Dados da NASA ajudam a verificar suprimento de água terrestre – e a situação é bem ruim

depletion

Sim, o planeta Terra é composto em 75% por água em sua superfície. Mas não é água que dá para a gente beber. A água que bebemos vem, na verdade, de aquíferos, bacias de água doce subterrâneas espalhadas pelo mundo. Mas essa reserva é limitada, e muito menor do que a quantidade de água salgada dos oceanos. E, de acordo com novos dados, estamos drenando muito dos aquíferos, sem fazer ideia do quanto ainda temos para usar.

Usando dados do GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment, missão da NASA em parceria com o Centro Aeroespacial Alemão para medir, monitorar e avaliar o campo gravitaconal da Terra e sua variabilidade), um estudo publicado na Water Resources Research foi capaz de ter medições mais precisas dos aquíferos terrestres. E as notícias não são nem um pouco animadoras.

A missão Grace funciona verificando as variações do campo gravitacional ao longo do planeta, que estão diretamente ligadas ao peso da água. Quanto mais água concentrada numa área, maior é a gravidade naquela área. Assim, analisando os dados da missão da NASA, é possível ter uma ideia precisa da quantidade de água nos aquíferos e comparar quanto foi usado dessa água no decorrer dos anos.

Neste estudo, o primeiro a caracterizar as perdas da água subterrânea a partir de dados espaciais, foram examinados os 37 maiores aquíferos entre 2003 e 2013. Os 8 piores foram classificados como superproblemáticos, com quase nenhum tipo de reabastecimento natural para compensar o uso; outros 5 foram definidos, em ordem decrescente, como extremamente ou altamente problemáticos, dependendo do nível de reabastecimento natural em cada um – ainda muito problemáticos, mas com algum tipo de fluxo de água retornando para eles.

Os mais sobrecarregados estão nas áreas mais secas, claro, que necessitam de mais água subterrânea. Alexandra Richey, que conduziu a pesquisa como estudante de doutorado, contextualiza: “O que acontece quando um aquífero altamente sobrecarregado está localizado numa região com tensões políticas ou socioeconômicas que não podem suprir a demanda de água rápido o bastante? Estamos tentando levantar o alerta vermelho agora para apontar onde um gerenciamento ativo pode proteger vidas e meios de subsistência futuros.” O aquífero mais problemático do planeta, nesse sentido, é o sistema Árabe, uma importante fonte de água para mais de 60 milhões de pessoas. Em seguida, temos a bacia Indo, no nordeste da Índia e Paquistão e a bacia Murzuk-Djado, no norte da áfrica.

No entanto, talvez o maior problema tenha sido apontado por um estudo complementar, publicado no mesmo periódico, onde os pesquisadores concluem que o volume total remanescente de água subterrânea viável é pobremente conhecido, com estimativas que variam amplamente – e é provável que esteja bem menor do que as estimativas rudimentares de décadas atrás.

“Na verdade não sabemos exatamente quanto está armazenado em cada um desses aquíferos. Estimativas da quantidade restante pode variar de décadas a milênios”, explica Richey. “Numa sociedade escassa de água, não podemos mais tolerar esse nível de incerteza, especialmente considerando que a água subterrânea está desaparecendo tão rápido.”

O estudo ainda aponta que a escassez de água subterrânea já está levando a danos ecológicos significativos, incluindo rios empobrecidos, queda na qualidade da água e erosão do solo.

Aquíferos subterrâneos normalmente são localizados em camadas profundas de rocha abaixo da superfície da água. A profundidade e dureza de muitas tornam difícil e custoso perfurar ou atingir as rochas.

O processo de dessalinização da água é frequentemente citado como solução para a escassez. Esse processo já ocorre ao redor do mundo aqui e ali, mas o que acontece é que ele não é financeiramente viável – ainda – para ser utilizado em larga escala.

 

Fonte(s):
American Geophysical Union – Joint Release.
Richey, Alexandra S.; Thomas, Brian F.; Lo, Min-Hui; Reager, John T.; Famiglietti, James S.; Voss, Katalyn; Swenson, Sean; Rodell, Matthew. Quantifying renewable groundwater stress with GRACE. Water Resources Research.
Richey, Alexandra S.; Thomas, Brian F.; Lo, Min-Hui; Famiglietti, James S.; Swenson, Sean; Rodell, Matthew. Uncertainty in global groundwater storage estimates in a total groundwater stress framework. Water Resources Research.

7 comentários

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    • Dinis Ribeiro on 23/06/2015 at 02:02
    • Responder

    Sugestão:

    http://www.edwardsaquifer.net/index.html

    The Edwards Aquifer is a unique groundwater system and one of the most prolific artesian aquifers in the world.

    It is one of the greatest natural resources on Earth, serving the diverse agricultural, industrial, recreational, and domestic needs of almost two million users in south central Texas.

    Within this region and poised on the edge of the vast Chihuahuan desert lies San Antonio, America’s 7th largest city.

    The city has a semi-arid climate, and water from the Edwards is the reason that 18th century Spanish missionaries were able to establish footholds like the Alamo here on the New World frontier.

    For over two centuries, San Antonio and many other cities in the surrounding region were able to grow and prosper without developing surface water or other water resources because of the Edwards Aquifer.

    In recent decades, demand for water in the region has increased well beyond the Aquifer’s capacity to provide, and there are increasing concerns about the welfare of endangered species and regional economies that depend on springflows from the Aquifer.

    For these reasons, waters users of the region are facing tough decisions about who owns, controls, and uses Aquifer water.

    https://en.wikipedia.org/wiki/Barton_Springs#Main_Barton_Spring

    https://en.wikipedia.org/wiki/Barton_Springs_salamander

    https://en.wikipedia.org/wiki/Barton_Springs_Pool

    Mais informação:
    http://www.edwardsaquifer.net/barton.html

    In 2008, the fight to preserve Barton Springs was the subject of The Unforseen, a documentary co-produced by Robert Redford, who learned to swim there as a child.

    The movie uses the struggle over development in the Barton Creek watershed to illustrate the many clashes between private property rights and resource protection that are occurring across the country.

    The film drew great reviews, but some developers said it went too far and portays them unfairly. Environmentalists said the movie is not hard enough on those who would develop lands at the expense of common resources like Barton Springs.

    The Unforeseen (2007) 88 min | Documentary
    http://www.imdb.com/title/tt0912596/?ref_=ttmd_md_nm
    A documentary about the development around Barton Springs in Austin, Texas, and the environment’s unexpected response to human interference.

    1. Valeu pelas dicas, Dinis, vou dar uma boa olhada com calma nos links e no documentário que você mencionou.

      Abraços!

    • Rogério Gonçalves on 23/06/2015 at 00:54
    • Responder

    Caro Rafael Rodrigues,
    Agradeço algum esclarecimento se possível. Não sou estudioso da questão, muito menos perito. Mas sempre senti confusão e frustração em não compreender a preocupação quanto à escassez da água para consumo no nosso planeta. Tenho a noção desde a aprendizagem nos cursos secundários que o ciclo da água na terra provém primeiro da evaporação da superfície dos oceanos, deixando para traz a salinidade, condensa-se formando as nuvens e as chuvas que alimentam os rios e os solos sendo extraída uma parte para o consumo regressando aos oceanos toda a restante. A menos que neste ciclo as quantidades sejam insuficientes para o consumo seria uma evidente preocupação crescente. Estarei a avaliar mal a questão? Qual o dado que não estou a considerar?
    O meu obrigado com sinceros cumprimentos de amizade.

    1. Sim, Rogério, com relação à renovação de água, o problema ocorre quando começamos a drenar água dos aquíferos numa velocidade maior do que a velocidade que essa água é reposta por meios naturais (como as chuvas, por exemplo). Aí, o aquífero começa a não ter a capacidade de se renovar numa taxa saudável. A matemática aqui é simples: como os aquíferos são reservas finitas, se continuarmos tirando água mais rápido do que a natureza a repõe, é apenas uma questão de tempo para a reserva secar.

      Para agravar a situação, nós não sabemos quanta água tem nos aquíferos. Segundo o estudo, os dados que temos são baseados em estimativas muito defasadas e, portanto, não são confiáveis.

      Então, além de estarmos gastando mais água do que a natureza é capaz de renovar, pra piorar, não sabemos quanto ainda tem. Ou seja, na prática, a gente pode a qualquer momento ser surpreendido ao perceber que, “do nada”, acabou a água de algum aquífero.

      Pelo menos é essa a conclusão a que se chega a partir do estudo em questão.

      Valeu pelo comentário, espero ter ajudado.

      Abraços!

        • Rogério Gonçalves on 23/06/2015 at 13:31

        Sim, fiquei esclarecido quanto à minha frustração desse tema.
        Obrigado, abraços.

    • Jose Simoes on 22/06/2015 at 08:39
    • Responder

    “o planeta Terra é composto em 75% por água” ?

    Cuidado com a língua.

    cerca de 75% da SUPERFÍCIE da Terra (globo) é coberta com água.

    1. Presumi que ficasse subentendido. Ao que parece, me enganei 😎

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