Planeta cor de rosa orbitando uma estrela virgem

Um planeta cor de rosa orbitando uma estrela chamada 59 Virginis já é abusar da boa vontade de qualquer fabricante de piadas.

Antevejo um futuro onde grandes marcas – a japonesa Sanrio, por exemplo – ganhem o direito de batizar exoplanetas a troco de um generoso financiamento a projetos de investigação científica. Se o preço a pagar para pesquisar os céus é ter um planeta fofinho chamado Hello Kitty a 57 anos-luz da Terra, então força nisso, sou completamente a favor.

A estrela é virginis porque faz parte da Constelação de Virgo, Virgem. Há vários tipos e números de virginis. Esta, uma estrela jovem, é a 59 Virginis. Já uma certa estrela anã de cor amarelada situada a 59 anos–luz foi batizada de 70 Virginis. E que terá de especial a 106 Virginis?

O objetivo deste post não é desvendar os mistérios dos catálogos astronómicos e das mentes tortuosas que os criaram.

Fiquem desde já a saber que este planeta cor de rosa – nome de batismo: GJ 504b – só é fofo e querido a 59 anos-luz de distância. A sua temperatura ronda os 237 graus celsius, suficiente para torrar qualquer um.

Representação do planeta GJ 504b | NASA’s Goddard Space Flight Center/S. Wiessinger

Representação do planeta GJ 504b | NASA’s Goddard Space Flight Center/S. Wiessinger

Um bebé mais pesado que Júpiter

A cor não é assim tão peculiar se pensarmos que faz parte de um sistema estelar jovem – a estrela tem 160 milhões de anos, é praticamente um bebé. O planeta ainda mantém grande parte do calor da sua formação, incluindo o brilho infravermelho. Dito por outras palavras: tal como um bebé, mantém as suas faces rosadinhas. Estamos a falar de um bebé de massa jupiteriana quatro vezes mais massivo do que o nosso gigante Júpiter, mas não deixa de ser um bebé.

A existência deste planeta nem sequer é uma novidade: já o conhecemos desde 2011. O que este objeto tem de verdadeiramente especial não é a sua cor, mas a distância a que se encontra da sua estrela: quase nove vezes a distância a que Júpiter se encontra da nossa.

Qualquer cientista que confie no modelo de acreção do núcleo para explicar a formação de planetas rochosos como a Terra sabe que aplicá-lo a Júpiter é uma tarefa mais espinhosa: uma vez que estes planetas são gigantescas bolas de gás, torna-se difícil perceber como foi possível reunir todo esse gás entre o tempo que separa a formação do seu núcleo sólido e o momento atual.

Com este encantador planeta cor de rosa, os cientistas ficam um bocadinho à nora.

gj504b_labels_v2

É verdade, não fazem ideia

Os planetas jupiterianos formam-se a partir de detritos muito ricos em gás que orbitam a jovem estrela. Eventualmente, um núcleo produzido pelas colisões entre asteroides e cometas dá origem a um «caroço» à volta do qual este gigantesco pêssego cósmico irá crescer. Quando o «caroço» ganha suficiente massa, a sua força de gravidade acaba por atrair gás em quantidade suficiente para formar um planeta à séria.

Este modelo funciona bem até a uma distância semelhante à de Neptuno do Sol. No caso do planeta cor de rosa, nove vezes mais afastado do que Júpiter, como explicá-lo?

Resposta: não se explica. Como afirmou Markus Janson, doutorado em Ciências Naturais pela Universidade de Princeton e caçador de planetas, este Júpiter cor de rosa é «um dos planetas mais difíceis de explicar no contexto tradicional da formação planetária».

Consequências? Bem, os cientistas terão de considerar formas alternativas de explicar a formação dos planetas ou reavaliar algumas das premissas do modelo de acreção do núcleo. De uma forma ou de outra, uma trabalheira dos diabos.

Pensando melhor, talvez não seja lá grande ideia chamá-lo de Hello Kitty.

1 comentário

    • Manel Rosa Martins on 18/03/2014 at 13:49
    • Responder

    Pelo paper não estão assim tão “à nora.” 🙂

    Tem propriedades de 3 modelos, 2 segundo o paper (o GI e o CA) e porventura o sub-modelo “jumping-jupiter”, uma evolução do modelo de Nice chamado Nice-2.

    http://arxiv.org/pdf/1307.2886v2.pdf

    Estes modelos têm como base o nosso sistema solar e até neste não há ainda um modelo completo, é natural que se aperfeiçoem à medida que as observações se multipliquem.

    E se andam “à nora” pelo menos estão perto da água. Aqui a “água” será mais a metalicidade do sistema. Os elementos da Tabela que não o H, o He e o Be.

    Descobertas baseiam-se em Teoria, e depois têm o bom costume de a aperfeiçoar.

    Belíisimo post, muito fofo.

    🙂

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