Novas evidências de um oceano global em Encélado

Encelado_cor_natural_NAC_ISS_Cassini_080915A lua Encélado vista pela sonda Cassini, a 08 de setembro de 2015.
Crédito: NASA/JPL/SSI/Sérgio Paulino.

Encélado poderá ter, afinal, um oceano interior de água líquida muito mais extenso do que se pensava. Um novo estudo baseado em imagens captadas pela sonda Cassini mostra que esta lua de Saturno possui uma libração longitudinal demasiado elevada para o que seria de esperar de um objeto com uma crusta gelada diretamente soldada ao núcleo rochoso no seu interior. Este resultado sugere que a massa de água que alimenta os géiseres observados nas proximidades do polo sul de Encélado não se encontra confinada a essa região, mas estende-se ao longo de toda a lua, por baixo da camada superficial de gelo. O trabalho foi apresentado num artigo publicado na passada sexta-feira na revista Icarus.

“Este foi um problema difícil que exigiu anos de observação e cálculos envolvendo um conjunto diverso de disciplinas, mas estamos confiantes de que resolvemos finalmente esta questão”, afirmou Peter Thomas, investigador da equipa de imagem da missão e primeiro autor do artigo.

Durante a última década, a Cassini esteve ocupada a estudar em detalhe o sistema saturniano, fornecendo aos cientistas dados e imagens sem precedentes de Saturno e de muitas das suas luas. Antes da chegada da sonda da NASA, Encélado era visto como um pequeno mundo inativo, composto essencialmente por uma mistura de rocha e gelo. No entanto, esta conceção viria a mudar em 2005, quando a Cassini observou pela primeira vez um conjunto de majestosos géiseres erguendo-se a grande altitude sobre 4 proeminentes fraturas nas proximidades do polo sul da lua.

Trabalhos posteriores demonstraram que esta atividade só poderia ser explicada pela presença de um reservatório de água líquida escondido por debaixo da crusta gelada. Os dados reunidos pela Cassini revelavam-se, no entanto, insuficientes para que os cientistas determinassem quais as verdadeiras dimensões deste reservatório, pelo que o debate manteve-se aceso… até agora.

esq_oceano_global_Encelado_set2015Representação artística da estrutura interna de Encélado, com um oceano global separando o núcleo rochoso da crusta gelada.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/SSI.

Neste novo estudo, os investigadores analisaram milhares de imagens captadas pela Cassini ao longo de mais de 7 anos, com o objetivo de detetarem a presença de pequenas variações na rotação de Encélado. Usando como pontos guia diversas estruturas na superfície da lua (crateras, na sua maioria), a equipa descobriu que Encélado sofre uma pequena mas mensurável libração longitudinal ao longo da sua órbita em redor de Saturno. Depois de testarem diferentes modelos para determinar a fonte desta oscilação, os investigadores concluíram que a única explicação possível seria a presença de um oceano global separando a crusta gelada do núcleo rochoso.

“Se a superfície e o núcleo estivessem rigidamente conectados, o núcleo iria produzir tanto peso morto que a oscilação seria consideravelmente menor do que aquela que observamos”, disse Matthew Tiscareno, investigador participante da missão e um dos coautores deste trabalho. “Isto prova que deve haver uma camada global de líquido a separar a superfície do núcleo.”

Os cientistas desconhecem ainda qual será o mecanismo que impede o oceano de congelar. Uma das possibilidades é a de que a força de maré gerada por Saturno possa estar a criar muito mais calor no interior de Encélado do que os modelos à partida prevêem. No dia 28 de outubro, a Cassini tem agendada uma última passagem através dos géiseres da região do polo sul, pelo que esta será uma derradeira oportunidade para os cientistas da missão recolherem dados preciosos acerca dos processos geológicos que ocorrem no interior da lua.

Podem ler mais sobre este trabalho aqui.

2 comentários

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  1. Saudações, grato pelas novidades, tenho acompanhado entusiasticamente o site da Nasa com esta nova era da exploração. Por acaso tenho andado com a “pulga atrás da orelha” sobre aspectos biológicos ou quiçá genéticos. Explico, sabemos de base dentro do nosso conhecimento que a vida existe mesmo em ambientes extremos, mas a base da vida que conhecemos depende de água (em muita ou em ínfimas quantidades, mas precisa.). Supondo que há mesmo água liquida em Encélado, (Os geysers, provocado pela força gravíticas de Saturno). Seria essa vida nociva para os seres na Terra, à nível bacteriológico teoricamente sim, digo eu. Estranho não haver muita abordagem para o tema.
    Não deixa só por si a descoberta uma épica jornada, mas fico a pensar como lidaríamos com isso, Encélado poderia ser um “próximo” destino de um robô. Gostaria muito de ver e tirar essa dúvida eterna sobre a vida alienígena.

    1. Não estando nós habituados às bactérias de potenciais seres extraterrestres e eles não habituados às nossas, há problemas certamente.
      Há 500 anos, isso matou mais gente no “novo continente” que espadas 😉

  1. […] Como sabem, existem novas evidências de um oceano global interno na lua de Saturno, Encélado. Leiam aqui. […]

  2. […] passado, após uma década de contínuas observações, os cientistas anunciaram, finalmente, a descoberta de fortes evidências da presença de um oceano global de água líquida escondido debaixo da crusta gelada de Encélado, firmando a posição deste […]

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