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Nov 15

Uma Lua (quase) como todas as outras

Leiam este excelente artigo do professor Gustavo Rojas sobre a Super-Lua de ontem.

O artigo explica exatamente o que aconteceu, e também critica todo o sensacionalismo produzido pela comunicação social e não só.

Alguns excertos interessantes do artigo:

“(…) Assim como em outros fenômenos astronômicos envolvendo a Lua (“Lua Azul”, “Lua Negra”, “Lua Sangrenta”, etc), temos aqui uma superexposição de um acontecimento corriqueiro – no caso, a ocorrência da Lua Cheia poucas horas depois da sua maior aproximação com a Terra.
(…)
Mesmo com essa passagem próxima, a Lua Cheia dessa segunda-feira será bastante ordinária para nossos olhos, embora continue linda e inspiradora.
(…)
Para desgosto dos meus colegas astrônomos, o termo “Super Lua” foi cunhado pelo astrólogo americano Richard Nolle em 1979. Ele reuniu duas características marcantes do ciclo lunar: a Lua Cheia (posição em que a Lua, a Terra e o Sol estão alinhados e a face da Lua virada para a Terra está totalmente iluminada) e o Perigeu Lunar (o ponto da órbita da Lua que se aproxima mais da Terra).
Por algum motivo desconhecido, Nolle determinou arbitrariamente que uma Lua Cheia é “Super” quando ela acontece a uma distância de pelo menos 90% da distância do perigeu numa dada órbita.
(…)
[O astrônomo Fred] Espanak propôs uma distância de 367607 km para uma “Super Lua” – ainda um critério puramente arbitrário, sem justificativa convincente para o fator de 90%.
(…)
A rigor, é ridiculamente improvável termos uma Lua Cheia no Perigeu. Isso porque os períodos entre duas Luas Cheias e dois Perigeus são diferentes. Seria uma coincidência fantástica ter os dois fenômenos simultaneamente.
(…) cada Lua Cheia acontece aproximadamente 2 dias e meio mais tarde com relação à passagem pelo perigeu, num padrão se repete a cada 413 dias.
Mesmo com esse descompasso, as Luas Cheias no Perigeu são bastante frequentes, como neste ano em que acontecem 4 vezes (16/9, 16/10, 14/11 e 13/12).
(…)
Curiosamente, a mídia ignorou as Luas Cheias no Perigeu até 2011. Foi nesse ano que os primeiras matérias sobre a “Super Lua” começaram a pipocar por aí (…). A coisa piorou em 2012 (aquele ano em que o mundo deveria ter acabado) e de lá pra cá passou a ser praticamente matéria obrigatória nos portais de notícias.
(…)
O facto de que o perigeu desta segunda-feira será o mais próximo até 2034 só amplificou a expectativa. Uma das informações mais citadas nas reportagens é de que a “Super Lua” de hoje será 14% maior e 30% mais brilhante que o normal. Porém esses números são obtidos ao compararmos a Lua Cheia no Perigeu com a no Apogeu (quando a Lua está mais afastada da Terra). Se compararmos a “Super Lua” com uma Lua Cheia normal, ela não parece tão super assim: é só 8% maior e 15% mais brilhante.
(…)
Mas ela parece maior!
(…) a Lua Cheia perto do horizonte tem a impressão de que ela é maior. Essa chamada Ilusão Lunar é um assunto que até hoje não foi satisfatoriamente explicado.
(…)
A Lua que o mundo todo verá no céu nessa segunda-feira será indistinguível das outras Luas Cheias no Perigeu. Nossos olhos possuem uma capacidade de definição de tamanho (resolução angular) de aproximadamente 1 minuto de arco (…).
Portanto, qualquer mudança no tamanho da Lua menor que 1 minuto de arco vai ser imperceptível, mesmo para a visão mais aguçada do planeta. A boa notícia é que a próxima Lua Cheia em 13 de dezembro vai ter praticamente o mesmo tamanho da de hoje. (…) Eu garanto que você não perceberá a diferença de uma para a outra! (…)”

Leiam todo o artigo do astrónomo Gustavo Rojas, aqui.

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico.
Licenciatura em Gestão de Empresas.
Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica.
Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas.
Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas.
Foi Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA.
Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

3 comentários

1 ping

  1. José Simões

    Bem parab+ens um dos poucos escritos com alguma sanidade sobre o assunto.

    Mas, só não gosto do “8% maior”, fico a pensar o que quererá dizer…

    1. Carlos Oliveira

      Obrigado. Os parabéns são para o Gustavo Rojas 😉

      abraços!

  2. Carlos Oliveira

    https://www.facebook.com/astropt/posts/1348533398491282

    Facto: o conceito de “Super-Lua” é uma convenção.

    Facto: é baseada em critérios puramente arbitrários.

    Facto: todos os anos, em cada ano, existem várias Super-Luas.

    Facto: a comunicação social só começou a falar deste fenómeno em 2011, em face de 2012 (suposto fim-do-mundo).

    Facto: desde aí, todos os anos, a comunicação social esquece-se de ver/ler os seus arquivos, e todos os anos diz que é uma Lua enorme que só vai acontecer daqui a muitos anos novamente. E todos os anos acontece o mesmo, e os jornalistas dizem o mesmo…

    Facto: vê-se uma Lua enorme, todos os meses, durante a Lua Cheia, ao nascer no horizonte. Chama-se a isso Ilusão Lunar e nada tem a ver com a chamada Super-Lua.

    Facto: a próxima Super-Lua é já no próximo dia 14 de Dezembro.

    Facto: nenhuma pessoa é capaz de distinguir uma Super-Lua de uma Lua Cheia normal perto do seu perigeu a nascer no horizonte.

    Facto: o sensacionalismo chateia-me.

    😉

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