Conheça o Amazonia-1, satélite 100% brasileiro que pode ser lançado já em 2018

brazilfromspace

Para um país do tamanho do Brasil, com diversos desafios no que tange a distribuição de recursos e a logística e gerenciamento ambiental, não ter um programa espacial que rivalize com os grandes programas internacionais é muito triste. A história do Programa Espacial Brasileiro é tão esburacada e cheia de problemas quanto são as estradas brasileiras, mas não vem ao caso entrar em detalhes aqui. Importa saber que a Agência Espacial Brasileira e os órgãos relacionados a ela tem, há décadas, a quase impossível tarefa de fazer um trabalho relevante para o país em meio a desafios geográficos, políticos, econômicos e culturais.

Mas, se tudo der certo, um passo será dado no sentido de uma maior autonomia do programa espacial brasileiro, na forma do Amazonia-1 (assim mesmo, sem acento). O projeto do satélite, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) encerrou seus testes em dezembro (radiação, temperaturas extremas, etc) e parece quase pronto para entrar em órbita.

Classificado como um satélite para sensoriamento remoto de órbita polar baixa, o Amazonia-1 será lançado em uma órbita de 750km e vai circundar o planeta passando pelos dois polos, vindo do Norte em direção ao Sul, e sobrevoando o Brasil durante o período diurno a cada 5 dias. Orbitando a uma velocidade de 7,5km/s, levará 100 minutos para circundar a Terra. O sobrevoo sobre o mesmo ponto em terra a cada cinco dias (período chamado de “revisita”) é um aspecto importante do projeto. Para comparar, a revisita do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (Cbers), série de satélites em conjunto com a China, acontece a cada 26 dias. “O sobrevoo rápido do Amazonia-1 aumenta a probabilidade de sua câmera captar imagens úteis”, explica Adenilson Roberto da Silva, responsável no Inpe pela área de satélites baseados na PMM. O Amazonia-1 terá uma câmera com resolução de imagem de 60mX60m, enquanto o Cbers-4 tem várias câmeras sendo que a de maior resolução tem 5mX5m.

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O satélite é dotado de uma câmera capaz de fazer imagens de uma faixa de 850km de largura, o que vai auxiliar no controle do desmatamento da floresta amazônica, na previsão de safras agrícolas, no monitoramento de zonas costeiras e no gerenciamento de recursos hidrográficos. “O Amazonia 1 é o primeiro satélite de alta complexidade projetado, montado e testado no país”, diz Adenilson. “Com ele, como vários outros países, vamos dominar o ciclo completo de desenvolvimento de satélites estabilizados em três eixos.” Projetos com essa característica podem alterar em órbita a sua posição e orientação em relação à Terra, podendo assim focalizar melhor os pontos escolhidos.

Já foram gastos R$ 183 milhões no desenvolvimento do satélite e serão necessários aproximadamente mais R$ 50 milhões para a sua conclusão, totalizando R$ 233 milhões. Esse valor está relacionado não apenas ao custo do satélite mas também ao desenvolvimento dos sistemas e equipamentos. “Um segundo satélite custará algo próximo à metade desse valor”, comenta Adenilson. “Estou otimista que, a partir desse satélite, nós possamos não só atender a demanda do país como exportar, de forma semelhante à indústria aeronáutica brasileira”, diz Leonel Perondi, diretor do Inpe. O Amazonia-1 integra o Programa Nacional de Atividades Espaciais (Pnae) sob a responsabilidade da Agência Espacial Brasileira (AEB).

Antes da bateria de testes que se encerrou em dezembro – feita no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Inpe, em São José dos Campos (SP) – o Amazonia-1 já havia sido submetido com sucesso a outros ensaios. No fim de 2013, um modelo estrutural – espécie de réplica do próprio satélite – foi submetido a ensaios mecânicos que simularam as condições de vibração e acústica que ele irá experimentar durante o lançamento. Pouco depois, nos primeiros meses de 2014, foram qualificados os 6 propulsores a serem empregados no satélite, que são essenciais para a realização de manobras no espaço, necessárias para a aquisição e a manutenção da órbita.

amazonia-1propulsores“Com a qualificação do modelo térmico, já estão em andamento as atividades de uma nova etapa: a integração e testes do modelo elétrico, quando iremos verificar a compatibilidade elétrica e testar as interfaces entre todos os subsistemas e equipamentos. Esses ensaios devem ocorrer em 2016”, explica Adenilson. Também estão previstos para este ano os testes de compatibilidade eletromagnética para demonstrar que todos os subsistemas do satélite estão funcionando perfeitamente, sem gerar interferências indevidas. O Inpe ainda não definiu quando e qual foguete fará o lançamento do satélite, mas a escolha deverá recair sobre os lançadores hoje disponíveis no mercado internacional, porque o país ainda não possui um foguete para isto. O satélite foi qualificado para ser compatível com uma família de lançadores, tais como o ucraniano Dnepr, o norte-americano Minotaur-C e o europeu Vega, entre outros.

O Amazonia-1 estará em órbita 25 anos depois do lançamento do primeiro satélite totalmente feito no Brasil, o Satélite de Coleta de Dados 1 (SCD-1), em 1993. Cinco anos depois, em 1998, outro satélite dessa mesma família, o SCD-2, foi colocado em órbita. Esses satélites ainda estão em atividade e recebem informações ambientais transmitidas por plataformas de coleta de dados instaladas em locais remotos do território nacional e as enviam para estações terrenas do Inpe em Cuiabá, Mato Grosso, e em Alcântara, no Maranhão. Os dados coletados (temperatura, pressão, umidade, pluviometria etc.) são usados para diversas aplicações, tais como previsão de tempo, estudos relacionados a correntes oceânicas e marés e planejamento agrícola, entre outros.

O Amazonia-1 não possui tecnologia original, mas o mérito deste projeto, para o Brasil, é um satélite feito totalmente no Brasil, sem co-autoria com outros países. Este tipo de autonomia é algo que falta ao país para ser competitivo neste segmento, e este novo satélite poderá ser nossa porta de entrada para um programa espacial relevante, nacional e internacionalmente.

Fonte:
Revista Fapesp

Imagens
Agência Espacial Brasileira
The Land of Maps

3 comentários

  1. ___ Pena que tivemos que iniciar do zero em algo que já dominávamos desde 1985 com o lançamento do Brasil-Sat! Infelizmente somos um País que nos permitimos ser sabotados; 1º com a criminosa privatização da Embratel que passou a controlar o único satélite que tínhamos e de fabricação 100% nacional. Em nenhum outro país isso serias permitido! O Congresso Nacional e os militares da época poderiam e deveriam ter evitado esse escândalo. Imagino o quanto de propina deve ter rolado… para depois ficarmos vim vendo de aluguéis dos satélites de outros países! É como ter uma única casa, própria, vendê-la e ir morar de aluguel com a conivência de alguém da família.

    ___ O Congresso e os militares foram coniventes e covardes com o povo Brasileiro! Se tivessem resistido e defendido o patrimônio e nossa soberania, FHC e sua corja não teriam conseguido.

    • Dinis Ribeiro on 09/03/2016 at 08:47
    • Responder

    Como estou a trabalhar num projecto da ESA que irá utilizar o lançador Vega, https://en.wikipedia.org/wiki/Vega_(rocket) teria interesse adicional em conhecer melhor este satélite Amazonia-1 no caso de escolherem o mesmo lançador…

  2. Ótimo texto! E que bela imagem do território brasileiro.

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