[ET #3] – Considerações sobre a Equação de Drake

Cylons da Battlestar Galactica (modelos 3, 6 e 8).

Cylons da Battlestar Galactica (modelos 3, 6 e 8).

No artigo anterior descrevi a equação de Drake e apresentei um cálculo teórico sobre o número de civilizações extraterrestres existentes na Galáxia. Todavia, podemos elaborar o mesmo raciocínio de forma mais minuciosa.

Comecemos por considerar fatores que podem contribuir para aumentar o n.º de civilizações ETs:

  • a possibilidade de vida em luas de planetas gasosos, como poderá ser o caso de Europa (lua de Júpiter) devido à energia fornecida pelas forças de maré. Hoje sabemos que o nosso sistema solar alberga mais de 100 luas e este número não deve ser desprezado.
  • existência de planetas errantes com luas a orbitá-los, podendo ser vistos como sistemas solares em miniatura mas muito dificilmente observáveis com a nossa tecnologia atual. À semelhança do fator anterior, a energia necessária à vida poderá ter origem nas forças de maré.
  • existência de civilizações imortais. Num futuro distante, a vida terá evoluído para adaptações que lhe permitiram viajar de estrela em estrela. Não será de admirar que o corpo seja biónico em vez de orgânico (semelhantes aos Cylons da Battlestar Galactica mostrados na imagem).

 

Por outro lado, existem fatores que podem contribuir para reduzir o resultado:

  • existência de Lua. A equação não prevê a existência de uma Lua como a nossa que é responsável pela estabilização da rotação da Terra e que sem esse efeito, as temperaturas poderiam oscilar em intervalos maiores, diminuindo as condições de suportar o aparecimento e desenvolvimento de vida.
  • velocidade de rotação do planeta. Se a Terra rodasse mais devagar, as temperaturas iriam variar em intervalos maiores, incapazes de suportar vida. Se rodasse mais depressa, os ventos poderiam atingir velocidades muito elevadas, formando tempestades monstruosas, fatores todos eles contrários à estabilidade que a vida requer.
  • extinções em massa. Hoje sabemos que temos o mesmo antepassado (com simetria bilateral), o que nos leva a supor que houve alturas em que a vida quase se extinguiu, quer por impactos de meteoritos ou vulcanismo, quer pela condição “bola de neve”, tendo havido um estrangulamento no desenvolvimento das espécies.
  • existência de campo magnético. A Terra possui um campo magnético que nos protege (e à atmosfera também) do vento e radiação solares.
  • localização na galáxia. Hoje acreditamos que nosso Sol estará localizado na zona habitável da galáxia. Zonas interiores poderão ser demasiado radioativas; zonas mais exteriores poderão ser pobres em materiais pesados impedindo a formação de vida complexa.

 

Por todas estas razões, as probabilidades encontradas na equação de Drake são sempre hipotéticas, embora o resultado tenha tendência a ser sempre maior que 1.

E quando não for, resta-nos pensar nos 100 mil milhões de galáxias (100.000.000.000) que existem no Universo visível para percebermos que muito dificilmente estaremos sozinhos. Porém, galáxias fora do grupo local poderão ser muito mais complicadas de alcançar devido à expansão acelerada do universo.

Atualmente, não conhecemos vida para além da Terra mas julgo que isso irá mudar brevemente. O principal motivo dessa mudança é a melhoria contínua da tecnologia. A velocidade da tecnologia SETI tem aumentado a níveis exponenciais, duplicando a cada 18 meses (Lei de Moore) desde 1960. Isto pode significar que, no decurso dos próximos 25 anos, poderemos escutar um milhão de sistemas solares (a estatística atual aponta para a existência de um planeta por estrela) e num desses rastreios poderemos encontrar inteligência ET.

Relevo que qualquer civilização ET detetada por nós será mais avançada, talvez milhares de anos. É curioso pensar que sempre que observamos ou escutamos o Universo, vemos o passado mas neste caso particular, vemos uma esperança do futuro: se essa civilização sobreviveu a grandes desafios (crescimento exponencial da população, aquecimento global, esgotamento de recursos, conflito nuclear, guerra química, etc), também nós poderemos fazer o mesmo.

Apresentado o contexto sobre a possibilidade de inteligência ET (na Galáxia e no Universo), estamos agora em condições de discutir um contacto. O próximo artigo abordará o estabelecimento de um contacto ET, revisão do Protoloco SETI e as implicações que daí poderão advir para a sociedade.

7 comentários

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  1. ok, alguns pensamentos:

    – duvido que eles passem para corpos biónicos… isso é demasiado antropocentrismo nosso 😉

    – existem estudos recentes que apontam que a nossa Lua não é assim tão importante. A variação de temperaturas seria de 10ºC.

    – se a velocidade de rotação fosse diferente, a vida estaria adaptada a isso. Aliás, uma civilização inteligente que vivesse lá, também acharia que uma rotação de 24h seria muito má para a vida 😛

    – maior radiação (devido a falha de campo magnético, proximidade a anã vermelha, ou outra zona na galáxia) seria muito bem vinda pela vida. Maior radiação seria maior combustível, comida. A vida facilmente se adaptaria a isso 😉

    – o SETI não vai encontrar nada, porque civilizações inteligentes e avançadas não utilizam radioastronomia, como tu próprio dizes no comentário em cima. É virtualmente impossível encontrar uma civilização ET que em 13,8 mil milhões de anos de desenvolvimento esteja precisamente no mesmo nível de desenvolvimento que nós (+ ou – 100 anos). É mais provável eu levar com um raio em cima 5 vezes em 5 dias seguidos 😛

    abraços! 😉

    P.S.: tou a gostar das discussões 😉

    1. Mais uns excelentes pensamentos para enriquecer o debate, de realçar que são sempre bem recebidos, abrindo novas linhas de reflexão.

      Estou muito convencido que num futuro não muito distante, o homem acabará por querer fundir-se com a máquina, evitando perder o seu lugar no topo da pirâmide (deixarei esta ideia para um artigo a escrever no final da série [ET], tipo special edition 🙂 .

      Quanto ao SETI não encontrar nada através da radioastronomia ou via SETI ótico, não digo que não, mas remeto para a máxima: “se procurarmos vida ET, a probabilidade de encontrar é baixa mas se não procurarmos, então será nula”. Como tal, vamos “caçando com gato” 🙂 .

      Abraço.

  2. Excelente série de artigos! Infelizmente eu tenho um problema com o site, as vezes, quando clico em “ir buscar mais itens” aparece um erro: “não há mais itens para buscar”.

    1. Obrigado Rhyan, é sempre gratificante ouvir outras pessoas a elogiar o nosso trabalho. No caso desta série de 11 artigos, existe sempre um link para os artigos anteriores; talvez isso resolva provisoriamente o teu problema.

    2. Rhyan,

      Tente limpar a cache e o histórico.

      Aqui dá bem essa característica. Por isso, poderá ser do seu computador.

      Tente testar noutro dispositivo: telemóvel, tablet, outro computador, etc 😉

      Depois dê de novo aqui o feedback.

      abraço!

  3. Gostei muito do artigo Ruben mas acho que o silêncio encontrado pelo SETI é porque insistimos em procurar sinais de radio, uma tecnologia que me parece bem antiquada e limitada pra comunicações interestelares, acredito que enquanto não dermos o próximo passo na evolução da comunicação a distância, que eu nem imagino qual será mas com certeza vai ter que ser algo que não se limite a velocidade da luz, temo que continuaremos no silêncio.

    1. Obrigado Alexandre, fico satisfeito por gostares do artigo (e da série, espero eu).
      O silêncio pode ser justificado por alguns fatores que serão discutidos nos artigos “9. Estratégias de comunicação interestelares” e “10. Por que motivo ainda não encontramos ETs?”. O rádio tem muitas vantagens face a outras tecnologias e para já julgo que devemos tentar prosseguir com os meios que dispomos. Eventualmente, daqui a 500 anos, quando surgirem esses outros meios que sugeriste, talvez olhemos para trás e pensemos: “aqueles tipos de há 5 séculos atrás queriam comunicar com ETs por ondas de rádio… nunca mais lá chegariam ;)”

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