Google+

«

»

Mar 20

Messier 83 e NGC 5128: duas vizinhas extraordinárias

Uns graus para sul de Spica, a estrela mais luminosa da constelação da Virgem, podemos encontrar duas das galáxias mais brilhantes do céu nocturno: Messier 83, na constelação da Hidra, e NGC 5128, também conhecida por Centaurus A, na constelação do Centauro. Visíveis com uns simples binóculos num local sem poluição luminosa, estas galáxias são as mais conspícuas de um pequeno grupo que é dos mais próximos do Grupo Local (o grupo que contém a Via Láctea, a Galáxia de Andrómeda, a Galáxia do Triângulo, e mais umas dezenas de outras pequenas galáxias).

Messier 83 foi descoberta pelo padre e astrónomo francês Nicolas Louis de Lacaille em 1752, observando a partir do Cabo da Boa Esperança, actual África do Sul. Situada a cerca de 15 milhões de anos-luz, trata-se de um belíssimo exemplar de uma espiral barrada com metade do tamanho da Via Láctea. O seu brilho superficial é tão elevado que a sua estrutura espiral é visível mesmo em telescópios relativamente modestos.

A galáxia espiral barrada Messier 83. As inúmeras marcas irregulares luminosas nos braços espirais são maternidades estelares. Os filamentos escuros são nuvens de poeira interestelar.
Créditos: aquisição de imagens pelo grupo iTelescope-Portugal, no telescópio T32 de Siding Spring, Austrália; processamento pelo autor.

A formação de novas estrelas na galáxia é particularmente vigorosa. Os seus braços espirais estão pejados de maternidades estelares iluminadas pela luz ultravioleta das estrelas mais maciças aí nascidas. Na sua região nuclear os astrónomos descobriram um verdadeiro “baby boom” com mais de 20 enxames de estrelas extremos, de características semelhantes ao enxame central da Nebulosa da Tarantula na Grande Nuvem de Magalhães, com idades entre os 2 e 8 milhões de anos. A formação de grande número de estrelas maciças, com vidas curtas, leva a que as supernovas ocorram na Messier 83 com uma frequência pouco usual. Desde o início do século XX foram descobertas 6 destas explosões: SN1923A, SN1945B, SN1950B, SN1957D, SN1968L e SN1983N. Esta última, descoberta pelo reverendo australiano Robert Evans, é o protótipo das supernovas de tipo Ib, resultantes do colapso gravitacional do núcleo de estrelas maciças que perderam uma fracção substancial das suas camadas exteriores ricas em hidrogénio.

Messier 83 observada pelo observatório de raios ultravioleta GALEX, da NASA. Os delicados braços espirais da galáxia emitem luz ultravioleta proveniente de uma miríade de estrelas jovens, maciças e muito quentes. Note-se o núcleo extraordinariamente luminoso, resultado dos mais de 20 super enxames que existem nessa região.
Crédito: NASA/JPL/Caltech.

Por seu lado, NGC 5128 foi descoberta pelo astrónomo escocês James Dunlop, em 1826, observando a partir da Austrália. Cerca de 10 graus para sul relativamente a Messier 83, a galáxia está um pouco mais próximo de nós, a cerca de 13 milhões de anos-luz. No entanto, as duas formam parte de um só grupo que inclui outras galáxias nesta região do céu, e.g., NGC 4945, NGC 5102 e NGC 5253. Distâncias de alguns milhões de anos-luz entre membros de um mesmo grupo não são invulgares, e.g., a distância entre a Via Láctea e a Galáxia de Andromeda, no Grupo Local, é de 2.5 milhões de anos-luz. NGC 5128 é uma galáxia elíptica à qual se vê sobreposta uma espessa banda de poeiras, possivelmente resultado de uma colisão com uma galáxia espiral. Essa colisão parece ter activado o quasar no centro da NGC 5128 que é uma das galáxias activas mais próximas (daí a designação alternativa Centaurus A) e alvo de intenso estudo.

A posição de Messier 83 e NGC 5128 no céu austral. A estrela Spica estaria um pouco acima do topo da imagem, entre as 13 e 14 horas.
Crédito: IAU e Sky&Telescope.

De facto, o centro da galáxia contém um buraco negro com uma massa estimada em cerca de 55 milhões de sóis, 14 vezes mais maciço do que o buraco negro central da Via Láctea. Observações realizadas em diferentes regiões do espectro electromagnético revelaram dois jactos de partículas que se movem a velocidades relativísticas com origem nas imediações do buraco negro e que se estendem por dezenas de milhares de anos-luz, em raios X, e mais de um milhão de anos-luz, em ondas de rádio.

A galáxia activa NGC 5128 (Centaurus A). A banda de poeiras que atravessa diametralmente a galáxia é bem visível.
Créditos: aquisição pelo grupo iTelescope-Portugal no telescópio T32 de Siding Spring, Austrália; processamento pelo autor.

Uma imagem da galáxia NGC 5128 em luz visível à qual foram sobrepostos os jactos de partículas relativísticas observados em raios X (cor azul) e ondas sub-milimétricas (cor laranja).
Créditos: ESO/WFI (óptico); MPIfR/ESO/APEX/A.Weiss et al. (sub-milimétrico); NASA/CXC/CfA/R.Kraft et al. (raios X).

Em 3 de Maio de 1986, o reverendo Robert Evans — sim, outra vez ele — descobriu uma supernova brilhante na NGC 5128. Designada por SN1986G, foi um evento de tipo Ia, o resultado da explosão termonuclear de uma anã branca. No seu pico de brilho, a supernova atingiu apenas uma magnitude de 11.4, sendo por isso necessária a utilização de um pequeno telescópio para poder observá-la. No entanto, os astrónomos estimaram que a luz da explosão foi atenuada em cerca de 4 magnitudes por várias nuvens de poeira interestelar, bem conspícuas no seu espectro, com linhas associadas ao sódio e cálcio com pelo menos 6 componentes. Sem essa limitação a supernova teria atingido uma magnitude aparente de 7.5 (!), facilmente visível em binóculos com um poder de resolução adequado.

Imagem digitalizada de uma emulsão fotográfica mostrando a SN1986G quase no pico de brilho, no dia 8 de Maio de 1986, obtida no Observatório de La Silla, no Chile.
Crédito: ESO.

Mais recentemente, em 8 de Fevereiro de 2016, uma outra supernova foi descoberta nesta galáxia. A SN2016adj, como ficou conhecida, foi um evento de tipo IIb, resultante do colapso gravitacional do núcleo de uma estrela maciça e luminosa. A possível estrela progenitora foi identificada em imagens de arquivo obtidas com o telescópio espacial Hubble. Infelizmente, tal como a SN1986G, estava também localizada por detrás da banda de poeiras e nunca atingiu um brilho acima da magnitude 14.

Acerca do autor(a)

Luís Lopes

Luís Lopes é professor no departamento de Ciência de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Astrónomo amador há mais de 25 anos, interessa-se pela ciência em geral e pela sua divulgação. Acompanha com especial atenção os desenvolvimentos nas áreas de exoplanetas e da evolução estelar. Gosta de estar com a família, de ler um bom livro, de plantar e ver crescer árvores e de passar noites a observar o céu. Também escreve para o AstroPT de vez em quando ;-)

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>