Cientistas afirmam que centro da galáxia contém um túnel do tempo? Não!

Buraco Negro supermassivo no centro da Via Láctea. Crédito: X-ray: NASA/UMass/D.Wang et al., IR: NASA/STScI

Buraco Negro supermassivo no centro da Via Láctea. Crédito: X-ray: NASA/UMass/D.Wang et al., IR: NASA/STScI

A notícia mais recente que anda a ser divulgada fortemente pelas redes sociais é que dois cientistas chineses, Zilong Li e Cosimo Bambi, da Universidade Fudan, em Shangai, afirmaram que no centro da nossa Galáxia existe, não um buraco negro supermassivo, mas sim um “buraco de minhoca” que nos permitiria viajar pelo espaço-tempo.
Supostamente, detetaram um pico de energia correspondente a um wormhole e não a um buraco negro.

Quão verídica é esta notícia?

Quando se olha para a fonte, pode-se deitar a notícia ao lixo. A notícia anda a ser divulgada por crianças no Seu History (do qual já falei aqui).

Mas esperem… os investigadores também escreveram um artigo científico, publicaram no Arxiv, e tiveram divulgação no Physics.org

Lendo os artigos, o que me apraz dizer?
Não entendo como se diz que os astrónomos acreditam (believe) que existe um buraco negro no centro da Via Láctea. A ciência não se faz de acreditar. Existem evidências que foram comprovadas por equipas de astrónomos existentes por todo o mundo. Por isso, logo aqui, existe um erro ao divulgarem estas notícias.

Também não entendi a divisão entre buracos negros e buracos de minhoca. Para entrar num buraco de minhoca tem que se passar por um portal, normalmente conhecido como buraco negro. Ou seja, penso que também aqui existe qualquer coisa que não bate certo.

O artigo deles não está avaliado pelos pares. Se não existe avaliação, por que dar crédito?

De resto, o que me parece é que eles entram em buracos de minhoca (que não têm evidências), em cima de certas topologias do Universo (sem evidências), para criar ligações entre diferentes partes do Universo (sem evidências), assumindo a existência de um Multiverso (sem evidências), para retirar uma conclusão sem quaisquer evidências a suportá-la.

Esta é uma hipótese levantada por eles que não passa no filtro da Navalha de Ockham – que deve estar na base de qualquer pensamento racional.

Não sei sequer se considero isto uma hipótese.
Parece-me especulação baseada em especulações, que por sua vez estão assentes noutras especulações.

Desta forma, até se pode escrever um artigo a mostrar que o Pai Natal encontra-se a viver no buraco negro do centro da Galáxia.

A ciência é feita através de um acumular de conhecimento objetivo.
Não é por alguém dizer algo radical que coloca em causa tudo o que se sabe, que devemos deitar fora o que sabemos ou sequer dar ouvidos a alguém que diz algo sem evidências.
Se eu disser que a Gravidade vai deixar de funcionar amanhã, não é devido a isso que devem acreditar em mim. A ciência não se faz de acreditar. Ou eu apresento evidências para isso, ou simplesmente quero “aparecer”. As crenças pessoais não estão acima da realidade do Universo.

No caso desta notícia, não há quaisquer evidências. Existem sim especulações em cima de especulações.

É apelativo poder se encontrar buracos de minhoca e viajar para outros sítios no Universo (como eles se mantém estáveis? Não se sabe).
Mas não há quaisquer evidências deles. Há mais evidências (testemunhos) para o Pai Natal…

Além disso, fico sempre de “pé atrás” quando os buracos negros são tratados como entidades muito misteriosas, que, veja-se bem, agora até podem não existir no centro das galáxias.
Um buraco negro não é um objeto totalmente misterioso. É somente um objeto com massa. Só isso. Nada mais.
Chamar buraco negro ou camisa T, é exatamente igual. Não importa o nome. O que sabemos é que existe ali um objeto com uma determinada massa.
E devido à elevada massa, a gravidade sobrepõe-se a C, dentro deles. Sendo assim, não conseguimos detetar o que existe dentro deles, porque a radiação não chega cá fora para nos dar essa informação.

Devido a isto, tudo o que se “invente” sobre o que se passa lá, é pura especulação.
É exatamente o mesmo que lerem o que se passou na origem do Universo, antes do Tempo de Planck. A Teoria do Big Bang não é sobre isso. E o que quer que leiam sobre esse tempo inicial, é especulação.

Por outro lado, o que define os objetos é a sua massa.
Se sabemos que existe essa massa lá no centro da galáxia, então o que chamamos ao objeto é irrelevante.

Claro que eu, amanhã, posso escrever um artigo em que opino sobre a casa do Pai Natal ficar no centro da Galáxia, e ligo essa ideia à especulação sobre o Multiverso, criando uma história bonita de como o Pai Natal teve a sua origem noutro Universo…
Mas o que conta sempre são as evidências. E que evidências tenho eu? 0.

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Depois de criticar bastante a forma de pensar deste tipo de investigações, deixem-me agora defender os investigadores.

A página pseudo Seu History diz em título: “Cientistas afirmam que nossa galáxia abriga um túnel do tempo, e não um buraco negro, como se supunha”
Mas os cientistas afirmaram isto? Não!
Isto é totalmente mentira! Os cientistas nunca afirmaram nada disto!

Já o Physics.org é muito mais cauteloso, dizendo: “Par de investigadores sugere que os buracos negros no centro das galáxias sejam buracos de minhoca”.

E o que eles dizem no artigo científico?
Apresentam a sua ideia, e afirmam que não é possível saberem se o que dizem é verdade ou não. Têm que esperar pelo GRAVITY.

O GRAVITY é um instrumento que vai ser colocado no Very Large Telescope, e que vai permitir saber com certeza se existe (ou não) um buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea:

“Gravity is a four way beam combination second generation instrument for the VLTI. Its main operation mode makes use of all four 8m Unit Telescopes to measure astrometric distances between objects located within the 2” field-of-view of the VLTI. (…)
GRAVITY will carry out the ultimate empirical test to show whether or not the Galactic Centre harbours a black hole (BH) of four million solar masses and will finally decide if the near-infrared flares from Sgr A* originate from individual hot spots close to the last stable orbit, from statistical fluctuations in the inner accretion zone or from a jet. (…) GRAVITY will also be able to unambiguously detect intermediate mass BHs, if they exist. It will dynamically measure the masses of supermassive BHs (SMBHs) in many active galactic nuclei, and probe the physics of their mass accretion, outflow and jets with unprecedented resolution. (…)”

Ou seja, o que os investigadores dizem é: quando o GRAVITY estiver operacional, poderá não confirmar o buraco negro supermassivo. Sendo assim, vamos desde já pensar em alternativas, mesmo que sejam puras especulações.
Mas eles também afirmam literalmente: nós não podemos saber nada ainda. Temos que esperar pelo GRAVITY.

Comparem o que os investigadores dizem – que foram honestos – com as mentiras que se leem em certos websites que trocam tudo e dizem que os cientistas afirmaram X ou Y.

12 comentários

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  1. Fiquei com uma dúvida. Não se sabe ao certo se buracos negros existem? Com buragos negros me refiro a um corpo super massivo que “suga” até luz. E que história é essa de gerar as estruturas mais luminosas do universo? como isso se a gravidade puxa a luz?

    1. Buracos Negros existem. Tal como existem casas, carros e pessoas.

      Buracos Negros são só “estrelas negras”.

      Quando um satélite cai na Terra, vê-se um rasto luminoso nos céus, certo?
      Quando material cai no buraco negro, vê-se também o efeito desse “almoço”, porque parte da radiação que não caiu no buraco negro dá-nos essa informação.

      abraços

  2. Pobrezinho do buraquinho de minhoca..

    Nas regiões próximas ao horizonte de eventos ocorrem grandes fulgurações de energia cósmica e isso pode ser condições propícias para a ocorrência de fenômenos incríveis!

  3. Com um nome como Cosimo Bambi, até parece que o cientista é inventado.

    De resto, é só o tratamento “habitual” que alguma mídia faz das notícias sobre ciência.

    1. Cosimo Bambi é italiano, mas leciona em Fudan. http://homepages.physik.uni-muenchen.de/~Cosimo.Bambi/pub/cv.pdf

    • José Simões on 12/06/2014 at 12:42
    • Responder

    “Por outro lado, o que define os objetos é a sua massa.
    Se sabemos que existe essa massa lá no centro da galáxia, então o que chamamos ao objeto é irrelevante”

    NÃO

    Essa de os objectos serem definidos pela sua massa é um erro. Bom o termo “definidos” não me soa muito bem, o que é definir um objecto, não encontro nenhuma definição 🙂 do que é isso de definir um objecto.

    De qualquer maneira mesmo os buracos negra, no seu significado mais comummente aceite, são descritos pela sua massa, o meu momento angular e a sua carga eléctrica. O momento angular vectorial (Isso aliás torna os buracos negros dos objectos mais simples de descrever). Como poderiam ser definidos por menos?

    Isto não que dizer que não tenha outras propriedades, como a posição e o momento linear. As anteriores são as que definem o buraco negro per si.

    Essas características são todas importantes e influenciam potencialmente a dinâmica no núcleo galáctico, e em longas escalas de tempo, toda a galáxia, todo o universo, principalmente se estivermos a pensar no núcleo galáctico de todas as galáxias.

    Também existir ou não buracos negros (podiam existir corpos incrivelmente densos, mas não buracos negros, não temos observações que indiquem claramente numa ou noutra direcção) terá influência na dinâmica.

    Não é importante o que lhes chamamos, no sentido em que as palavras são arbitrárias, mas é importante o que são, quais as suas características. O futuro da galáxia seria certamente diferente se existisse alguma coisa como um buraco de verme no centro da galáxia (o que é, de momento, apenas uma especulação, como muitas outras possíveis).

    1. “Por outro lado, o que define os objetos é a sua massa.
      Se sabemos que existe essa massa lá no centro da galáxia, então o que chamamos ao objeto é irrelevante”

      SIM.

      Basta para isso qualquer livro ou aula de introdução à astronomia para compreender o significado da afirmação.

      abraços

      1. SIM, o nome não importa mesmo. Na verdade, o próprio nome “buraco negro” é inadequado.

        O objeto em si não é ‘negro’, mas ‘invisível’, pois curva a luz.

        E mais, paradoxalmente, os buracos negros supermassivos em galáxias ativas geram as estruturas mais luminosas do Universo, os quasares, através da interação com a matéria que o cerca.

  4. Voltamos à mesma conversa ou mais do mesmo.
    Se o universo em que existimos tem 3 dimensões confirmadas e se podemos deslocarmos pelo espaço-tempo em qualquer direção e supondo que o espaço-tempo é continuo e não um labirinto imenso , como é que querem criar um buraco de verme? Por deformação do tecido do espaço-tempo com um campo electro-magnético com características “pseudo”?
    E depois? Para além do tecido do espaço-tempo existe um hyper-volume que comporta o buraco de minhoca?
    Parece que nos aceleradores de partículas ainda não detetaram alguma que tenha emigrado para outra galáxia…
    Esta história dos “buracos de minhoca” é um pouco como as “viagens no tempo”
    Há uns tipos no “Youtube” que reclamam que os EUA tem tecnologia para esses enredos, mas o certo é que continuam a queimar hidrogénio para levar mantimentos, substituir as tripulações para a estação espacial internacional e colocar satélites em órbita.

    1. Criar um buraco de verme não sei como, mas já vi teorias de que o universo seja um pano amassado, e que nós seguimos pelo pano, imagine um “U” por exemplo, para chegarmos de uma ponta a outra seguindo a linha fazemos um caminho comprido, certo? Pois bem, basicamente as teorias de buraco de minhoca sugerem que poderíamos ir de uma ponta a outra ignorando a linha, a letra não foi um bom exemplo, mas imagine que as pontas estejam grudadas, ou quase, assim iríamos viajar pelos buracos de minhoca, em teoria, mas nunca diga nunca, e sempre não diga sempre, como dizem muitos por aí, é ver para crer.

  5. Eu não acredito! Quer dizer que não pode se viajar pelo tempo através de um Buraco Negro?! 😛

  6. Como sempre muito bom! Obrigado Astropt.

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