Inception

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Finalmente, ontem, vi o filme Inception (A Origem).

Dom Cobb é o líder de uma equipa especializada em extrair (roubar) informações do inconsciente dos seus alvos durante o sonho.
No entanto, é contratado para o trabalho oposto: inserir, plantar, uma ideia na mente de uma pessoa, de modo a que esta, na vida real, faça exatamente o oposto daquilo que tinha inicialmente planeado.

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O filme apresenta vários conceitos que me parecem muito interessantes:

– roubar memórias.
– inserir ideias na mente das pessoas.

– um falsificador de documentos na vida real, ser uma pessoa que muda de aparência dentro dos sonhos.
– nunca nos lembramos do início dos sonhos, de como chegamos aos locais.

– sonhos dentro de sonhos.
– no sonho existe mais tempo que na vida real. Por exemplo, 2 minutos na vida real, equivale a cerca de 20 minutos num sonho. Quanto mais profundos forem os níveis de sonho, mais tempo se tem.

– nós construímos os nossos sonhos.
– quando os sonhos são partilhados, existe uma pessoa que é o Arquiteto (faz-me lembrar o Arquiteto dos filmes Matrix) e outra pessoa que inclui as pessoas no sonho.

– nos sonhos podemos nos aperceber que estamos a sonhar se algo é diferente (por exemplo, a carpete ser feita de um material diferente).
– a dor é sentida nos sonhos.
– a morte nos sonhos leva a pessoa a acordar (ou então a ir para um género de limbo se estivermos no sonho de outra pessoa).

– Cobb continua a fazer o que faz, porque o que o faz mover é um sentimento/complexo de culpa pela morte da esposa, pelo facto de ter implantado nela a ideia que o mundo não era real e a ter levado ao suicídio.

– o conceito de inserir ideias nas pessoas parece-me que pode levar a teorias fantasiosas da conspiração. Por exemplo, aposto que alguém se vai lembrar de inventar a fantasia de que Einstein, Copérnico, Aristarco, Newton, Darwin, etc, todos os grandes génios da nossa história, não tiveram as ideias originalmente mas foram-lhe implantadas por seres vindos de outros planetas, outras dimensões ou até do futuro 😛

– no final pareceu-me também interessante o facto da esposa querer que Cobb siga o que sente, aquilo em que ele acredita, e não por aquilo que ele sabe, pelo conhecimento, pela racionalidade. Ele escolhe o conhecimento 🙂

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O filme é excelente. Apesar de ser um pouco complexo e “sairmos do filme” com algumas questões por resolver.

A grande pergunta do filme é:
Qual a diferença entre realidade e sonho?
Como distinguimos entre a realidade e um sonho?
O que é real?

Há algumas coisas que não consegui perceber:
– como é que eles conseguem controlar tão bem os sonhos?
– como é que Fischer não reconhece Saito, o grande inimigo empresarial do seu pai, no avião?
– Cobb plantou a ideia na mulher de que o que ela estava a viver não era a realidade mas sim um sonho. O objetivo era que ela saísse do sonho e viesse para a realidade. Isso aconteceu, mas na realidade a esposa continuou a pensar que estava num sonho. A ideia continuou lá plantada, mesmo quando já estava na realidade. Mas a verdade é que a ideia era do Cobb. Por isso, estava plantada nele também. Por isso, porque é que na realidade, ele não continuou a pensar que era tudo um sonho e não fez como a mulher, suicidando-se?

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À medida que o filme se foi desenrolando, fiquei cada vez mais convencido que a realidade de Cobb era simplesmente um sonho, e que a mulher tinha razão: quem estava no sonho era ele.

No final, fica-se sem saber se a realidade dele é um sonho ou não.

Toda a equipa carrega totens. Totens são objetos que as pessoas têm com elas durante os sonhos de forma a determinar se é um sonho ou não. A própria Amazon vende alguns deles.
Os totens têm que se comportar de forma diferente nos sonhos, de uma forma que a pessoa possa dizer que na realidade aquele objeto não se comporta assim.

O totem de Cobb é um pequeno pião (que originalmente era da mulher).
Quando ele o põe a rodar, se o pião roda infinitamente, então está num sonho; se ele acaba por cair, então está na realidade.

No final do filme, na realidade, ele coloca o pião a rodar.
O pião continua a rodar, entretanto ele vê os filhos, deixa o pião a rodar, e o filme acaba. Ou seja, o final do filme não mostra se o pião caiu ou não, se ele está na realidade ou no sonho.

No entanto, isto é irrelevante.
Porquê?
Por 2 razões:
– o totem até pode ter caído. É irrelevante se caiu ou não. A função do totem é somente avaliar se a pessoa está no sonho de outra pessoa. Se Cobb está dentro do seu sonho, então o totem pode cair.
– as especificidades de cada totem só devem ser conhecidas pela própria pessoa. Para assim a pessoa saber que não está no sonho de outra pessoa. No entanto, no filme, as outras pessoas conhecem as especificidades dos totens de diferentes pessoas. Por exemplo, toda a gente sabe qual é o totem do Cobb e o que faz. Assim, mesmo que o totem caia, isso pode fazer parte do sonho de outra pessoa. Pode ser a forma de o enganar: ele coloca o totem a rodar, o pião cai, e Cobb fica a pensar que está na sua realidade, quando na verdade foi enganado e está no sonho de outra pessoa.

Sendo assim, o totem não serve para nada. O totem ter caído ou ter continuado a rodar no final do filme, é irrelevante.

Existe mais um argumento para concluir que o totem não serve para nada: o totem era originalmente da esposa. Se o totem servisse para alguma coisa, então ela tinha concluído que estava na realidade quando ao colocar o pião a rodar, ele eventualmente caía.
Mas mesmo caindo (assume-se que sim, porque assume-se que a realidade do Cobb era a realidade), ela pensou que estava num sonho. Ou seja, o totem dela não serve para nada.

Durante o filme, para distinguir o que é a realidade daquilo que é um sonho, pareceu-me mais importante perceber as diferenças nos filhos.
No final do filme, os filhos dele aparentemente estão na mesma, estão da forma que ele se lembra. Eles não envelheceram. Ou seja, estamos na presença de memórias, de um sonho, e não da realidade.
No entanto, depois de procurar no Google se mais alguém tinha pensado isto, encontrei uma página que diz que uma das pessoas que trabalhou no filme afirmou que as roupas das crianças no filme eram diferentes.
Vendo novamente as imagens no início e no fim, passei a achar que a filha parece um pouco mais velha no final.

Sendo assim, ele parece realmente ter acordado na realidade.
Ou será que pode estar no sonho de alguém que entretanto já viu os filhos mais velhos e os projetou no seu sonho de forma ao Cobb os ver assim?

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Existe um outro fator que parece indicar que estamos na presença da realidade no final do filme: Cobb na realidade já não usa o anel (é viúvo), mas nos seus sonhos continua casado com a sua esposa e por isso usa o anel.
No final do filme, ele não usa o anel, o que evidencia que estamos na presença da realidade.
Ou seja, o pião é o totem da esposa, mas o totem dele poderá ser o anel.

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Por último, quando eles acordam no avião, tanto Cobb como Saito acordam sobressaltados, a tentar perceber se estão na realidade. Ou seja, sentem-se “estranhos”.
Segundo Cobb, durante o filme, quando estamos a sonhar, sentimos os sonhos como reais, mas sentimo-nos no “meio” deles, sem perceber como chegamos lá, mas também não assumimos isso como importante. Ou seja, estamos lá e basta isso. Só quando acordamos na realidade é que percebemos que algo de estranho se passou antes.
Ora, foi precisamente isto que aconteceu aqui. Eles sentiram-se estranhos ao acordar.

Mas será que, tal como no caso do totem, também o anel e o acordar estranho podem ser explicados de outra forma, de uma forma que explique que eles continuam num sonho (de outra pessoa)?

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A frase mais famosa do filme é: “Uma ideia é como um vírus. Resistente. Altamente contagiosa. A menor semente de uma ideia pode crescer. Pode crescer para definir ou destruir você.”

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Claro que também já existem alguns memes que distinguem as ideias dos vírus:

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A ideia na base do filme, de que podemos estar num sonho e não na realidade, já tem sido defendida filosoficamente por muitos. Porventura, desde a Alegoria da Caverna, de Platão.
E, claro, é aproveitada atualmente pelas crenças New Age, pelas religiões, e pelos pseudos. Na internet, existem inúmeros websites a explicar o filme Inception (feito só pelo sucesso da ciência) de modo a que as pessoas acreditem em “milagres“.

Já eu, vejo no filme a procura da “sanidade”, da racionalidade, da realidade.
A mentalidade do Cobb é sair dos sonhos e fazer o que pode pela realidade. Até se pode manipular os sonhos, mas tendo como objetivo melhorar a realidade. Ou seja, existe sempre uma explicação racional por trás, e sempre baseada no nível da realidade, do “nosso” nível.

Para resumir tudo isto, toda esta complexidade: o que realmente pensei no final do filme foi: tenho que ver este filme de novo. E vi-o hoje novamente 😛

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9 comentários

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    • Fagner Ramos de Castro on 20/02/2015 at 07:26
    • Responder

    Apenas hoje descobri este filme, acabo de assisti-lo e são 04:11 da manhã de uma sexta feira, o motivo que me trouxe aqui foi a curiosidade, de quem sabe encontrar alguém com uma experiência parecida, desde cedo, tive muitos pesadelos, cachorros negros, serpentes enormes, vultos, e pessoas querendo me matar, com o tempo descobri que conseguia perceber quando estava sonhando, e quando isso ocorria, podia controlá-los, isso começou a se tornar algo natural em minhas madrugadas, pesquisando na internet, encontrei um monte de arquivos relacionados com MILD, tentei usar a técnica pra controlar meus sonhos, mas nunca consegui por ela, apenas seguindo meus instintos, hoje consigo, não sempre, mas com uma certa frequência, perceber que estou sonhando, controlar meus sonhos, e principalmente voar, amo fazer isso enquanto durmo, não chego a misturar minha realidade, mas o sentimento é de como se eu tivesse duas realidades, quase uma outra vida. Se alguém aqui passou ou passa por algo semelhante sabe bem do que eu estou falando. o que me chamou atenção, foi o fato das “camadas”, sim, elas existem, provei a segunda camada apenas uma vez, fui morto num sonho, e quando “acordei ainda sonhava”, não imaginam o choque que passei quando vi isso retratado num filme, não é possível que tudo aquilo tenha saído da mente de alguém que não tenha tido a mesma experiência. vejo que os comentários aqui são relativamente antigos, de todo jeito, deixo aqui esse relato, se é que posso chamá-lo assim, caso alguém assim como eu tenha vivido algo parecido, e quiser entrar em contato, adoraria saber como foi a sua experiência, nossa mente vai bem mais do que só isso aqui. espero ter respostas. (fagnerramos@live.com)

  1. Para quem gosta de infográficos:
    http://neomam.com/industry/10-mind-blowing-inception-infographics/

    1. wow 🙂

  2. O Próprio Christopher Nolan, já falou acerca do final do filme (basta pesquisar no Google), e segundo ele (sem explicar nada, pois quer que o filme mantenha a ambiguidade) o que importa no final, é que o próprio Cobb, nem está a olhar para o totem, mas sim para os filhos, não se incomoda sequer a confirmar a realidade/sonho, só os filhos lhe interessam.

  3. Deves estar de férias, são filmes atrás de filmes!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Inception é dos melhores sci-fi dos últimos tempos, e eu até não costumo gostar muito destes ‘jogos’ realidade/sonho (ou viagens no tempo)…

    Agora, sabendo que será uma história diferente, tenho as expectativas bastante altas para o próximo Interstellar do Cris Nolan, e isso nem sempre ajuda!!!

    Abraços

  4. Não, no filme assume-se sempre que o totem dele é o pião. Mas ele também diz que ninguém pode conhecer o totem de outra pessoa; por isso é de prever que ele tenha um totem que mais ninguém conhece…

    Também gostei quase tanto deste filme (até da banda sonora de Hans Zimmer) como do Matrix…

    Estas linhas de Morpheus (Morfeu é o deus grego dos sonhos…) são brilhantes:
    Morpheus: “Have you ever had a dream that you was so sure was real; what if you were unable to wake from that dream. How would you know the difference between the dream world and the real world?”

    Morpheus: What is real? How do you define ‘real’? If you’re talking about what you can feel, what you can smell, what you can taste and see, then ‘real’ is simply electrical signals interpreted by your brain.

  5. O pião realmente era o totem da mulher dele…o dele era o anel 😀

    1. Mas no filme, isso nunca é dito, pois não? 😉

      Ou preciso de ver novamente o filme? 😀

        • João on 20/06/2014 at 15:15

        No filme não diz que o totem dele é o anel.

        Eu antes de ver este filme pesquisei sobre ele para poder ver alguns pormenores que podiam passar ao lado, e um deles era o do anel.

        Reparei que no filme, apesar de ser difícil porque as mãos não aparecem em grande plano, quando estavam supostamente nos sonhos ele usava o anel e quando estava na realidade já não usava. No fim ele não usa o anel, por isso ele parece estar na realidade.

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