Crise de Ébola provocada por pseudos

Como sabem, o vírus do Ébola tem estado nas notícias, devido à crise que assolou alguns países de África e que ameaça tornar-se uma epidemia a nível mundial.

O vírus nunca foi erradicado, mas foi-se mantendo latente, restringido a pequenos locais, e sem causar alarme.
No entanto, recentemente deu-se uma “explosão do Ébola”, que começou a infetar pessoas em diversos países, e já matou mais de 1.300 pessoas.

Faço aqui uma nota à parte: será que as pessoas, sobretudo as mais hipócritas, têm noção que se não fosse a ciência, teríamos 30 epidemias diferentes em cima de nós, sem quaisquer curas ou vacinas (prevenção) para elas, e por isso a mortalidade infantil seria altíssima e os felizardos que conseguissem chegar à idade adulta teriam uma esperança de vida de 30 anos? Ou como a história lhe chama: viver na Idade das Trevas.

Se têm estado atentos às notícias mais recentes, sabem que o médico americano, doutor Kent Brantly, que estava infetado com o vírus conseguiu sobreviver devido a um tratamento inovador.
Obviamente, o facto da pessoa ter sobrevivido já é, em si, uma vitória.
Mas existe uma outra vitória neste caso que é pouco divulgada: o sucesso dos cientistas em terem imediatamente isolado este paciente. Assim, teve-se a certeza que ele não infetava outras pessoas.
Como percebem, o problema das epidemias não é só a morte das pessoas, mas também o contágio, que faz com que outras pessoas sejam infetadas e possam morrer também.
Ora, neste caso, como em tantos outros, a ciência fez aquilo que é correto para proteger a vida das pessoas.

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Mas porque falei em tudo isto?

Porque se descobriu a pessoa responsável por esta crise epidémica de Ébola.

Como eu disse atrás, o vírus nunca foi erradicado, mas foi-se mantendo latente, restringido a pequenos locais, e sem causar alarme.
Só que desta vez, apareceu uma curandeira da Serra Leoa a alegar que conseguia curar as pessoas, através de poderes mágicos e mezinhas naturais da treta.

Ora, em busca de uma cura, os poucos casos restritos que existiam, alargaram-se, já que pessoas infetadas começaram a viajar, vindas da Guiné para a Serra Leoa para serem “curadas” pela auto-proclamada curandeira. Os infetados ao passarem por diversas aldeias/vilas/cidades foram contaminando outras pessoas.
Ou seja, as alegações pseudo fizeram com que os poucos casos restritos localmente, se tornassem uma epidemia regional.

Note-se que não existem quaisquer evidências de ela ter curado quem quer que seja. Pelo contrário.
O que se sabe é que ela, obviamente, também foi infetada e acabou por morrer.

Mas nem na morte, os crentes pseudos metem férias na sua luta contra a Humanidade.
No seu funeral, existiram vários rituais próprios da região, com muitos contatos entre o cadáver e as pessoas que foram prestar a última homenagem à “santa”. E foram muitas pessoas. Inúmeras mulheres de outras vilas foram lá prestar o seu respeito e ganhar o seu dinheiro: carpideiras profissionais foram contratadas para chorar pela defunta. E acabaram infetadas também. E levaram depois o vírus para as suas vilas, sobretudo através das colinas das chefias tribais Kissi (da Guiné, Serra Leoa e Libéria), iniciando uma reação em cadeia de infeções, mortes, funerais e mais infeções.

Se já existia uma contaminação alargada, o funeral fez com que se “deitasse gasolina a um fogo já ativo”.
Qual foi o resultado disto? A epidemia que temos visto nas notícias

Tendo em conta que existem já mais de 1.000 pessoas mortas, incluindo diversas enfermeiras e médicos (onde realço o doutor Umar Khan, que salvou mais de 100 vidas antes dele próprio sucumbir à infeção), a partir de que número é que passa a ser considerado crimes contra a humanidade, massacres, ou assassínios em massa?

Para o bem da Humanidade, obviamente que estas tretas alternativas baseadas em crenças pessoais vigaristas (contrárias a todas as evidências científicas), têm que ser chamadas à responsabilidade!
Estamos em pleno século XXI e não na Idade Média!!!
As supostas terapias tradicionais e “alternativas” são um perigo para a saúde das pessoas.

Infelizmente, nunca ninguém é preso, porque o mundo vive um clima de irresponsabilidade (até se vê pelas crises financeiras).

Por isso, tudo vai continuar na mesma: os pseudos vão continuar a dizimar a humanidade com supostos “poderes/energias especiais” e crenças “alternativas”… e a ciência vai continuar a ser desvalorizada enquanto salva a vida das pessoas.

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8 comentários

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    • Dinis Ribeiro on 12/10/2014 at 10:37
    • Responder

    Tenho estado a ler alguns artigos ( http://www.newscientist.com/topic/epidemic ) no site da revista New Scientist:

    Ebola deaths to peak in places before vaccine is ready
    http://www.newscientist.com/article/dn26372-ebola-deaths-to-peak-in-places-before-vaccine-is-ready.html#.VDpJpGddV1F

    World wakes up to Ebola as cases set to top 1 million
    http://www.newscientist.com/article/dn26258-world-wakes-up-to-ebola-as-cases-set-to-top-1-million.html#.VDpKGmddV1E

    Why we weren’t ready for Ebola
    http://www.newscientist.com/article/mg22329884.500-why-we-werent-ready-for-ebola.html#.VDpKS2ddV1E

    All countries likely to see Ebola cases by year’s end
    http://www.newscientist.com/article/mg22429903.800-all-countries-likely-to-see-ebola-cases-by-years-end.html#.VDpKsGddV1E

    Blaming Ebola on God’s wrath is worse than you think
    http://www.newscientist.com/article/dn26092-blaming-ebola-on-gods-wrath-is-worse-than-you-think.html#.VDpLQWddV1E

    Ebola’s silver lining: We can clamp down on bushmeat
    http://www.newscientist.com/article/mg22329850.300-ebolas-silver-lining-we-can-clamp-down-on-bushmeat.html#.VDpLCmddV1E

    Sugiro este artigo em particular:

    Ebola could never spread widely here. Could it?
    http://www.newscientist.com/article/dn26354-ebola-could-never-spread-widely-here-could-it.html#.VDpIs2ddV1F

    Saliento esta parte:

    Health systems in many parts of Europe have been hit by austerity measures put in place after the 2007 financial crisis. “In some countries, governments are withdrawing from their responsibility for ensuring the health of their people,” warns Martin McKee of the London School of Hygiene and Tropical Medicine.

    “Ebola, whether in West Africa, Texas or Spain, has reminded us that effective health systems are at least as important for a country’s national security as well-equipped armed forces.”

    McKee and his colleagues report that Spain cut its health budget nearly 14 per cent in 2010, and further last year, with public health expenditure down 45 per cent. Spanish medics complained of poor protective equipment after news of Romero’s infection; the doctor treating her reports that his gown was too small and left skin exposed.

  1. Pormenores interessantes sobre este assunto: http://www.sciencemag.org/content/345/6200/989.full.pdf.

  2. que uma das alternativas pra ter menos imigração da Africa, seria aumentar os indices de Ebola.
    Isto foi em Janeiro.

      • Dinis Ribeiro on 12/10/2014 at 11:01
      • Responder

      Não consegui encontrar nada ainda sobre essa suposta “entrevista”…

      Em qualquer dos casos é um problema que afecta todos os países do mundo…

      Por exemplo:

      Aumenta xenofobia en Italia por el ébola

      Irene Savio / Corresponsal

      Roma, Italia (16 septiembre 2014).- La epidemia del ébola, que está haciendo estragos en África occidental, ha reavivado la retórica de los partidos más racistas de Italia, fomentando el miedo y la intolerancia hacia los extranjeros en un país donde este año ha llegado un número récord de sin papeles.

      Por ello, el Gobierno italiano anunció medidas suplementarias para atajar el virus, entre las que figuran más exámenes médicos a los migrantes que llegan ilegalmente al país desde el norte de África a bordo de barcazas.

      Leer más: http://www.reforma.com/aplicacioneslibre/preacceso/articulo/default.aspx?id=341260&v=2&fuente=md&urlredirect=http://www.reforma.com/aplicaciones/articulo/default.aspx?Id=341260&v=2&Fuente=MD#ixzz3FvJ6Zonn
      Follow us: @reformacom on Twitter

      Também sugiro este link: http://www.swissinfo.ch/eng/swiss-pledge-more-ebola-aid/40796430

      Switzerland has pledged an additional CHF5 million ($5.3 million) to the fight against the Ebola virus in West Africa, bringing its donation total to CHF9 million. Swiss President Didier Burkhalter announced the donation at the United Nations General Assembly in New York.

      The number of infections in the Ebola epidemic in Africa could more than triple by November, to more than 20,000 people, according to predictions in a study published on Tuesday in the New England Journal of Medicine.

      The Geneva-based World Health Organization, which co-authored the study with the Imperial College in London, warned that new infections could increase from hundreds to thousands per week if nothing more is done to help.

      The study’s authors reported that the death rate from the current epidemic in West Africa is much higher than in the past: around 70% of infected people, compared with 50% previously.

  3. Sei é que eu ouvi uma entrevista do presidente da Suiça, falando sobre o aumento da imigração na Europa inteira.
    Escutei ele falando “

    • Rogério Gonçalves on 29/08/2014 at 17:47
    • Responder

    Boa tarde,

    Artigo cinco estrelas. Talvez único na imprensa e no jornalismo. O professor Carlos Oliveira atento aos acontecimentos escolhe o importante e o prioritário na comunicação ao público;
    sem isso o Ébola continuaria a propagar-se pela humanidade sem que a quase totalidade se apercebesse como acontecem as epidemias mais mortíferas e temidas.
    A crença em milagres e os seus mentores, patrocinados ou não por alguma igreja são no meu entender focos ambientais propícios aos comportamentos de natureza epidémica e em particular da patologia mental. É lamentável a impunidade e a negligência que se constata nestas questões e sobretudo em manter a ignorância do grande público.
    O meu obrigado.,
    Rogério

    • Rogério Gonçalves on 29/08/2014 at 17:44
    • Responder

    Boa tarde,

    Artigo cinco estrelas. Talvez único na imprensa e no jornalismo. O professor Carlos Oliveira atento aos acontecimentos escolhe o importante e o prioritário na comunicação ao público;
    sem isso o Ébola continuaria a propagar-se pela humanidade sem que a quase totalidade se apercebesse como acontecem as epidemias mais mortíferas e temidas.
    A crença em milagres e os seus mentores, patrocinados ou não por alguma igreja são no meu entender focos ambientais propícios aos comportamentos de natureza epidémica e em particular da patologia mental. É lamentável a impunidade e a negligência que se constata nestas questões e sobretudo em manter a ignorância do grande público.
    O meu obrigado.,
    Rogério

    • Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernanbdes on 22/08/2014 at 20:44
    • Responder

    Infelizmente é uma triste realidade!!!!

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