Dilúvio de Resultados da Missão Rosetta

A equipa da missão Rosetta publicou hoje os primeiros artigos que apresentam uma análise global dos dados recolhidos pela sonda sobre o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Os resultados estão já a revolucionar a forma como os cientistas veem os cometas. No que se segue tentarei resumir esta informação.

Infografia da ESA resumindo as características físicas do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko deduzidas pela sonda Rosetta. Crédito: ESA/Rosetta.

Infografia da ESA resumindo as características físicas do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko deduzidas pela sonda Rosetta. Crédito: ESA/Rosetta.

A observação do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko com as câmaras da sonda Rosetta permitiu determinar o eixo de rotação do cometa, bem como o seu período de rotação — o “dia” do cometa — em 12.4 horas. O instrumento RSI (Radio Science Investigation), que sondou o núcleo do cometa, permitiu determinar a massa em 10 milhões de milhões de toneladas. Juntamente com o volume de 21.4 km^3, calculado a partir das imagens, foi possível determinar a sua densidade de 0.47 g/cm^3, um pouco maior do que a da cortiça. A porosidade do materia é muito elevada: o gelo, rocha e poeira estão ligados de forma muito frágil, com muitos espaços vazios — poros. O cometa flutuaria facilmente se o pousássemos num lago suficientemente grande. É também um corpo muito escuro, com um albedo de apenas 6% — semelhante ao do asfalto fresco ou do carvão.

O campo gravitacional do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. A gravidade é mais forte nos lobos do cometa, mais débil (6 vezes mais) na região do pescoço. É por aí que o cometa emite a maior parte do gás e poeira para o espaço. Crédito: ESA/Rosetta.

O campo gravitacional do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. A gravidade é mais forte nos lobos do cometa, mais débil (6 vezes mais) na região do pescoço. É por aí que o cometa emite a maior parte do gás e poeira para o espaço. Crédito: ESA/Rosetta.

Uma paisagem no mais pequeno dos dois lobos que formam o cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko, fotografada pela câmara OSIRIS a uma distância de 8 km da superfície, no dia 14 de Outubro de 2014. A resolução é de uns incríveis 15 cm/píxel. Crédito: ESA/Rosetta.

Uma paisagem no mais pequeno dos dois lobos que formam o cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko, fotografada pela câmara OSIRIS a uma distância de 8 km da superfície, no dia 14 de Outubro de 2014. A resolução é de uns incríveis 15 cm/píxel. Crédito: ESA/Rosetta.

Até à data, a câmara de alta resolução OSIRIS (Optical, Spectroscopic, and Infrared Remote Imaging System) mapeou 70% da superfície — há regiões que ainda não foram iluminadas desde que Rosetta entrou em órbita do cometa. Com base nessas imagens, os cientistas da missão identificaram 19 regiões limitadas por geomorfologias distintas, às quais foram atribuídas nomes de divindades do antigo Egipto. Cada região tem um dos cinco tipos de terreno identificados pela equipa: terreno coberto por poeira (Ma’at, Ash e Babi); terreno com gravilha, poços e estruturas circulares (Seth); terreno com grandes depressões (Hatmehit, Nut e Aten); terreno liso (Hapi, Imhotep e Anubis), e terreno com estruturas parecidas com rochas expostas (Maftet, Bastet, Serqet, Hathor, Anuket, Khepry, Aker, Atum e Apis).

As 19 regiões identificadas no cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko. Os nomes são de divindades egípcias, um tema escolhido pela equipa da missão. Crédito: ESA/Rosetta.

As 19 regiões identificadas no cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko. Os nomes são de divindades egípcias, um tema escolhido pela equipa da missão. Crédito: ESA/Rosetta.

A maior parte do hemisfério norte está coberto de poeira. A explicação parece simples: à medida que o cometa aquece, liberta gás o qual arrasta também poeira. A poeira libertada não tem velocidade suficiente para vencer mesmo a micro-gravidade do núcleo cometário e acaba por cair de novo na superfície, acumulando-se ao longo do tempo.

As imagens de alta resolução da OSIRIS permitiram identificar algumas regiões activas que parecem estar na origem de jactos de gás. Um exemplo particularmente dramático consiste num poço identificado na região denominada de Seth, de onde parecem emanar jactos de gás. De resto, a maior parte da actividade de sublimação de gás tem origem na região do “pescoço” do cometa.

Um poço na superfície da região Seth do cometa. A mesma imagem com um contraste mais elevado mostra o que parecem ser jactos de gás emanando do seu interior. Crédito: ESA/Rosetta.

Um poço na superfície da região Seth do cometa. A mesma imagem com um contraste mais elevado mostra o que parecem ser jactos de gás emanando do seu interior. Crédito: ESA/Rosetta.

Os dados recolhidos pelo instrumento MIRO (Microwave Instrument on the Rosetta Orbiter) mostra que a cobertura de poeira do cometa tem vários metros de espessura. Medições da temperatura superficial (-93ºC a -43ºC) e sub-superficial (-243ºC a -113ºC) sugerem que esta camada de poeira actua como um isolador térmico, protegendo os depósitos de gelos existentes no interior do cometa. Esta informação é corroborada pelos dados recolhidos pelo instrumento VIRTIS (Visible, InfraRed and Thermal Imaging Spectrometer) que mostram que a superfície está coberta de poeira, compostos de carbono com ocasionais afloramentos de gelos de materiais voláteis.

As imagens das duas câmaras da Rosetta, a OSIRIS e a NAVCAM, mostram um claro incremento da actividade do cometa desde a chegada da Rosetta. O instrumento MIRO mediu o ritmo de sublimação do gelo de água em 0.3 litros/s em Junho (de 2014); no fim de Agosto, este valor tinha subido já para 1.2 litros/s. Como seria de esperar, a maior parte do vapor de água detectado tinha origem no “pescoço” do cometa.

A câmara de grande campo da OSIRIS capturou esta imagem no dia 22 de Novembro de 2014, quando a Rosetta se encontrava a uma distância de 30km do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. A imagem tem uma resolução de 2.8 m/píxel e mostra detalhes finos nos jactos de gás que emanam do cometa e contribuem para a formação da cabeleira. Crédito: ESA/Rosetta.

A câmara de grande campo da OSIRIS capturou esta imagem no dia 22 de Novembro de 2014, quando a Rosetta se encontrava a uma distância de 30km do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. A imagem tem uma resolução de 2.8 m/píxel e mostra detalhes finos nos jactos de gás que emanam do cometa e contribuem para a formação da cabeleira. Crédito: ESA/Rosetta.

Um resultado surpreendente foi obtido pelo ROSINA (Rosetta Orbiter Spectrometer for Ion and Neutral Analysis) que detectou grande variabilidade na composição da cabeleira. O vapor de água é normalmente a espécie química mais abundante, de longe. No entanto, os dados do ROSINA mostram que, ocasionalmente, os níveis de monóxido e dióxido de carbono rivalizam com os do vapor de água. Poderá haver variações diárias ou mesmo sazonais na emissão das diferentes espécies que provocam estas variações dramáticas na cabeleira do cometa. O vídeo seguinte mostra as concentrações de vapor de água vs. dióxido de carbono emitidas por diferentes regiões do cometa. Algumas regiões, a vermelho, emitem mais dióxido de carbono do que vapor de água. Estas regiões são pouco iluminadas relativamente às emissoras de vapor de água.

Os dados combinados do MIRO, ROSINA e de um outro instrumento, o GIADA (Rosetta’s Grain Impact Analyzer and Dust Accumulator), obtidos entre Julho e Setembro de 2014 permitiram aos cientistas determinar a razão entre a emissão de poeira e a emissão de gás do cometa em cerca de 4. Por outras palavras, a massa emitida pelo cometa sob a forma de poeira é 4 vezes superior à emitida sob a forma de gás. O 67P/Churyumov-Gerasimenko é um cometa poeirento.

Este conjunto de resultados constitui a primeira grande surtida da equipa da missão em termos de publicações científicas. Os artigos foram publicados hoje (23 de Janeiro), num número especial da revista Science.

(Fonte: Rosetta/ESA)

2 comentários

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    • Samuel Junior on 26/01/2015 at 20:38
    • Responder

    Este ano vai ser um ano muito interessante para a astronomia. Sonda New Horizons a caminho de Plutão com as primeiras imagens de alta qualidade do mesmo, Ceres em março com suas primeiras imagens, Rosetta apenas começando a explorar e enviar os dados, acho que tem outras, mas são as que eu lembro no momento. 🙂

  1. Muito legal

    Segundo os dados informados a classificação deste astro na CUA é : “Gi’

    A título de comparação, a Terra é “Me” e a Lua é “Lu”

    Mais detalhes sobre a CUA aqui => http://forum.intonses.com.br/viewtopic.php?f=77&t=287247

  1. […] Os detalhes desta observação foram incluídos na primeira série de artigos científicos com a análise global dos dados recolhidos pela sonda Rosetta nos primeiros meses da sua missão na órbita do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Podem ler mais sobre estes resultados aqui. […]

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