Depoimento de um habitante de Titã

Outra vez, um de nossos observadores nas altas montanhas relata a passagem de um estranho objeto voador no espaço, perto de nosso mundo. Não há dúvidas de que seja um artefato alienígena, feito de um estranho material reluzente, aparentemente mais resistente que nossas rochas mais duras. As leituras indicam que a máquina alienígena está em atividade, pois detetamos calor e eletricidade em seus equipamentos.

Temos poucas condições de entender esse objeto, pois a navegação espacial ainda é apenas um sonho de ficção científica, o que parece ser real para esses estranhos visitantes. Nossos estudiosos acreditam que esse OVNI está interessado em todo o sistema de mundos de nossa vizinhança, mas parece dar uma atenção especial para nosso mundo e também para o mundo central de nosso sistema, que em nossa cultura representa o senhor das almas, e que à sua volta tem os anéis da eternidade para onde vão os bons titanianos depois que morrem. Nossa vida é difícil, temos que migrar o tempo todo para acompanhar as estações das chuvas, de onde vêm os líquidos que precisamos para viver, e filtramos pela pele em contato com a chuva ou os lagos que elas formam. Mesmo em constante mudança para sobreviver, sempre temos tempo para pesquisar o mundo, e os mistérios que têm cercado nosso tempo. Eu tenho certeza que há alienígenas de olho em nosso mundo e nosso precioso Etano, pois nenhum outro mundo tem tanta abundância desse líquido especial para a vida.

O dia em que minha curiosidade e meu medo explodiram ao mesmo tempo foi quando um filhote da sonda alienígena que ronda nosso mundo pousou aqui. Imediatamente, ordenei o isolamento da área. O objeto era tão quente quanto devem ser aqueles quatro mundos perto do Sol, onde a vida é impossível. Mesmo assim, os especialistas que examinaram o objeto, depois que ele cessou sua atividade térmica e pareceu “morrer”, dizem que seus símbolos parecem indicar a procedência de algum mundo perto do Sol… É quente demais para ter vida lá. Num deles, o terceiro, nossos telescópios térmicos indicaram proporções vastas de água em estado líquido, elemento que aqui forma nossas rochas ou que brota de vulcões em temperatura escaldante! Nossas rochas seriam líquidos lá, e nossos lagos explodiriam. Se esse artefato vem mesmo de lá, é provável que seus construtores vivam em bases artificiais, em temperaturas suportáveis. Identificamos também que os alienígenas parecem detectar o mundo pelo calor, como nós, pois havia instrumentos na máquina que detectam calor. No entanto, havia outros equipamentos que detectam o mundo de outro jeito, como que em outras faixas de espectro que simplesmente não entendemos – levaremos gerações estudando a tecnologia avançada desses visitantes. É o único jeito de termos uma esperança de defesa, caso sejam hostis e nos ataquem, talvez interessados em nossa riqueza natural.

Talvez eu não devesse esconder de meu povo essa atividade alienígena, porém contar a eles só traria histeria coletiva, algo que não temos desde que um estudioso indicou que temos parentesco e heranças de animais, e que não somos mais “especiais” que eles na criação. Ainda hoje, há aqueles que negam ou distorcem os fatos que indicam nossa evolução. O fato é que meu segredo não será mantido por muito tempo – as constantes visitas e o artefato que pousou indicam que de fato esses estrangeiros do universo estão interessados em Titã, e que vão voltar. Os titanianos terão que enfrentá-los, e dada a sofisticação de sua tecnologia, sinto que nossa chance é pouca – mas não somos de fugir, e defenderemos nosso mundo enquanto tivermos forças. Manterei esse segredo enquanto tentamos entender a tecnologia deles, e quem sabe possamos desvenda-la um dia, quem sabe consigamos assim chegar a viajar no espaço. Meu sonho é ver os Anéis das boas almas de perto, aqueles que ficam à volta do grande mundo central de nosso sistema. Esse grande mundo, que além de envolto em anéis e mundos menores, é também envolto em mistérios.

Eu não sei, honestamente não sei o que será de nós. Não sei se esses alienígenas virão tomar nosso mundo, ou quem sabe, na melhor das hipóteses, nos visitar apenas por curiosidade. Gosto de pensar que talvez sejam como a gente, curiosos, querendo conhecer, querendo apenas entender os mistérios do universo, da vida, da existência. Espero que sejam do bem, e se forem, também quero conhecê-los, saber tudo sobre eles. Se pudesse lhes enviar uma mensagem, de alguma forma que entendessem minha comunicação baseada em vibrações de órgãos no meu peito, eu apenas diria: “Boa sorte!”.

 

Quando nós visitarmos outro mundo, temos que estar cientes de que seus habitantes não são alienígenas, os alienígenas somos nós – e nós somos muito mais assustadores para eles do que eles para nós. Um dia, teremos que ter essa consciência, e a lei de respeitar outros seres vivos.

(Jonatas A. Silva)

14 comentários

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  1. “O objeto era tão quente quanto devem ser aqueles QUATRO mundos perto do Sol, onde a vida é impossível. ” poxa os aliens não descobriram a lua rsrsrsrsrsrs (um dos motivos porque considero que a lua e demais corpos semelhantes deveriam ser um classificados Planetas)

    Muito interessante o texto, eu tenho uma visão parecida com esta apesar de achar que não encontremos inteligencia tão cedo, gosto de pensar que podem existir variados tipos de vida no universo, até maquinas possuem algumas características de seres vivos e de um ponto de vista mais extremo até poderiam ser classificado como algum tipo de “vida”. imaginem robôs inteligentes que se multiplicam, consomem energia,evoluem com o passar do tempo, mesmo não sendo “vivos” ainda se comportariam como algo vivo. viajando na maionese ainda mais os robôs futuramente poderiam se multiplicar em mundos no sistema solar impossíveis para a vida que conhecemos como a lua, mercúrio,vénus etc e “viveriam” lá, talvez isso daria uma boa historias de ficção.

    1. Na verdade, não descobriram Mercúrio, porque daquela distância está muito ofuscado pelo Sol – já que é o planeta mais próximo da estrela central.

    • Dinis Ribeiro on 29/12/2014 at 02:56
    • Responder

    Gostei muito do texto.

    Em particular desta passagem: “…enquanto tentamos entender a tecnologia deles, e quem sabe possamos desvenda-la um dia, quem sabe consigamos assim chegar a viajar no espaço”…

    Cito uma artigo que julgo que poderá ajudar a aprofundar o tema das “sondas robóticas”:

    If and when we finally encounter aliens, they probably won’t look like little green men, or spiny insectoids.

    It’s likely they won’t be biological creatures at all, but rather, advanced robots that outstrip our intelligence in every conceivable way. While scores of philosophers, scientists and futurists have prophesied the rise of artificial intelligence and the impending singularity, most have restricted their predictions to Earth.

    Fewer thinkers—outside the realm of science fiction, that is—have considered the notion that artificial intelligence is already out there, and has been for eons.

    Susan Schneider, a professor of philosophy at the University of Connecticut, is one who has. She joins a handful of astronomers, including Seth Shostak, director of NASA’s Search for Extraterrestrial Intelligence, or SETI, program, NASA Astrobiologist Paul Davies, and Library of Congress Chair in Astrobiology Stephen Dick in espousing the view that the dominant intelligence in the cosmos is probably artificial. In her paper “Alien Minds,” written for a forthcoming NASA publication, Schneider describes why alien life forms are likely to be synthetic, and how such creatures might think.

    Eu faço parte dessa “handful of people” que pensam muito nesta possibilidade descrita no artigo neste link que sugiro:

    http://motherboard.vice.com/read/the-dominant-life-form-in-the-cosmos-is-probably-superintelligent-robots

    “Everything about their cognition—how their brains receive and process information, what their goals and incentives are—could be vastly different from our own,” Schneider told me. “Astrobiologists need to start thinking about the possibility of very different modes of cognition.”

    To wit, the case of artificial superintelligence.

    “There’s an important distinction here from just ‘artificial intelligence’,” Schneider told me. “I’m not saying that we’re going to be running into IBM processors in outer space. In all likelihood, this intelligence will be way more sophisticated than anything humans can understand.”

    Penso que devo repetir esta ideia:

    …” this intelligence will be way more sophisticated than anything humans can understand”…

    The reason for all this has to do, primarily, with timescales.

    For starters, when it comes to alien intelligence, there’s what Schneider calls the “short window observation”—the notion that, by the time any society learns to transmit radio signals, they’re probably a hop-skip away from upgrading their own biology. It’s a twist on the belief popularized by Ray Kurzweil that humanity’s own post-biological future is near at hand.

    “As soon as a civilization invents radio, they’re within fifty years of computers, then, probably, only another fifty to a hundred years from inventing AI,” Shostak said. “At that point, soft, squishy brains become an outdated model.”

    Desde 1997 que estou a explorar (cada vez mais sistemáticamente) ideias “muito semelhantes” sobre o que poderia ser esta “superinteligencia sintética” (talvez até com um aspecto semelhante á entidade que surge no final do filme Lucy), embora com algumas nuances (relativamente?) importantes…

  2. Jonatas – Não tenho dúvidas quanto aos seus poderes telepáticos e ficcionais, além de outros que você próprio ainda desconhece. Com certeza, nós somos muito mais assustadores para os que chamamos de alienígenas, até porque tudo indica que somos os mais atrasados, os mais belicosos e os mais ignorantes do universo, e ainda assim nos consideramos seres inteligentes. (Kosta Gil no Face)

    1. Comentário totalmente antropocentrico de quem acha que os Humanos são os maiores “nisto”, “naquilo” e “naqueloutro”…

    2. Acho que para uma espécie ser assustadora, deve ser perigosa, e sendo perigosa, deve ter muitos conhecimentos tecnológicos, mas se esse for o caso, então ela não será ignorante a ponto de ser perigosa, todos os seres vivos (inteligentes) evoluem tecnologicamente e espiritualmente, por assim dizer, ou seja, eles ficam mais tecnológicos e mais educados, e vai assim até atingirem o máximo de tecnologia e bondade, nessa hora eles serão perfeitos, todas as espécies que não se extinguirem no caminho da evolução chegaram nesse momento onde serão perfeitas, mas voltando ao assunto anterior, perigoso é dar uma arma capaz de destruir uma montanha para um homem da caverna, não é nada perigoso dar uma arma de igual proporção para uma espécie na qual ela evoluiu e não chega a ter as vontades egoístas ou etc de antes, logo uma civilização perigosa é uma civilização ignorante que possui armas massivas, mas como tal civilização não pode existir, então nenhuma civilização é perigosa.

  3. Cara, escreve um livro de ficção científica com uma história sobre os habitantes de Titã… eu compraria com certeza.

    1. Eu também já criei alienígenas, como os célebres e principais minuctos, e já estou desenvolvendo muitas histórias sobre eles, como “Ocjam, a bondade mais maléfica”, que conta a história de três irmãos Urmãnicos, que foram sequestrados de seu planeta natal, Meclênia, e foram levados para um mundo com um desenvolvimento “espiritual”, por assim dizer, bem maior, melhor dizendo, eles eram mais educados e coisa e tal, para fazer um experimento sobre se uma espécie pode se desenvolver sem o contato de outros da mesma espécie, eles não são os primeiros nesses experimentos, e por isso os três são sequestrados, um único indivíduo enlouquece, mais três irmãos iriam viver bem com a companhia de cada um, o teste vai bem até os irmãos atingirem a idade adolescente e ficarem paranoicos, a paranoia é tanta que um dia eles escapam desse mundo e voltam a procura de seu mundo natal, só acham ele na idade adulta e lá descobrem que nunca tiveram pais, e sim tinham sido clonados e “vendidos” pelo governo para os sequestradores, confusos e muito entristecidos eles fogem para um planeta conhecido como “Ocjam”, onde permanecem escondidos dos seres desse planeta por quase dois anos, ao fim dessa data eles são descobertos e presos, são estudados dia após dia, até que o irmão mais velho, “Beneque”, tem um ataque de raiva e tenta escapar, na tentativa de tranquiliza-lo, os cientistas sem querer exageram na dose do remédio de dormir e acabam matando o irmão, aproveitam e o dissecam para estuda-lo internamente, depois de três anos de estudo os cientistas tentam se comunicar e descobrem a triste história dos três irmãos, como desculpas apresentam eles a civilização e começam a cuidar deles com mais carinho, mas mesmo assim a história passada dos irmãos os deixa traumatizados, percebendo isso, o cientista chefe, que antes era psicólogo, tenta ajuda-los a lidar com o universo novamente, mas seu esforço é insuficiente e eles acabam por enlouquecer, e como primeiro ato eles explodem uma bomba super-massiva e destroem o planeta inteiro, extinguindo todos os seres vivos do planeta, e dois milhões de anos depois um robô pousa no mesmo planeta, sem saber que na verdade pousa em uma história, este robô chamasse “Curiosity”, que explora o planeta Marte em busca de vida, sem saber que nunca obterá um resultado certo do planeta, e que sempre se perguntará sobre os ex-rios do mesmo.

  4. Se caso vier a ser um livro, algum dia, irei compra-lo.

    • sérgio guimarães on 13/02/2014 at 16:21
    • Responder

    não notaram: o personagem de Titã somos nós… apesar do texto falar de uma das luas de saturno, o pensamento do autor foi o mesmo que pensamos a respeito dos nossos irmãos extra-planetários. os mesmos medos, as mesmas dúvidas e incertezas. e também a mesma atitude, através de nossos governantes que teima em esconder a verdade por medo de histeria ou quebra de dogmas.

  5. excelente texto!

    😀

    Yep, eles olham para a Terra, que está envolta em oxigénio e pensam: é um mundo desértico, porque nenhuma vida pode desenvolver-se com base nesse veneno altamente inflamável 😛

    😀

  6. Muito legal !

    Uma possível explicação de que porque eles estariam mais atrasados tecnologicamente que nós.
    É que como eles vivem num local bem mais frio.
    Seus movimentos sua vida em si passa mais lentamente que a nossa.

    Ou acham que uma vida baseada em 180 graus negativos poderia ter agilidades como as nossas do nossos mundo?

    1. Isso aí é determinismo geográfico interplanetário.

  7. Texto magnifico T_T

  1. […] Universo. Sagan. Dentro de Buracos Negros. Buraco Negro de Outro Universo. Luas. Vida em Vénus. Depoimento de um habitante de Titã. Astrónomo Russo. Educação. Documentários (Alien Planet). Alienígenas imaginários exóticos. […]

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