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Mai 19

Eta Carinae, o anúncio de uma supernova titânica

A Nebulosa de Carina (HD). Aquisição: iTelescope – Portugal; processamento (HaRGB): Ruben Barbosa.

No seu novo trabalho fotográfico, o grupo iTelescope-Portugal apontou o telescópio T32 do Observatório de Siding Spring, na Austrália, para a Nebulosa de Carina (NGC 3372), um local de sentimentos contraditórios, localizado relativamente perto de nós a ~7.500 anos-luz, mas infelizmente visível em boas condições somente a partir do Hemisfério Sul.

O seu enorme tamanho e beleza hipnotizante popularizaram esta nebulosa tornando-a num objeto fascinante; todavia, antes de nos deixarmos envolver pela emoção, convém ter presente que estamos perante um local violentíssimo, constituído por gás, poeira e aglomerados estelares, onde estrelas massivas (tipo O e Wolf-Rayet) nascem, evoluem rapidamente esculpindo a paisagem através da ação dos seus poderosos ventos e radiação UV, e terminam a sua vida em explosões de supernova.

A Nebulosa de Carina (HD). Aquisição: iTelescope – Portugal; processamento (LRGB): Ruben Barbosa.

Esta imensa nebulosa, com idade estimada em ~3 milhões de anos (determinada pelos principais aglomerados estelares), contém pelo menos 12 estrelas brilhantes que se estima possuírem 50 a 100 vezes a massa do Sol. A mais notável é Eta (η) Carinae, não só pela estimativa que aponta para um tamanho semelhante ao da órbita terrestre, mas também por se encontrar em fase final de vida, exibindo já dois lobos de gás e acentuadas variações de luminosidade, que indiciam estar na eminência de colapsar na forma de supernova titânica.

Um das explicações para as alterações da sua magnitude, que vão de 4 em 1843, para 5 em 1990 e 8 em 2002, reside na possibilidade de se tratar de um sistema binário de estrelas supergigantes azuis, muito próximas uma da outra, envolto numa densa nuvem de gás e poeira. A luminosidade combinada deste sistema é 5 milhões de vezes a do nosso Sol.

Considerando que Eta Carinae irá colapsar num futuro não muito distante, esta será a supernova mais espetacular que alguma vez o ser humano observou, o que nos remete para a derradeira questão: estando aqui tão perto, poderá afetar a Terra? Talvez sim, mas para já sem motivos de preocupações. Talvez a atmosfera superior seja destruída, bem como a camada de ozono e alguns satélites em órbitas mais elevadas.

Pormenor da Nebulosa Carina (HD). Aquisição: iTelescope – Portugal; processamento (LRGB): Ruben Barbosa.

A imagem mostra uma região central da nebulosa onde podemos encontrar os seguintes objetos:

  • A estrela Eta Carinae, com idade inferior a 3 milhões de anos.
  • A Nebulosa do Buraco da Fechadura, uma nuvem molecular escura, contendo poeira e filamentos brilhantes provocados por gás quente;
  • HD 93205 e 93204, um sistema binário constituído por duas grandes estrelas da sequência principal, com cerca de 50 e 20 massas solares.
  • WR 25, um sistema binário composto por uma estrela Wolf-Rayet (WR) e uma companheira do tipo O;
  • HD 93250, uma estrela binária, não se sabendo ao certo se as componentes pertencem à sequência principal ou se já evoluíram para gigantes;
  • Trumpler 14, um aglomerado aberto com mais de 2.000 estrelas, diâmetro de 6 anos-luz e idade de 1 a 6 milhões de anos;
  • Trumpler 15, um aglomerado aberto e idade de 1 a 6 milhões de anos;
  • Trumpler 16, um enorme aglomerado aberto onde podem ser encontradas algumas das estrelas mais brilhantes conhecidas, tais como Eta Carinae e WR 25, estendendo-se até às proximidades de Trumpler 14 e com idade determinada superior a 3 milhões de anos;
  • WR 22, é um sistema binário composto por uma Wolf-Rayet; e
  • A Montanha Mística, um pilar formado por caminhos de gás e poeira que se erguem por mais de 3 anos-luz. Na parte interior, estrelas jovens e quentes formam colunas pequenas de gás com os seus ventos fortes e radiação abrasadora, moldando e comprimindo o pilar, tornando possível o nascimento de novas estrelas no seu interior.

A Montanha Mística (HD). Aquisição: HST; processamento: Ruben Barbosa.

Aquisição de dados efetuada pelo grupo iTelescope – Portugal (Ha: 9×600” Bin 2×2, Lum: 10×600” Bin 1×1, RGB 6×300 cada Bin 2×2), utilizando equipamento remoto (telescópio: Takahashi FSQ 106ED, camara: FLI Microline 16803, montagem: Paramount ME); processamentos: Ruben Barbosa.

O grupo iTelescope – Portugal é constituído por mais de uma dezena de astrónomos amadores e tem como objetivo aprofundar as competências adquiridas, a partilha de conhecimentos, promover a cultura científica através da astronomia e contribuir para uma melhor compreensão dos fenómenos astronómicos.

Artigos anteriores:

  1. Centaurus A: a radiogaláxia mais próxima da Terra
  2. A nebulosa da Lagosta: um berçário estelar
  1. Supernova AT2016gkg: um pormenor de requinte na NGC 613
  2. Um breve olhar pelo aglomerado de galáxias da Fornalha
  3. NGC 346 – Um berçário estelar na Pequena Nuvem de Magalhães
  4. A Nebulosa da Tarântula: deslumbre e violência cósmica
  5. A Nebulosa Pata do Gato
  6. O esplendor da galáxia Cata-vento do Sul

Acerca do autor(a)

Ruben Barbosa

• É licenciado em Engenharia de Sistemas e Informática na Universidade do Minho e mestre em Desenvolvimento curricular pela Astronomia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

• É astrónomo amador desde 2000 e gosta de divulgar astronomia,

• As áreas de Astronomia com maior interesse são a Exoplanetologia, a Radioastronomia e a Cosmologia.

• É o autor do Projeto ART, que tem como objetivo a construção de um rádio-telescópio semi-profissional. http://www.radioastrolab.com/pdf/ART_ENG.pdf.

6 comentários

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  1. Felipe Sarinho

    Quando a Eta Carina explodir daqui a pouco, que quando se fala em astronomia isso pode ser daqui a milhões de anos, e caso a energia liberada nos afetasse, quanto tempo teríamos até que a explosão nos afete?

    1. Ruben Barbosa

      Quando o núcleo duma estrela colapsa, em simultâneo ocorre emissão de neutrinos e só depois é que se observa a emissão de luz característica da supernova. Julgo que a diferença temporal não excede a dezena de horas. Atualmente, encontra-se em funcionamento o SNEWS (Supernova Early Warning System), que consiste numa rede de detetores de neutrinos cujo objetivo é alertar com antecedência os astrónomos sobre a ocorrência de supernovas na Via Láctea.

    2. Carlos Oliveira

      Não nos irá afetar. Está demasiado longe para ter qualquer efeito nefasto sobre a Terra 😉

      Na verdade, já pode ter explodido, no entanto, a luz/radiação demora 7.500 anos a cá chegar 😉

      abraços!

      1. Felipe Sarinho

        Independente do que acontecer, infelizmente não estarei vivo para ver.

      2. Carlos Oliveira

        Pode estar…

        Imagine que a estrela explodiu há 7500 anos atrás… e a luz/radiação da explosão da estrela chega amanhã aos céus da Terra… 😉

        abraços!

  2. Ademir Dias

    Pelo texto a nebulosa teria 3 milhões de anos o que achei estranho pois a Terra tem 4,5 bilhões de anos sendo a estrela muito mais nova? Acho que não..outro ponto é o texto afirmar indicando como efeitos inofensivos a destruição da camada de ozônio é da atmosfera exterior o que está longe de ser inofensivo… Textos, mesmo amadores, devem ser revisados com cuidado…

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