Capitã Janeway é a apresentadora de documentário sobre Geocentrismo

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Existem alguns extremistas religiosos que defendem, em pleno século XXI, que a Terra está no centro do Universo, e que tudo o resto (incluindo o Sol) orbita a Terra.
Já escreveram livros sobre isto e até já realizaram uma conferência, como podem ler aqui.

E perguntam-me vocês:
Mas Carlos, não existem satélites que medem essas coisas? Sim, claro, mas os satélites são mentiras da “ciência oficial”.
Mas Carlos, como eu até tenho um GPS no meu IPhone que tira os dados desses satélites? O GPS é uma mentira da “ciência oficial”.
Mas Carlos, não basta medir a paralaxe das estrelas em relação à Terra num período de 6 meses para perceber que a Terra mudou de sítio? Sim, claro, por isso é que não devem aprender matemática.
Mas Carlos, não basta olhar para as fases de Vénus, como Galileu fez, para provar que Vénus não orbita a Terra? Sim, por isso é que não devem olhar para Vénus.
Mas Carlos, não basta comprar um telescópio e ver os satélites de Júpiter para perceber que nem tudo orbita a Terra? Sim, claro, por isso é que não devem comprar telescópios… isso são objetos do Diabo.

A ideia é: parem de ver por vocês próprios as coisas. Se querem saber o que se passa no céu, se querem por exemplo observar Vénus, não o façam… nunca olhem para o céu… simplesmente, nessas alturas, leiam a Bíblia.

E então perguntam-me: como pode alguém seguir esta imbecilidade?
É simples: esta ideia é promovida por extremistas religiosos nos EUA… que, como é normal, são muito ricos.

Depois de um livro e de uma conferência, fizeram agora um documentário.
O Documentário chama-se O Princípio, e é narrado pela conhecida Kate Mulgrew (Capitã Janeway, da Star Trek Voyager).

O resumo do documentário é:

“Novos dados da astrofísica mostra que a civilização humana está na fronteira de mudar a sua perceção, filosofia, ciência, e metafísica. A física quantica mostra-nos que a grande revolução está para chegar, em que a mente humana é superior à matéria.”

Curioso que não existem quaisquer dados da astrofísica, nem nada tem a ver com física quantica, nem qualquer das pessoas são cientistas que estudam os assuntos (a natureza). Mas, claro, isto é irrelevante para os crentes de que a Bíblia tem todas as respostas, e se na Bíblia diz que a Terra é o centro, esqueça-se tudo o resto.

Mas calma, existem alguns cientistas no documentário. Por exemplo, Michio Kaku, Lawrence Krauss e Max Tegmart, discutem o assunto específico de que a Terra tem melhores condições para a vida que conhecemos do que Marte, Vénus ou outros planetas que conhecemos atualmente e falam também de cosmologia (por exemplo, de algumas notícias que vamos colocando aqui no blog e que são entusiasmantes).
Qual a conclusão dos extremistas religiosos do documentário? “Então assim, a Terra é única e é o centro do Universo”.
“Fantástica” forma de apanharem algumas frases de cientistas, e mudarem o sentido de maneira a que fiquem de acordo com a sua imbecil forma de pensar.
E, claro, pelo meio das entrevistas dos cientistas (aqueles que estudam os assuntos), metem frases de extremistas religiosos, e editam a coisa para parecer que estão todos a dizer o mesmo.

Mas será que as pessoas não entendem que uns são cientistas (estudam os assuntos) e outros nunca estudaram coisa nenhuma?

Cuidado com este documentário chamado The Principle!
Vai ter muita gente a acreditar nele (nos EUA, 25% acredita que a Terra é o centro do Universo).

Mas é um documentário complementamente vigarista – do mesmo género dos documentários What The Bleep do We Know? ou The Thrive. Os métodos para vigarizar as pessoas são exatamente os mesmos. As pessoas são praticamente as mesmas, a base é sempre a mesma (extremismo religioso de leitura literal da Bíblia), editado de forma a parecer muito moderno e contemporâneo, com técnicas de manipulação do que a ciência diz de modo a estarem de acordo com as suas crenças religiosas, e, claro, a “estrela” dos filmes são sempre as interpretações “extraordinárias” que fazem da física quantica (sem nunca terem aprendido física, quanto mais a quantica).

Isto é uma crença religiosa extremista, disfarçada de que até tem bases científicas. Não tem!

Já agora, o grande defensor destas ideias é um tal de senhor que afirma muitas outras coisas: por exemplo, que o Holocausto nunca aconteceu, e que os Judeus conspiram com Satanás para mandarem no mundo.
Claro que isto nada tem a ver com a Terra estar ou não no centro do Universo… mas pronto, é só para se perceber a mente conspiradora do senhor.
Aliás, sobre a NASA ele diz que é um antro de conspirações e mentiras, e ao mesmo tempo é tão credível que ele usa a NASA como o centro das suas informações: segundo ele, ele diz que todas as informações que retirou dos dados da Terra estar no centro do Universo são da Bíblia e do website da NASA. Da Bíblia toda a gente pode ler. Já da NASA, segundo ele, já não se pode ver, porque a NASA retirou essas informações do seu website – assim, só ele viu e ninguém mais agora pode ver.

Enfim… deixo a pergunta recorrente: é possível enviar este tipo de pessoas para Vénus, com bilhete só de ida?

10 comentários

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  1. O documentário não me surpreende e subscrevo o excerto anterior: “é preocupante. Mesmo muito preocupante. Este tipo de programas, produzido por pessoas inteligentes que usam os recursos tecnológicos postos ao seu dispor pela mesma ciência que pretendem falsear, só pode ter um propósito: promover a descrença no conhecimento científico, minar a capacidade de raciocínio lógico e espírito crítico e, em última instância, criar uma sociedade onde a apatia e a imbecilidade abundem.
    Mas e porque estaria alguém interessado em aumentar o número de pessoas apáticas e imbecis? Por muito que gostasse de estar enganado, estou convencido que é porque essas pessoas são mais facilmente manipuláveis por líderes religiosos, que as exploram emocional e financeiramente.” Acrescento; vivemos uma sociedade contemporânea dominada pelos “ mercados” financeiros, políticos, religiosos, desportivos e tantos outros, mas são os financeiros que centralizam e dominam os interesses maiores.
    O produto que mais gera receita é o preferido pelos agentes e gestores que conhecem muito bem os consumidores a que se destinam. Se possível anulam a concorrência da qualidade porque esta é cada vez mais escassa e atrapalha o marketing do mau produto.
    Constato muito pouca boa fé nos protagonistas mais relevantes e influentes da sociedade e com “alguma” hipocrisia deixam passar impunemente semelhantes documentários preferindo diabolizar o conhecimento de descrentes e agnósticos à semelhança do passado.
    O poder ao invés de orgulhar-se de liderar pelo bem a para o bem, orgulha-se da ostentação do mesmo e da sua afirmação perante todos os outros. Muito pouco pessoalmente posso fazer, mas tento não lhes prestar a importância que julgam e reivindicam ter.
    Cumprimentos,
    Rogério

  2. E olha que eles são tão hipócritas que tiveram tremenda cara de pau e coragem de criar um documentário de tantas mentiras para retroceder a humanidade e sem falar que vão usufruindo a tecnologia que nós criamos com conhecimento, Fanatismos Religiosos é uma doença mental que devia ser tratado como uma epidemia.

    • Carlos Eduardo on 08/04/2014 at 14:56
    • Responder

    Um brasileiro que mora nos EUA, idiota e que vê comunistas em tudo que é lugar, conservador e fundamentalista católico, adora dizer que SIM : A Terra é o Centro do Universo

    https://www.youtube.com/watch?v=b6rPR8ep_Nk

    prestem atenção depois dos 13m e 15segundos, ali começa o show de comédia deste astrólogo que se auto-intitula FILOSOFO.

    => Olavo de Carvalho

    • Helena Oliveira on 08/04/2014 at 14:36
    • Responder

    É Um sinal dos tempos!!!!! Tchan tchan tchan
    tenho uma religião cristã, leio a biblia e nunca ouvi tamanha anormalidade. Então daqui a pouco vão dizer que existem bruxas e que é melhor chamar a inquisição. Ora toda a gente sabe que essa coisa foi um tremendo erro humano da igreja católica e eu como católica sou a primeira a abominar essa deprimente façanha histórica.
    Só mesmo nos EUA!!! ali até as galinhas tem dentes, os cães miam e os peixes cacarejam.
    Acho que o mundo deixou de levar aquela gente a sério, sério! Eles são como o pessoal de hollywood que depois de viver uma vida com tudo já não sabem o que inventar para dar nas vistas-
    Eu cá por mim não levo aquele pessoal a sério, gente que se passeia com armas, constroi casas de madeira, enlata todo o que é comida, fazem filmes de tudo e julgam-se donos do mundo não podem ser levados a sério.
    E sim a senhora tem razão, estamos na mudança de mentalidade e filosofia de vida: descobrimos só agora que afinal os parvos sempre viveram na mesma terra e o melhor é transformar os EUA numa Disneylandia gigantesca.

    • José Simões on 08/04/2014 at 12:17
    • Responder

    O centro do sistema solar, aliás do Universo, está no meu umbigo.

    É tudo uma questão de relatividade e não estou a brincar.

  3. Isto é preocupante. Mesmo muito preocupante.

    Este tipo de programas, produzido por pessoas inteligentes que usam os recursos tecnológicos postos ao seu dispor pela mesma ciência que pretendem falsear, só pode ter um propósito: promover a descrença no conhecimento científico, minar a capacidade de raciocínio lógico e espírito crítico e, em última instância, criar uma sociedade onde a apatia e a imbecilidade abundem.

    Mas e porque estaria alguém interessado em aumentar o número de pessoas apáticas e imbecis? Por muito que gostasse de estar enganado, estou convencido que é porque essas pessoas são mais facilmente manipuláveis por líderes religiosos, que as exploram emocional e financeiramente. Da mesma forma que um pastor retira o seu sustento do rebanho que pastoreia, também o líder religioso (frequentemente auto-intitulado pastor) recebe os donativos e contribuições dos seus seguidores.

    Voltando ao documentário… a sua divulgação deve ser permitida? Certamente; trata-se obviamente de uma obra de ficção, com uma roupagem científica cuidadosamente escolhida por forma a parecer não ficção rigorosa. Eu veria o documentário como entretenimento, outros vê-lo-iam como uma representação da realidade. Não penso que deva existir aqui qualquer forma de censura.

    E o Estado pode fazer alguma coisa para proteger os cidadãos? Pode. Não só pode como deve. Não através da censura, mas dotando o cidadão de ferramentas que o ajudem a proteger-se de quem o quer ludibriar e explorar.
    Como? Criando legislação que torne obrigatório o ensino das ciências em todas as escolas quer no ensino público quer no privado; Desenvolvendo conteúdos programáticos que garantam que todo o cidadão receba uma educação que o prepare para reconhecer quando o estão a enganar de uma forma tão óbvia; finalmente, patrocinando um serviço público de televisão que sirva de contraponto a documentários deste género…

    Quanto à ideia bem humorada de mandar aquelas pessoas para Vénus não é assim tão boa como à primeira vista pode parecer. Vénus não fica suficientemente longe 😉

  4. Mas, Carlos, não exitem sites (os amigos portugueses usam o termo “sítio”) de informação científica que podem esclarecer as dúvidas para o público em geral?
    (Não vale citar o Astropt, ok? 🙂 )

    1. Sim, claro, mas esses “são pagos pelo sistema”.

      A mim já me chamaram um “arrogante do saber”, ou seja, eu era um daqueles que por ter conhecimento de um assunto, obviamente não era confiável…

  5. Os cientistas que aparecem no documentario em que as suas frases foram tiradas do contexto não podem processar ou de outra forma impedir que apareçam no documentario? Não há uma lei que os proteja ou que ele possam alegar para ser retirada a sua presença neste tipo de ficção?

    1. Essa realmente é uma excelente pergunta.

      Não faço a mínima ideia da resposta… 🙁

      Sei que em documentários passados, existiram cientistas a serem entrevistados que, nos seus blogs, vieram dizer que quando foram entrevistados foi-lhes dito que era para um outro tipo de programa.
      Mas não sei se a lei americana os protege 🙁

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