Fósseis revelam espantosa biodiversidade de um ecossistema marinho com 2,1 mil milhões de anos

fosseis_Gabao_ElAlbani_et_al_2014Fotografias e respetivas imagens de microtomografia de raios-X de fósseis macroscópicos descobertos nas proximidades de Franceville, no Gabão (escala equivalente a 1 cm).
Crédito: Abderrazak El Albani.

Em 2010, uma equipa de investigadores liderada pelo geólogo marroquino Abderrazak El Albani, da Universidade de Poitiers, em França, anunciou a descoberta dos mais antigos vestígios de vida multicelular em amostras de xisto argiloso recolhidas nas proximidades de Franceville, no sudeste do Gabão. Uma análise detalhada deste achado vem agora revelar uma espantosa biodiversidade, composta por macro e microrganismos de diferentes tamanhos e formas, que evoluíram num ecossistema marinho com cerca de 2,1 mil milhões de anos. Os resultados deste estudo foram publicados na semana passada na revista PLOS ONE.

A descoberta dos depósitos fossilíferos da bacia de Franceville, no Gabão, alterou radicalmente a visão que os cientistas tinham dos primeiros milhares de milhões de anos de história da vida na Terra. Os mais antigos fósseis de organismos multicelulares até então conhecidos (a fauna ediacarana, descoberta na Austrália), datam de há aproximadamente 600 milhões de anos, pelo que os cientistas assumiam que as comunidades biológicas do Período Proterozoico (2500 a 540 milhões de anos) teriam sido constituídas exclusivamente por organismos unicelulares. Os fósseis de Franceville mostram que a multicelularidade terá emergido num período muito anterior.

Depositados a partir de uma coluna de água oxigenada, num ambiente marinho calmo e pouco profundo, os xistos argilosos recolhidos pela equipa de El Albani albergam mais de 400 fósseis em excelente estado de preservação. A maioria estão completamente ou parcialmente piritizados, o que permitiu a conservação das formas originais de grande parte dos organismos representados.

Neste novo estudo, os autores confirmaram a origem orgânica dos fósseis, usando uma sonda iónica para medir a razão dos isótopos 34S e 32S. A sua estrutura interna foi revelada recorrendo a imagens de microtomografia de raios-X. Esta abordagem permitiu não só a descrição de vários novos morfotipos, como também a identificação de indivíduos de diferentes tamanhos.

A análise dos diferentes morfotipos revelou uma série de organismos com texturas radiais e corpos moles gelatinosos. A sua forma poderia ser simples ou lobada, com superfícies uniformes ou nodosas, e corpos densos ou compartimentados. O nível de organização das estruturas estudadas e a variedade de tamanhos dos organismos macroscópicos (com dimensões que atingiam os 17 centímetros) sugere que estas formas de vida detinham formas de crescimento extremamente sofisticadas para a época.

O aparecimento desta comunidade coincidiu com um súbito aumento da concentração de oxigénio na atmosfera terrestre, ocorrido há 2,4 a 2,1 mil milhões de anos. Este dramático acontecimento, conhecido por Grande Evento de Oxigenação (GEO), foi uma consequência da proliferação de comunidades de cianobactérias (organismos fotossintéticos) nos oceanos da Era Paleoproterozoica, e foi caracterizado por um breve período em que o oxigénio atmosférico atingiu valores superiores a 1%. O declínio da biodiversidade da comunidade de Franceville parece estar relacionado com a queda dos níveis de oxigénio na atmosfera observada nos registos geológicos logo após o GEO, o que confirma que o oxigénio foi um fator determinante no aparecimento e evolução dos primeiros organismos multicelulares.

Podem ler mais sobre esta descoberta aqui e aqui.

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