Sai um extraterrestre para a mesa 4, se faz favor!

Por que raio a quase totalidade da imprensa e dos sítios na net anda a falar em extraterrestres?

Os artigos científicos da imprensa generalista não deviam ser de acesso gratuito, mas protegidos por uma paywall. Se há pessoas dispostas a comprar bilhetes para ver extraterrestres nos filmes, os leitores também deviam pagar para os ver em notícias científicas.

Considerem, por exemplo, o mistério da estrela KIC 8462852 e as inúmeras manchetes sobre extraterrestres e «megaestruturas alienígenas» a que deu origem.

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Que mistério é esse?

Uma equipa de «caçadores de planetas» liderada por uma astrónoma da Universidade de Yale, Tabetha Boyajian, descobriu umas bizarras mudanças de flutuação na luz de uma estrela de classe F3, localizada a 1480 anos-luz da Terra, maior, mais quente e luminosa que o nosso Sol.

Boyajian e os colegas ficaram intrigados com os dados do telescópio Kepler e não foram capazes de determinar o que raio estava a acontecer.

A medição da variação na luz de estrelas distantes durante longos períodos de tempo é um dos métodos usados para inferir a existência de exoplanetas. Chama-se método de trânsito porque deteta a sombra de um planeta quando este passa – ou transita – diante da estrela hospedeira.

Um observatório espacial como o Kepler está projetado para detetar as sombras desses planetas e foi precisamente o Kepler que durante quatro anos observou a estrela e recolheu os dados que agora intrigam os cientistas.

A equipa identificou uma série de trânsitos, o que normalmente indica a presença de um planeta. Mas havia mais: a estrela perdia um quinto da sua luminosidade durante significativos períodos de tempo e a duração do fenómeno nunca era igual: às vezes ficava assim durante alguns dias, outras durante meses.

A irregularidade dos trânsitos e a intensidade dos eclipses excluíram de imediato a possibilidade de ser um planeta a «tapar a vista» ao telescópio: nem um objeto gigantesco como Júpiter poderia obscurecer até 22 por cento do brilho de uma estrela. No máximo, retirar-lhe-ia um por cento da luminosidade.

Planetas formam-se a partir de um disco de poeiras e detritos orbitando à volta de uma estrela. | Gemini Observatory/ Ilustração: Lynette Cook

Planetas formam-se a partir de um disco de poeiras e detritos orbitando à volta de uma estrela. | Gemini Observatory/ Ilustração: Lynette Cook

O Kepler já rastreou mais de 150 mil estrelas e nunca tinha observado um comportamento destes até estudar a KIC 8462852. Depois de afastar hipóteses como perturbações na estrela ou no próprio telescópio, a equipa pensou que havia ali um disco de poeira e detritos em redor da estrela. Os planetas formam-se a partir destes discos, portanto não seria nada de extraordinário.

Talvez até tivesse acontecido uma colisão catastrófica semelhante à que deu origem ao sistema Terra-Lua, quando um protoplaneta do tipo Marte colidiu com o nosso.

Havia um senão: discos de poeira capazes de causar eclipses destes aqueceriam e brilhariam intensamente no infravermelho. Onde estavam os sinais desse tipo de emissões à volta daquela estrela? Em lado nenhum.

O que tapou a luz da estrela, então? Uma gigantesca frota de naves espaciais extraterrestres?

A equipa de Tabetha Boyajian considerou várias hipóteses – nenhuma delas implicando inteligência extraterrestre – e concluiu que a mais provável era a existência de um grupo fragmentado de cometas à volta da estrela. Isto explicaria a ausência de infravermelhos, a separação dos detritos ao longo de um enorme volume de espaço e a aleatoriedade no trânsito dos objetos.

A equipa também considerou que a presença dos cometas se pudesse dever à interação gravitacional com outra estrela – existe, de facto, uma anã vermelha a 130 mil milhões de quilómetros da KIC 8462852, suficiente próxima para perturbar uma nuvem de «tralha» cósmica.

São hipóteses, mas é preciso muito trabalho até que se transformem em conhecimento efetivo. Um grupo fragmentado de cometas é a melhor possibilidade que temos até agora: dos 100 astrónomos que deram uma vista de olhos aos dados do Kepler nenhum conseguiu apresentar uma solução melhor e, muito menos, definitiva.

Então e os ET?

Se esta é a notícia, por que razão a quase totalidade da imprensa e dos sítios na net anda a falar em extraterrestres?

Por causa de um astrónomo chamado Jason Wright. Sabendo que a natureza deste mistério iria interessar ao colega ligado ao projeto SETI – Search for Extraterrestrial Intelligence –, Tabetha Boyajian enviou-lhe os dados.

Wright, como é óbvio, ficou «fascinado» e apressou-se a trabalhar em uma hipótese alternativa: o padrão de luz é consistente com enxame de megaestruturas, especulou ele, talvez fossem gigantescos coletores de luz solar.

Dizer que «é consistente» não é o mesmo dizer que «é». Significa que, do ponto de vista científico, vale a pena dar uma vista de olhos e investigar melhor. Se um cientista a morrer de sede desconhecesse a miragem no deserto como um fenómeno de ilusão ótica, também poderia ter afirmado que a visão daquele acolhedor lençol de água lá ao fundo «era consistente» com a presença de um lago.

E todos sabemos como a história acabaria: com um cientista sedento a amaldiçoar a porra da Física.

Entrevistado para o (excelente) artigo do «The Atlantic» sobre o mistério, Wright fez questão de ressalvar: «a hipótese extraterrestre deve ser sempre a última a considerar, mas isto pode ser o tipo de coisa que esperaríamos que os alienígenas construíssem». Tencionava, por isso, angariar tempo de telescópio para detetar emissões de ondas de rádio associadas a atividade tecnológica.

São tempos excitantes para quem gosta de Astronomia, mas a investigação não justifica manchetes manhosas como as que temos visto, até porque há décadas que o SETI anda à procura de sinais de uma civilização tecnológica alienígena. Tendo em conta que Wright está envolvido naquele projeto de busca por inteligência extraterrestre, que esperavam as pessoas que o homem investigasse, cometas?

«Type 2», de Equiliari

«Type 2», de Equiliari

Se o próprio Wright é o primeiro a dizer que a possibilidade extraterrestre deve estar sempre no fim de uma longa lista de hipóteses, por que razão se dá ao trabalho de investigar a fundo os sinais que nos chegam da misteriosa estrela? Porque, embora pouco plausível, a hipótese extraterrestre é a que oferece a maior recompensa científica. Se Wright conseguisse provar a existência de uma «megaestrutura alienígena», poderia logo a seguir começar a escrever o discurso de aceitação do prémio Nobel.

Isto para não dizer que mudaria o mundo para sempre.

A pulga atrás da orelha que diz: «olha a história a repetir-se»

Como esta hipotética estrutura alienígena é uma máquina para extrair a luz solar, Wright vai procurar indícios da presença de uma civilização do tipo II, segundo a Escala de Kardashev.

Que escala é essa? Nikolai Semenovich Kardashev, astrofísico russo, propôs em 1964 um método para medir o grau de desenvolvimento tecnológico de uma civilização – daí o nome, Escala de Kardashev.

Segundo esta escala, podem existir três tipos: uma civilização de Tipo I (capaz de aproveitar toda a energia potencial de um planeta, mais ou menos como a nossa), Tipo II (capaz de explorar toda a energia potencial de uma estrela) e Tipo III (a mais avançada, capaz de aproveitar a energia potencial de uma galáxia).

Ora, três anos depois de inventar esta escala, Kardashev também se convenceu de que tinha encontrado um fenómeno «consistente» com a atividade de uma civilização extraterrestre avançada.

Em 1967, a astrofísica Jocelyn Bell Burnell (então estudante de graduação) descobriu uma fonte de rádio extremamente potente e regular que não podia ser atribuída a nenhum tipo de deturpação de ruído.

Kardashev sugeriu então que o sinal vinha de uma civilização extraterrestre milhares de milhões de anos mais avançada que a nossa. Os alienígenas, disse, comunicavam através de uma espécie de farol galáctico. Entusiasmado e com sentido de humor, batizou a observação astronómica de Burnell com a sigla LGM-1 («Little Green Man», alusão aos alienígenas da ficção científica).

Surpresa! Kardashev estava enganado. Jocelyn Bell Burnell não descobrira homenzinhos verdes, mas a radiação emitida por uma estrela de neutrões incrivelmente densa e pequena cuja existência até então desconhecíamos: uma estrela do tipo pulsar, assim batizada devido ao facto de a sua radiação nos chegar numa série regular de pulsações eletromagnéticas.

Este artigo da TSF devia ser pago a peso de ouro, pois ensina-nos que a KIC 8462852 é «uma estrela do nosso Sistema Solar»

Este artigo da TSF devia ser pago a peso de ouro, pois ensina-nos que a KIC 8462852 é «uma estrela do nosso Sistema Solar»

Numa Internet onde aceder ao conhecimento é ainda livre e gratuito, o sensacionalismo e ignorância deviam ser acessíveis apenas aos privilegiados que estivessem dispostos a pagar. Que sejam um exclusivo para a malta que pensa que a história do filme «Perdido em Marte» é baseada em factos verídicos.

Se o «astrobotânico» Matt Damon foi capaz de plantar batatas no planeta vermelho usando dejetos humanos como fertilizador (se alguns políticos fossem vegetais também podiam crescer assim), então por que razão não se haveria de plantar extraterrestres usando o clickbait como fertilizador?

Há que dar valor aos fazedores de manchetes. Não é fácil desconsiderar as hipóteses mais plausíveis que foram avançadas – todas apontando para a origem natural do fenómeno – e escolher para título precisamente a única que não foi mencionada no trabalho original da equipa de cientistas. É um notável trabalho de calhalogia, um método de clickbaiting que consiste em escrever como calha mas nunca tirar conclusões ao calhas. Chico-espertos.

6 comentários

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    • mr_shankly on 22/10/2015 at 09:23
    • Responder

    Concordo que a imprensa exagera, ou extrai apenas as possibilidades mais sumarentas. Se o faz por ignorância ou para atrair leitores, não sei. Mas desconfio que, se parar de fazer, não vai acabar nem diminuir a estupidez no mundo. Vai continuar a haver gente estúpida que acha que já fomos a Marte, ao mesmo tempo que há gente que acha que nem à Lua fomos. Em 7 mil milhões, é normal que haja de tudo, e só a estupidez merecia uma vida de estudo.

    No entanto, a imprensa atrai o interesse de todos, atrai financiamento, etc.

    Acho que, no fim de contas, e mesmo com os sensacionalismos e incorrecções, a imprensa faz mais bem do que mal à ciência. Mas claro, esta é uma hipótese que não posso provar.

    • graciete virgínia rietsch monteiro fernandes on 22/10/2015 at 18:01
    • Responder

    Como eu gostava de recuperar tudo o que perdi com minha queda para poder fazer uma síntese de todas os conhecimentos que encontro em AstroPt e conseguir assim fazer face a toda a pseudociência com que me deparo todos os dias!!!!
    OBRIGADA ASTRO PT. peço desculpa dos possíveis erros na escrita das siglas.

    1. Graciete, que se passou consigo que deixou de comentar?

      Sofreu uma queda? 🙁

      Já está melhor?

      Desejamos-lhe as mais rápidas melhoras!

      abraços

  1. O problema é a ausência da ciência, ou de sua participação séria e formal, nos estudos do fenômeno dos extraterrestres e ovnis. Como a academia e os cientistas tratam o assunto com desdém, ele fica aberto para as especulações e o sensacionalismo. A ciência, com sua arrogante postura não foi capaz, até hoje, de explicar as ruínas de Puma Punku, a pirâmide do Sol, na Bósnia ou sequer tratou de estudar os crânios alongados descobertos em todo o mundo, (entre centenas de outros), simplesmente, em minha opinião, por medo. Medo de serem obrigados a engolir sua arrogância e serem obrigados a reescrever a história.
    A “ciência” já se viu na posição de ter que rever seus conceitos (geocentrismo e etc.) e terá que fazê-lo novamente, muito em breve, tanto no ponto de vista histórico quanto científico.

    1. Anda confuso…

      Esta história nada tem a ver com OVNIs.
      E esse fenómeno está bem estudado, incluindo por cientistas.
      Se as pessoas não aceitam as conclusões, isso é problema delas (das suas crenças), não dos cientistas.

      O mesmo para o fenómeno dos extraterrestres.
      A astrobiologia é uma área científica.

      A ciência não tem qualquer postura arrogante. A ciência tem o conhecimento.
      Quem não gostar disso, pode não usar ciência.
      Mas as pessoas gostam de usar a ciência (por exemplo, a internet), para hipocritamente insultar a ciência…

      Os exemplos que deu estão estudados. A história dos crânios alongados fez-me rir. E que tal contactar os povos que fazem isso, em vez de absurdamente insultar a ciência?
      É fácil insultar a ciência, enquanto a utiliza. Difícil é pesquisar, de modo a não publicar comentários totalmente errados.

      A ciência revê as suas posições todos os dias.
      Quanto ao geocentrismo, a ciência não reescreveu nada. Sugiro que aprenda história…

    • Cavalcanti on 24/10/2015 at 18:40
    • Responder

    Um artigo do signor Marco Santos é sempre um irrecusável convite à uma leitura esclarecedora… e agradável.

    🙂

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