, é PT do Brasil 😉

        • Jaculina on 12/01/2013 at 21:01

        Agora, com o acordo “hortográfico”, tudo o que se escreva está certo!
        De qualquer forma, importa muito mais o conteúdo (excelente) do texto.

        • Jonatas on 14/01/2013 at 11:52
          Author

        Obrigado pessoal, teve tambem uns acidentes na digitaçao ja corrigidos, culpa de ser minha primeira vez num Mac OS, e ateh agora, como devem ter notado, ainda nao achei os acentos… 🙁
        Geralmente nos artigos extensos o Carlos Oliveira da uma revisada, e adapta o texto para a linguagem PT, o que tem ajudado bastante, incluindo este artigo.
        Gosto muito dos sistema de Satelites dos Planetas Gigantes Gasosos, em termos fenomenologicos (mais um neolismo, hehe) sao incrivelmente ricos. Pretendo escrever em breve sobre os de Saturno, Netuno e Urano, onde tem mais mundos interessantes a revemos algumas informaçoes fascinantes.

  1. […] gelo, mapa, vídeo). Vénus (informações, mistérios, história, viver, pizza). Júpiter (sistema, núcleo a derreter, mancha a diminuir, explosão, 65 + 2 luas, JUNO, JuIcE). Saturno (anel […]

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