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Abr 20

Sarampo em alta devido aos criminosos anti-vacinas

O Sarampo, como a Tosse Convulsa, a Poliomielite, etc, é uma doença altamente contagiosa e bastante mortal.
Devido ao sucesso da ciência, o Sarampo, como muitas outras doenças, foi erradicada nas sociedades ditas civilizadas.

No entanto, pontualmente essas doenças aparecem de novo, mais nos EUA mas também na Europa (como em Portugal, o surto de tosse convulsa de 2016).

Este ano, existe um surto de sarampo em Portugal.
morreu uma menor, vítima de sarampo, não vacinada.

As vacinas são um dos casos de maior sucesso na ciência, no conhecimento humano.
Paradoxalmente, é isso que faz com que as pessoas pensem que elas não são necessárias: porque deixaram de ver os efeitos devastadores dessas doenças.

Como escreve David Marçal: “Os movimentos anti-vacinas nascem, paradoxalmente, da segurança proporcionada pelas vacinas. Os perigos das doenças infecciosas afiguram-se pouco reais, abrindo espaço para a preocupação com perigos imaginários, acerca da segurança das vacinas. E não são uma coisa moderna, new-age. Em 1882 foi revogada em Zurique uma lei de vacinação obrigatória contra a varíola, com o argumento de que, pasme-se, nesse ano não tinha havido nenhum caso da doença na cidade. Com a revogação, as mortes por varíola voltaram. E é o que acontece também hoje em dia, quando a segurança proporcionada pelas vacinas faz crer que elas não são necessárias.”

As vacinas têm a mesma taxa de sucesso que as tecnologias que as pessoas utilizam diariamente, como televisões, computadores ou telemóveis/celulares.
Se há pessoas que “não acreditam” na ciência (nas vacinas), então não deveriam ter direito a utilizar essas tecnologias científicas. Afinal, o conhecimento é todo o mesmo: se não lhes serve para algumas coisas, não deveriam ser hipócritas e utilizar as mesmas teorias científicas para outras coisas.

É óbvio que, como toda a ciência, nenhuma vacina é 100% eficaz.
Da mesma forma que ninguém pode afirmar com 100% de certeza que a gravidade vai funcionar da mesma forma daqui a 5 minutos. No entanto, não é isso que vai fazer as pessoas saltar do topo de edifícios de 20 andares, porque acreditam que a “ciência da gravidade” não funciona.

A verdade é que a ciência não depende das opiniões ou das crenças das pessoas.

Em pleno século XXI, as pessoas deveriam ter um mínimo de conhecimento, de literacia científica.
Infelizmente, o que se passa, como nos dizia Carl Sagan, é que “vivemos numa sociedade bastante dependente de ciência e tecnologia, em que quase ninguém sabe sobre ciência e tecnologia.”

Devido a isso, abundam as burlas e vigarices da pseudociência, como a astrologia, a homeopatia, os defensores da terra plana, ou até os que se opõem às vacinas com base numa fraude.
Aliás, todos os “estudos” que referem não são científicos, não são duplamente cegos nem têm qualquer base de racionalidade. Facto: não há qualquer estudo credível que mostre qualquer relação entre as vacinas e o autismo. Isso foi uma fantasia inventada por vigaristas para enganar as pessoas.

Gostaria de realçar 4 pontos que deveriam ser estabelecidos, de modo a que tivéssemos uma sociedade mais saudável.

O primeiro ponto tem a ver com a profusão das chamadas terapias alternativas (leia-se: vigarices) endossadas pelos políticos. A responsabilidade é também dos legisladores e de quem aprova leis a defender os crimes dos vigaristas.
Como diz o David Marçal: “A sensibilização para as vacinas deve ser enquadrada também à luz da avalanche legislativa que nos últimos anos tem contribuído em Portugal para credibilizar os terapeutas alternativos, que atrás das portas dos seus consultórios vendem impunemente mentiras acerca das vacinas e “vacinas alternativas”.”

O meu segundo ponto é que com vacinas estamos a falar de imunidade de grupo e de saúde pública.
A segurança coletiva depende de elevadas taxas de vacinação.
O direito que as pessoas têm para fazer escolhas, não deve ser prejudicial aos outros. Por exemplo, a pessoa não tem liberdade para matar ou ferir outra; se o fizer, terá consequências legais. Precisamente porque não tem o direito de prejudicar os outros.
Como nos diz David Marçal: “A decisão de vacinar ou não vacinar não é individual; é uma responsabilidade colectiva. Recusar as vacinas e ficar à mama das vacinas dos outros é uma atitude egoísta, antissocial e irresponsável.”
O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, concorda: “A recusa individual à vacina colide pois frontalmente com o direito coletivo à saúde pública.”
E complementa: “Compreende-se mal que uma sociedade que obriga ao uso de capacete ou cinto de segurança, para proteção de riscos fundamentalmente individuais, nada diga sobre uma recusa que pode comprometer a vida de terceiros. Concordo pois com aqueles que defendem que se deve pensar em medidas que garantam a obrigatoriedade da vacinação das crianças ou medidas punitivas para os pais em falta.”
Para mim, as coisas são simples: é a saúde pública que está em causa. Não é só a saúde dos hipócritas ignorantes e inconscientes, mas sim de todos. É uma responsabilidade coletiva, de modo a prevenir a morte de pessoas e zelar pela segurança de todos.
Muitas coisas são obrigatórias para podermos viver em sociedade: existem regras de trânsito que temos que respeitar se queremos andar na estrada, existem leis judiciais que temos que respeitar se queremos interagir com outros, existe uma escola que é obrigatória para todas as crianças, etc.
As vacinas são essenciais para a saúde pública, coletiva. Assim, deveriam ser obrigatórias. Quem não as quiser, não deve viver em sociedade. Que vão viver para cavernas sem quaisquer confortos modernos/científicos, como a eletricidade.
As vacinas não deveriam ser só obrigatórias para ir à escola. Deveriam ser obrigatórias. Ponto.

A comunicação social promove o obscurantismo social sempre que dá voz aos criminosos que não vacinam ou aos vigaristas das mesinhas. Ao fazer isto, a comunicação social torna-se cúmplice nas mortes de pessoas por falta de vacinação. Por isto, deveria ser criminalizada.
A liberdade de expressão, o contraditório, não existe em questões científicas em que há um consenso científico.
Só a comunicação social poderia argumentar que, para debater uma neurocirurgia para retirar um tumor maligno do cérebro, deveria requisitar a opinião de um trolha! A opinião do trolha, do eletricista ou do astrónomo não serve para este tema! Argumentar que a opinião do trolha tem que ser ouvida só serve para confundir, manipular e enganar a população. A comunicação social deve ser responsabilizada judicialmente por isto!

Por fim, os direitos das crianças são DAS crianças, e não dos adultos.
Maus tratos, negligência, abandono, abuso sexual, etc, sobre crianças são crimes. Não vacinar as crianças e com isso elevar o potencial de doenças, incluindo da sua morte, também deveria ser crime!
As crianças não são propriedade dos pais. “As razões que levam os pais a não vacinar uma criança são irrelevantes para o caso. O Estado tem de proteger quem não se pode proteger a si próprio. (…) A vacinação deve ser obrigatória e o Estado, perante situações de desobediência parental, deve assegurar a vacinação da criança, mesmo que contra a vontade dos pais. (…) Já hoje o Estado interfere na vida familiar para assegurar direitos fundamentais das crianças. E faz muitíssimo bem. E se a moda da irresponsabilidade continuar a pegar, o Estado terá de fazer aquilo que está obrigado pela Constituição: proteger o direito de todas as crianças à vida e à saúde. Se não o fizer será um cúmplice irresponsável e criminoso, com a agravante de ser informado.”
Os pais não têm o direito de colocar em risco a vida dos filhos. Ao fazerem-no, o Estado só tem que retirar as crianças aos pais e criminalizar esses pais por negligência parental.

Concluindo, concordo totalmente com o comentário da Constança Cunha e Sá.

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico.
Licenciatura em Gestão de Empresas.
Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica.
Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas.
Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas.
Foi Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA.
Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

13 comentários

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  1. Diogo Venâncio

    Excelente comentário à situação. Subscrevo completamente!

  2. Nuno José Almeida

    Vou ter que ler o artigo mais tarde pois é longo mas li uma passagem que parece que tem um suposição errada, a de que os pais da menor morta não a vacinaram por simples opção

    ” Já morreu uma menor, vítima de sarampo, não vacinada por decisão dos pais.”

    Não foi bem assim. Naquela família só esta menor não foi vacinada porque teve reacções alérgicas às vacinas. Por conselho médico, foi decidido que não tomaria mais vacinas seria portanto protegida pela imunidade de grupo. É o caso específico e raro de alguém que não é aconselhável a vacinação e fica protegida pelo civismos dos outros. Infelizmente a proliferação de pessoas sem vacina por mera opção, leva a que estas pessoas corram mais riscos.

    1. Carlos Oliveira

      Eu li na Sábado:
      http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/morreu-jovem-de-17-anos-internada-com-sarampo
      “A jovem não estava vacinada por opção familiar.”

      De qualquer modo, penso que essa informação também não está correta.
      Segundo o Expresso, as irmãs dela também não foram vacinadas…. devido a medo que tivessem também essas alergias de que fala:
      http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-04-20-Irmas-da-jovem-que-morreu-com-sarampo-nao-foram-vacinadas

      abraços!

  3. Nuno José Almeida

    Lendo agora o artigo todo, ainda à espera de moderação do anterior, mantenho que a frase ” Já morreu uma menor, vítima de sarampo, não vacinada por decisão dos pais.” é infeliz e deve ser corrigida pois está-se a dar a entender que os pais desta miúda tomaram uma decisão de simplesmente não vacinar que não é o caso. Na minha opinião, a correcção da mesma até dá mais força ao artigo pois exemplifica o caso paradigmático de a decisão de outros em não vacinar, mata alguém sem culpa nenhuma.

    Deveria ser algo como: ” Já morreu uma menor, vítima de sarampo, não vacinada por impossibilidade médica”

    1. Carlos Oliveira

      Nuno, não entendi…

      Qual moderação do anterior?
      O Nuno enviou um comentário às 0:57 da manhã que nem 5 minutos depois já tinha sido aprovado.
      Se existe algum comentário seu moderado, peço-lhe que me diga qual.

      Qual impossibilidade médica?
      Se bem entendi, até pelo seu comentário anterior e pelo que li posteriormente sobre o assunto, a decisão foi dos pais (como é dito neste texto), após consulta com o médico e tendo em conta a reação alérgica a vacina anterior.
      Ou seja, foi uma decisão consciente, racional, e até tendo em conta o bem-estar da miúda. Isso sim pode ser complementado no texto.
      Mas que foi decisão dos pais, foi. E nada teve a ver com impossibilidades.

      Por fim, como lhe respondi às 1:07 da madrugada, as irmãs dela também não foram vacinadas, ao contrário do que disse no seu comentário anterior.

      abraços

      1. Ana

        Está a haver muita destilação de ódio contra os pais da rapariga que faleceu. Sem se apurarem primeiro os factos. Segundo eles, terá sido por conselho médico que não vacinaram a rapariga, que terá tido choque anafilático com outras vacinas. Por conselho clinico não vacinaram a rapariga. Obviamente q a decisão ultima é dos pais, mas se lhe tivessem dado a vacina e esta provocasse choque anafilático e a matasse… a ser assim, a rapariga era um dos casos que só com a imunidade de grupo estaria protegida – e a imunidade de grupo foi quebrada… há realmente pessoas que não podem ser vacinadas. Esta mocinha seria uma delas.
        O que o outro comentador diz, no meu ver, é só para ter em atenção que há muita gente net fora a atacar os pais sem realmente saber o que se passou. E que é melhor não dar azo a se entrar nessa onda de ódio contra pais que perderam a filha por seguirem conselho clinico. Acontece. Muito. Infelizmente. Há 40 anos não aconselhavam a vacina sequer… suspeitavam que pudesse provocar esclerose multipla. Essa dúvida foi dissipada, mas continuam a existir pessoas que nao podem ser imunizadas pir diversas razões.
        Mas esta mocinha morreu porque a imunidade de grupo não funcionou. E isso sim, é culpa de todos os que advogaram que as vacinas eram uma conspiração e de todos os que optaram seguir uma moda ignorante e perigosa, a moda antivax. Esses são criminosos. E pais que não vacinem os filhos por birra, teimosia e feroz crença em tretas e mentiras, deveriam ser responsabilizados sim. E pais que contagiam os filhos de proposito, como tb acontece, deveriam ser presos.

      2. Carlos Oliveira

        Concordo inteiramente com este seu comentário.

        Deixe-me só realçar que o artigo não é uma explicação deste caso específico, mas sim um artigo mais geral sobre o porquê destes surtos (e não desta morte).

        De qualquer modo, se o maior problema do artigo é a parte não-crucial do “por decisão dos pais” (que é uma frase correta, podendo/devendo isso sim ser complementada pela explicação médica se esse fosse o objetivo do artigo), então essa expressão foi retirada, ficando agora: “Já morreu uma menor, vítima de sarampo, não vacinada.”

        Se mesmo assim acharem que essa frase, correta, não deve ser incluída porque pode dar azo a más interpretações de quem não lê o texto no seu todo, também posso retirar essa frase porque não afeta em nada o resto do artigo 😉

        abraços

      3. Nuno Jose Almeida

        Olá Carlos. No meu browser aparecida por aprovar certamente por causa da cache. Entretanto as outras filhas, mais nova e mais velha, estão vacinada. Esta não estava por favor alérgicas. Por isso mantenho que apesar de ser uma afirmação factualmente correcta, da a entender algo que não é verdade. A Ana mais abaixo consegue muito bem melhor explanar o meu comentário.

      4. Nuno Jose Almeida

        Bem só erros lol e o comentário da Ana é acima.

      5. Carlos Oliveira

        Nuno,

        Pelo que li, as outras duas filhas também não estão vacinadas por medo de reações alérgicas… isso é o que é dito no Expresso e não só, como está nos links.

        Quanto à frase em causa, agora que editei, veja se está melhor 😉

        abraços!

      6. Carlos Oliveira

        “Irmãs da jovem que morreu com sarampo não foram vacinadas”
        http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-04-20-Irmas-da-jovem-que-morreu-com-sarampo-nao-foram-vacinadas

        “Irmãs da adolescente que morreu com sarampo também não foram vacinadas”
        https://sol.sapo.pt/artigo/559203/irmas-da-adolescente-que-morreu-com-sarampo-tambem-nao-foram-vacinadas

        Na Sábado:
        http://www.sabado.pt/ciencia—saude/detalhe/o-que-aconteceu-a-jovem-que-morreu-com-sarampo
        “A jovem de 17 anos que morreu esta madrugada no hospital Dona Estefânia, em Lisboa, não estava vacinada contra o sarampo. Segundo a revista Visão, a jovem sofreu um choque anafiláctico aos dois meses, quando são administradas várias vacinas aos bebés. Depois, não voltou a ser vacinada. A sua irmã também não tem as vacinas recomendadas no Programa Nacional de Vacinação.”

        Quanto aos pais da jovem:

        “Mãe da jovem que morreu com sarampo é antivacinas ”
        http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-04-19-Mae-da-jovem-que-morreu-com-sarampo-e-antivacinas
        “Fonte médica revelou ao Expresso que a mãe da rapariga de 17 anos é antivacinas e adepta da homeopatia. Além de não ter proteção contra o sarampo, também não tinha outras vacinas do Programa Nacional de Vacinação.”

        No entanto, no mesmo artigo também é dito:
        “Uma pessoa que se apresenta como “familiar muito próxima” dos pais da adolescente, que entrou em contacto com o Expresso, garante que a família não é antivacinas, e que as outras duas filhas do casal, uma mais velha e uma mais nova, “foram ambas devidamente vacinadas”. Explica ainda que devido “a uma reação muito grave a uma vacina, com risco de morte” quando rapariga ainda era bebé, os pais não voltaram a vaciná-la “orientados por aconselhamento médico”. ”

        abraços!

      7. Nuno José almeida

        Boas Carlos, eu li no jornal em papel do Correio da Manhã (estava no restaurante :P) declaração da mãe que tinha as outras duas filhas totalmente vacinadas. Quem diz a verdade não sei.

  4. Nuno Jose Almeida

    Mas não é verdade segundo a própria mãe

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