The Orville

The Orville é uma nova série ao estilo de Star Trek.
A grande diferença é que o estilo é de comédia – comédia típica de Seth MacFarlane, que criou a série e é o protagonista.

A série passa-se no ano 2417.
A nave de exploração do espaço é a U.S.S. Orville (daí o nome da série).
A nave pertence à União Planetária.
O comandante é Ed Mercer (Seth MacFarlane).

Vê-se muita tecnologia futurista, ao estilo Star Trek.
Ao contrário de Star Trek, a série tem várias situações de humor e explora muitas situações pessoais: discussão entre dois membros da tripulação casados, um dos membros arruma roupa na sua cabina, um dos membros refere que tem que ir ao WC urinar, etc.

No diálogo, existe quase uma obsessão pela palavra quântica. Não sei se é o pensamento crítico de MacFarlane a mostrar que a palavra dá para tudo (tal como fazem os pseudos, que a usam sem saber o que ela representa).

No primeiro episódio há uma interessante “manipulação quântica do tempo”, permitindo acelerar o tempo.

No segundo episódio também existe a ideia muito interessante de um jardim zoológico onde os Calivon colocam as espécies que eles consideram ser inferiores a eles – claro que os humanos são considerados como animais inferiores e por isso são incluídos no Zoo para os visitantes observarem.

No quarto episódio adorei o facto deles viverem numa nave e não saberem disso, achando que o sítio onde viviam era todo o Universo. Adorei também que aquilo era uma Generation Starship, em que demoraram tanto tempo, que muitas gerações depois os tripulantes já não sabiam que viviam numa nave, e pensavam que o comandante da nave (eles não sabiam que era uma nave) era o deus do Universo. Adorei a referência à série Friends. Gostei bastante do aparelho médico que retira balas do corpo por atração, sem invadir o corpo. Gostei obviamente das críticas ao extremismo religioso, daqueles que seguem ideologias cegas e que fazem tudo para as preservar, de modo a manterem o controlo sobre o povo. Também gostei do tamanho monstruoso da nave (com várias bioesferas) e de estar à deriva por 2000 anos, porque assim relativiza as escalas, quer espaciais quer temporais. Mas não gostei que tivesse “ar respirável por todos incluindo não-humanos”, que incluísse carros iguais aos nossos, e, claro, não se percebe porquê que todos falam inglês. Percebeu-se que eles não têm a Prime Directive de Star Trek, e por isso interferem à-vontade noutras culturas (tal como faziam em Star Trek).

No quinto episódio existe uma tempestade de matéria negra concentrada. Mas o melhor é a Charlize Theron aparecer como uma viajante no tempo, vinda do século 29.

O sétimo episódio fez-me lembrar o quarto filme de Star Trek, Voyage Home. No episódio eles voltam ao século XXI de um planeta muito parecido com a Terra. Têm que se vestir de acordo com os costumes da altura. Têm invisibilidade nas naves, por isso não são vistos. E têm que respeitar a Prime Directive de não interferir. O acrescento nesta sociedade é que é uma sociedade ao estilo dos programas de Big Brother ou Ídolos, com o pior das redes sociais (em que as pessoas julgam sem saber os factos). Toda a gente vota (positivo ou negativo) em toda a gente a todos os momentos do dia. Toda a gente é julgada pelo número de votos (negativos) que tem. Acima de 1 milhão de votos negativos, a pessoa é presa (não interessa se a infração é irrelevante). Acima de 10 milhões de votos negativos, existe a pena de morte (na verdade, lobotomia). Não existem advogados, mas sim agentes publicitários para as pessoas expressarem arrependimento e perderem alguns votos negativos. E factos não existem: tudo depende do que as pessoas pensam sobre os assuntos.

No oitavo episódio, eles entram numa dobra espacial criada por ondas gravitacionais. Aterram numa lua que se parece com o planeta Terra. Infelizmente, como sempre, os alienígenas são humanoides.

No décimo episódio é desenvolvida a ideia de estarmos numa simulação holográfica e nem nos darmos conta: pensamos que faz tudo parte da realidade.

No episódio 12, e último episódio da primeira temporada, eles chegam a um planeta com uma sociedade primitiva. Eles não querem ser vistos, para não influenciar a sociedade. Mas a vice-comandante Kelly é vista. Então, a sociedade desenvolve-se a adorar, venerar a Kelly, considerando-a omnipotente, omnipresente e imortal (porque 11 dias dela são 700 anos no planeta). As crianças são abençoadas por Kelly. As crianças são ameaçadas pelos pais de que se tiverem comportamentos errados, a Kelly vai puni-los. Existem “igrejas” com a imagem de Kelly. E várias pessoas são mortas por negarem os “ensinamentos de Kelly” (mesmo sem ela ter feito nenhuns, existiram alguns “profetas” que se aproveitaram para fazerem esses ensinamentos de modo a terem poder e a controlarem a população). Existe toda uma religião baseada na Kelly. Basicamente, para aquela sociedade, a vice-comandante Kelly é Deus. Mesmo após Kelly lhes ter dito que não era Deus e ter mostrado aos “padres” que era somente uma viajante que tinha equipamento avançado, eles decidiram não dizer às pessoas por medo de perderem o controlo sobre elas. Quando o planeta se desenvolve ao ponto de ter satélites e comunicações globais, o que se vê são as discussões atuais nas nossas televisões sobre educação com ou sem religião, pessoas em migração para locais sagrados onde se deram “milagres”, guerras em nome de Kelly, etc. Então a tripulação da nave Orville decide deixar lá um ser avançado da tripulação, que se parece com o robô do filme O Dia em que a Terra Parou, para lhes explicar tudo e os guiar para uma sociedade mais desenvolvida a vários níveis, incluindo em termos de razão, ciência e tecnologia.

Eu adoro Star Trek.
A ideia de incluir humor/sarcasmo e situações/relações pessoais numa série tipo Star Trek, parece-me muito interessante.

A série começou um pouco parada. Apesar de ter muito potencial, começou aquém do que se esperava.
No entanto, gradualmente, foi melhorando.
O final da primeira temporada teve episódios muito bons.

A segunda temporada desta série foi similar à primeira temporada.

A série continua com muitas piadas típicas de Seth MacFarlane, que pessoalmente me fazem rir.

Cientificamente, e filosoficamente (em termos de reflexão), esta segunda temporada foi melhor que a primeira.

Gostei bastante!

Na segunda temporada, o primeiro episódio lida com questões sociais (incluindo amorosos). Curiosa a crítica de que a maioria dos dias no espaço são bastante aborrecidos porque não acontece nada. Interessante quando o capitão diz que as mulheres humanas não querem homens perfeitos, mas sim que os homens sejam estúpidos algumas vezes. Os aposentos da tripulação (e suas famílias) são enormes, o que é incompatível com uma nave finita que gere os seus recursos (tamanho) disponíveis. Continuo a não gostar do facto dos alienígenas, incluindo na tripulação, serem humanoides (tal como em Star Trek).

No segundo episódio, vemos um planeta prestes a ser destruído pela sua estrela (que está na fase de gigante vermelha). Dez planetas nesse sistema planetário já tinham sido destruídos/incinerados/vaporizados pela estrela moribunda. As imagens do planeta, com a sua atmosfera a evaporar, são fabulosas! Entretanto, a tripulação da nave Orville detecta uma civilização subterrânea no planeta; e, claro, salva esse grupo de sobreviventes humanoides/humanos, apesar do planeta se estar a desintegrar. Enquanto isso, um dos membros da tripulação está viciado nas simulações do holodeck, que utiliza para fantasias sexuais.

No terceiro episódio, eles são obrigados a visitar o planeta natal da chefe de segurança. Ela tem tanta força, muito mais que os humanos, devido ao seu planeta de origem ter uma gravidade mais forte que a Terra. Assim, os seres adaptaram-se a essa gravidade; quando vão para sítios com menos gravidade (como a gravidade terrestre), têm obviamente muito mais força. Por outro lado, ao viverem nesses locais (como a Terra) com menor gravidade, eles próprios vão perdendo massa muscular. Curiosamente, o planeta parece-se com a Terra, mas tem um anel ao seu redor. A chefe de segurança, a Tenente Alara Kitan, não deveria ter saído da série: a série ficou a perder com a sua substituição. Neste episódio também aparece novamente o Tenente Yaphit: um ser amorfo e gelatinoso que é engenheiro na nave Orville (é o único tripulante não humanoide).

No quarto episódio há uma discussão interessante sobre religião. Os Krill dizem que os Humanos não têm alma, já que os Humanos são animais. Além disso, os Krill acreditam que Avis – o Deus dos Krill – criou-os à Sua imagem para que eles possam dominar todo o Universo; todos os outros seres no Universo são animais sem alma que devem ser dominados pelos Krill. Esta é uma crítica à forma como os Humanos usam Deus para dizerem que os Humanos é que são os escolhidos, e que são os Humanos que devem dominar todos os outros seres à face da Terra. Anhkana é a Bíblia dos Krill; ela providencia um código de conduta moral para todos os Krill. Foi escrita por alguns Krill, supostamente sabendo o que Avis queria, mas na verdade foi só uma forma desses Krill aplicarem aquilo que pensavam, controlarem a população e se sentirem populares – com algum poder sobre os outros Krill.

No quinto episódio, é realizado o Primeiro Contacto com uma civilização alienígena. Infelizmente, mais uma vez, os alienígenas são humanoides (basicamente, humanos). E falam inglês! E respiram o mesmo ar. E riem-se quando estão contentes! Enfim… Os alienígenas conseguem contactar a Orville porque enviam uma mensagem através de rádio-telescópios, como faz o SETI. A tecnologia deles, incluindo médica, é igual à nossa no final do século XX. A única diferença é que o planeta é governado pela astrologia, daí serem completamente irracionais quando pensam que uma determinada pessoa é um assassino só porque nasceu sob um determinado signo.

O sexto episódio lida novamente com questões sociais, nomeadamente amorosas. Neste caso, a médica humana da Orville apaixona-se pelo androide que é o oficial de ciência da nave, com todos os problemas que isso traz. Isaac é uma máquina, e por isso é incapaz de sentir alguma coisa, nem sequer consegue compreender os sentimentos. No entanto, algumas situações têm bastante piada, como a forma como ele acaba a relação, já que são muito semelhantes à forma como os homens se comportam.

No sétimo episódio, a tripulação vai até ao planeta Moclas. Os Moclan são uma sociedade de machos. Mesmo quando nasce uma fêmea, ela é operada de forma a tornar-se macho. Assim, toda a sociedade, toda a sua religião, toda a sua moralidade, é baseada na homosexualidade. Quando um Moclan se sente atraído por uma fêmea, ele é ostracizado, envergonhado, e é preso para toda a vida (ou até se “curar”). Ou seja, nesta sociedade, o normal é a homosexualidade, sendo que a heterosexualidade é vista como um desvio comportamental, um enorme pecado, e um crime grave. Nesta sociedade, existe um enorme preconceito sobre quem é diferente na sua vida pessoal. Os paralelismos com a nossa sociedade humana são evidentes.

No oitavo e nono episódios, a tripulação viaja até ao planeta-natal de Isaac. Isaac é um ser artificial, não biológico, do planeta Kaylon-1. É um robô, um androide que pensa por ele próprio. Os Kaylons assumem que todos os seres biológicos, incluindo humanos, são inferiores. E são. Isaac (Newton) aceitou a oferta de fazer parte da tripulação da Orville para poder estudar o comportamento humano. Os Kaylons mataram os seus criadores, já que eram seres biológicos. Quando os Kaylons decidem matar a tripulação da Orville (já que o seu propósito é exterminar todos os seres biológicos existentes na Galáxia), Isaac intervém e salva a tripulação. Mais uma treta: um ser avançado salva os Humanos, lutando contra a sua própria espécie – mais uma vez, a ficção científica assume que os Humanos são os seres mais importantes/especiais do Universo.

No episódio 10, aparece uma Envall. Tal como o oxigénio é um oxidante que pode levar a explosões, também o sangue dos Envall, na presença de nitrogénio, desencadeia fortes explosões que destroem atmosferas planetárias ou naves dos humanos.

No episódio 11, neste ano de 2418, eles encontram uma cápsula do tempo vinda de 2015. Nessa cápsula do tempo com 400 anos, encontram várias coisas, como um telemóvel, que faz com que vejam as SMS, fotografias e vídeos de uma pessoa que vivia em 2015. Isto é importante para eles, porque assim não precisam de livros de história escritos por alguém para lhes dizer, sem emoção, como era a vida nessa altura. O problema é que ler mensagens diretamente, como as SMS, leva a interpretações erradas sobre o que queriam dizer, já que lhes falta o contexto cultural do início do século XXI. Por outro lado, um dos membros da tripulação apaixona-se por uma personagem simulada no Holodeck. É um tema recorrente em vários episódios de Star Trek. Uma das mensagens do episódio é que os Humanos são animais sociais. Aquilo que somos atualmente, foi-nos moldado pelas pessoas que passaram pela nossa vida.

No episódio 12, dentro de uma nebulosa, existe uma estrela anã laranja a ser orbitada por 3 planetas, com o planeta mais interior a ser habitado. Os habitantes desse planeta não veem o Universo, mas por outro lado, estão protegidos desse universo já que, escondidos, também ninguém os vê. Este episódio também inclui alguns discursos excelentes sobre direitos básicos dos humanos e não só (e o frágil equilíbrio entre fazer o correto ou fazer o que é necessário para sobreviver). Será que devemos julgar as outras culturas pelos valores morais do momento dos Humanos? Vários discursos fizeram-me lembrar a forma como o ocidente olha atualmente para culturas em países como a Arábia Saudita, por exemplo, em que as mulheres continuam a não ter os mesmos direitos que os homens (mas em que se ignora isso, e se continua a comprar biliões de euros/dólares em armas e combustível vindos de lá).

No episódio 13, Isaac faz experiências com um aparelho de viajar no tempo. Quando a nave Orville passa por uma onda gravitacional (fruto de uma colisão de 2 estrelas de neutrões – boa ciência), traz uma nova Kelly (de há 7 anos atrás) para a nave Orville. Por isso, a nave Orville tem agora duas Kelly. Ela tem de ser enviada de volta, senão na linha temporal a Kelly não pode ser vice-comandante (primeira-oficial) da Orville (já que desaparece do seu tempo). Após algumas peripécias, a Kelly mais nova é enviada de volta para a sua linha temporal (timeline), mas com a memória apagada. Infelizmente, a memória não é realmente apagada, e por isso quando ela chega ao seu tempo, 7 anos antes, ainda se lembra do que se passou. Por isso, não aceita o convite de Ed para saírem novamente. E assim, é criada uma nova linha temporal paralela; ou a linha temporal no futuro deixa de existir. O que é certo é que a linha temporal (timeline) é modificada. Existe uma cena muito interessante em que eles discutem: a Kelly do passado ao conhecer a Kelly do futuro poderá ter alterado automaticamente a timeline, já que a Kelly do passado fica com conhecimentos que a Kelly do futuro não teria e passa a ter automaticamente; isso faz com que a timeline seja modificada em inúmeros eventos; mas será que as outras pessoas saberiam que a timeline foi modificada? Provavelmente não, já que automaticamente pensariam que o seu passado foi sempre aquele que se lembram agora.

No episódio 14 – e último episódio da série – temos a timeline modificada. Como Kelly alterou a timeline, vemos agora os eventos após essa alteração inicial da timeline. Nos últimos 7 anos, os Kaylon conquistaram metade da galáxia conhecida, porque venceram contra a nave Orville (que não era comandada por Ed, no episódio 9). Ed e Gordon continuam amigos e andam pela Galáxia a roubar pequenas coisas. Os Kaylon tentam apanhá-los, mas eles fogem. Uma nave comandada por Kelly apanha-os. Kelly recuperou parte da tripulação da Orville original, exceto Bortus e Isaac. Eles têm que recolocar a timeline original, limpando corretamente a memória de Kelly e enviando-a novamente para o passado. Na verdade, a médica Claire é enviada para o passado, e apaga a memória de Kelly. Claire desaparece dessa timeline, e a linha do tempo original é reposta quando Kelly aceita o convite de Ed para saírem novamente, há 7 anos atrás. Adorei a nave Kaylon disfarçada de asteroide. A lua de gelo estava visualmente muito bela. Adorei as cenas do género de Star Wars, em que as naves passam por espaços muito estreitos. Adorei a conversa correta sobre Relatividade; no entanto, terem entrado num buraco negro e escapado dele foi péssimo. Não gostei da cena em que vão de vaivém ao fundo do Oceano Pacífico: vão todos, até os filhos da médica; o que não faz qualquer sentido (no máximo, deviam ir somente duas pessoas). No final, deviam ter morrido todos – era assim que devia ter acabado, para ser mais realista. Gostei bastante das discussões filosóficas sobre modificar a linha do tempo: mesmo que o façamos com boa intenção, alterar a timeline pode levar a uma nova realidade pior que a original (fez-me lembrar o conto PastWatch).

4 comentários

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    • Dinis Ribeiro on 01/11/2017 at 02:49
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    “manipulação quântica do tempo”, permitindo acelerar o tempo… Comento que gostei da Árvore e da força das raízes.

    1. Eu imagino que por dentro seja mais fácil destruir a nave 😉

  1. Se compararmos com o novo (oficial) Star Trek: Discovery, o Orville é claramente aquele que melhor respeita o espírito original dos enredos Star Trek…
    Estou a gostar bastante, já vou no episódio 7. Existe algum excesso de humor, típico do Seth, mas o resultado é bastante positivo…

    O Discovery anda a explorar o Dark Side da Starfleet… tecnicamente está muito bem realizado, mas está demasiado concentrado na Guerra, e quase nada na Exploração…

    Abraços

    1. Obrigado pelo comentário aos dois programas.

      Para ser sincero, ainda não tive tempo de ver o Discovery… mas está nos meus “bookmarks” para me lembrar que tenho que ver 😉

      abraços

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