Akhenaton e o mestre da levitação capilar (Parte I)

O pro­grama Ancient Aliens é conhe­cido por defen­der que rea­li­za­ções anti­gas da Humanidade – das Grandes Pirâmides aos cír­cu­los de pedra de Stonehenge – não teriam sido pos­sí­veis sem o auxí­lio de extraterrestres.

ancient aliens

Especialistas como Erich von Däniken e o seu men­tor, Giorgio A. Tsoukalos, vis­lum­bram os nos­sos ante­pas­sa­dos como meros maca­cos sofis­ti­ca­dos que esten­diam as mãos para rece­ber de visi­tan­tes extra­ter­res­tres uma dádiva em forma de amen­doins tecnológicos.

Quando há dias pas­sei pelo History Channel e vi uma está­tua de Akhenaton, pen­sei inge­nu­a­mente que o canal fizera jus ao seu nome com um bom docu­men­tá­rio sobre o faraó.

Fiquei logo espe­cado diante do tele­vi­sor, pois Akhenaton é um mis­té­rio den­tro do mis­té­rio que é o Antigo Egito.

Afinal não era um docu­men­tá­rio comen­tado por egip­tó­lo­gos, arqueó­lo­gos ou his­to­ri­a­do­res, mas os nos­sos velhos conhe­ci­dos do Ancient Aliens a oferecerem-​​nos a sua deli­rante ver­são sobre quem foi real­mente o faraó pros­crito e surpreendendo-​​nos com a sua mono­lí­tica pers­pi­cá­cia: um ser extraterrestre!

Que outra expli­ca­ção pode­ria haver para o facto de ter sido repre­sen­tado como uma espé­cie de her­ma­fro­dita de crâ­nio alon­gado e olhos exa­ge­ra­da­mente ras­ga­dos, como os extra­ter­res­tres que se vêem nos fil­mes de fic­ção científica?

O facto de as refe­rên­cias a Akhenaton terem sido apa­ga­das dos monu­men­tos era tam­bém um sinal de que se fizera um esforço para «enco­brir» a sua ver­da­deira ascendência.

Este epi­só­dio de Ancient Aliens chamava-​​se «Alienígenas: Factos enco­ber­tos», pelo que achei nor­mal que, a dado ponto, os «teó­ri­cos» do pro­grama tenham tido a neces­si­dade de jus­ti­fi­car o título.

A teo­ria dos extra­ter­res­tres não deixa de ser inte­res­sante, pois per­mite aos auto­res do Ancient Aliens expli­car, de uma assen­tada, todos os mis­té­rios e mara­vi­lhas da Antiguidade que não se pre­o­cu­pa­ram em conhecer.

Akhenaten-the-Pharaoh

O Rei Solar

Se não fazem ideia das cir­cuns­tân­cias que leva­ram os artis­tas a repre­sen­tar a famí­lia real daquela forma, se não sabem o que foi o período Amarna na his­tó­ria do Antigo Egito e por que motivo o nome do faraó foi apa­gado dos monu­men­tos com um zelo sacer­do­tal, a expli­ca­ção ali­e­ní­gena torna-​​se quase plausível.

Duvido que a nossa noção moderna de um ser de outro pla­neta fizesse sen­tido para os anti­gos egíp­cios, mas há que dar a mão à pal­ma­tó­ria ao Ancient Aliens: se Akhenaton tivesse vivido numa soci­e­dade em que a pos­si­bi­li­dade de vida extra­ter­res­tre fosse tema fami­liar de con­versa, o faraó teria sido o alvo número 1 da mexe­ri­quice intergaláctica.

Estátua de Akhenaton exposta em Paris (Foto: Thomas Coex)

Estátua de Akhenaton exposta em Paris (Foto: Thomas Coex)

A não ser que se seja um «teó­rico» do Ancient Aliens, são neces­sá­rios mui­tos anos de estudo para se tor­nar um arqueó­logo, mais ainda quando se deseja uma espe­ci­a­li­za­ção no estudo da his­tó­ria do Antigo Egito.

Nem déca­das de estu­dos e inves­ti­ga­ções, con­tudo, têm sido sufi­ci­en­tes para que os pró­prios egip­tó­lo­gos se ponham de acordo sobre o que foi a vida, a per­so­na­li­dade e o des­tino do enig­má­tico Akhenaton. Uma som­bra enorme obs­cu­rece este período da História da civi­li­za­ção egíp­cia e as des­co­ber­tas arque­o­ló­gi­cas ainda não são sufi­ci­en­tes para o iluminar.

Por isso as inter­pre­ta­ções e opi­niões sobre a natu­reza de Akhenaton têm sido mui­tas ao longo das déca­das: os fac­tos rareiam, o mis­té­rio adensa-​​se…

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Quem foi real­mente este homem cujo des­tino ainda nos intriga, mais de 3000 anos depois? O que fez? Quão dife­rente era dos seus contemporâneos?

Sabemos, ou jul­ga­mos saber, que este faraó da 18ª dinas­tia, filho mais novo de Amen-​​hotep III e da sua esposa prin­ci­pal, Tié, ocu­pou o trono devido à morte do irmão mais velho – ele não estava des­ti­nado a ser um rei.

Sabemos, ou jul­ga­mos saber, que rom­peu com o pan­teão dos deu­ses egíp­cios em favor de um único deus, o deus-​​sol Aton, fun­dando um novo culto que alguns viram como pe­rcur­sor do Cristianismo, mais de 1300 anos antes do nas­ci­mento de Cristo.

Nos pri­mei­ros cinco anos rei­nou como Amen-​​hotep IV, mas depois mudou o nome para Akhenaton («o espí­rito atu­ante de Aton»). Para nós, mudar o nome de Fernando para Francisco pouco sig­ni­fi­cado tem a não ser, tal­vez, a com­pli­ca­ção buro­crá­tica que é fazê-​​lo; para um egíp­cio daquela época, o nome fazia parte do seu ser – definia-​​o de forma profunda.

Sabemos, ou jul­ga­mos saber, que aban­do­nou a cidade de Tebas e os seus sacer­do­tes mate­ri­a­lis­tas para fun­dar, na mar­gem ori­en­tal do Nilo, num deserto a mais de 300 qui­ló­me­tros a sul do atual Cairo, uma utó­pica cidade cha­mada Akhetaton («Horizonte de Aton»).

Os anos em que por lá viveu (até mor­rer) fica­ram conhe­ci­dos como o Período Amarna em refe­rên­cia ao nome atual da loca­li­dade onde o faraó man­dou erguer a nova cidade.

Akhenaton e Nefertiti (LeeReex @DeviantArt)

Akhenaton e Nefertiti (LeeReex @DeviantArt)

Sabemos tam­bém que a sua esposa prin­ci­pal foi a famosa rai­nha Nefertiti, cujo nome sig­ni­fica «a bela che­gou».

Akhenaton revo­lu­ci­o­nou a arte egíp­cia não só pela forma como a famí­lia real pas­sou a ser repre­sen­tada, como pelas cenas que os artis­tas eram auto­ri­za­dos a pin­tar ou escul­pir: nunca antes na his­tó­ria das dinas­tias um faraó se dei­xara ver como um pai de famí­lia dedi­cado e cari­nhoso, de mãos dadas com a rai­nha, pegando ao colo e bei­jando as filhas.

Deve ter sido um devoto com alma de poeta, pois escre­veu um hino em home­na­gem ao deus-​​sol que vene­rava e de quem se jul­gava o prin­ci­pal repre­sen­tante na Terra. Foi mais diplo­mata do que guer­reiro, pois pri­vi­le­giou o diá­logo com os rivais numa época em que o Egito atin­gira o expo­ente da sua força mas estava a ser acos­sado pelo ambi­ci­oso rei dos Hititas.

Para uma civi­li­za­ção que atri­buíra as suas vitó­rias mili­ta­res e o bem-​​estar do impé­rio à satis­fa­ção do deus Amon, agora des­pre­zado pelo faraó, o período da sua regên­cia poderá ter sido visto como uma des­graça que have­ria de arrui­nar o Egito e destruir-​​lhe as conquistas.

Devido à escas­sez de mate­rial arque­o­ló­gico, às repre­sen­ta­ções esti­li­za­das da sua figura física e à sua per­so­na­li­dade, Akhenaton passa então à his­tó­ria como heré­tico, revo­lu­ci­o­ná­rio que com­ba­teu o mate­ri­a­lismo opor­tu­nista dos ganan­ci­o­sos sacer­do­tes de Tebas, homem impo­tente, pai extre­moso, mulher dis­far­çada de homem, marido apai­xo­nado, rei forte, rei fraco, indi­ví­duo doente, louco, paci­fista, ide­a­lista, um santo, um demó­nio, o cri­a­dor do mono­teísmo, o per­cur­sor do Cristianismo, o men­tor de Moisés – têm exis­tido inter­pre­ta­ções para todos os gostos.

O faraó Akhenaton (à esquerda) e a rai­nha Nefertiti com as filhas, sob os raios aben­ço­a­dos do deus-​​sol.

O faraó Akhenaton (à esquerda) e a rai­nha Nefertiti com as filhas, sob os raios aben­ço­a­dos do deus-​​sol.

Visões de Akhenaton

O escri­tor egíp­cio e Prémio Nobel da Literatura, o já fale­cido Naguib Mahfouz, escre­veu uma bela fic­ção explo­rando a incer­teza acerca da ver­da­deira natu­reza deste faraó: o romance «Akhenaton, o Rei Herege», coloca-​​nos no Egito após a morte do sobe­rano, acom­pa­nhando-​​o numa demanda pela ver­dade de um homem que ia «arrui­nando um império».

Com a ajuda do pai, um fun­ci­o­ná­rio influ­ente em Tebas, o jovem pro­ta­go­nista con­se­gue entre­vistar várias testemunhas-​​chave – pes­soas que con­vi­ve­ram de perto com Akhenaton, incluindo a rainha.

O nosso escriba, meio dete­tive meio jor­na­lista, con­fun­dido com visões tão dife­ren­tes e anta­gó­ni­cas do faraó, ató­nito perante o tes­te­mu­nho de quem o amava e o des­pre­zava, abstém-​​se de reve­lar ao pai a sua única cer­teza final: a ina­ba­lá­vel pai­xão que lhe des­perta a bela Nefertiti…

O Ancient Aliens defende a ideia de que Akhenaton foi um extra­ter­res­tre devido ao seu aspeto bizarro e invul­gar desa­pa­re­ci­mento, mas decla­ra­ções esta­pa­fúr­dias sobre o faraó heré­tico tam­bém se encon­tram na his­tó­ria da Egiptologia, sobre­tudo por moti­va­ções polí­ti­cas ou religiosas.

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Para o arqueó­logo e his­to­ri­a­dor norte-​​americano James Henry Breasted (1865–1935), edu­cado no Seminário Teológico de Chicago, Akhenaton foi «o pri­meiro indi­ví­duo da História»:

Era um homem ine­bri­ado de divin­dade, cujo espí­rito cor­res­pon­dia com uma sen­si­bi­li­dade e uma inte­li­gên­cia exce­ci­o­nal às mani­fes­ta­ções de Deus em si pró­prio, um espí­rito que teve força para dis­se­mi­nar ideias que ultra­pas­sa­ram o qua­dro de com­pre­en­são da sua época e dos tem­pos futuros.

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Arthur Weigall (1880-​​1934), egip­tó­logo inglês, jor­na­lista e mul­ti­fa­ce­tado autor de livros sobre o Antigo Egito, bio­gra­fias his­tó­ri­cas, guias turís­ti­cos, roman­ces popu­la­res, poe­sias e peças de tea­tro, refere um rei quase divino:

O pri­meiro homem a quem Deus se reve­lou como fonte de amor uni­ver­sal, isento de pai­xões, e com uma bon­dade que não conhe­cia res­tri­ções. Deu-​​nos, há três mil anos, o exem­plo do que deve ser um esposo, um pai, um homem honesto, do que um poeta deve­ria sen­tir, um pre­ga­dor ensi­nar, um artista seguir, um sábio crer e um filó­sofo pensar.

Como outros gran­des mes­tres, sacri­fi­cou tudo aos seus prin­cí­pios; a sua vida, con­tudo, mos­trou até que ponto estes prin­cí­pios eram impraticáveis.

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O ale­mão Adolf Erman (1854–1937), pro­fes­sor de Egiptologia e lexi­có­grafo, fun­da­dor da Escola de Egiptologia de Berlim, expulso pelos nazis da sua facul­dade na Universidade de Berlim por ter «um quarto de san­gue judeu», sali­en­tou as carac­te­rís­ti­cas físi­cas do faraó – crâ­nio alon­gado, lábios dema­si­ado gros­sos, gran­des olhos, bacia larga, ven­tre inchado – em con­traste com a sua personalidade:

O jovem rei, que era fisi­ca­mente doente como mos­tram os seus retra­tos, era cer­ta­mente um espí­rito inqui­eto, que cum­priu a sua reforma deste o iní­cio com um zelo exces­sivo que só o prejudicou.

A doença de Akhenaton: eis um assunto recor­rente até hoje. A estra­nha apa­rên­cia do faraó, que o Ancient Aliens toma como sinal de des­cen­dên­cia ali­e­ní­gena, explica-​​se para alguns egip­tó­lo­gos com o auxí­lio da medicina.

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O inglês E. A. Wallis Budge (1857 –1934), entre outros, achava que Akhenaton sofria de uma doença cha­mada Síndrome de Babinski-​​Fröhlich:

Os homens atin­gi­dos por esta doença apre­sen­tam com frequên­cia uma cor­pu­lên­cia aná­loga à de Akhenaton.

As par­tes geni­tais não estão desen­vol­vi­das e podem estar tão cober­tas de gor­dura que não são visí­veis. A adi­po­si­dade pode repartir-​​se dife­ren­te­mente con­forme os casos, mas há uma dis­tri­bui­ção das gor­du­ras que é tipi­ca­mente femi­nina, sobre­tudo nas regiões do peito, do abdó­men, púbis, coxas e nádegas.

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Akhenaton defor­mado, Akhenaton reformador

Uma das con­sequên­cias para o doente que sofre deste mal é a inca­pa­ci­dade de gerar filhos – uma hipó­tese difí­cil de defen­der no caso de Akhenaton, que teve seis filhas com Nefertiti.

Num docu­men­tá­rio sobre Akhenaton que vi recen­te­mente no Discovery Channel, o egip­tó­logo e apre­sen­ta­dor do pro­grama, o norte-​​americano Bob Brier, pro­põe a uma espe­ci­a­lista em sín­droma de Marfan que observe as repre­sen­ta­ções do faraó em busca de carac­te­rís­ti­cas reve­la­do­ras. Esta expli­ca­ção fora pro­posta em 1993 pelo egip­tó­logo Alwyn L. Burridge.

Pormenor da mão de Akhenaton em ofe­renda ao deus-​​sol Aton

Pormenor da mão de Akhenaton em ofe­renda ao deus-​​sol Aton

Este sín­droma é uma desor­dem do tecido con­jun­tivo carac­te­ri­zada por ano­ma­lias a nível esque­lé­tico, ocu­lar e car­di­o­vas­cu­lar, entre outras. Mãos e pés exce­ci­o­nal­mente lon­gos – arac­no­dac­ti­lia – podem ser sinais reve­la­do­res da muta­ção. A espe­ci­a­lista admi­tiu, com alguma relu­tân­cia, a exis­tên­cia de tais sinais nas repre­sen­ta­ções do faraó.

O sín­droma de Marfan tem a van­ta­gem de não afe­tar a capa­ci­dade de fazer filhos, como o de Babinski-​​Fröhlich, mas Brier aborda a hipó­tese com sau­dá­vel cau­tela: afi­nal quan­tos médi­cos acei­ta­riam comprometer-​​se com diag­nós­ti­cos fei­tos a par­tir de foto­gra­fias atu­ais, quanto mais em escul­tu­ras com mais de três mil anos?

As múl­ti­plas inter­pre­ta­ções pros­se­guem: o egip­tó­logo fran­cês Auguste Mariette (1821-​​1881) estava con­ven­cido de que o faraó era um pri­si­o­neiro cas­trado que as tro­pas egíp­cias tinham tra­zido do Sudão. Por razões que Mariette não expli­cou, teria che­gado ao poder e dado livre expres­são à sua doi­dice – uma hipó­tese quase tão plau­sí­vel como a do ali­e­ní­gena. Outro fran­cês, Eugène Lefébure (1838-​​1908), achava que Akhenaton era uma mulher mas­ca­rada de homem.

Sigmund Freud revendo o manus­crito «Moisés e o Monoteísmo», Londres, 1938

Sigmund Freud revendo o manus­crito «Moisés e o Monoteísmo», Londres, 1938

Um ensaio de Sigmund Freud (1835-​​1939), con­si­de­rado o pai da psi­ca­ná­lise, judeu, ateu, publi­cado no ano em que mor­reu – «Moisés e o Monoteísmo» – defende que sal­mos con­ti­dos no Velho Testamento são copi­a­dos do hino ao deus-​​sol com­posto por Akhenaton.

Para Freud, Moisés era um egíp­cio, um alto dig­ni­tá­rio na corte do faraó que após a morte deste e o fra­casso do deus Aton no Egito pro­cu­rou dar con­ti­nui­dade à ideia de uma reli­gião mono­teísta, tomando os judeus como «povo eleito». Freud via em Akhenaton o impul­si­o­na­dor do prin­cí­pio da «exclu­si­vi­dade de um deus uni­ver­sal».

Quanto mais se lê sobre Akhenaton, mais a trama se adensa.

A ideia de mono­teísmo asso­ci­ada a Akhenaton sustenta-​​se sobre­tudo na des­co­berta de uma ins­cri­ção incom­pleta do pró­prio faraó, que con­si­de­rava os res­tan­tes deu­ses do Egito meras «está­tuas cri­a­das pelos huma­nos e, como elas, efé­me­ros, ao con­trá­rio do deus que se criou a si mesmo».

A visão depre­ci­a­tiva do faraó explica a ausên­cia de ima­gens divi­nas para o culto nos tem­plos e cape­las dedi­ca­dos ao Aton e à famí­lia real. E tam­bém nos ajuda a per­ce­ber por que razão as repre­sen­ta­ções da famí­lia real se vão tor­nando cada vez mais esti­li­za­das e menos rea­lis­tas: o rei e a rai­nha são obje­tos de culto jun­ta­mente com o pró­prio deus Aton, sim­bo­li­zado por um disco solar cujos raios ter­mi­nam em mãos, mãos que aben­çoam e con­ce­dem a vida ao casal monár­quico e à sua famí­lia – a eles e só a eles.

Não são ape­nas reis, mas os úni­cos inter­me­diá­rios entre um deus que é, ao mesmo tempo, pai e mãe, e todos os outros povos. É daqui que nasce o estilo artís­tico carac­te­rís­tico de Amarna – mas isto ficará para o post seguinte.

Akhenaton tem dado para tudo, como se viu; mas na segunda parte deste artigo os inte­res­sa­dos nes­tes assun­tos irão ver como a noção de um faraó extra­ter­res­tre nem sequer é uma teo­ria ori­gi­nal do Ancient Aliens, mas nas­cida de espe­cu­la­ções eso­té­ri­cas que come­ça­ram no final do século XIX. Preparem-​​se para conhe­cer uma pequena legião de cromos.

idiota

Eu penso, logo desisto

Este artigo come­çou com uma pequena explo­são de fúria. Por causa do pro­grama Ancient Aliens, estive quase a fazer ao meu tele­vi­sor aquilo que há uns anos um jor­na­lista ira­qui­ano ten­tou fazer a George Bush. Como pode um canal que se diz de História dar cober­tura a tanta desinformação?

Depois acal­mei e tomei a sen­sata deci­são de lar­gar o meu sapato ima­gi­ná­rio e come­çar a pre­pa­rar um artigo para o blo­gue: se não fosse a pate­tice do pro­grama, não teria che­gado a saber mais sobre Akhenaton e o Período Amarna – mesmo assim, ainda é muito pouco.

Fui ver a página ofi­cial no Facebook des­tes teó­ri­cos da treta, cons­ta­tei que tem mais de tre­zen­tos mil fãs e per­cebi por que razão o História se meta­mor­fo­seou no canal História da Carochinha. A igno­rân­cia é muito lucrativa.

Mas para aque­les que levam a sério o Ancient Aliens, deixo umas con­si­de­ra­ções adicionais.

Giorgio A. Tsoukalos, o prin­ci­pal pro­du­tor do pro­grama, é um ex-​​culturista trans­for­mado em espe­ci­a­lista de arque­o­lo­gia, bio­lo­gia, antro­po­lo­gia, astro­no­mia e, sobre­tudo calha­lo­gia. Calhalogia é a ciên­cia que explica o que calhar e tira con­clu­sões ao calhas.

Para terem uma ideia de como estes inves­ti­ga­do­res e auto­res tiram as suas con­clu­sões, ima­gi­nem um Tsoukalos de um futuro muito dis­tante. O nosso hipo­té­tico teó­rico do século 60 debruça-​​se sobre um curi­oso e estra­nho arte­facto: uma revista de banda dese­nhada de A Guerra das Estrelas.

O Tsoukalos do futuro con­cluirá, em pri­meiro lugar, que a nossa civi­li­za­ção usou armas laser, sabres de luz e naves espa­ci­ais, domi­nou uma bizarra forma de ener­gia cha­mada Força e conhe­ceu nume­ro­sas espé­cies ali­e­ní­ge­nas na galáxia.

A segunda con­clu­são do génio será a de que todas estas coi­sas foram man­ti­das em segredo por uma mis­te­ri­osa orga­ni­za­ção secreta cha­mada George Lucas.

São assim as teo­rias do Ancient Aliens.

3 comentários

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    • Dinis Ribeiro on 30/01/2015 at 03:11
    • Responder

    …”Akhenaton tem dado para tudo, como se viu”…

    Sugiro a leitura destes dois livros de banda desenhada:

    1954 – O Mistério da Grande Pirâmide – Tomo 1, de Edgar P. Jacobs
    1955 – O Mistério da Grande Pirâmide – Tomo 2, de Edgar P. Jacobs

    http://en.wikipedia.org/wiki/The_Mystery_of_the_Great_Pyramid,_Volume_1:_Manetho%27s_Papyrus / http://en.wikipedia.org/wiki/The_Mystery_of_the_Great_Pyramid_Volume_2:_The_Chamber_of_Horus
    http://fr.wikipedia.org/wiki/Le_Myst%C3%A8re_de_la_Grande_Pyramide

    Estas duas outras histórias assumidamente de pura ficção não necessitaram de “extra-terrestres” para “apimentar” o sabor e aumentar as vendas… contudo penso que capturam a “magia” e a “atmosfera” do antigo Egipto…

    Aliás os temas das pilhagens e dos roubos de peças de arte é algo que “tem panos para mangas”…

    http://en.wikipedia.org/wiki/Antiquities_trade
    http://en.wikipedia.org/wiki/Looted_art
    http://en.wikipedia.org/wiki/Looting
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Pilhagem

    O plágio é o roubo/pilhagem de ideias…

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Pl%C3%A1gio / http://en.wikipedia.org/wiki/Plagiarism

    Os “deuses extraterrestes” incomodam-me (irritam-me) também por causa da ideia implícita de que os povos antigos eram tão primitivos e atrasados quando comparados com a nossa realidade actual, que nunca teriam sido capazes de construir pirâmides sem ferramentas modernas…

    Gosto do respeito que o Edgar P. Jacobs tenta ter pela arqueologia (http://en.wikipedia.org/wiki/Egyptology / http://pt.wikipedia.org/wiki/Egiptologia ) e pela cultura egípcia.

    Estes dois livros tiveram talvez um impacto cultural no imaginário da Europa ligeiramente maior do se pensará… ou seriam também um reflexo da “moda intelectual” da época? Alguém pode sugerir estudos sérios sobre o tema?

    A Banda Desenhada (em certos países) é considerada a “Nona Arte”…

    Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Banda_desenhada

    Whereas in English-speaking countries comics are for children or adults ‘who should know better’, in France and Belgium the form is recognized as the ‘Ninth Art’ and follows in the path of poetry, architecture, painting and cinema.

    The bande dessinée [comic strip] has its own national institutions, regularly obtains front-page coverage and has received the accolades of statesmen from De Gaulle onwards.

    On the way to providing a comprehensive introduction to the most francophone of cultural phenomena, this book considers national specificity as relevant to an anglophone reader, whilst exploring related issues such as text/image expression, historical precedents and sociological implication.

    Fonte deste texto:

    Comics In French: The European Bande Dessinee in Context
    https://books.google.pt/books?id=2WRFAAAAQBAJ&dq=Blake+et+Mortimer+culturel+influence&hl=pt-PT&source=gbs_navlinks_s

    • atamar chalub on 29/01/2015 at 21:45
    • Responder

    acho eu que o mentor do, Giorgio A.Tsoukalos é o Erich von Däniken e não ao contrario, já que o Däniken ja ta nessa picaretagem a muito mais tempo.

    • Ivanês Lopes on 03/10/2014 at 14:17
    • Responder

    Quero parabeniza-los por esse trabalho sobre as civilizações antigas.

  1. […] gigante. Profecia de Verão gelado. Verão sem frio. Profecias de Verão. Extraterrestres Antigos. Akhenaton. Desmistificar. Desenhar. Resposta Única. Canal de Estórias. Erich von Däniken. Dogons. […]

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