Alienígenas imaginários exóticos

Imaginar extraterrestres verossímeis é uma atividade fascinante, mas não tão simples quanto um mero exercício de Imaginação, principalmente quando são cientistas que se dedicam a esse exercício. É necessário primeiramente ter um conhecimento prévio das condições em outros mundos. Embora seja considerada grande a probabilidade de existirem muitos outros mundos com condições de desenvolver e albergar vida pela galáxia, a chance de serem idênticos à Terra é muito baixa, praticamente nula.

Isso acontece porque a Terra é um planeta com características específicas como uma atmosfera moldada pela sua própria biosfera – e seriam necessários seres vivos idênticos em outros mundos para construírem um mundo com ar oxigenado como o nosso. Só que esses seres vivos aqui surgiram e se desenvolveram em função das características primitivas da própria Terra, como um campo magnético, a composição rochosa da superfície, a química ambiente, a radiação de um Sol amarelo, a gravidade, um satélite de grande porte e seus efeitos na maré, o período de rotação, o período de translação, as estações do ano – etc e etc.

Todos esses fatores astro-geológicos são determinantes não só para a Origem da Vida, mas para toda a sua Evolução – que ainda vai seguindo funções cósmicas: a Lua se foi afastando, o Sol teve períodos de máximo e mínimo, houve impactos cósmicos, muitas espécies foram extintas, e outras evoluíram ocupando por várias vezes um mundo modificado e até pós-apocalíptico. Isso nos leva a questões fora das funções cósmicas – a própria biologia e evolução das criaturas, sua composição, adaptação e sobrevivência – aplicar a Teoria Sintética da Evolução também é algo determinante para imaginarmos habitantes de outros planetas. Devo lembrar, entretanto, que essa vasta gama de variáveis e invariáveis não significa que as funções da vida sejam indetermináveis, mas sim que seu determinismo, sua previsibilidade, é algo muito desafiador, isto é, simplificando: Imaginar um Extraterrestre Verossímil está bem além de um simples exercício de imaginação.

Outro fator é a questão da Terra: a diversidade da vida e suas formas em nosso Planeta é tão vasta que imaginar um extraterrestre sem que nenhum biólogo consiga comparar a seres vivos conhecidos é praticamente inviável. E se fizer isso, provavelmente se está contrariando muito dos conhecimentos prévios de ciências naturais indispensáveis antes do exercício de imaginar um Extraterrestre de forma científica.

Mas como tenho a meu favor um Universo vasto, onde a imaginação pode passear solta, me arrisco a imaginar alienígenas exóticos – embora eu não tenha conseguido vencer a questão da comparabilidade às criaturas terrestres… mas valeu a pena:

 

Rochas vivas

Rochas vivas

Os Rastejadores de Anhangá

Quando os pesquisadores navegavam no sistema de uma Estrela Anã Vermelha com 1/10 do tamanho do Sol, um planeta bizarro chamou sua atenção. Anhangá era uma Super-Terra quente, no entanto com temperatura habitável. O Planeta é nada menos que o maior e mais denso objeto rochoso já encontrado, três vezes maior que a Terra e com gravidade cinco vezes maior. Assim que passou a ser sondado, o Planeta revelou bolsões de água na superfície, e uma atmosfera com fontes de metano misteriosas, já que não tem sinais de atividade vulcânica num passado recente. Logo se levantou a suspeita de que alguns seres vivos poderiam estar vivendo sob a colossal pressão atmosférica e gravidade duas vezes maior que a de Júpiter.

A suspeita logo foi confirmada, pois à volta de lagos com água e deutério no fundo se rastejam os Grocks, criaturas que parecem uma mistura de animal e compostos rochosos. com uma forte carapaça, enriquecida com uma substância dura parecida com a quitinosa dos quelônios terrestres misturada com rocha dura, eles vivem num mundo extremo. Por ter um lado constantemente iluminado e outro escuro – uma vez que Anhangá tem um sol anão vermelho e está muito perto, com translação presa, e por isso sempre com a mesma face apontada para o sol – a contínua radiação da estrela num lado da atmosfera forma tempestades colossais que percorrem todas as outras regiões do planeta, passando pelas áreas de lagos habitáveis dos Grocks,  que ficam numa zona de penumbra, relativamente entre a face escura e a face iluminada de Anhangá. Por causa desse estranho sistema, nunca veríamos o sol se pôr.

A carapaça dos Grocks possui traços de uma rocha estranha, rica em polímeros naturais resistentes à radiação. Essa é uma importante vantagem evolutiva, pois estrelas anãs vermelhas são instáveis e sofrem corriqueiramente grandes surtos de atividades e erupções. Eles se alimentam de seres análogos a vegetais, cujas folhas são escuras e podem ajudar a entender porque os vegetais terrestres tenderam a evoluir a cor verde em suas folhas. Movimentar-se arrastando com suas seis pernas pela paisagem pesada sobre intensa gravidade, com relevo de montanhas não mais altas que alguns metros – também em função da forte gravidade – exige um grande gasto de energia para os Grocks. Por causa disso eles comem diariamente cerca de mais de um terço do seu tamanho, e possuem um metabolismo acelerado. Seus fluídos corpóreos estão pesados em ferro e outros minerais, numa concentração muito maior que em qualquer criatura terrestre. Alguns seres unicelulares extremófilos formam colônias nas carapaças dos Grocks, sendo comum também deixarem estromatólitos ali, reforçando sua proteção contra a radiação.

 

As Nuvens-Vivas de Alamoa

Vivendo em Tempestades

As Nuvens-Vivas de Alamoa

Alamoa é um Sub-Netuno com atmosfera saturada de água gasosa, nitrogênio e compostos orgânicos, que vai ficando cada vez mais densa até se fundir no manto planetário. É um mundo de temperatura amena e ideal para haver água líquida, porém é densamente atmosférico, muito turbulento e tempestuoso. A presença das nuvens de água torna os relâmpagos constantes, muito maiores que qualquer um já visto na Terra.

À primeira vista um mundo hostil à vida, Alamoa surpreendeu os primeiros exploradores assim que revelou colossais estruturas nebulosas que pareciam árvores enraizadas nas camadas de nuvens baixas e quentes – e esses tentáculos enraizados tinham centenas de metros de extensão até um corpo semiesférico denso no centro e nebuloso para fora.

As estranhas criaturas são o que se poderia descrever como versões gasosas de águas-vivas, tendo em seu corpo mais de 99% de constituição da matéria ambiente – contra 95% das águas vivas. Outra questão é que, diferente da simetria radial das suas comparáveis terrestres, as nuvens-vivas de Alamoa possuem uma simetria bem mais difusa, e seus tentáculos crescem como raízes, podendo se sub-dividir. Não possuem um corpo físico em si, mas permanecem em maior parte coeso devido à uma forte tensão eletromagnética de seus nerônios na massa gasosa de que se compõem. A princípio, um ser tão gigante e leve como gás, tenderia obviamente a dissipar nesse mundo com ventos de até 800 km/h, mas a evolução dos Famfrits os tornou praticamente imunes, com seus corpos facilmente transmorfos e porosos – deixando a corrente de vento passar. Fora isso, eles são filtradores e se alimentam de micro-organismos que o vento carrega. A aparência nebulosa se deve ao fato da constante absorção e perda de gases orgânicos feitas por seus tentáculos nas nuvens baixas e densas de Alamoa. Quando querem migrar, os Famfrits simplesmente se deixam levar pelo vento.

A evolução desses seres é um mistério biológico sem precedentes. Alguns estudiosos calculam que eles começaram como colônias de micro-organismos unindo-se na forma de “caravelas” por tanto tempo que acabaram por formar a estrutura orgânica de um novo e gigantesco organismo único, permanecendo assim para sempre.

 

Considerações:

Os Planetas e as criaturas são imaginários. Os nomes dos dois planetas vem da mitologia indígena pré-brasileira, Alamoa (divindade relacionada à relâmpagos) e Anhangá (divindade antagonista do panteão indígena). Os Famfrits referenciam a série Final Fantasy e os Grocks homenageiam lendárias criaturinhas rochosas do mundo dos videogames.

6 comentários

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  1. Minha característica principal é bitolada, sempre depende do dia sobre o que fico bitolada, ás vezes é meses seguidos, ou outras vezes apenas um hora, nessa que falarei tive por três anos desenvolvendo e ainda não acabei ela e o universo em volta dela, são muitas espécies no total, fiz até um site falando deles, o URL é “http://glauberjungbluth.wix.com/minuctos#!sobre-2/c24w5”, é só copiar e colar, MAS UMA COISA IMPORTANTE, a página não está pronta, por causa disso tem que colocar senha para entrar nela, a senha é “minuctos”, sem maiúsculo nem nada, boa sorte para quem quiser ver.

  2. O comentário do cara ficou melhor que a matéria ^^

  3. Muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Antigamente se acreditava que só um planeta com temperaturas semelhantes a nossa e com agua em abundância que poderiam abrigar a vida.
    Carl Sagan começou a expandir estes conceitos.
    Chegou a formular hipotéticas formas de vidas que poderiam existir “boiando” nas nuvens de Júpiter ou Saturno.
    (Parecidos com o Famfris do post acima)

    Eu já cheguei a conceber a possibilidade de uma forma de vida baseada exclusivamente em energia, que poderia existir em regiões muito mais energéticas que as nossas como os centros galáticos.

    Também já conjecturei a possibilidade de uma vida baseada em plástico-orgânico, que poderia substituir as funções da carne no nosso corpo, uma vida assim poderia existir (claro, teoricamente) num lugar bem mais frio, como em Titã.
    No caso a agua no nosso corpo seria substituída por um liquido baseado no metano.
    O metano e seus derivados(principalmente) são muito mais “orgânicos” doq a agua.
    Então poderia ser mais fácil surgir a vida num lugar baseado em metano doq num lugar baseado em agua, que por si só não é nada orgânica.

    Pensei também na possibilidade de uma vida num ambiente muito mais quente, onde os corpos seriam formados por tecidos metálicos-orgânicos, e aonde a agua seria substituída por um metal liquido, baseado principalmente em ferro, liquido claro.
    Seria uma forma de vida que só poderia existir a temperaturas acima de 500 graus, e talvez até a alguns milhares de graus.

    Mas consegui bater meu record de imaginação agora, pensando numa forma de vida que poderia viver em pleno Sol, a temperaturas mínimas de milhares de graus.
    Hoje sabemos de materiais que conseguem transformar diretamente calor em energia.
    E teoricamente um ser vivo também poderia fazer isto, desde que seja formado por estes materiais.
    Nossas plantas transformam luz em energia, mas a energia conseguida é pequena, tanto que uma planta não pode sair correndo como nós, pois lhes falta energia, além das partes móveis claro.
    Mas um organismo que literalmente absorvesse milhares de graus de calor, o transformando em energia, poderia obter uma grande quantidade de energia, o suficiente para se locomover e fazer muitas outras coisas.

    Até a algum tempo se alguém me perguntasse se existe vida no Sol, eu categoricamente diria que não, pois não há como um ser vivo aguentar tanto calor.

    Mas agora já não posso dizer isto, já que possibilidade até existe.

    Mas como que uma forma de vida poderia evoluir até chegar neste ponto?
    Bem .. o universo teoricamente daria condições de existir as primeiras formas de vida a pelo menos 10 bilhões de anos atrás.
    Uma evolução continua de um organismo que inicialmente teria um funcionamento parecido com a fotossíntese, mas vivendo num local cada vez mais energético, poderia ir se adaptando, melhorando sua constituição para resistir ao calor e ainda ser cada vez mais eficiente quando ao aproveitamento da energia para uso no seu organismo.

    1. Muito bom amigo. Mas fico com o pé atrás na questão do metano como fluído pra vida, pela questão química. Por mais orgânico que seja, o Metano é um péssimo solvente, por isso é considerada a água o melhor meio para que reações químicas formem compostos pré-bióticos.

      Sobre as formas de vida antigas a nível cósmico, aí sim a imaginação pode passear solta. Eu mesmo já imaginei “vegetais” sem mundo que velejam inertes pela galáxia até encontrar a Corona de uma Estrela e nutrir-se de sua energia;

      Já imaginaram
      Planetas Vivos: http://www.astropt.org/2013/03/23/um-planeta-vivo-pode-existir/
      Os Calamares: http://en.memory-alpha.org/wiki/Calamarain
      etc.

      Uma de minhas imaginações favoritas seriam espécies flutuantes vivendo em Nebulosas Planetárias, pois junta tudo: Planetas muito antigos para terem originado seres evoluídos – de um Sol moribundo com mais de 10 bilhões de anos, e uma grande diversidade química contida na própria nebulosa (carbono, oxigênio, nitrogênio, hidrogênio, restos de planetas e cometas dissipados, compostos orgânicos e água gasosa. Esses seres viveriam numa nuvem expansiva e reativa com mais de ano-luz de extensão *um espaço de vida indescritivelmente maior do que de qualquer planeta, ou mesmo estrela – Nebulosas planetárias são muito grandes.

      1. Isto mesmo estas das nebulosas poderiam ser meio que semelhantes com aqueles que imaginei que poderiam viver em locais muito energéticos.

        Sabemos que pode haver vida baseada em carbono e agua que é nosso caso.

        Creio que o Carbono e o Oxigênio teriam surgido depois das primeiras estrelas, logo no primeiro bilhão de anos do universo.
        Concordam?

  1. […] Depoimento de um habitante de Titã. Astrónomo Russo. Educação. Documentários (Alien Planet). Alienígenas imaginários exóticos. […]

  2. […] dias atrás, um dos nossos comentadores habituais (Xevious) especulava sobre potencial vida solar que convertesse calor em energia própria. Neste livro de ficção científica, também se fala de […]

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