Mais informação quer dizer menos beleza?

Feynman stars

Poets say science takes away the beauty of the stars – mere globs of gas. I too can see the stars on a desert night, and feel them. But do I see less or more? The vastness of the heavens stretches my imagination – stuck on this carousel my little eye can catch one – million – year – old light. A vast pattern – of which I am a part… What is the pattern, or the meaning, or the why? It does not do harm to the mystery to know a little about it. For far more marvelous is the truth than any artists of the past imagined it. Why do the poets of the present not speak of it? What men are poets who can speak of Jupiter if he were a man, but if he is an immense spinning sphere of methane and ammonia must be silent?

I have a friend who’s an artist and has sometimes taken a view which I don’t agree with very well. He’ll hold up a flower and say “look how beautiful it is,” and I’ll agree. Then he says “I as an artist can see how beautiful this is but you as a scientist take this all apart and it becomes a dull thing,” and I think that he’s kind of nutty. First of all, the beauty that he sees is available to other people and to me too, I believe. Although I may not be quite as refined aesthetically as he is … I can appreciate the beauty of a flower. At the same time, I see much more about the flower than he sees. I could imagine the cells in there, the complicated actions inside, which also have a beauty. I mean it’s not just beauty at this dimension, at one centimeter; there’s also beauty at smaller dimensions, the inner structure, also the processes. The fact that the colors in the flower evolved in order to attract insects to pollinate it is interesting; it means that insects can see the color. It adds a question: does this aesthetic sense also exist in the lower forms? Why is it aesthetic? All kinds of interesting questions which the science knowledge only adds to the excitement, the mystery and the awe of a flower. It only adds. I don’t understand how it subtracts.

Por vezes, há quem critique a ciência dizendo que ela retira a beleza às coisas. Ao entrar em explicações e detalhes sobre as coisas, retira-lhe a “beleza da naturalidade”.

Richard Feynman respondeu desta forma:

Os poetas dizem que a ciência retira beleza às estrelas, chamando-lhes simples bolas de gás. Eu também consigo ver as estrelas à noite, e senti-las. Mas vejo mais ou menos que os poetas? O céu é enorme, para além da minha imaginação – preso neste carrossel, os meus olhos conseguem ver luz que viajou milhões de anos. Um longo padrão, do qual faço parte. Mas qual é o padrão, ou o seu significado, ou a sua razão? O mistério não desaparece se soubermos um pouco sobre ele. Porque a verdade que sabemos hoje é muito mais maravilhosa que aquela que os artistas do passado imaginaram. Porque os poetas atuais não falam dessa verdade? Porque os poetas falam de Júpiter como se ele fosse um homem, mas não falam de Júpiter como uma imensa esfera de metano e amoníaco?

Eu tenho um amigo que é artista e por vezes ele tem uma opinião com a qual não concordo. Ele pega numa flor e diz “vê como é bela”, e eu concordo. Depois ele diz “Eu sou um artista por isso vejo a beleza da flor, mas tu como cientista queres saber todas as informações da flor e torna-se aborrecido”, e aqui percebo que ele está a ser parvo. Em primeiro lugar, a beleza que ele vê está disponível para toda a gente ver, incluindo para mim. Ele só vê aquilo que toda a gente vê, mesmo que são sejam esteticamente refinados. Eu consigo, tal como ele, apreciar a beleza de uma flor. No entanto, ao mesmo tempo, eu consigo ver muito mais sobre a flor do que ele vê. Eu consigo imaginar as suas células, os mecanismos complicados por dentro da flor, que também têm a sua beleza. Não é só a beleza nesta dimensão, de centímetros, mas há beleza nas dimensões menores, na estrutura interior, e nos processos dentro da flor. É muito interessante o facto das cores da flor terem evoluído de modo a atraírem insectos para a polinização; isso quer dizer que os insectos conseguem ver as cores. O que leva à questão: existe sentido estético nas dimensões inferiores? O que é a estética? São questões interessantes que adicionam conhecimento científico ao entusiasmo, mistério e beleza de uma flor. Adicionam. Não retiram beleza à flor.

Richard Feynman era um cientista, génio, e poeta da ciência.
A ciência adiciona informação à beleza natural das coisas. Com essa informação, as coisas ficam mais belas, porque se percebe como elas funcionam. Há uma incrível beleza nos mecanismos mais “invisíveis” das coisas que não está ao alcance de quem olha só de forma superficial.
A ciência torna tudo mais poético…

1 comentário

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    • Francisco Magalhães on 12/07/2013 at 22:41
    • Responder

    Penso que essa opinião vem da ignorância. Só um ignorante poderá afirmar que a ciência subtrai a beleza ao que quer que seja (engraçado, escrevi esta frase antes de ler que a segunda parte é exactamente o que Feynman disse).
    Eu olho em volta e vejo uma dança cósmica de cortar a respiração, com matéria, antimatéria e energia, partículas saltitantes, ondas envolventes, um completo pandemónio se não fosse tão intrincadamente organizado.
    Olhamos para o céu e vemos, não apenas o espaço, mas o tempo, olhamos para uma rocha e vemos milhões de anos de sedimentação e todos os animais que a pisaram ou plantas que nela firmaram raízes, ou para um diamante e imaginamos a infernal fornalha compressora que o gerou. Vemos o mar e pensamos se a Lua estará deste lado ou do outro, sentimo-nos doentes e interrogamo-nos o que estarão os nossos leucócitos a fazer neste preciso momento. Vemos as estrelas e sabemos que são bolas de gás ardente (ou serão algumas diamantes gigantes, ainda que mortas?). Meras orbes em chamas. Biliões, triliões de meras orbes, esvoaçando em volta de precipícios que lhes engolirão até a luz que nos dá vida ou que deambulam por um espaço infinito que se limita a si mesmo até que a glória as abandone e a fornalha se apague, ou até ao dia em que brilharão mais do que nunca e polinizarão o universo com os elementos de que nós próprios somos feitos. É o conhecimento científico que me dá aquele sentimento de pertença e unidade, que dá a dimensão espiritual à minha existência (talvez uma mediocridade minha, mas confesso que sinto falta de algum espiritualismo na vida), que me diz que as partículas que me compõem já passaram por aventuras inimagináveis, já foram estrelas, já vaguearam pelo universo, já foram presa e predador.
    Um artista que não veja a inimaginável grandiosidade da obra que a ciência pinta, constrói, reconstrói, molda, não é artista: é dolorosamente ignorante.

  1. […] como cientista, racional. Numa parte do filme, ela celebra Feynman, parafraseando-o, dizendo que a matemática não retira beleza às coisas, simplesmente acrescenta mais beleza à natureza. É curioso que caraterizando J.C. desta forma, ela é depois vista por ele como sendo fria, […]

  2. […] Teorias da Conspiração (razões biológicas). Brian Cox: literacia científica. Xadrez Cósmico. Beleza da Ciência. Profecias da Ciência. 7 Equações. […]

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