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Jul 07

OVNIs nos jornais de sábado e domingo

O jornalista Nuno Estevão, da Revista Share, contactou-me porque estava a escrever um artigo sobre OVNIs e queria entrevistar-me. Inicialmente, declinei o convite.

Nos últimos anos tenho declinado vários convites de jornalistas, porque após investir o meu tempo a responder a várias perguntas, fico desiludido quando leio os artigos na comunicação social, já que percebo que os jornalistas preferem dar relevância aos pseudo-religiosos, ao sensacionalismo, à ignorância sobre o tema. O conhecimento e a ignorância não devem ter o mesmo “tempo de antena”. Isso não é informar. Isso é utilizar a carteira de jornalista para desinformar a população.

Daí ter, mais uma vez, declinado o convite para ser entrevistado sobre o tema. E expliquei o porquê.

No entanto, o jornalista Nuno Estevão contactou-me novamente e garantiu-me que o seu artigo iria ser diferente, nada sensacionalista.

Ainda “com o pé atrás”, resolvi responder então às suas perguntas.
Apesar de serem poucas perguntas, as minhas respostas não foram nada curtas (pelo contrário, como já repararam aqui) nem sequer meigas para os sensacionalistas (como também já repararam aqui).

Já vi o resultado e, surpreendentemente (para o que tenho visto na comunicação social), gostei do artigo.
O artigo está bastante sóbrio. Nada sensacionalista! Até demasiado.
Foi uma surpresa bastante positiva.

Aliás, de negativo, só algumas das minhas palavras “mais fortes”, “muito diretas”.

O artigo é pequeno, só com duas páginas. Por isso, lê-se bem. Tem só 10% do que eu disse. Está bem sintetizado!

A revista Share sai amanhã, sábado, 8 de Julho, com os jornais Expresso e Jornal de Notícias. Comprem os jornais e peçam a revista (caso não a vejam lá dentro).

Têm nova oportunidade no domingo, 9 de Julho, comprando o jornal Público, que a revista Share também vem junto com o jornal.

Espero que gostem!

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Podem ler todo o artigo, na revista Share, clicando aqui.

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Como podem ler, o artigo está bastante sintetizado e é bastante sóbrio.

Já aquilo que eu respondi é um “elefante de palavras”, sendo que algumas dessas palavras são bem descritivas, como crentes e vigaristas.

Deixo-vos a entrevista inicial em baixo, porque me parece que tem bastante informação significativa, e algum contexto para algumas das minhas frases.

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1 – Como surgiu o seu interesse pela imensidão do universo?

Desde criança sempre me senti deslumbrado pelos filmes e séries de ficção científica no espaço, nomeadamente aqueles que incluíam ETs.

As imagens maravilhosas do espaço interestelar, de outros planetas, etc, aliadas à imaginação de vida extraterrestre sempre me fascinaram.


2 – Qual o filme sobre a temática extraterrestre que mais o marcou e porquê?

Contacto, de Carl Sagan.
Esse foi sem dúvida o filme (e livro) que mais me marcou.
Não só pela descrição da civilização extraterrestre (nunca a vemos realmente), como pelas discussões (não só científicas mas também religiosas) que Sagan inclui no livro.

Desde aí, outros livros se destacam:
– Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams
– The Listeners, de James Gunn
– The Black Could, de Fred Hoyle
– K-Pax, de Gene Brewer
– Solaris, de Stanislaw Lem

(quase todos já existem em filme, mas os livros são incrivelmente melhores)


3 – Quais as explicações mais comuns para casos dos supostos avistamentos OVNI?

Observação deficiente dos humanos.
Objetos naturais, como planetas e estrelas.
Objetos feitos pelos humanos, como satélites.
Naves desconhecidas pelo comum dos mortais (ver, por exemplo, a “febre” dos OVNIs triangulares da Bélgica da década de 1990, em que fui a várias conferências sobre a temática, e afinal eram só os B-2 em testes)


3 – O avistamento de um OVNI em Alfena continua sem explicação? O que o distingue de outros avistamentos entretanto descredibilizados?

Sim.
O que o distingue é o facto de não ter explicação convincente.

Se o mesmo avistamento fosse hoje, seria considerado certamente um drone.
No entanto, em 1990, foi muito antes dos drones.

Teria sido um balão meteorológico? As fotos mostram parecenças com isso, mas o seu movimento não se assemelha a um balão.
Seria um drone militar em testes ou quiçá um “brinquedo” de drone (como se veem hoje) ainda muito na infância detido por alguém muito rico ou militar? Não se sabe.

A verdade é que não existem certezas. Por isso, a única resposta possível é: não sei o que era.
É um verdadeiro OVNI: um objeto voador que não foi possível identificar na altura… nem agora passados quase 27 anos.

Adenda: quem disser que sabe que era uma nave extraterrestre, está a mentir. A única coisa que se sabe, a única resposta honesta, é que não se sabe o que era.

Nota àparte: já Roswell não tem nada a ver com OVNIs ou ETs. Alfena continua a ser um caso de OVNI. Roswell nunca o foi. Foi simplesmente uma história de desinformação vendida a crentes em conspirações pseudo-religiosas (a verdade é que o culto dos OVNIs é somente um culto religioso em que os anjos são substituídos por ETs).
Para ler: http://www.astropt.org/2007/07/08/roswell/


4 – No caso de um alerta sobre o relato de um possível avistamento OVNI, quais os passos que uma investigação – que se queira científica – deve seguir, no sentido de verificar a credibilidade do testemunho?

Quem testemunhar um OVNI deve em primeiro lugar contatar um grupo de astrónomos amadores da sua zona (ou no Facebook).
Eles observam o céu regularmente e por isso é provável que saibam que fenómeno foi visto na altura.

Caso isso não forneça respostas consentâneas, existem grupos de pesquisa OVNI no país que podem ajudar.
Os grupos mais credíveis irão ver quais as hipóteses mais prováveis.

Até podem ser fenómenos como os previsíveis iridium flares ou os imprevisíveis sprites.
E nestes casos, só grupos credíveis fornecem esta informação.

A 1 de Junho de 2004, por exemplo, passou por várias televisões do país o vídeo de um suposto OVNI a atravessar Portugal.
Entretanto uma dessas associações contatou-me porque o fenómeno não correspondia a qualquer objeto celeste conhecido naquela hora e data.
Eu próprio contatei outras pessoas internacionalmente reconhecidas por registarem eventos secretos (da maioria da população) e percebeu-se que na hora em que o objeto foi filmado, na direção que ele tinha, e no trajeto que ele descreveu, tinha sido o lançamento secreto (na altura) de um objeto humano em testes.
Mas isso as televisões (e jornais) já não quiseram saber.
Ou seja, quem viu as reportagens televisivas ficou sempre com a ideia de que era um OVNI (algo não identificado a voar pelos nossos céus).
Quem pesquisou e quis realmente saber as respostas, percebeu que era algo mundano que acontece diariamente sem que grande parte da população se aperceba. Deixou de ser OVNI para quem quis ter conhecimento.

Sagan tem uma história famosa do mesmo género.
Um dia, após dar uma palestra ao final da tarde na sua universidade, em Ithaca, para a população em geral, sobre OVNIs, ao sair do anfiteatro viu um grande grupo de pessoas que tinha saído da sua palestra, a apontar para o céu. Estavam a ver o que parecia ser um OVNI, precisamente após uma palestra sobre OVNIs onde lhes foi dito que eles não eram naves extraterrestres. Sagan correu apressadamente a sua casa e foi buscar uns binóculos. Quando voltou, viu ainda o objeto a sobrevoar, e por entre as nuvens, lá longe, vendo-se mal por ser entardecer, percebeu que era uma pequena avioneta com propaganda atrás (que era algo raro naqueles tempos).
Famosamente, ele terá dito algo deste género: se eu não tivesse ido buscar os binóculos, vocês iriam para casa dizer que tinham visto um OVNI, provavelmente os vossos familiares depois contariam a outras pessoas, quiçá até chegaria aos jornais, e ficaria mais uma história famosa de OVNIs em que uma legião de crentes assumiria que os ETs estariam a vigiar o estado de NY. Como fui buscar os binóculos, ninguém vai agora para casa dizer que viu uma pequena avioneta, nem isso é especial para sair nos jornais.
Ou seja, concluo eu, o mistério, o mito, difunde-se e leva uma legião de crentes a crer em algo que imagina ser. Já as explicações não são “sexy” o suficiente para as pessoas lhes darem a mesma importância.

E por isso é que em pleno século XXI ainda existem pessoas a assumir que existe uma ligação entre OVNIs e ETs, apesar de todas as explicações e evidências demonstrarem o contrário.


5 – Porque é que temos tanta curiosidade sobre o universo?

Porque não haveríamos de ter? É a nossa casa!
Quando vamos para uma casa nova (ou quando somos muito novos), queremos conhecer todos os cantinhos da casa.
Sendo o Universo a nossa casa, porque não haveríamos de o querer conhecer?

Por outro lado, a curiosidade é uma característica inata ao ser humano.
Sem essa curiosidade, sem essa incessante procura de mais conhecimento, estagnávamos, morríamos enquanto humanos.

A procura por extraterrestres insere-se nessa busca.
Desde que vivíamos isolados em cavernas, que quisemos sempre conhecer os nossos vizinhos. Andamos sempre à procura do Outro.
Ou para os conquistarmos, ou para os comermos, ou para fazermos transações comerciais com eles, ou até para casarmos com eles: o certo é que sempre procuramos por Outros.


6 – Há alguma(s) evidência(s) de presença extraterrestre na Terra?

Sim.
Todos os materiais/elementos terrestres foram feitos nas estrelas (o Hidrogénio foi produzido no Big Bang). Além dos meteoritos que são materiais extraterrestres.
Nós, com o nosso cálcio nos ossos, o ferro no sangue, o carbono por todo o corpo, somos feitos de materiais extraterrestres. Todos esses elementos foram feitos nas estrelas. E as estrelas tiveram que morrer para esses materiais se espalharem pelo Universo e finalmente constituírem parte do nosso corpo.
As estrelas “deram a vida” por nós… e os seus detritos chegaram à Terra para que nós pudéssemos existir.

É uma história engraçada, muito semelhante a uma outra que culturalmente ouvimos no Ocidente…
A diferença é que esta é totalmente verdadeira. Temos provas disso. Vemos isso todos os dias, sempre que observamos o céu à procura de supernovas.

Quanto ao verdadeiro sentido da sua pergunta, a resposta, infelizmente (para um astrobiólogo), é não.


7 – Com que grau de certeza é possível afirmar que há vida extraterrestre inteligente? Acredita nisso?

O que eu acredito é totalmente irrelevante. O Universo não quer saber o que eu acredito ou deixo de acreditar.
Eu posso acreditar que o planeta Terra é uma pizza. Isso não faz que que seja uma pizza.

Pela lei das probabilidades, é quase certo que existe vida extraterrestre.

A evolução da vida na Terra mostra-nos alguns factos:
– a vida na Terra começou bem cedo, logo após a formação do planeta. Isto diz-nos que é relativamente fácil a vida existir.
– vida unicelular sempre houve em 4 mil milhões de anos.
– a vida complexa só existe há mil milhões de anos.
– a vida a que estamos habituados a ver no mundo só existe há cerca de 500 milhões de anos.
– Humanos modernos só existem há 200 mil anos.

É assim fácil de perceber que se viéssemos de fora aqui à Terra, num ano qualquer, seguramente que veríamos bactérias, mas animais seria difícil acertarmos num ano em que eles já existissem, e humanos seriam muito mais difíceis de se ver. Em 4 mil milhões de anos teríamos que acertar num dos somente 200 mil anos em que os Humanos estão cá. Seria bastante improvável.

O mesmo se passa quando consideramos estes ensinamentos terrestres para especularmos para vida extraterrestre.

Se formos a um exoplaneta:
– há uma boa probabilidade de encontrarmos vida extraterrestre.
– essa vida será simples.
– a probabilidade de encontrarmos humanóides inteligentes será bastante baixa.

Podemos estudar ainda outro aspecto da vida na Terra: os extremófilos – vida em condições extremas.
O estudo de extremófilos permite-nos concluir que a vida existe praticamente em todo o lado. Em condições que matam humanos em poucos segundos, existe vida que se adapta e que faz disso a sua casa. O nosso inferno é o paraíso dessa vida.

Mas isto acontece sobretudo para vida simples.
Vida complexa precisa de condições moderadas.
Humanóides precisam de condições ainda mais moderadas, o que são obviamente mais raras.

O estudo de extremófilos mostra-nos assim que:
– vida unicelular pode existir em praticamente qualquer lado.
– vida complexa existe em condições mais moderadas.
– Humanos só existem em condições praticamente “perfeitas”.

Se usarmos este conhecimento para outros planetas, então:
– há uma boa probabilidade de encontrarmos vida extraterrestre em praticamente qualquer lado.
– essa vida será simples.
– a probabilidade de encontrarmos humanóides inteligentes será bastante baixa.

Como se percebe, dois estudos independentes chegam precisamente às mesmas conclusões.

Assim, repito, pela lei das probabilidades, é quase certo que existe vida extraterrestre.

Vida inteligente será muito difícil encontrar, até porque não se consegue definir o que é inteligência.
Se me der a sua definição de inteligência, eu posso tentar calcular as probabilidades dela existir. Mas sem essa definição, é o mesmo que se estar a falar de Deus. Ou seja, é um termo que pode querer dizer milhares de coisas diferentes para diferentes pessoas.

Douglas Adams diz que na Terra os humanos acham-se os mais inteligentes porque têm carros, bombas atómicas, etc. Mas Adams também diz que os golfinhos se acham os mais inteligentes precisamente pelas mesmas razões (interpreto que é por não terem essas coisas). E no seu livro de ficção científica, os mais inteligentes nem eram uns nem outros… eram os ratos.

Stanislaw Lem tem histórias fabulosas porque os Humanos chegam a exoplanetas e descobrem coisas tão fantásticas que não conseguem definir se têm inteligência ou não. Aliás, os humanos nem conseguem definir se aquilo é vida ou não. Isso é que é fantástico!
(A Academia Nacional de Ciências dos EUA concorda. A Academia postulou que se chegarmos a encontrar vida extraterrestre provavelmente nem vamos reconhecê-la como vida)

O que, para mim, é uma falta de respeito pelos potenciais ETs, uma falta de conhecimento, e uma falta de imaginação, é assumir que os ETs têm que ser como nós e têm que estar no mesmo estágio de desenvolvimento que nós (incluindo em termos de inteligência).
Em 13,8 mil milhões de anos, e com milhões de animais diferentes na Terra, ainda há pessoas em pleno século XXI (com tanto conhecimento disponível) que esperam que seres extraterrestres sejam humanoides, com os mesmos desejos que os humanos, com o mesmo tipo de inteligência dos Humanos, e com tecnologia similar aos humanos (é isso que se vê na descrição de OVNIs). Ou seja, assumem que os Humanos são tão perfeitos que todos os outros têm que estar moldados à nossa imagem.
Isto não mais é do que uma crença pseudo-religiosa, baseada num humancentrism (é como o geocentrismo, mas centrado nos Humanos). Desde há 500 anos que temos combatido a noção de geocentrismo. Infelizmente, ainda existem muitas pessoas que continuam mentalmente a pensar como há séculos atrás.


8 – Afirma que as pessoas que dizem ter testemunhado a presença de ETs são vigaristas e que quem neles acredita são crentes. A Internet veio potenciar o aumento do número dos primeiros ou o acesso a mais informação veio diminuir o número dos segundos?

Ponto prévio: não existem ETs na Terra. Pelo menos, não existem na forma como esses testemunhos afirmam. Pela lei das probabilidades, seria mais provável existirem unicórnios invisíveis voadores a dançar à minha volta neste momento do que ser real aquilo que esses testemunhos asseguram.
É o mesmo que o meu carro parar na auto-estrada, e em vez de eu olhar para o ponteiro da gasolina ou levar o carro ao mecânico, começar a gritar aos céus que quem me fez parar o carro foi um coelho voador invisível ajudado por formigas gigantes também invisíveis e amigas do coelho.
É a racionalidade que nos dá tudo na vida, que nos permite funcionar a todos os segundos, por isso as pessoas não devem “desligar” a racionalidade só porque estão a falar de ETs.
Para ler: http://www.astropt.org/2011/05/21/profecias-da-ciencia/

Tendo em conta tudo o que se sabe sobre o Universo (e já se sabe muito), e sobretudo sobre a evolução da vida, essas visitas de ETs não fazem qualquer sentido, sobretudo nos famosos OVNIs. Ou seja, são totalmente contra o exercício básico de racionalidade.
Para ler: http://www.astropt.org/2014/03/16/como-distinguir-ovnis-de-naves-extraterrestres/

Assim, as pessoas que afirmam essas coisas OU estão a mentir OU acreditam mesmo naquilo que dizem.
Se acreditam, é uma crença, são crentes.
Se estão a mentir, são vigaristas.

As tretas que se leem sobre Roswell, por exemplo, são crenças baseadas em mentiras. E os vigaristas aproveitam-se disso para venderem livros e promoverem programas em certos canais por cabo.
Já o evento de Alfena, por exemplo, começou por ser uma crença de quem viu, mas após serem apresentadas evidências do evento, deixou de ser crença para passar a ser um caso estudado racionalmente, com evidências credíveis. Note-se no entanto que pode não ter nada a ver com ETs. Não se sabe o que foi. Quem diz que foi um OVNI pilotado por ETs continua preso num sistema de crenças. Quem promove essa ideia para benefício próprio (seja por 5 minutos de atenção/fama ou por dinheiro) é vigarista que se está a aproveitar da credulidade alheia.

Quanto à sua pergunta especificamente, não sei. Não li qualquer estudo sobre isso. Não sei sequer se existe um estudo desses. Seria um estudo interessante.
No entanto, o que alguns estudos nos dizem (sobretudo na política) é que as pessoas tendem a escolher/ler a informação que lhes assegura que as suas crenças estão certas. Ou seja, há um reforço positivo daquilo que já se pensa.


9 – Algumas pessoas – por exemplo, Elon Musk (Marte) e Stephen Hawking (planetas do sistema solar) – acreditam que o futuro da raça humana só será possível se colonizarmos outros planetas. É da mesma opinião?

A ciência, o conhecimento, não é uma questão de opinião.
Eu posso ter opinião que a Terra tem o formato de uma camisa. Após ter tantas provas em contrário de que ela não se parece com uma camisa, se continuar a pensar o mesmo, sou um imbecil. Um imbecil com uma opinião imbecil.
A opinião pessoal, a crença (pessoal) nada vale.

Sabe-se (não é uma opinião) que o Sol dentro de 5 mil milhões de anos terá evoluído para uma gigante vermelha, sendo nessa altura uma estrela tão grande que vai engolir Mercúrio e Vénus. Provavelmente vai chegar muito perto da órbita da Terra. Como se compreende, nessa altura não será possível vida neste planeta (na verdade, já observamos planetas no Universo assim: esturricados pela estrela). Na verdade, como a evolução é gradual, dentro de mil milhões de anos já não será possível viver na superfície do nosso planeta. Ou melhor, não será possível sobreviver da forma que sabemos hoje. Ou seja, Humanos no planeta? Não serão possíveis.
Sendo assim, ou biologicamente evoluímos para nos adaptarmos ao meio que constantemente se modifica e dentro de mil milhões de anos já não seremos humanos mas algo muito diferente e adaptados a climas infernais e extremamente secos (sem qualquer ponta de água) – e evoluirmos desta forma será muito improvável porque a evolução não se faz com um objetivo definido – ou então se quisermos continuar humanos teremos que encontrar outra “casa”.

E se é verdade que, agora sim na minha opinião porque não há evidências disso, nunca encontraremos qualquer planeta como a Terra (com a mesma massa, a mesma constituição percentual de gases na atmosfera, a mesmíssima distância à sua estrela que será exatamente igual ao Sol, etc), tal como nunca encontraremos outro Carlos Oliveira exatamente igual a mim na Terra… a verdade é que temos que tentar encontrar algo parecido e depois moldar esse planeta e adaptarmo-nos a ele.
Isto se quisermos continuar a sobreviver como humanos durante muitos milhões de anos (mesmo sendo humanos já evoluídos para algo diferente de agora).

As escalas temporais são interessantes porque tendemos a assumir que tudo se mantém na mesma como conhecemos neste momento.
Mas se há uma constante no Universo, essa constante chama-se: mudança, evolução. Tudo muda, tudo evolui.

Os Humanos há 200 mil anos são incrivelmente diferentes dos Humanos atuais.
Da mesma forma, estamos a falar de humanos daqui a mil milhões de anos, que eu não faço a mínima ideia de como serão, só sei que não serão como os de agora.

De igual modo, quando tentamos encontrar outra “casa”, temos que perceber que a nossa própria Terra não é sempre a mesma.
A Terra que vemos hoje é totalmente diferente da Terra há mil milhões de anos atrás. Nós, humanos, não conseguiríamos sobreviver na Terra nessa altura. E no entanto, estamos a falar do mesmo planeta, da nossa casa.
Por isso, quando procuramos outra Terra, temos que primeiro definir o que entendemos por planeta Terra: porque ao longo dos milhões de anos de existência do planeta, já existiram “inúmeras Terra” e na maioria delas nós não conseguiríamos sobreviver.

Respondendo diretamente à pergunta: quando Elon Musk e Stephen Hawking dizem isso, não é por uma questão de acreditar ou de opinião. É um facto. Vamos ter que sair da Terra para sobrevivermos.
Não é para hoje, nem tem que ser nos próximos séculos, mas vai chegar a uma altura em que isso se tornará inevitável.

Existe até outro fator adicional: a qualquer momento podemos “levar” com um grande asteroide, que leve ao extermínio da civilização humana. Se já estivéssemos com colónias em Marte, em Titã ou até em exoplanetas, mesmo que um grande asteroide acabasse com a civilização humana num local, os Humanos continuariam a existir noutro local. Ou seja, até por uma questão de não “colocarmos todos os ovos no mesmo cesto” (como diria Sagan), seria importante nos expandirmos pelo Universo.

Se isto é tão lógico porque não é feito?
Por motivos económicos e políticos.
A astronomia vive do longo prazo. A política vive do curto prazo.
Obviamente, os políticos estão interessados no seu mandato e naquilo que podem fazer nele. Se existe um bolo económico para distribuir num mandato, não faz sentido cortar esse bolo em metade, por exemplo, para meter esse financiamento num empreendimento que só daria frutos séculos depois (muito após o mandato ter acabado e o político ter morrido. Que frutos é que ele colheria?).

Por esta razão é que durante tantas décadas não havia dinheiro nem pessoas para detetarem asteroides, por exemplo. Porque razão, diziam os investidores, iremos meter dinheiro num empreendimento que pode dar frutos positivos (deteção de um grande asteroide em rota de colisão com a Terra) somente daqui a 200 anos?

Os Humanos continuam muito concentrados no curto prazo e na minúscula secção que habitam do grão de poeira a que chamam Terra.

Quiçá daqui a alguns milhões de anos, já não sendo Humanos, tenhamos evoluído para uma consciência universal: mais ciente da grandeza do Universo e das escalas espaciais e temporais nele contidas.

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico.
Licenciatura em Gestão de Empresas.
Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica.
Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas.
Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas.
Foi Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA.
Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

1 comentário

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  1. Ed carlos

    Quando ficar com essa sensação, de que, nao esta valendo o esforço. Peço que nao desista, lembre-se que nao importa a quantidade de pessoas que compreenderão, mas sim, a diferença que fez na vida dos que compreenderam.
    Bom trabalho e obrigado.

  1. Atualização do artigo da Revista Share

    […] Leiam novamente o post, aqui. […]

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