Chemtrails – uma conspiração sem asas para voar

Boeing 747 a 11 km de altitude. Crédito: Sergey Kustov.

Boeing 747 a 11 km de altitude. Crédito: Sergey Kustov.

Se é sensato não confiar cegamente no governo e nas suas entidades, será também sensato rejeitar todas as afirmações apenas por serem do governo ou outras entidades estatais? Talvez devêssemos ir mesmo para a praia nas horas de maior exposição solar e, de preferência, procurar a sombra de uma arriba, sabe-se lá o que eles estarão a tentar esconder!

Se é sabido que já existiram verdadeiras conspirações no mundo, desde a implantação da República Portuguesa até ao famoso caso Watergate, será então correcto assumir que todas as teorias da conspiração que ouvimos estão por defeito correctas? Quantas teorias da conspiração já se tornaram em conspirações reais? Onde se traça a linha entre o cepticismo saudável e a paranóia irracional?

Aparentemente existem pelo menos 6300 pessoas em Portugal (serão mais em todo o mundo e especialmente nos EUA onde tudo começou) que acreditam que o(s) governo(s) e/ou outras organizações obscuras andam a espalhar químicos no ar com o auxílio de aviões comerciais, militares ou outros (depende dos gostos). E pelo menos 1767 querem que o governo português explique qual o objectivo de algo que não há motivo nenhum para acreditar que sequer exista – uma exigência já de si escusada, mas que se torna ainda mais inútil tendo em conta que uma resposta por parte do governo, a existir, será imediatamente descartada pelos teóricos da conspiração como fazendo parte do encobrimento.

ChemtrailLeaks

Irrita-me constantemente que as pessoas sejam distraídas por falsas conspirações como a do 11 de Setembro, quando nós providenciamos evidências de conspirações reais em todo o lado, desde a guerra até à fraude financeira em massa. – Julian Assange, Fundador do WikiLeaks.

De acordo com os extensos conhecimentos de Física dos activistas e do Tugaleaks, isto só pode significar que os pilotos andam bêbados. (Contrail sinuoso na Polónia). Crédito: Stankot.

De acordo com os extensos conhecimentos de Física dos activistas e do Tugaleaks, isto só pode significar que os pilotos andam bêbados. (Contrail sinuoso na Polónia). Crédito: Stankot.

E nós sabemos que o assunto tem de ser bastante grave quando o Tugaleaks entra em acção para apurar a verdade dos factos. Afinal, alguém que criticou (e muito bem) a TVI e o Correio da Manhã por copiarem uma notícia falsa de um site humorístico brasileiro sem investigarem a fonte original, não cairia no erro de reproduzir uma notícia falsa de um site humorístico russo só porque tal lhe foi dito por activistas anti-chemtrails vítimas da Lei de Poe. Quem nos acompanha regularmente, o que não deve ser o caso do Tugaleaks, já deve ter tido a oportunidade de conhecer a especial ênfase que estes activistas colocam na distinção entre factos e especulações, bem como no apuramento da credibilidade das suas fontes. Especial, no sentido de ser nula… Ainda assim, mesmo que o mero rótulo de activista tornasse alguém numa fonte acima de qualquer suspeita, seria de pensar que o Tugaleaks procurasse apurar a origem da notícia, quanto mais não seja «pela verdade da informação». Mas prossigamos.

Perante as inquietações do activista Carlos, nome fictício, sobre «os aviões que ‘passeiam’ nos nossos céus e que fazem sei lá o quê […]» [o negrito é meu], o Tugaleaks decidiu pedir esclarecimentos ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Claramente um acto de extrema coragem e perigosidade ou não sentissem os activistas a necessidade de ocultarem o seu nome. Extraordinariamente, a Divisão de Previsão Meteorológica, Vigilância e Serviços Espaciais desta entidade gastou de facto tempo a responder à pergunta (ficaram nervosos!). A resposta? Aquilo que já sabíamos: os rastos químicos (chemtrails) não existem, ou melhor, os chemtrails são na realidade simples rastos de condensação de água (contrails).

Numa situação normal o assunto teria ficado por aqui, mas tudo muda depois de se emborcar um frasco de pílulas vermelhas adulteradas. A resposta do IPMA é descartada como já sendo «esperada», isto é, como parte do encobrimento (que surpresa!) e o próprio Tugaleaks põe em dúvida a resposta porque tirou três fotografias no Algarve «onde se pode perceber pela forma do “rasto” que é pouco provável ser uma nuvem» – uma amostra do melhor que a “ciência” dos chemtrails tem para nos oferecer – olhómetros e intuições.

A tretalogia dos Chemtrails

Quando um homem honesto fala, diz apenas o que acredita ser verdade; da mesma forma, para o mentiroso é indispensável conceber o que diz como falso. Para o treteiro, todavia, nada disto importa: não está nem do lado do verdadeiro nem do lado do falso. Não encara sequer os factos, ao contrário do que fazem o homem honesto e o mentiroso, a não ser no caso de serem pertinentes para levar a sua avante. Não quer saber se as coisas que diz descrevem a realidade de forma correcta. Apenas as usa, ou as inventa, para satisfazer o seu propósito.” – Harry G. Frankfurt (Filósofo), Ensaio Da Treta (On Bullshit)

O João Monteiro já fez um óptimo e bastante acessível trabalho de explicar o que são e como se formam os contrails e porque não há nenhum motivo para acreditar que os supostos chemtrails sejam diferentes de contrails para além da simples recusa em encarar a realidade. Não obstante, gostaria de voltar a tocar nos argumentos mais populares, quanto mais não seja, para deixar bem claro o total desprezo que os teóricos da conspiração nutrem pela verdade que dizem procurar. Além do mais, falar de todos os argumentos num único texto é difícil já que o seu número é apenas limitado pela corrente de desculpas ad hoc que impede a teoria de colapsar.

Contrail resultante dos gases de exaustão. Crédito: Joe Thomissen

Contrail resultante dos gases de exaustão. Crédito: Joe Thomissen

Os contrails mais comuns formam-se quando a mistura de ar quente e húmido expelida pelos reactores dos aviões se encontra com o ar frio circundante, as partículas de aerossóis resultantes da combustão funcionam como núcleos de condensação, causando a formação de gotículas de água que se transformam rapidamente em gelo devido às baixas temperaturas. Outro tipo de contrails, designados de aerodinâmicos ou de vórtex, podem também formar-se devido à redução da pressão do ar que se move sobre a superfície do avião, são no entanto mais raros a altas altitudes onde as temperaturas são geralmente baixas, mas são frequentes, por exemplo, quando o avião descola ou aterra [1]. A “diferença” de aspecto entre os rastos de condensação, que os activistas entrevistados defendem ser a prova de que uns são contrails e outros chemtrails, pode ser facilmente explicada pelo dinamismo da própria atmosfera e até funcionamento dos aviões. A atmosfera está longe de ser um meio estático e homogéneo, a formação e evolução do aspecto dos contrails são influenciadas por variáveis como a temperatura, pressão, correntes de ar e humidade, condições que podem variar consideravelmente e nem sequer são idênticas às registadas no chão. O facto de um rasto de condensação ter um aspecto diferente de outro não implica que tenham composições químicas significativamente diferentes, isto é, que um seja contrail e outro chemtrail.

Contrail aerodinâmico num F/A-18C Hornet. Crédito: Jonathan Chandler.

Contrail aerodinâmico num F/A-18C Hornet. Crédito: Jonathan Chandler.

Alguns contrails podem desaparecer logo após a passagem do avião enquanto outros persistem por mais tempo. Os contrails podem deslocar-se da área onde foram formados com o vento, surgindo em zonas onde não passou nenhum avião. Dependendo da temperatura e velocidade do avião, os contrails dos gases de exaustão podem formar-se mais próximo ou mais longe dos reactores. Os contrails aerodinâmicos podem interagir com os contrails dos reactores originando distorções bizarras nos rastos através da chamada Instabilidade de Crow. Os contrails podem até dar origem a nuvens cirrus e variadas outras formas de rastos que os teóricos da conspiração afirmam ser diferentes dos contrails apenas porque sim. Na realidade, pouca diferença há, em termos de rigor científico, entre ler o futuro nas entranhas de uma galinha e tentar discernir entre contrails e supostos chemtrails a olho. Mas será sem dúvida muito mais fácil comentar fotografias com base em intuições do que, por exemplo, ter o trabalho de criar modelos matemáticos que explicam e prevêem o comportamento dos contrails e conseguir ser publicado numa revista científica com revisão por pares [1] [2]. Ou, se se for humilde o suficiente para admitir a ignorância de assuntos que claramente não se domina, ler pelo menos um dos sites educacionais da NASA onde a física e história dos contrails é explicada de forma acessível. Sim, a NASA está metida em todas as conspirações. E são tão confiantes na sua capacidade de iludir que até pedem a estudantes para observarem os céus e colaborarem com cientistas no estudo dos contrails.

Na ciência, uma das coisas que se faz para tentar estabelecer a validade de uma hipótese é tentar falseá-la para ver se ela se mantém ou não de pé. Por exemplo, a afirmação “todas as aves voam” pode ser facilmente rebatida pela simples constatação de que as galinhas são aves e não o conseguem fazer. Se uma hipótese for verdadeira, ou bastante próxima da verdade, então deverá aguentar sucessivas tentativas de refutação. Se uma hipótese não resistir a este processo, então deverá ser descartada e substituída por outra melhor, mas também simples. Esta é uma das diferenças fundamentais entre ciência e pseudo-ciência e vamos utilizá-la para analisar alguns dos argumentos mais comuns.

“Antigamente não existiam rastos de condensação”

Uma das correntes conspiratórias mais hardcore defende que todos os rastos de condensação que vemos na atmosfera são na realidade chemtrails já que não se lembram, dizem eles, de ver os rastos antes da década de 90 do século passado. Até pode ser que não se lembrem, mas o Google é nosso amigo se o soubermos utilizar e se nos preocupamos realmente com a verdade. A foto que se segue, tirada durante a Segunda Guerra Mundial (1943), mostra os contrails criados por uma formação de bombardeiros (em baixo) e caças (em cima).

Crédito: Sgt. Stanley M. Smith.

Crédito: Sgt. Stanley M. Smith.

A foto seguinte, também de uma formação de bombardeiros da Segunda Guerra [3], é interessante pois demonstra como os olhómetros e intuições podem ser enganadores. Aquilo que do chão poderia parecer um grupo de aviões a circular bastante próximos, “provando” que uns espalham chemtrails e outros não, são na verdade dois grupos a altitudes diferentes. Os aviões que se encontram no fundo da fotografia voam a uma altitude mais baixa, onde a temperatura e/ou humidade não permitem a formação de contrails.

Crédito: Ryan et al., 2011

Crédito: Ryan et al., 2011

Eu mostrei só duas fotos, mas existem muitas mais se procurarem, a Segunda Guerra Mundial foi a época áurea do interesse nos contrails, sendo possível encontrar bastantes documentos. No entanto, este é um argumento que continua a ser demasiado frequente, até porque alguns teóricos da conspiração defendem que alguém se deu ao monumental trabalho de forjar todas estas provas só para os contrariarem (estão a ver o padrão?).

“Antigamente não ficavam no ar tanto tempo”

Mais uma vez, a referência a contrails que permanecem nos céus durante horas pode ser encontrada em vários documentos históricos. Temos como exemplo este artigo de jornal de 1955 que falava dos perigos dos rastos de vapor (condensação), não por serem tóxicos, mas por facilitarem a detecção dos bombardeiros e caças pelos inimigos. Nele é descrita a existência de contrails que podem persistir no céu durante todo o dia.

Crédito: Google News.

Crédito: Google News.

E num artigo científico de 1974 intitulado “Multiple Contrail Streamers Observed by Radar” [4] é possível observar fotografias da evolução de contrails em diversas formas. A foto que se segue mostra um contrail persistente que começou a espalhar-se e deslocar-se, e um contrail acabado de formar na mesma rota aérea do anterior.

Crédito: Konrad e Howard, 1974.

Crédito: Konrad e Howard, 1974.

“Antigamente não existiam nuvens cirrus”

Nesta variante os teóricos da conspiração reconhecem que os rastos de condensação podem mudar de aspecto e até evoluir para nuvens cirrus, argumentam no entanto que todas as nuvens deste tipo são criadas intencionalmente por chemtrails, não existindo nuvens cirrus de origem natural.

Curiosamente, ou não, encontrei um livro de 1905 chamado “Cloud Studies” onde se fala e se mostra fotografias das nuvens que os teóricos da conspiração estão convencidos que não existiam. Um livro publicado apenas dois anos depois do histórico voo dos irmãos Wright, e, catorzes anos antes dos primeiros avistamentos de contrails com o desenvolvimento dos voos de alta altitude. Provavelmente mais um elaborado embuste…

Crédito: Open Library

Crédito: Open Library

“Eles andam a mexer com o clima”

As nuvens cirrus contribuem para o efeito de estufa e os contrails persistentes podem evoluir para este tipo de nuvens. (Avião com nuvens cirrus em pano de fundo). Crédito: Simon Eugster.

As nuvens cirrus contribuem para o efeito de estufa e os contrails persistentes podem evoluir para este tipo de nuvens. (Avião com nuvens cirrus em pano de fundo). Crédito: Simon Eugster.

Entre os hipotéticos objectivos dos presumíveis chemtrails existem os clássicos como o envenenamento da população, redução da fertilidade e controlo mental – preocupações que traem as próprias origens desta teoria da conspiração – a ala mais à direita da política norte-americana que se caracteriza pelo profundo medo do controlo governamental. Mas mais recentemente surgiu uma nova hipótese que se tornou popular, a ideia de que os chemtrails são uma experiência secreta para alterar o clima, supostamente, com o intuito de corrigir o Aquecimento Global ou, alternativamente, como arma de destruição em massa (seca, tornados, etc.). É claro que, depois do encerramento do High Frequency Active Auroral Research Program (HAARP) em Maio, outro objecto de ralação para os teóricos da conspiração e que era acusado dos mesmos efeitos no clima, é expectável que esta variante se venha a tornar ainda mais popular por substituição. Não deixa de ser interessante ser possível defender que a ida à Lua é um feito tecnológico difícil de acreditar, mas que alterar drasticamente o clima global é algo tão banal quanto ligar uma máquina com poderes quase mágicos ou meter uns aviões a circular.

A modificação do clima é realmente uma área científica genuína, existe actualmente um debate na comunidade científica se será possível reverter ou pelo menos mitigar os efeitos do Aquecimento Global, mas sobretudo, se será sensato interferir (mais do que já fazemos involuntariamente) num sistema tão complexo como o clima. E existem também tentativas de desenvolver métodos que permitam prevenir tempestades destrutivas, mas até agora sem sucesso significativo. Esta é uma área que está ainda na sua infância e que cujas aplicações práticas se resumem actualmente a usos locais como a sementeira de nuvens para criar chuva (e mesmo isso está longe de ser um processo eficiente e reprodutível).

Ironicamente, depois de tantas especulações, era apenas uma questão de probabilidades até os teóricos da conspiração chegarem, pelo menos, um pouco próximo da verdade. Existem algumas evidências de que os contrails podem de facto ter influência no clima, mas o inverso, ou seja, contribuindo para o efeito de estufa [3][5][6]. Isto porque impedem a dissipação do calor da Terra como outras nuvens naturais mas, ao contrário destas, reflectem menos luz do Sol para o Espaço. No entanto, este é um efeito secundário tão intencional como quando andamos de carro e produzirmos C02. Mais uma vez, é um efeito que não é segredo, não é planeado e que é alvo de estudo pela comunidade científica.

Falho em ver como a modificação do clima pode ser uma conspiração quando esta não é segredo algum. Mas sobretudo, para aqueles que defendem que os chemtrails servem para reverter o Aquecimento Global, falho em ver como um excelente trunfo para uma campanha eleitoral tenha de ser mantido em segredo.

“Estão todos envolvidos” – a conspiração perfeita

Se quisessem espalhar químicos secretamente que método escolhiam? Um método que deixa rastos bem visíveis nos céus durante várias horas? Se tivesse de ser mesmo por dispersão aérea, largariam os químicos a oito ou mais quilómetros de altitude dispersando-os na atmosfera até concentrações negligenciáveis? O máximo praticado na aviação agrícola são 100 metros de altitude e apenas para algumas aplicações. Como se protegem os conspiradores e os seus familiares dos efeitos tóxicos, têm um antídoto secreto? Talvez isso explique porque não se nota nada de estranho nas pessoas que regularmente são expostas aos químicos como o pessoal do aeroporto (a dose faz o veneno). Afinal, o quão complexo teria de ser este empreendimento global para funcionar?

Bem, Kyle Hill fez uma estimativa num artigo recente do Committee for Skeptical Inquiry (CSI), apenas para os EUA e sem ter em conta as diferenças de altitude entre a aviação comercial e agrícola, o que implica que os números teóricos sejam ainda maiores:

Um avião agrícola típico usa sete onças de um agente diluído em sete galões de água para cobrir um acre de terreno [cerca de 26 litros por cada 4000 m2]. […] Para 2,38 mil milhões de acres de terreno, os pilotos precisariam – para apenas uma semana de dispersão – 120 mil milhões de galões desses químicos crípticos [cerca de 454 mil milhões de litros]. Esse é mais ou menos o mesmo volume transportado em todos os petroleiros do mundo durante um ano. E tamanha quantidade de agente precisaria de um número incrível de aviões. Considerando que um grande avião como o Boeing 747 consegue transportar cerca de 250 mil libras de carga [cerca de 113 toneladas], no mínimo, o governo precisaria de arranjar quatro milhões de voos de 747 para espalhar os seus químicos em cada semana – dezoito vezes mais voos por dia que em todos os E.U.A. A não ser que um avião possa fazer múltiplos voos por dia, uma verdadeira conspiração de chemtrails necessitaria de 2700 vezes tantos 747s quantos os que foram construídos.

A isto temos de juntar toda a infra-estrutura necessária para produzir, armazenar e transportar os químicos até aos aviões, que seria também gigantesca. Bem como o envolvimento e silêncio de milhões de analistas, químicos, engenheiros, pilotos, tripulantes, controladores aéreos, militares, todos os cientistas que estudam os céus, a comunidade de fotógrafos de aviões e um rol de outros técnicos, operários e empresas subcontratadas. Tudo isto é claro, coordenado e consentido por todos os governos mundiais, incluindo os de países que são inimigos. Um mega empreendimento que humilharia a gestão de qualquer entidade governamental conhecida e das maiores corporações multinacionais.

O extraordinário nível de complexidade e número de intervenientes necessários para manter um esquema como o dos chemtrails a funcionar, é uma característica partilhada por quase todas as teorias da conspiração, desde a crença que o homem nunca foi à Lua até ao movimento anti-vacinação. Comparada com isto, a NSA parece um bando de estagiários amadores. Só que isto representa um problema: quanto mais complexa é a teoria, mas implausível se torna a conspiração, pois há simplesmente mais coisas que podem e irão de certeza correr mal.

Será possível ninguém cometer um deslize? Será possível manter tanta gente silenciada? Não há um Snowden dos chemtrails? Nem sequer um envelope com provas, deixado por alguém às portas da morte e sem mais nada a temer?! Claro que existe um punhado de ex-insiders que garantem saber aquilo que se passa em livros, programas e eventos dedicados a teorias da conspiração, especialmente se ganharem algum dinheiro com isso (uma indústria bastante desenvolvida nos EUA). Infelizmente, parecem ter saído todos meio à pressa, sem tempo para recolherem provas credíveis daquilo que dizem. Se ao menos Bradley Manning tivesse feito o mesmo

178-cectic

O governo norte-americano nem sequer conseguiu esconder um simples arrombamento a um escritório de um psiquiatra (episódio associado ao escândalo Watergate). E quando tentam abafar algo revelam uma espantosa incapacidade de lidar com a imprensa, o que cria invariavelmente um desastre político e de relações públicas. Contudo, sejamos francos, a recente “revelação chocante” de Snowden que aquilo que fazemos online não é de facto anónimo está bastante longe de configurar uma conspiração, é algo que já deveria fazer parte do senso comum e de qualquer disciplina de iniciação à informática.

A genuína pílula vermelha

Os teóricos da conspiração gostam de se promover como livres-pensadores, alguém de pensamento crítico com o único objectivo de procurar a verdade. O problema é que este é um pensamento crítico bastante selectivo, na realidade, é uma forma de pseudo-cepticismo que se caracteriza pela dúvida selectiva sobre tudo o que contradiga uma conclusão preconcebida. É o oposto de qualquer real método de investigação, pois as conclusões não são derivadas das provas, estas são escolhidas a dedo, posteriormente, de forma a suportar uma pré-conclusão. Com este tipo de metodologia torna-se fácil encontrar qualquer padrão em evidências desconexas, desde que tal permita a construção de uma narrativa superficialmente coerente. Como consequência, qualquer evidência contrária é facilmente negligenciada ou rejeitada como fazendo parte da própria conspiração.

jet_fuel2É bastante notório que a “procura da verdade” baseia-se muitas vezes quase exclusivamente em informações obtidas em fóruns/blogs de teorias da conspiração e vídeos do YouTube, o que até nem teria mal, para além do óbvio viés informativo, se existisse um verdadeiro trabalho de pesquisa que envolvesse a averiguação daquilo que as fontes originais dizem e da sua credibilidade. Como se viu na história amplamente divulgada de que a graviola é uma cura milagrosa para o cancro, a verdadeira conspiração não consistia numa tentativa de ocultação por parte da indústria farmacêutica, mas sim, numa fraude da indústria “alternativa”. Investigando as fontes originais da história foi possível chegar à conclusão de que aquilo que a história dizia não batia certo com os estudos científicos que citava com o intuito de dar um ar de credibilidade. É claro que isto dá muito mais trabalho do que se ficar pela versão da história que queremos acreditar e sobretudo, a versão que nos faz sentir especiais por estarmos entre os poucos selectos que conhecem a Verdade™.

Além disso, é difícil de acreditar que os poucos teóricos da conspiração que mudem de ideias sejam alvo de ostracização e ameaças por genuínos livres-pensadores. Afinal, esse tipo de pressão pelos pares é um comportamento bem mais característico de um culto religioso – o que poderá explicar outra característica que as teorias da conspiração partilham com a religião: a necessidade de encontrar sinais de agenticidade em tudo o que acontece. Ainda que seja uma agenticidade malévola, conhecer o plano “deles” oferece uma maior sensação de segurança do que o aparente caos que reina no mundo.

«Em Portugal as pessoas andam muito longe da realidade» – queixava-se com desilusão uma das activistas entrevistada pelo Tugaleaks. Em Portugal eu não sei, mas se procurarem no YouTube pelas palavras-chave chemtrails” e “vinegar irão encontrar quase 4000 pessoas convencidas não só de que o acto de borrifar vinagre no quintal tem influência em rastos de condensação que podem estar a uma dezena de quilómetros de altitude*, como também, que os conspiradores mais inteligentes de sempre não previram que o efeito dos seus super-químicos seria assim tão facilmente anulado. Pior do que isto só mesmo acreditar num medicamento inexistente, potenciado por uma energia ficcional, de forma a combater uma ameaça que tem tudo para ser imaginária. Se isto não é andar muito longe da realidade, então não sei o que será.

Addendum: O número de pessoas que aderiu ao grupo do Facebook e à petição terá sem dúvida aumentado desde que este texto foi escrito. O Tugaleaks acabou por remover a «informação incorreta sobre Edward Snowden», mas poderiam certamente ter aproveitado para remover o post completo…

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*O motivo de tal crença é fácil de entender, a eventual dissipação dos rastos que aconteceria independentemente de se borrifar ou não vinagre, é tomada como prova de que o vinagre dissipa realmente os rastos, um erro de raciocínio mais comum do que se pensa que está na génese do pensamento supersticioso e, por consequência, de muitas das tretas que aqui falamos. Mais uma vez, como geralmente não existe qualquer tentativa de refutação da hipótese, é fácil permanecer convencido do super-poder do vinagre.

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Mais informação:

The Contrail Education Project – Um site educacional da NASA que responde a várias perguntas sobre contrails.

Contrail Science – Um site mantido pelo piloto Mick West onde são refutados vários dos argumentos da teoria dos chemtrails e com uma extensa colecção de documentos históricos e artigos científicos.

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Referências para os artigos científicos:

[1] Gierens K. et al. Aerodynamic Contrails: Phenomenology and Flow Physics. J. Atmos. Sci, 66: 217-226, 2009. doi: 10.1175/2008JAS2767.1

[2] Schumann, U. A contrail cirrus prediction model. Geosci. Model Dev., 5: 543–580, 2012. doi:10.5194/gmd-5-543-2012

[3] Ryan, A. C. et al. World War II contrails: a case study of aviation-induced cloudiness. Int. J. Climatol., 32: 1745–1753, 2011. doi: 10.1002/joc.2392

[4] Konrad, T. G. and Howard, J. C. Multiple Contrail Streamers Observed by Radar. Journal of Applied Meteorology, 13: 563-572, 1974.

[5] Minnis, P. et al. Contrails, Cirrus Trends, and Climate. Journal of Climate, 17: 1671-1685, 2004.

[6] Burkhardt R. and Kärcher B. Global radiative forcing from contrail cirrus. Nature Climate Change 1: 54–58, 2011. doi:10.1038/nclimate1068

15 comentários

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  1. E pensar que existem pessoas que creem cegamente nessas teorias mesmo com as provas contrárias, “eu acho que quem conspira, inimigos cria”, “quem crê sem saber, tem tudo para perder”, e “quem só sabe se fechar, a ignorância vai governar”, essas frases criadas por mim mesma são para aqueles, em ordem, que conspiram contra amigos, parentes ou até mesmo desconhecidos, o que considero um ato horrendo, mas também é para as pessoas que acreditam em tudo que veem sem contestar, analisar e nem mesmo pensar, e por fim tem para as pessoas que não aceitam nada de acordo com seu mundo, que ignoram muitas vezes não só informações falsas como também o conhecimento, e é por isso que somente menos de um bilhão da humanidade não é ignorante, e a Internet é uma das mais culpadas pela ignorância humana, pois ela nos torna seres que olham e não lembram depois, que somente falam e comentam sem ao menos entender do assunto e que não acrescentam conhecimento, e sim só ouvem a informação que muitas vezes é falsa, para mudarmos teremos que pensar, matutar, racionar e etc…

  2. Grato pelo tempo, referencias e pela disposição em escrever sobre o assunto, pessoalmente gostos desse teorias conspiratórias, vejo-as como um “folclore contemporâneo” um tanto infeliz, mas que desperta o exercício de pensar sobre o quão longe essas lendas estão da realidade rsrsrs.

  3. Quanto tempo um contrails pode persistir no ar? E qual é até qual distancia pode se estender?

    1. Naturalmente, quanto maior a persistência maior o tamanho do contrail. E a persistência dos contrails é essencialmente o resultado de factores atmosféricos como a humidade e a temperatura. A física por detrás da formação dos contrails está explicada no site da NASA que está no artigo, no link “The Contrail Education Project”. Estes gráficos talvez sejam o mais interessante para o que pretende saber.

  4. “(…) correntes de ar e humidade, condições que podem variar consideravelmente e nem sequer são idênticas às registadas no chão. ”

    Sugiro outra expressão para “chão” que não é muito clara, nem é adequada para o contexto, para superfície terrestre. É que o termo “chão” refere-se ao chão das cozinhas, salas, etc.

    Para “chemtrails” por que não rastos químicos ? Os “contrails” seriam os rastos atmosféricos, mas expressão mais discutível, ou simplesmente os rastos.

    Addendum deve estar em itálico. Há mais palavras que deviam estar em itálico, mas, pelo menos, essa devia estar. 🙂

    Sobre o acontecimento, há, inclusive, pessoas que conheço que acreditam piamente nessa teoria dos conspiracionistas. Há demasiadas inconsistÊncias na teoria — por que é que só determinadas zonas do país seriam alvo de tais químicos? E logo nas zonas de maior densidade populacional, onde supostamente também se encontra uma boa porção de políticos (Zona Metropolitana de Lisboa)? E o resto, não conta? E onde estão os aumentos de casos de problemas sérios de saúde ligado supostamente a esses químicos?! Também sei que, por alturas da Primavera, há uma libertação tremenda de grãos de pólen das mais variadas plantas, o que faz com que seja normal ver muitos veículos plenos de manchas amareladas – NÃO são químicos no sentido que querem dar, são simplesmente milhões de minúsculos grãos de pólen… (sim, os conspiracionistas também abordam este tema de os veículos estarem “estranhamente” sujos).

  5. Fico pensando em como que surgiu este Hoax.

    Talvez algum matuto do interior, desinformado a muitas décadas atrás com curiosidade sobre estes rastros formulou um inicio de teoria conspiratória.
    Mais tarde outros o escutaram e propagaram.
    Alguns ainda resolveram contribuir criando fatos falsos para parecer mais verdadeiros.

    Hoje em dia sei de gente que vende livros, ganha por palestras etc, graças a coisas como isso.

    Da um filme eim

    1. A história dos OVNIs na Serra da Gardunha, em Portugal, começou dessa forma.
      Uma pessoa que lá vivia, que nem sabia o que eram satélites, começou a dizer que todas as noites via luzes a passar nos céus… e pronto, tornou-se um fenómeno popular…

    2. A referência mais antiga que se encontra da teoria é a de um e-mail de 1997: http://contrailscience.com/a-brief-history-of-chemtrails/

      Nos anos 50 também é possível encontrar várias notícias em jornais da época de confusões relacionadas com os contrails, visto serem um fenómeno ainda relativamente novo para pessoas: http://contrailscience.com/contrail-confusion-is-nothing-new/

    • Roger Bonsaver on 25/10/2013 at 00:08
    • Responder

    O que mais me impressionou, foi a tua paciência e disposição em escrever tão longo texto apenas para refutar idéias idiotas de mentes ocas, mesmo sabendo que não lerão ou não levarão em conta teus argumentos.
    Admiro muito teu trabalho.
    Parabéns!

    1. Obrigado.
      É bastante difícil mudar a mente de quem já se deixou levar pela forma de pensamento do teórico da conspiração, mas isto pode ajudar quem ainda está “em cima da cerca”. Às vezes basta umas perguntas bem feitas para meter as pessoas a pensar.

    • Nuno José Almeida on 24/10/2013 at 19:22
    • Responder

    “capacidade de decepção”

    deves querer dizer capacidade de enganar, iludir, lograr? decepção quer dizer desapontamento.

    1. Tens toda a razão, eu já penso em inglês… obrigado!

  6. Os rastos são apenas de vapor de água ou são fumos de escape?

    1. Olá Jaculina,
      Os rastos que resultam dos gases de exaustão (os mais comuns) possuem também partículas produzidas pela combustão do combustível, são essas partículas que depois estimulam a humidade da própria atmosfera a condensar e formar o rasto visível no céu. Mas a parte visível é essencialmente água. Os contrails aerodinâmicos é que já não têm nada a ver com os fumos de escape/exaustão, mas são mais raros de ver.

        • Jaculina on 24/10/2013 at 20:23

        Obrigada.

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