O que eu aprendi com o debate entre Bill Nye e Ken Ham – Parte 2

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No último texto que eu fiz sobre este debate, eu me foquei em analisar o lado criacionista: enquanto os céticos e cientistas estavam se perguntando por que Bill Nye havia topado participar, preferi tentar responder a outra questão, para mim mais relevante: por que defensores do criacionismo costumam propor tais debates em primeiro lugar? Creio que meu texto anterior é claro o bastante sobre isso e pode ser lido aqui (o debate completo, em inglês, também está lá).

Mas, e quanto a Bill Nye? Por que ele topou o debate? Por que se dar ao trabalho de preparar argumentos para uma discussão ao vivo onde o que deveria valer é a argumentação honesta, mas que graças a nossa condição humana, acaba sempre caindo para falácias ad hominen, distorções de informações e argumentos muitas vezes propositalmente confusos? Obviamente, eu não posso falar por Bill Nye. Mas, tendo assistido ao debate, proponho uma resposta.

A primeira coisa a ser definida sobre este debate, é que Bill Nye não esteve lá para fazer ciência. Esse não era seu objetivo. Bill Nye estava lá fazendo política.

Eu não conheço tão bem os trâmites políticos nos EUA, conheço apenas o básico, mas sei que setores conservadores (que frequentemente estão ligados a setores religiosos) possuem poder político nos EUA. Quem mora no Brasil passou a conhecer esta realidade em anos recentes, quando uma bancada predominantemente evangélica (protestante) têm tentado barrar diversas propostas progressistas baseadas nos seus dogmas religiosos. E isso é um problema muito grave.

Todo debate é político. Não é científico, não é religioso, não é filosófico. É político. São duas partes com propostas diferentes, não raro opostas, que tentam convencer a audiência de que devem escolher o seu lado.

Há dois contextos bem importantes no fazer político (e aqui eu não me refiro só a política feita por políticos, mas a política como atividade social), e que merecem ser pontuados. O primeiro é que política é uma atividade pública, ou seja, visa assuntos que concernem a todos os membros de uma sociedade. E, segundo, é uma atividade que envolve, em grande medida, capacidade de argumentação.

Bill Nye é mais conhecido por ser “The Science Guy”, mas assim como Carl Sagan e qualquer outro advogado da educação científica e do ceticismo (inclusive nós aqui no AstroPT), também faz política. Não no sentido vago e impreciso que se dá para política hoje, focado exclusivamente na política de Estado e que até se tornou pejorativo, mas política num sentido mais social. Afinal, é preciso justificar por que a ciência é importante no mundo de hoje, e não apenas “forçar” a pessoas a aceitar a ciência.

Bill Nye sabia muito bem disso quando aceitou o debate proposto por Ken Ham. Nos EUA, cerca de 40% das pessoas acreditam no criacionismo. Para um país que inventou a internet e nos deu Carl Sagan, isso é simplesmente vergonhoso. Não por conta da crença em si (cada um pode acreditar no que quiser), mas por que, dentro destes 40%, estão pessoas que se tornarão, ou são, formadoras de opinião. professores, apresentadores de TV, celebridades, políticos… E, no caso dos políticos, são eles que propõem e votam leis que afetam a todos os membros da sociedade. Como já dizia o saudoso humorista George Carlin, os políticos não vêm de uma dimensão paralela e surgem aqui para nos governar. Eles vêm do povo. E as deficiências céticas e científicas do povo certamente vão se refletir nos seus governantes.

O número de evidências para a evolução é absurdamente alto. Não há o que os criacionistas possam fazer a esse respeito. Os criacionistas podem ignorar as provas ou, como Ham fez, questionar os métodos falaciosamente, mas não podem ir diretamente contra a evidência. Justamente por conta disso, seria irrelevante tentar ganhar o debate tentando convencer as pessoas de que a ciência é, de alguma forma, melhor que a religião (eu sei que o debate era evolução X criacionismo, mas vamos ser honestos, no próprio debate fica bem claro que ele é sobre ciência X religião, pelo menos no sentido da religião querer tomar o lugar da ciência). Ia ser o equivalente a dar murros em ponta de faca.

Mas há uma coisa que funciona num debate, e muito bem, algo que é indiscutível. Nossa sociedade atual, desde a revolução industrial, é científica. Todas as nações que avançaram, o fizeram através da inovação e de novas tecnologias, garantidas pelo conhecimento científico. Isso é inegável. Bill Nye sabia que era irrelevante valorizar a ciência, ela já tem seu próprio valor. Por isso preferiu mirar em outro ponto: o desenvolvimento do país.

Assim, o argumento principal de Nye, num debate que era chamado “Criacionismo é um modelo viável para explicar as origens da vida na era científica atual?”, mirou em dois focos:

Os cidadãos americanos, que pagam impostos. E estes impostos têm que reverter em benefícios para eles. Isso só vai acontecer se tiverem cientistas que trabalhem pelo método científico, que foi o que garantiu que os EUA se tornasse a potencia que é (ou foi) em primeiro lugar.

O outro foco foi político, no sentido de política de Estado. Os EUA vivem num momento complicado, e é preciso dar soluções, ou pelo menos propor ideias que possam se tornar soluções para os diversos problemas pelos quais o país está passando. E, na ponta do lápis, quem cria e vota as leis são os políticos. Dentro desta perspectiva, Nye foi bem claro: O que garantiu que os EUA se tornasse uma nação poderosa foi o desenvolvimento científico. Aceitar o criacionismo nas escolas é voltar no tempo, e voltar no tempo é garantir o retrocesso e piorar a situação. Em outras palavras, para sair da crise, é preciso continuar pensando de forma científica. O maior exemplo disso são os graves danos advindos da polêmica sobre as vacinas nos EUA, que trouxe de volta doenças que já tinham sido erradicadas, e que só se tornou o problema grave que se tornou por que formadores de opinião não entendem como a ciência funciona.

Agora eu consigo entender por que Bill Nye resolveu topar este debate, mesmo os cientistas e céticos alegando que era inútil e que debater o criacionismo é justificar sua validade. Longe disso. O debate era a oportunidade de mostrar que, nos EUA, escolher o lado da ciência, é ser patriota. E não tem nada que os americanos se interessem mais do que o seu próprio país.*

Talvez vocês estejam se perguntando: E você acha que Bill Nye foi bem sucedido? Neste quesito, acredito que sim. Obviamente as pessoas não passaram a entender como a ciência funciona, isso não vai acontecer da noite para o dia. Mas podem ter entendido como fazer ciência de forma errada afeta negativamente o país. E é disso que se trata o Criacionismo, fazer “ciência” da forma errada. E, quando Ham respondeu a pergunta sobre o que o faria mudar de ideia com um “sou cristão, então nunca vou mudar”, isso selou o debate. Com exceção dos mais fundamentalistas, ninguém quer ouvir uma pessoa dizendo que nunca vai mudar de opinião, MESMO que sejam apresentadas provas do contrário. É um atestado, ainda que involuntário, de fundamentalismo.

No fim das contas, eu entendo a reação negativa dos cientistas a Bill Nye ter aceitado o debate. E, admito, estava com eles até assisti-lo. Mas, assim como qualquer país precisa de cientistas, também precisa de políticos. Não políticos no sentido de Estado, mas políticos no sentido social, ou seja, pessoas (cientistas ou não) que atuem de forma pública em prol de decisões que afetam todos os membros da sociedade.

Afinal, é bom lembrar que a palavra política vem do Grego (os que inventaram a democracia) e significa “que pertence ao povo”. E o pensamento científico também deveria pertencer.

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*Ok, eu sei que o debate foi transmitido para pessoas do mundo inteiro, tendo mais de um milhão de pessoas assistindo ao vivo, mas Nye é americano, e a crença no criacionismo tem sido um problema grave para o país desde muito tempo.

13 comentários

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  1. Sim Carlos Oliveira.

    Já entendi….preferias viver no paraíso cristão!!

    🙂

    Abraço e cumprimentos.

  2. “Nos EUA, cerca de 40% das pessoas acreditam no criacionismo. Para um país que inventou a internet e nos deu Carl Sagan, isso é simplesmente vergonhoso. Não por conta da crença em si (cada um pode acreditar no que quiser), mas por que, dentro destes 40%, estão pessoas que se tornarão, ou são, formadoras de opinião. professores, apresentadores de TV, celebridades, políticos…”.

    Boa noite e parabéns pelo texto.

    Então se eu for criacionista não posso ser formador de opinião, professor, apresentador de televisão, celebridade ou político??

    Acho este parágrafo muito infeliz. Não se pode colocar de parte um eletrão só porque ele não se encontra no local mais provável!!!

    Quanto ao debate em si, nada de novo. Eu continuo a achar que o conhecimento não vai trazer essa resposta, é simplesmente a forma como cada um nós admira o Seu Universo. Eu prefiro o meu ao do Dawkins. Certamente cada um de nós prefere o seu. Podemos viver todos juntos se faz favor???

    Cumprimentos.

    1. “Então se eu for criacionista não posso ser formador de opinião, professor, apresentador de televisão, celebridade ou político??”

      Não, não devia.
      Infelizmente, até astrólogos são formadores de opinião e apresentadores de televisão…

      Como se percebe, ao contrário do que deveria ser feito, na sociedade em que vivemos, dá-se valor à mentira.

      As burlas, de toda a ordem, deviam ser criminalizadas, e não dar-lhes megafones para essas pessoas enganarem outras pessoas e diminuírem o nível de literacia social.

      abraços

        • Nuno on 28/02/2014 at 20:54

        Carlos Oliveira

        Boa noite.

        Se pensarmos na história recente, já houveram certamente muitos formadores de opinião em que nada contribuíram para a constante evolução do Ser Humano, no entanto, a história derivou no mundo como o conhecemos.

        Isto para dizer que certamente não vivemos num mundo perfeito, mas que também nos dá algum alento na crença (esta palavra tive mesmo que a escrever) que o mundo continuará na sua plena evolução……

        Nesse sentido, para quê forçar uma atitude de recusa da pluralidade?

        Cumprimentos.

      1. Porque o crime não deveria compensar… 😉

        Eu não defenso a pluralidade.

        Eu não acho que deveriam existir violadores, assassinos, etc, só pelo facto deles trazerem pluralidade à humanidade.

        Eu sei que estou a utilizar exemplos extremos, mas é só para fazer notar que a pluralidade não deveria ser defendida quando essa pluralidade é contrária ao desenvolvimento saudável do ser humano 😉

        abraços! 😉

    1. LOLLLLLLLLLLLLLLL 😀

  3. Excelente Complemento ao primeiro Artigo, Parabéns Rafael.

  4. Tive paciência para ouvir todo o debate e digo: não foi nenhuma perda de tempo. Inicialmente quando Ken Ham falava, sentia repulsa, por um lado penso que percebo melhor porquê este fundamentalismo, não que concorde, mas não são o bicho estranho que pareciam. E este orador tinha bastantes qualidades como tal. Mas assim que Bill Nye começou a falar, o caso pareceu-me, a mim, ter mudado completamente de lado, até tal ponto que Ken Ham já não tinha argumentos e só falava do “seu tal livro”. Mas apesar de tudo, Bill Nye ainda se colocou a jeito de levar com alguma contrariedade nalgum jogo de palavras, mas não se deu o caso.

    Esta última pergunta e as respetivas respostas ilustram bem o que foi o debate e a realidade.

    PS: Parabéns pelo texto já agora.

    • Eduardo Rueda on 07/02/2014 at 19:11
    • Responder

    “Nos EUA, cerca de 40% das pessoas acreditam no criacionismo. Para um país que inventou a internet e nos deu Carl Sagan, isso é simplesmente vergonhoso. Não por conta da crença em si (cada um pode acreditar no que quiser), mas por que, dentro destes 40%, estão pessoas que se tornarão, ou são, formadoras de opinião. professores, apresentadores de TV, celebridades, políticos…”.

    Faltou neutralidade aí… Essa parte me decepcionou, porém, muito bom texto.

    1. Obrigado pelo elogio, mas nada nesse texto é neutro. E eu não me propus ser neutro, até por que é bem óbvio de que lado esse blog está.

    2. Mas qual neutralidade?
      É óbvio que é vergonhoso quase metade da população aceitar a mentira, em vez de olharem para as evidências que a natureza nos dá.
      Não é uma questão de neutralidade, mas sim de avaliação. 😉

  5. Muito bom seu texto cara, continue assim!

  1. […] Super-Humanos. Ciência vs. Religião. Páscoa. Crenças improváveis. Criacionismo. Debate entre Bill Nye e Ken […]

  2. […] e por aí vai. Eu fiz duas análises sobre o debate (que você pode ler, se quiser, aqui e aqui) e, embora eu acredito que entenda especificamente os motivos pelos quais Bill Nye aceitou o […]

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