Veja Mira, a “Estrela Maravilhosa”

Mira, uma das mais famosas e interessantes estrelas do céu nocturno, está de novo visível à vista desarmada, marcando o pescoço do monstro marinho representado na constelação actualmente conhecida por “Baleia” (Cetus, no original grego). A constelação é uma das maiores do céu de Outono e faz parte de um complexo mitológico associado à água: Capricórnio (o deus Pan na forma de uma cabra parcialmente transformada num peixe), Aquário (Ganimedes, uma das conquistas de Zeus e encarregado de servir água aos deuses), Peixes (Afrodite e Eros transformados em peixes em fuga, unidos por uma corda para não se perderem), Peixe Austral e o Erídano (um rio mitológico). Na sua origem, Cetus era o nome do monstro marinho enviado por Poseidon para cumprir o sacrifício da princesa Andromeda, castigo imposto ao reino da Etiópia (parte incerta ou mesmo mítica na Grécia antiga) devido à vaidade da sua rainha, Cassiopeia. O termo “cetáceo” que hoje usamos para designar o grupo de mamíferos marinhos que inclui as baleias e os golfinhos tem aqui a sua origem.

Um dos mapas de um atlas celeste produzido por Ignace Gaston Pardies, um cartógrafo do século XVII, mostrando Cetus (o “Monstro Marinho”, actualmente “Baleia”) junto de outras constelações típicas do céu de Outono.
Fonte: David Rumsey Map Collection.

A representação da constelação ao longo dos séculos apresenta Cetus como um monstro quimérico aterrador, certamente um reflexo do temor que inspiravam nos homens os mistérios das profundezas oceânicas. A estrela que marca o pescoço do monstro é especialmente interessante pois varia de brilho de forma tão dramática que deixa de ser visível à vista desarmada por alguns meses para depois retornar e assumir o seu lugar como uma estrela de magnitude 3 ou mesmo 2, portanto conspícua. O astrónomo amador alemão David Fabricius descobriu, ou pelo menos documentou pela primeira vez, esta particularidade quando, em Agosto de 1596, observou a estrela num pico de brilho pouco usual. Fabricius atribui-lhe o nome de “Mira” — do latim, significando “maravilhosa”, “espantosa”, “surpreendente”.

Detalhe do mesmo atlas mostrando a posição de Mira no pescoço de Cetus, o monstro marinho, com a inscrição “Nova anni 1596” (centro da imagem).

Situada a cerca de 400 anos-luz, Mira é uma gigante vermelha, mais fria e centenas de vezes maior do que o Sol. Como foi referido, a estrela varia de brilho aparecendo e desaparecendo periodicamente do asterismo formado pelas estrelas principais da constelação. Os ciclos têm uma duração média de 330 dias e uma amplitude de 8 magnitudes, uma diferença de brilho entre o máximo e o mínimo de mais de 1000 vezes!

Parte da curva de luz (brilho versus tempo) de Mira.
Crédito: AAVSO.

Na realidade, o brilho intrínseco da estrela praticamente não varia. As alterações observadas devem-se a pulsações internas da estrela que a fazem expandir e contrair alternadamente. Quando a estrela se expande, a temperatura das suas camadas exteriores baixa e uma maior fracção da radiação é emitida no infravermelho, invisível para nós, e portanto a estrela parece-nos menos brilhante. Quando a estrela se contrai o efeito inverso acontece com a temperatura superficial a aumentar e uma maior fracção da radiação a ser emitida na região visível do espectro. Os ciclos não são perfeitamente iguais porque outros factores, e.g., a existência de grandes células de convecção — como as identificadas na gigante vermelha Pi-1 da constelação do Grou — influenciam também o seu brilho total.

As variações de brilho e de tamanho em Chi Cygni, uma estrela semelhante a Mira situada na constelação do Cisne. As imagens da estrela, no topo, são reais e foram obtidas com o interferómetro Infrared Optical Telescope Array (IOTA), no infravermelho. Crédito: Sylvestre Lacour, Observatoire de Paris.

A estrela encontra-se num estado evolucionário muito avançado em que instabilidades internas provocam a ejecção gradual das suas camadas exteriores através de um vento estelar denso e rico em poeira. Quando observada em comprimentos de onda sub-milimétricos, a luz emitida pela poeira aquecida, é possível ver que Mira está envolvida num enorme casulo de gás e poeira por ela “tecido” ao longo dos últimos milhões de anos. Daqui a algumas dezenas de milhares de anos, do seu interior surgirá uma anã branca muito quente cuja radiação ultravioleta intensa provocará a fluorescência do gás acumulado em seu redor formando uma nebulosa planetária.

O casulo de gás e poeiras em torno de Mira, observado em ondas sub-milimétricas pelo ALMA.
Crédito: ESO/S. Ramstedt (Uppsala University, Sweden) & W. Vlemmings (Chalmers University of Technology, Sweden).

Mira é um sistema binário. A gigante vermelha (Mira A) e uma anã branca (Mira B) orbitam um centro de gravidade comum. A anã branca interage com a gigante vermelha de forma complexa, roubando parte do material por ela expelido.


Como observar Mira

Mira pode ser identificada com alguma facilidade, apesar de normalmente não ser uma estrela muito brilhante. Actualmente a estrela tem magnitude 4 o que a torna bem visível apenas em locais com um céu escuro, longe das luzes das cidades. O leitor também terá de fazer alguma ginástica, mas nada muito exigente. Veja a figura seguinte. Escolha um braço e estique-o o mais possível. Nessa posição, experimente as configurações (a) e (b) dos dedos da mão respectiva. A distância entre as extremidades dos dedos permite medir de forma aproximada ângulos na esfera celeste.

As mãos podem ser usadas para medir ângulos no céu posicionando os dedos de forma adequada e colocando-os à distância de um braço completamente esticado.
Fonte: Love The Night Sky

Com o aquecimento feito, está pronto para iniciar a procura. Ao anoitecer, comece por identificar o Grande Quadrado de Pégaso. Nesta altura do ano é visível quase no zénite, um enorme quadrado com estrelas brilhantes nos seus vértices: Markab, Sheat, Alpheratz e Algenib. Cada lado do quadrilátero tem aproximadamente a distância inscrita pelos dedos de uma mão na posição (a) da figura anterior.

Fixe agora a sua atenção nas duas estrelas mais para Este do Quadrado de Pégaso — Alpheratz e Algenib. Estas formam um triângulo isósceles com Hamal, a estrela mais brilhante da constelação do Carneiro (Aries). Os lados iguais deste triângulo medem aproximadamente a distância inscrita pelos dedos de uma mão na posição (b) da figura anterior. Aliás, esta é a medida de todas as setas mais grossas no mapa que se segue. Para Este de Hamal deverá ver facilmente um pequeno grupo muito atraente de estrelas. Trata-se das Pleiades, o Setestrelo como é conhecido na tradição popular portuguesa. Hamal e as Pleiades fazem um triângulo equilátero, tal como ilustrado, com Menkar, a estrela mais brilhante da constelação da Baleia. Se conseguiu identificar Menkar, já está perto do seu objectivo. Menkar forma um asterismo poligonal que marca a cabeça do monstro Cetus. Seguindo as 3 setas mais pequenas, desta feita sem qualquer distância associada, saltando apenas entre estrelas visíveis, atingirá finalmente Mira.

A localização de Mira relativamente ao Grande Quadrado de Pégaso, à constelação do Carneiro e às Pleiades.
Crédito: Stellarium com anotações pelo autor.

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