Fundamentalismo na ciência?

O melhor da ciência é que é verdade, independentemente se acreditas nisso ou não.

O melhor da ciência é que é verdade, independentemente se acreditas nisso ou não.

Esta é uma crítica recorrente feita por aqueles que não entendem o que é a ciência: dizem que a ciência ou os cientistas são fundamentalistas.

Sinceramente, esta é uma crítica que me custa a compreender.

Ciência é a observação e descrição das leis naturais, de modo a compreender a natureza.
Dentro desse método científico existem outras características que permitem que haja objectividade, aperfeiçoamento constante, e afastamento de qualquer crença/desejo pessoal que afecte essa compreensão da natureza. Uma dessas características é a experiência objectiva. Outra dessas características é a previsão, de modo a saber se a descrição permite ter sempre razão. Ainda outra característica é a confirmação dos resultados por entidades independentes. Estas entidades independentes podem chegar a mais de 7 mil milhões (cada pessoa no planeta).

Por aqui se percebe que não existe nem pode existir qualquer fundamentalismo na ciência ou nos cientistas.
Na ciência, ou se prova ou não se prova. Quem determina isso não é a pessoa X ou Y, mas sim a natureza.

A verdade é-nos dada pela natureza.
A verdade não é uma crença da pessoa X nem é pertença da entidade Z.
A verdade que nos é dada pela natureza não é algo em que se acredita nem é algo que dependa de opiniões pessoais.
A verdade não é democrática.

A ciência, como eu disse em cima, é uma descrição dessa verdade natural.
Por isso, quem faz essa crítica à ciência não está só a demonstrar ignorância sobre o que é a ciência, mas está também a ser ridículo porque na prática está a queixar-se que a natureza é fundamentalista.

E sim, as leis naturais são fundamentalistas.
Mas queixarmo-nos disso só porque gostaríamos que as nossas crenças e opiniões fossem superiores à natureza, é absurdo.

É irrelevante se 9% ou 99% das pessoas acreditam. A verdade não é uma democracia.

É irrelevante se 9% ou 99% das pessoas acreditam. A verdade não é uma democracia.

Deixem-me dar-vos um exemplo:
Eu afirmo que se uma pessoa se atirar do topo de um edifício de 20 andares, vai cair cá em baixo e provavelmente morrer. Ao afirmar isto, assumo que a pessoa percebe que não estou a dar a minha opinião pessoal, mas sim com base em milhões de experiências que se sabe que aconteceram desta forma e que a própria ciência descreve para poder prever que da próxima vez que uma pessoa se atirar, vai cair devido à gravidade.
No entanto, o sr. X diz que estou a ser fundamentalista. O sr. X diz que a ciência está a ser fundamentalista ao prever isso. O sr. X diz que na sua opinião a pessoa que saltar vai voar para fora da Terra.
Será que estou a ser fundamentalista? Será que a ciência é fundamentalista ao descrever a gravidade de uma forma que prevê que a pessoa vai cair no solo?
É óbvio que não. A verdade é só uma, não depende das crenças, fundamentalismos ou opiniões. A verdade é-nos dada pela natureza.
Se o sr. X ignora todas as experiências feitas e se o sr. X imagina que pode ter razão só tem que fazer uma coisa: provar isso. Faz a experiência de se atirar do topo do edifício e já percebe se tem razão ou não. É assim que se tem conhecimento dos assuntos: colocando-os à avaliação da natureza.

Se o sr. X não quiser ou não puder fazer a experiência, e mesmo assim assumir que tem razão só porque a sua ideologia (crenças e opiniões) lhe diz que sabe mais que a própria natureza, então a verdade é que estamos na presença de um fundamentalista.
E é normalmente isto o que acontece nos debates: por ignorância da natureza da ciência e por ideologia, aqueles que acusam os cientistas de fundamentalismo são normalmente aqueles que são fundamentalistas: aqueles que colocam as suas ideias pessoais acima das respostas que a natureza nos dá.
Esta é também uma forma de geocentrismo psicológico, de antropocentrismo: as pessoas acham-se tão especiais que assumem que as suas opiniões pessoais estão acima do conhecimento que nos é dado pela natureza.

Dei o exemplo da gravidade.
No entanto, poderia falar de coisas tão banais como ligar a luz no interruptor, ligar o computador ou falar ao telemóvel/celular, que contém inúmeras leis e teorias científicas.
Aliás, mal acordamos, temos imediatamente um enorme conjunto de equações, leis e teorias científicas a funcionar. Não dependem de nós. Não dependem das nossas crenças e opiniões. Simplesmente, são a realidade da natureza.
Além disso, as descrições científicas dos milhões de exemplos do nosso dia-a-dia provam-se sempre como 100% correctas. Qualquer pessoa prova isto diariamente.

Nós vivemos num mundo científico. Se temos carros, telemóveis/celulares, electricidade, medicina, sondas noutros planetas, maior longevidade, etc, à ciência o devemos. A diferença entre vivermos no mundo actual ou há 10.000 anos atrás, deve-se ao conhecimento científico.
Idolatrar a ignorância nunca nos levou a lado nenhum. Toda a gente tem direito a assumir que as suas opiniões e crenças pessoais são superiores às leis da natureza; mas então, em nome da consistência, não utilizem nada que siga essas leis e teorias científicas, por exemplo, não utilizem nada que dependa da electricidade. Ao utilizarem o conhecimento científico enquanto simultaneamente negam a existência dele, estão a cair naquilo que se caracteriza como hipocrisia.

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Resumindo:
A verdade do Universo é-nos dada pela natureza. A ciência descreve a natureza. As previsões feitas com base nas descrições científicas provam-se 100% certas. Essas previsões provam-se como correctas todos os dias por todas as pessoas no mundo.
Por isso, onde está o fundamentalismo? Em todos aqueles que assumem que a natureza tem que se subjugar à sua ideologia. Em todos aqueles que assumem que as suas opiniões e crenças pessoais são mais importantes que a verdade que nos é transmitida pela natureza.

21 comentários

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  1. Ia dizer..
    em vez de crer que sabemos “tudo”, mas esse “tudo” que fica se modificando..

    • Betinho Floripa on 28/11/2013 at 11:46
    • Responder

    Fundamentalismo no DNA..

    http://super.abril.com.br/religiao/programado-crer-619287.shtml

    1. O artigo está mal escrito… é que isto tem a ver com a Evolução. Sagan explicou muito bem isto já há muitos anos 🙂

        • Betinho Floripa on 29/11/2013 at 17:42

        Sem falar do desejo inconsciente de querer explicação para tudo…e qdo não as encontramos…as inventamos…

        Abraços 🙂

  2. Ótimo artigo Carlos-san :D.

    Há tempos eu vejo (principalmente em páginas do Facebook) pessoas sendo acusadas de ser fundamentalistas/cientifistas por esse povo amante de pseudo-ciências, da uma tristeza ler esses comentários.

  3. “Quando alguém diz, algo como “ta chovendo perolas”
    Podemos apenas dizer, “não isto é impossível” e não falar mais nada,
    Mas o correto seria ir lá ver.”

    Mas se a pessoa já foi ver, mesmo sem o Xevious saber, então a pessoa sabe que é impossível 😉

    1. Se estivéssemos em Netuno e fosse diamantes em vez de pérolas, a pessoa poderia estar certa… 😀

    2. Ser impossível não significa exatamente que não possa existir.
      Só que de acordo com os conhecimentos atuais podemos dizer que é impossível existir.

      Um exemplo, é a matéria que tem menos de uma semana, aqui no blog, afirmando que foi descoberta a maior estrutura do universo e que a princípio ela seria impossível de existir, já que contraria oq conhecemos da ciência atualmente.

      É a mesma coisa.
      Chover perolas é impossível assim como algo maior doq o previsto.

      Já que a ciência esta sempre se redefinindo.
      O mais correto seria assumirmos que não sabemos tudo.

      Em vez de crer que sabemos tudo, mas que este “conhecimento”

      1. Impossível é diferente de improvável.

        É impossível você ter rios na superfície da Lua. Falta atmosfera, pressão e temperatura para isso. (assumindo a existência da molécula de água)

        É improvável você conseguir atravessar uma parede de cimento. Não é impossível, mas é bastante improvável.

        abraços

  4. Eu sou um dos que falam que existe uma certa tendência ao fundamentalismo científico.
    Não é exatamente algo ruim, é algo cultural, com ajuda do corporativismo e da mídia.

    Ciência é algo abstrato, e seus conceitos fundamentais já tiveram muitas transformações.

    Ocorre o fundamentalismo quando não se atua como cientista,

    Quando alguém diz, algo como “ta chovendo perolas”
    Podemos apenas dizer, “não isto é impossível” e não falar mais nada,
    Mas o correto seria ir lá ver.

    1. Ciência é algo abstrato?? Sério?

      Quando alguém “diz está chovendo pérolas” esse alguém não está sendo fundamentalista nem cientista, esse alguém precisa de um psiquiatra e ninguém precisará ir lá ver, pois a ciência nos diz muito bem a diferença entre o que é possivel x provável.

      1. Eis a demonstração precisa doq falei.

        Ora bolas Jonas, nunca ouvi ninguém falando que esta chovendo pérolas.
        (Se alguém disser, eu quero meus direitos pois falei primeiro)

        Mas já ouvimos falar de chuvas de Rãs, Peixes e outras coisas estranhas.

        O caso é que um cientista que não seja fundamentalista pode muito bem ter seu preconceito formulado, mas não deve fala-lo abertamente, pelo menos não enquanto não der uma olhadinha lá fora e verificar se esta ou não chovendo pérolas.

        Sacow!

        E acho que ciência é algo abstrato, tanto quanto a religião, e estes dois assuntos são tão similares que inclusive os dois tem exemplos de fundamentalismo.

        • Jonas on 21/12/2013 at 03:28

        Nunca vi alguém usar um computador abstrato ou tomar vacinas abstratas.

        Mesmo quando vai num médico com dores, acha que tudo que acontecer durante a consultra e depois é abstrato?

        Os exames, o medicamento, o tratamento, e a própria cura que acontece?

        Os pseudos só vivem nos seus mundos abstratos, o engraçado é que nunca vi um pseudo fazendo algo de útil, que funciona ou verdadeiro. Cuidado, você está na beira do precipício.

    2. Xevious

      Penso como você: se alguém disser que está chovendo pérolas (ou diamantes, ou dinheiro…) eu posso duvidar, posso desacreditar…MAS TENHA ABSOLUTA CERTEZA DE QUE EU VOU LÁ OLHAR!

      (…comentário editado…)

      1. A Isa não pensa como o Xevious…

        Já foram mostradas várias evidências à Isa que o website que a Isa acredita de forma fundamentalista está cheio de informações erróneas. No entanto, a Isa continua a acreditar de forma fundamentalista nele.

        A Isa pode dizer o que quiser sobre si, mas a verdade é que os seus comentários mostram que acredita “sem olhar”, sem sequer fazer um pequeno exercício de reflexão sobre as informações que são transmitidas por certos websites.
        Isso é similar a fundamentalismo religioso.

        Também pode acreditar no que quiser… mas este local não serve para divulgar essas mentiras.

        abraços

        P.S.: quem vai lá ver é a Ciência. Como o Jonas falou, por isso é que temos computadores.
        Infelizmente, algumas pessoas utilizam computadores para a hipocrisia e para dizer mal da ciência… enquanto a utilizam.
        isso diz muito sobre as pessoas.

        • Isa Maria on 16/04/2016 at 14:13

        Olá, Carlos!
        Tudo bem com você?
        Comigo também!

        Carlos, calma, por favor!

        http://a.disquscdn.com/uploads/mediaembed/images/3128/7135/original.gif

        A Ciência é, sim, ma-ra-vi-lho-sa! E a única forma de mudarmos o mundo é através dela! Quiçá os cientistas (em vez de apontarem os dedos para criticarem uns aos outros, se unissem em busca de soluções práticas para construir um mundo melhor para todas as espécies, inclusive para a nossa!

        Abrçs e Bjs da Isa

      2. Eu estou calmo…

        A ciência é baseada no pensamento crítico, que serve sim para se criticar de forma sustentada.
        O processo científico inclui o chamado peer-review.

        Sem esse processo de peer-review, de crítica entre cientistas, o que existiria era somente vigarices e pseudos a enganarem a população.
        Esse processo de crítica é uma das bases que fez com que a ciência tenha tanto sucesso e faça com que o mundo tenha evoluído tanto.

        Claramente, a Isa anda confusa…

        • Isa Maria on 16/04/2016 at 14:31

        Bem, na minha humilde opinião, Carlos, apenas a Ciência pode mudar para melhor o mundo em que vivemos; certamente que há equívocos por parte de todos – cientistas ou não – afinal a perfeição aqui inexiste, por isso devemos buscar a excelência; entretanto, a partir da semente que um plante, uma bela colheita poderá acontecer e favorecer todos os envolvidos e também os demais que se beneficiarão da ciência.

        Como já mencionei, no início, quando chegou aos EUA, Tesla poderia ser considerado um pseudo pela comunidade científica daquela época; no entanto, com o tempo, provou-se o contrário (tanto que até hoje nos beneficiamos de importantes e significativas intervenções dele na Ciência); mas, antes que seus projetos fossem aceitos e reconhecida a validade deles, até espetáculos com sacrifício de animais em praças públicas foram realizados para desacreditarem a eficiência da corrente alternada. Por isso, penso que se alguém disser que está a chover pérolas, ou diamantes, ou dinheiro, podemos até duvidar num primeiro momento, mas devemos, sim, olhar.

        Abrçs e Bjs da Isa

      3. A ciência olha.

        A ciência olhou para Tesla e viu que tinha razão. Daí a Isa ter ouvido falar de Tesla. É a ciência que dá razão a Tesla.

        A ciência olha para os pseudos e vê que aquilo não funciona e é só uma forma de manipularem as pessoas com mentiras.
        Esses são os pseudos.

        E a ciência olha. Faz parte da ciência olhar.
        Os pseudos não olham. Simplesmente acreditam/acham que sim sem olharem.

        abraços

        • Isa Maria on 16/04/2016 at 15:18

        Sim, Carlos, a Ciência observa com olhos atentos; e está corretíssima, claro!

        Especificamente nos acontecimentos em relação a Nikola Tesla, a comunidade científica da época precisou render-se ao talento dele, porque ele estava certo e provou isso; mesmo assim, ele foi injustiçado e ridicularizado em diversos momentos, infelizmente! Como provavelmente, o Engº Social Jacque Fresco: que, em prol da vida no nosso planeta, dedicou a vida inteira para implantar uma sociedade baseada em recursos, provavelmente, também será…que pena!

        Abrçs e Bjs da Isa

  5. Ótimo Artigo Carlos, como sempre. 🙂

    Um adento – tenho visto algumas pessoas adotarem de fato a ciência de forma fundamentalista *muito obviamente são leigos em ciências que fazem isso*.
    Esse pessoal faz da ciência uma espécie de “deusa do século XXI”, e que ela tem todas as respostas absolutas sobre a natureza, e não pode ser questionada – sendo a realidade científica o contrário dessa visão, é na verdade o constante questionamento (por parte dos próprios cientistas) que caracteriza o processo científico.

    Diz o ditado: “não são as respostas que movem o mundo, mas sim as perguntas.” 🙂

    Abraços

  1. […] dependem das crenças nem das opiniões pessoais. É irrelevante se as pessoas as aceitam ou se concordam com elas. Elas existem para explicar a natureza. E a natureza não é democrática. A verdade não é uma […]

  2. […] onde está a entrar e que respeite o conhecimento, colocando a verdade acima de tudo. E a verdade não é democrática nem depende de opiniões pessoais. Defendemos assim que deve existir um respeito pela verdade e […]

  3. […] venenosa. Leitura a Frio. Quero Saber. Possível vs. Provável. Crença. Ciência Não Erra. Verdade Não-Democrática. Argumento da Ignorância. Hipocrisia. Xadrez Cósmico. Profecias da Ciência. 7 Equações. […]

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  6. […] Semanas depois, a Marinha explica tudo com base em evidências de um levantamento hidrográfico (com instrumentos de maior precisão). O que existe é uma cordilheira montanhosa, obviamente tendo uma causa natural. O Instituto Hidrográfico afirmou também num comunicado público que “nos modelos batimétricos gerados não é visível qualquer estrutura com a profundidade mínima de 40 metros, registando-se nessa posição profundidades da ordem dos 540 metros”. Ou seja, como sempre, a realidade da natureza foi superior às crenças pessoais. […]

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