Penitentes na superfície de Plutão

a – Região de Tartarus Dorsa numa imagem obtida pela sonda New Horizons a 14 de julho de 2015. Foram identificadas cerca de 290 cristas numa área de aproximadamente 10 mil km2, com três orientações preferenciais: norte-sul; este-oeste e nordeste-sudoeste. Em b podemos ver um grupo de penitentes no deserto de Atacama, na América do Sul.
Créditos: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Southwest Research Institute (a) e ESO/B. Tafreshi (b).

Cientistas descobriram evidências de que as cristas de Tartarus Dorsa, na superfície de Plutão, são na verdade lâminas de gelo de metano com centenas de metros de altura. Usando simulações baseadas em modelos computacionais de previsão meteorológica, a equipa liderada por John Moores da Universidade de York, no Canadá, identificou um conjunto de condições ambientais na superfície plutoniana particularmente favoráveis à formação destas enormes estruturas. Denominadas penitentes, estas estranhas formações são relativamente raras na Terra, ocorrendo tipicamente em regiões tropicais montanhosas extremamente secas, onde o Sol se eleva alto no céu durante grande parte do ano. As cristas de gelo são extremamente afiadas e são esculpidas pelo aquecimento e sublimação do gelo nos seus flancos.

“A identificação destas estruturas em Tartarus Dorsa sugere que a sua formação depende da presença de uma atmosfera, o que explicaria o facto de não terem sido observadas anteriormente em outros satélites ou planetas anões sem atmosfera”, explicou Moores. “Contudo, diferenças exóticas no ambiente dão origem a formações com escalas muito diferentes. Este teste aos nossos modelos terrestres (…) sugere que podemos encontrar estas estruturas noutros locais do Sistema Solar, ou em outros sistemas planetários, onde as condições são adequadas.”

A equipa de investigadores comparou os resultados das simulações com as cristas observadas na superfície de Plutão em julho de 2015 pela sonda New Horizons. As cristas de Tartarus Dorsa têm mais de 500 metros de altura e encontram-se separadas por 3 a 5 km, o que as torna consideravelmente maiores que as suas congéneres terrestres. “Este tamanho gigantesco é previsto pelos mesmos modelos que descrevem a formação destas estruturas na Terra”, disse Moore. “Na verdade, fomos capazes de obter não só o mesmo tamanho e separação, como também a direção e a sua idade: três elementos que suportam a identificação destas cristas como penitentes.”

A formação destas estruturas em Plutão só é possível devido à presença de condições ambientais dinâmicas relativamente estáveis, com ventos muito fracos e variações térmicas e de pressão favoráveis à acumulação sazonal de finas camadas de gelo na superfície. Os resultados obtidos neste trabalho sugerem que as cristas não deverão ter mais de algumas dezenas de milhões de anos de idade, o que é consistente com a idade calculada com base na frequência e distribuição de crateras na região de Tartarus Dorsa.

Este trabalho foi divulgado ontem num artigo publicado na revista Nature.

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